Entrevista de Jean-Loup Bernanos sobre a temporada de Bernanos no Brasil


Entrevista de Jean-Loup Bernanos, filho do escritor católico francês Georges Bernanos que viveu no Brasil. Emocionante documento audiovisual da presença de Bernanos no Brasil.
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COLLECTION

Le Fond et la forme

PRODUCTION

producteur ou co-producteur:

Office national de radiodiffusion télévision française

GÉNÉRIQUE

réalisateur :

Massot, Claude

producteur :

Bourin, André / Boisdeffre, Pierre de

participant :

Bernanos, Jean Loup

présentateur :

Bourin, André

Ainda "Sob o Sol do Exílio" (II) : lições e correlações

NÃO SERVISSE O LIVRO DE SÉBASTIEN LAPAQUE para nada, já seria de enorme utilidade – como uma espécie de tapa-na-cara! –

CapaSousLeSoleil_Lapaque
Este blogueiro com o livro de Lapaque no original da Ed. Grasset, Paris, 2003.
utilidade ESTa DE alertar nossa intelectualidade sobre a importância dos escritores católicos franceses na inteligência do Brasil das décadas de 30 a 60 do século XX (esquecidos, como tantos outros, pela mídia).

CREIO ser o livro em epígrafe da maior importância por relembrar a grande mídia (e aos bem-pensantes do Brasil) que um dos mais importantes escritores católicos da França (e do mundo!) escreveu parte de sua literatura de combate e alguma ficção em Pirapora (onde pôs ponto final a um de seus mais importantes romances “Monsieur Ouine” – ver o 1o. post sobre o livro Sob o Sol do Exílio), Belo Horizonte ou Barbacena.

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Capa da edição brasileira de “Sob o Sol do Exílio“, de Sébastien Lapaque, trad. de Pablo Simpson.

Relevante, pois, o papel que Bernanos e outros imigrantes da intelectualidade francesa tiveram para o Brasil na Academia e, principalmente (do meu ponto de vista, anti-acadêmico por natureza!), fora do ambiente universitário; pois bem, considerando tudo isso, o livro de Sébastien Lapaque presta um grande serviço ao leitor apaixonado pela literatura de Bernanos e interessado nas formas de resistência da inteligência rebelde – as emissões de rádio enviadas a BBC; os artigos para “La Marseillaise” (Londres e Alger) – órgão da Resistência Francesa; as afinidades eletivas de Bernanos e a admiração crítica (em alguns casos, muito crítica como a de Carpeaux); fraterna e apaixonada – como a Virgílio de Mello Franco e de Geraldo França de Lima); cristã e quase discipular – como a de Alceu Amoroso Lima.

Georges Bernanos
Bernanos em foto de divulgação da Editora Plon.

Este livro de S. Lapaque, ora lançado pela É Realizações, ganha relevo maior por ser uma espécie de tapa na cara de nossa intelectualidade que, depois do livro de Humberto Sarrazin (obra da Vozes, 1968, e nunca reeditada!) relegou Bernanos a um silêncio sepulcral na Academia, sem jamais voltar a se debruçar sobre essa riqueza chamada Bernanos no Brasil. O grande urso em Barbacena precisou de um escritor francês que cruzasse o Atlântico para levantar-lhe do túmulo a que fora condenado pelos bem-pensantes de nossas Academias, e nos mostrasse o ouro que deixamos escondido em uma pequena cidade de Minas Gerais e em arquivos esparsos pelo país, fora a quase espartana casa pequenina da Cruz da Almas a que a memória dele dedicamos como mini-museu (e vez por outro abandonado, ao longo desses mais de 60 anos).

Casa de G.Bernanos em Barbacena, hoje transformada em Museu Bernanos.
A humilde casa de G. Bernanos em Barbacena, hoje transformada em Museu Bernanos.

A história da inteligência no Brasil tem curtíssima memória – eis ao quê mais serve demonstrado na didática publicação de Lapaque – e a quem ficamos devedores para sempre…

Bernanos no Brasil
Capa de “Bernanos no Brasil”, organizado por Humbert Sarrazin e nunca reeditado pela Vozes (original de 1968).
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Originais de Bernanos, retirados da obra de Daniel Perezil, Cahiers de Monsieur Ouine.

