Elogio ao riso

Porque “o humor é centelha divina” (Kundera, via Rodrigo Gurgel), republico este post.

Leveza & Esperança

*Um texto antigo que foi dedicado ao amigo (sumido!) Fábio Ulanin.

Pensava que talvez a proximidade do Carnaval fosse a causa da aridez de temas novos, até que folheando um velho livro do inglês Gilbert Keith Chesterton, uma frase sublinhada na página se ofereceu como a fruta madura da mangueira vizinha: “a seriedade emana dos homens naturalmente, enquanto o riso é como um salto.”

Dia desses, numa manhã em que encontrei a adequada mistura de sonatas e cafeína, anotara um novo aforismo: “rir demais de tudo é como afogar-se em açúcar de confeiteiro”.

O riso pode advir do dia-a-dia, sim, sem que nenhum autor o provoque, mas o comum é que seja fruto da provocação simples ou profissional de um agente: o humorista. Usando o senso lúdico, este alcança o que o normal dos homens não encontrou como equilíbrio do riso – o salto, a pirueta…

Ver o post original 481 mais palavras

John Keats (1795 – 1821), em duas traduções

John Keats em traduções ao português, na revista Escamandro, enriquecendo o acervo de Poemas famosos da língua inglesa (título de Oswaldino Marques, 1956).

escamandro

John-Keats_por_William-Hilton

Com um bom grau, é claro, de simplificação, acredito que podemos traçar pelo menos dois perfis de arquétipos clássicos de poetas românticos. Em um polo temos aquele tipo de poeta aventureiro, hedonista, viajado (em mais de um sentido da palavra, inclusive), libertino, amante da liberdade e dotado de uma rebeldia por vezes beirando o pueril, que seria um dos modos pelos quais poderíamos descrever, por exemplo, Byron e os heróis de seus poemas mais famosos, inspirados em si próprio. No outro extremo, temos o romântico frágil, melancólico, doente (de tuberculose, provavelmente), com tendências monogâmicas à moda provençal (e é justo por causa do outro arquétipo romântico que eu sempre acho hilário chamarem esse tipo de amor apaixonado de “amor romântico”) e enfurnado em seu quarto, na companhia de seus livros. Essa, creio, poderia ser uma descrição resumida, porém adequada, de John Keats (1795 – 1821).

Keats e Byron, talvez não…

Ver o post original 3.440 mais palavras

Projeto Shakespeare Remix, O Globo

Exposição Biblioteca Central da Florida International University (FIU)

Que honra e que alegria ter participado deste projeto e ver a colheita dos frutos.
Shakespeare Vive, 4 séculos depois de ter virado ‘estrela’.| 400 anos da morte do poeta.Projeto Shakespeare Remix_OGlobo

Assista a minha fala no projeto d’O Globo “A tempestade | Próspero”.

Participe do Remix, seguindo o link do projeto em O Globo.
Obrigado pela leitura e comentário!
School

Yves Bonnefoy (2) – o Adeus ao poeta

YvesBonnefoyMenor

O ADEUS ao poeta francês Yves Bonnefoy!YvesBonnefoyMenor

Yves Bonnefoy (1923-2016). 
A notícia do desaparecimento do poeta deu-se em meio ao ruído da Copa de futebol da Europa, no início deste mês de julho, em Paris, aos 93 anos. Por conta de todo um noticiário específico e das férias, só vim a chorar a morte do poeta 2 dias depois do ocorrido.
A presença de Bonnefoy em minha vida há de continuar forte, chegado que foi o poeta pela mão de um amigo francês que viveu por um tempo em Goyaz. Dele ganhei o volume de “Poèmes”, com quatro livros do poeta.
Marc Souchon (da Universidade de Besançon, Fr) dedicou-me o livro de Bonnefoy, na esperança de que vivêssemos “em mundo mais poético“… Lá se vão 27 anos e, de minha parte, mesmo envolto nas “agruras do comércio“, não deixei de seguir o conselho do meu amigo Souchon, professor-visitante “Leitor”,  que conheci na UFG (Universidade Federal de Goiás), nos meus tempos de ICHL.

É! O amigo Marc Souchon tinha a profissão que todo Beto desejaria ter – Leitor; mas essa é outra história. Agora, temos de frente a realidade do desaparecimento de um dos mais importantes e produtivos poetas de la vieille France, o adeus à Yves Bonnefoy…

Dele disse em obituário a Enciclopédia Universalis (a tradução amadora é minha!):
A obra de Yves Bonnefoy (1923-2016) situa-se sob o signo da injunção de Rimbauld (em Illuminations): « trouver le lieu et la formule » [“encontrar o lugar e a fórmula”].