Opesquisador da obra de Bernanos há-de se debruçar nos volumes antigos da Biblioteca Nacional para recuperar-lhe os artigos que duas vezes por semana
(diz-nos Lapaque na p.120 de “Sob o Sol…” edição francesa da Grasset) publicou o escritor francês, assim anunciado em “O Diário”, no dia 21 de maio de 1940 como “UN ANCIEN COMBATANT s’exprime sur l’offensive allemande” (Um ex-combatente [da I Guerra Mundial] fala sobre a ofensiva alemã n’O Diário):

Bernanos em foco com Lapaque (2003) e Sarrazin (1968) - a figura do mais brasileiro dos escritores católicos franceses ganha novas leituras
Bernanos em foco com Lapaque (2003) e Sarrazin (1968) – a figura do mais brasileiro dos escritores católicos franceses ganha novas leituras

L’écrivain français Georges Bernanos est à nouveau à Belo Horizonte, ayant pour destination Pirapora, où il réside, et d’où il reviendra peut-être bientôt, pour habiter une propriété rurale proche de Belo Horizonte
(O escritor francês G.Bernanos está novamente em BH, em direção a Pirapora, onde reside e de onde deverá retornar em breve, para morar em uma propriedade rural perto de BH).

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A casinha pequenina de Cruz das Almas guarda o que restou da memória de Bernanos no Brasil. Um pequeno recanto onde o escritor francês sonhou reproduzir um pedacinho da França no Brasil. Na sequência, um presente aos amantes da obra do “Grande Urso”, páginas esparsas de “Cahiers de M. Ouine”, de D.Pérezil

IMG_9151 IMG_9150Reproduzo aqui um texto retirado do site da Academia Brasileira de Letras sobre a amizade de Virgílio e Afonso Arinos com o escritor GB na visão de Afonso Arinos Filho.

******Clique sobre o texto em destaque para acessar o arquivo em PDF: Bernanos_Virgilio_AfonsoArinos

Sobre “Monsieur Ouine”, de Georges Bernanos : Lapaque, Asensio & Cadernos de JLK…be

ENQUANTO me preparo para escrever uma resenha do livro “Sob o Sol do Exílio¨ de S. LAPAQUE, vou lendo e relendo aqui e ali sobre G. Bernanos.
Boas surpresas ao leitor na 1a. ou enésima leitura…

O livro de Sébastien Lapaque, recém-lançado pela É Realizações, em português, eu o tenho lido em francês, na edição da Grasset, recebido em 2009 como presente de correspondentes en France (Merci à Marion & Sylvain).

Muito interessante a parte em que Lapaque trata de “Monsieur Ouine” (p.105 a 118 da edição francesa). As referências de Lapaque são consistentes e contribuem com a compreensão da obra bernanosiana, levando o leitor a buscar mais informações sobre a gestação do romance (confusão nas primeiras edições, má-recepção pela Crítica, recuperação diante do público e, finalmente, a paixão como romance de experiência e de afirmação da voz final do romancista).

“Ouine” – literalmente “Sim-Não” (Oui, Ne [pas]) foi originalmente intitulado “La Paroisse Morte” (A Paróquia morta), título que GB trocou num período que vai da primavera de 1936 (quando iniciou a escrita) até maio de 1940, quando o escritor envia (de Barbacena) a Maurice Bourdel, seu editor em Paris o Capítulo XIX do que ele próprio intitulara como o livro que representa(ria) seu “maior esforço como romancista“.

E foi em Minas Gerais que Bernanos colocou o ponto final no que Lapaque chama do livro que contém a “teologia bernanosiana da noite“. Outros tinteiros já se tinham esvaziado com as tintas negras mas não da parte de um católico. Seus irmãos da noite – como quer Lapaque (ou das tinta noturna – frères d’encre) agnósticos (ou ateus) saudaram Monsieur Ouine com entusiasmo de leitores que se identificaram com o livro – Céline, Simenon e A. Artaud.
Este último teria dito:

“Je ne sais pas si je suis pour vous un réprouvé, mais en tout cas, vous êtes pour moi un frère en désolante lucidité.”
(Antonin Artaud)

No livro “Cadernos de Monsieur Ouine” (Edit. Seuil), LesCahiersdeMonsieurOuinePezerildo Monsenhor Daniel Pézeril, Lapaque diz que o leitor tem a oportunidade de viver uma experiência interessante: como que lançar um olhar, espiando sobre o ombro do escritor em pleno interior das Minas Gerais (Pirapora ou Barbacena – fiquei em dúvida – checar onde estava GB em 1943/46?!), onde num caderno colegial barato, com a bandeira brasileira na capa, sob a divisa do “Ordem e Progresso”, o nosso francês errante colocava palavra-a-palavra, avançava linha-a-linha num esforço de meia-página por dia no que para o escritor seria seu maior esforço e seu mais trabalhoso romance à la (Georges) Simenon.

O que lhe sai ao final o mais Bernanos de sua ficção. Onde a voz de Bernanos mais se faz sentir, faz-se ouvida, não obstante a primeira reação negativa.

Capa de Monsieur-Ouine-Edit.Plon
Capa da edição incompleta (sem o 19o. cap.) do romance Monsieur Ouine, Plon, 1946. A 1a. edição da Ed. Atlântica (Rio, 1943) quase condenou o romance ao desprezo dos leitores e da crítica por ter sido publicada incompleta, cheia de lacunas e gralhas… Somente em 1951, graças a Albert Béguin, editor-amigo de GB, o romance ganhou sua versão definitiva e que ainda encanta leitores e críticos.

Sobre G Bernanos : no blog Carnets de JLK. ref. a Juan Asensio.

Leia trechos do livro de Sébastien Lapaque, no site da É Realizações.

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Fonte principal – LAPAQUE, Sébastien. Sous Le Soleil de L’Exil : Georges Bernanos au Brésil 1938-1945. Paris, Bernard Grasset, 2003, 227 pp. Outras fontes cit. por links ou figuras. Todos os direitos reservados (c) Grasset, Plon, JLK, Asensio, Lapaque.

Aos amantes do Francês Errante, deixo este recorte...de 1970.
Aos amantes do Francês Errante, deixo este recorte…de 1970.
Um livro importante para o sr. Edson e equipe É Real. publicar... Tenho-o traduzido em parte, viu!?
Um livro importante para o sr. Edson e equipe É Real. publicar… Tenho-o traduzido em parte, viu!?

Meu amigo-virtual (um irmão bernanosiano, mais preparado e mais lido), o polemista Juan Asensio escreveu e JLK transcreveu e comentou o que chama de “salamalec” à Asensio… Preguiça de traduzir por ora… quem sabe mais tarde, ao longo do feriadão?!
“Il faut lire et relire Monsieur Ouineaujourd’hui, comme on lira bientôt La Route de Cormac McCarthy, sans se demander si nos contemporains sont encore « dignes » de ce livre et qui le comprendra. Juan Asensio insiste sur l’ « apophatisme bernanosien » comme si le roman ressortissait essentiellement à une théologie négative, sans souligner assez, me semble-t-il, l’affirmation christique secrète et traversante de ce livre, qui recrache le tiède pour mieux figurer les avatars inattendus voire infinitésimaux de l’Amour. Monsieur Ouine, dans l’interprétation d’un René Girard, pourrait être dit le roman de la médiation interne portée à son point extrême, comme il en va des romans de Dostoïevski. Comme celui-ci, mais par une voie plus droite, Bernanos dépasse la tentation du désespoir et mime la sortie du cercle vicieux, comme « par défaut ». L’esprit d’enfance, au sens évangélique, irradie le tréfonds de ce livre glauque et même sale, alors même que cette souillure apparente échappe à la damnation réelle du froid et du non-être – ce que Juan Asensio décrit justement : « Le Mal c’est le froid, le Mal c’est le néant, le Mal n’est rien d’autre, finalement, que l’ennui, ce dernier parvenu à son plus idoine état de desséchement »…” (Do blog http://carnetsdejlk.hautetfort.com/bernanos/).
Juan Asensio. La littérature à contre-nuit. Sulliver, 2007.