“A obra do poeta Bonnefoy se liberta muito pouco do surrealismo, numa busca que vai se revestir de múltiplas fórmulas, em diálogo constante com umas e outras, a saber: poemas onde se afirma uma busca da presença que devolve a palavra ao seu verdadeiro lugar (como “Du mouvement et de l’immobilité de Douve”); relatos onde a potência do sonho revela o que o cotidiano dissimula (como em “L’Arrière-pays”); ensaios nos quais se desenvolvem, sobre os rastros de Baudelaire, um diálogo entre pintura e poesia (caso de “Le Nuage rouge”); e traduções, onde, por fim, fica evidente o domínio do verbo Shakespeariano – de “Jules César” ao “Conte d’hiver“, afinal Bonnefoy era tradutor do bardo inglês.

Aos francófonos, recomendo a leitura completa no link consultado em 08.07.16. Clique aqui para saltar à Universalis.fr./

Ao não-francófonos que desejarem conhecer a obra de Yves Bonnefoy, recomendo este belo website O Poema, dedicado à obra de Bonnefoy, traduzido no Brasil pelo francófilo professor Mário Laranjeira.

«A poesia de Yves Bonnefoy é marcada por uma busca, sem trégua nem concessões, do “vrai lieu” (lugar verdadeiro) – esperança, sempre a preceder a palavra -, da unidade a ser reencontrada. Aceitação do limite, da finitude e da morte que conduz ao encontro, na outra margem, das coisas simples em que revive a manifestação do ser: a moradia, a luz, o fogo, a pedra, a folhagem, a neve, o amor.

«Sua obra poética já foi traduzida para mais de vinte idiomas e é reconhecida pela crítica como comparável ao que de melhor se produziu na França em todos os tempos.» – Comentário do livro Yves Bonnefoy: Obra Poética, tradução  e organização de Mário Laranjeira publicado pela Editora Iluminuras em 1998.

Dou-me conta, ao dar adeus a Bonnefoy, que tenho uma dívida imensa neste blog com os poetas da minha formação francofônica, feita na Alliance Française dos saudosos anos ’80 do século passado…
Dívida que hei de pagar ao longo das próximas semanas, prometo!

E a ti, poeta amado, fico certo de que soou
(…) o gongo, contra a arma disforme da morte.
Adeus, semblante em maio.
Adeus, poeta!

yvesbonnefoy
Yves Bonnefoy (*Nascido em Tours, 1923 ~ Morto em Paris, no dia 01.07.2016).

Por ora, deixo a você leitor, este poema intitulado “Les Chemins” (Caminhos) de Yves Bonnefoy num esforço enorme de tradução para nossa língua – que me perdoem os defeitos, mas é obra-em-andamento.

OS CAMINHOS
****Yves Bonnefoy*

Caminhos, em meio 
À matéria das árvores. Deuses, entre 
os tufos deste canto incansável de pássaros.
E todo teu sangue arqueado abaixo de mão sonhadora,
Ó próximo, oh! meu dia inteiro.

Quem colhe o ferro
Oxidado, entre as altas ervas, não esquece jamais
Que dos escolhos do metal a luz pode tomar
E consumir o sal da dúvida e da morte.
+++++
(*) A este exercício de tradução livre pode o leitor atribuir-me todas as faltas que houver (menos uma: a do amor ao poema), indicando melhorias via betoq55 at GMail.com (AQ).
Do poeta-tradutor de Shakespeare e J. Keats, muito a aprender.
Um velho post com tradução de Mário Laranjeira e outras referências poéticas.

 

Carlos Alberto Salustri – Trilussa (2)

Não sei porque, exatamente, este post vai e vem é muito procurado no Google como “O gato socialista”. Talvez quando aumentem as prisões de gatunos…da orientação política ironizada por Trilussa!?

Leveza & Esperança

PAULO DUARTE foi o responsável por me fazer chegar às mãos e à mente os poemas de Trilussa, na edição que encontrei num sebo, anos depois de publicada esta 3a. edição, definitiva e com mais 24 poemas inéditos, da Marcus Pereira Publicidade, S. Paulo, 1973.

Trilussa CapaO livrinho me fora recomendado por Anatole Ramos. Anatole foi meu padrinho literário, um tipo à parte no universo da literatura que aqui (em Goiás) se praticava; um revisor de primeira e um cronista generoso que sempre tinha uma palavra de incentivo aos que estavam começando. Ao jovem que eu fui, Anatole sempre prestou a mesma generosa receptividade que fora dada ao jovem e entusiasmado leitor de Trilussa – sr. Paulo Duarte – pelo próprio poeta.
Trilussa nasceu e foi batizado como Carlos Alberto Salustri e eternizado como o poeta “Trilussa”.

A história da amizade entre tradutor e traduzido está muito bem contada na introdução dessa edição…

Ver o post original 977 mais palavras