Cartas do cotidiano-Sobre Bernanos e os teólogos da corte…

Caderno de notas do cotidiano

EU e o JORNAL DIÁRIO: uma carta publicada no jornal local de Goiânia (GO), Brasil.

Carta ao Popular, Goiânia
Adalberto Queiroz a’O Pop, Goiânia.

Georges BERNANOS sempre atual
BERNANOS e os sacerdotes da Igreja!

Donissan e Cénabre: exemplo e contra-exemplo da conduta cristã.

Sobre Bernanos e a prática dos sacerdotes hoje…
Carta a’O Popular (Goiânia-GO).

Adeus à Rainha Fabíola, um exemplo de amor duradouro

NO DIA EM QUE A BÉLGICA DÁ ADEUS A SUA RAINHA, Fabíola de Mora Y Aragón, ou simplesmente a Rainha Fabíola, junto-me às homenagens…

Lembrando um livro definitivo sobre seu marido, companheiro de uma vida – o Rei Balduíno, onde a Rainha não é mera circunstante, mas protagonista.  E se na despedida de Balduíno, uma carta-aberta publicada num jornal local na Bélgica dizia:

– “Obrigado ao Rei por ter ousado a Ternura…” – eu vos digo, hoje:

rainha-fabiola_rei-balduino“Obrigado, Rainha Fabíola, por sustentar com seu exemplo um Amor que permaneceu jovem e transparente, mesmo diante dos sofrimentos físicos e morais a que a idade submeteu este belo e admirável casal real”.

– Beto Queiroz* (Se eu pudesse, inscrever-me-ia entre seus súditos, mas de coração  posso declarar-me seu, Rainha Fabíola, súdito na Fé, pois somos irmãos em Cristo e na devoção a Maria).

Que Deus receba a alma de sua serva, a Rainha Fabíola, e que sob a árvore do Paraíso, ela encontre todos os Anjos e Santos; e também o servo de Deus e seu amado companheiro o Rei da Bélgica, Balduíno.

Com o casal real, aprendi muito… O Padre Franz, do mosteiro dos Santos Anjos, em Anápolis (GO) foi quem me indicou o livro – em uma orientação espiritual que tive com ele. Só encontrei “O Segredo” depois de muita procura. Eu lhes garanto: é um dos mais belos livros sobre a vida em família e sobre o amor conjugal.

O Cardeal Suenens conseguiu revelar-nos “a profunda humanidade” da vida de Balduíno, rei da Bélgica durante 42 anos, de 1951-1993. Aos cristãos, a mensagem é ainda mais completa, pois que revela-nos também “a chama interior da vida do rei Balduíno – uma vida absolutamente invulgar”. O livro é uma espécie de confissão dentro da Confissão, isto é, o que é possível dizer de público aquilo que o Rei disse ao Cardeal durante um longo período de convivência (1960-1993).

A esperança do biógrafo é de que o leitor pudesse “reconhecer o tom da voz do rei Balduíno e a emocionante e exemplar mensagem da vida dele…” 

De fato, mesmo aos não-súditos e não-contemporâneos, o livro nos revela um Ser Humano admirável, atrás e acima da “persona real“. Um homem que ama contemplar as estrelas, rezar e conviver com a família; um homem que, demorada e cuidadosamente, escolheu uma noiva que viria a ser sua companheira de uma vida inteira (Fabíola) – a quem se uniu e com quem formou um casal cristão.

Fabíola e Balduíno formam um casal que nos dá um exemplo de que é possível viver em Cristo e na devoção a nossa mãe Maria Santíssima. Mesmo no ambiente de fausto dos palácios, onde as pompas reais parecem prover luxo e distanciamento do Sagrado, estes personagens reais viveram com simplicidade cristã, em amor, vendo e interpretando o mundo com os olhos de cristãos, muito mais do que de nobres terrenos.

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Um amor que não tem fim…


Quando da cobertura da morte do Rei, diz o Cardeal ter visto na TV testemunhos que resumiram a marca da personalidade de Balduíno:

“O público reconheceu no Rei um homem de Amor”
“Exercer a realeza como o Rei Balduíno o fez é também um sacerdócio”.

Se a isso juntarmos o trecho da homilia do Cardeal Danneels em sua despedida do Rei, teremos o quadro resumido do que “O Segredo de Balduíno” pode servir à nossa vida como leitores, podemos ver no “Imprevisto Real” uma vida em miniatura:

“Há reis que são mais do que reis – são pastores do seu povo!”

– O papel de Fabíola de Mora Y Aragón ficará logo evidente como de protagonista nesta que é a vida de uma família real, mas uma família, sobretudo, exemplar e fundamental para a Bélgica (e o mundo inteiro – ao conhecer e se espelhar no exemplo do casal real). O fundamento do casal real há-de nos descortinar o “Segredo” – viveram em Cristo, o fundamento do Amor; em Maria, a devoção a uma mãe que a todas supera e protege…  

Confirmam essas minhas palavras de resenhista entusiasmado a transcrição do Cap. III – O Casal Real – confira no próximo post um texto em formato de imagem ‘scanneada‘. E você verá que a vida do casal real – Fabíola e Balduíno da Bélgica – ilustra, certamente, com nos diz o Cardeal Suenens, a frase de Jean Guitton:

O Amor é sempre fecundo, mesmo que apenas transforme aqueles que amam…

Quero comigo guardar as imagens do jovem casal que são um exemplo de conto-de-fadas do Amor Real, em sua fase terrestre, ao lado de outra do casal que amadureceu junto – pois que o a visão do Eterno perpassa a vida daqueles que crêem em Deus, como Fabíola e Balduíno o fizeram aqui na terra…

O Segredo do Rei”, do Cardeal Suenens, da Bélgica foi publicado em 1995, em Ertvelde (BE), sob o título original de “Le Roi Baudouin – Une vie qui nous parle”, Editions F.I.A.T.

A edição em português é da Editorial A.O. de Braga, Portugal, trad. Margarida Osório Gonçalves.

*As referências neste post são à 2a. edição, 1997.

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Fonte: *SUENENS, Cardeal. “O Segredo do Rei”, Editoral A.O., Braga, Portugal, 2a. edição, 1997.

O Segredo do Rei, Cardeal Suenens

Cardeal Suenens revela “O Segredo do Rei”, originalmente: “Le Roi Baudouin, Une Vie qui Nous Parle”, 1995.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jorge de Lima e sua “Ode ao Coxo Veloz” ou: Bernanos, uma vigília inumerável…

“NO MOMENTO EM QUE IA ESCREVER SOBRE TI, BERNANOS, FUI IMPELIDO POR SECRETA FORÇA ÍNTIMA A ESCREVER-TE…”

Jorge de Lima_Foto RetocadaAssim o poeta Jorge de Lima inicia sua ODE AO COXO VELOZ*. Agora que o mundo relembra o Centenário da I Guerra Mundial, jornais lembram o Diário de Bernanos, com o seu estilo inconfundível e sua cólera e amargura derramadas contra “os poderosos do mundo” nem sempre dispostos a manter a Paz, quebrando pactos e nos afundando em outros conflitos – como foi o caso da II Guerra e de tantos outros conflitos ao redor do mundo. Depois de seu testemunho em prol dos “Rapazes Franceses” e de todo o mundo que são as primeiras vítimas dos campos de batalha, nada pode ser igual e o elogio da coragem nunca é demasiado…

A Ode ao Coxo Veloz abre o livro de Hubert Sarrazin “Bernanos no Brasil”, Testemunhos vividos de grandes escritores brasileiros, reunidos e apresentados por H. Sarrazin. O propósito do livro é reunir depoimentos de “vozes brasileiras que poderiam fazer-se ouvir sobre o homem que foi seu [do Brasil] hóspede de 1938-1945…” – diz a editora na ‘orelha’ do livro citado – a mesma época dos Diários agora revividos em França. Com uma memória enfraquecida por décadas de ideologia nas universidades, cátedras, círculos literários e academias, o país pode perder a memória deste hóspede ilustre e iconoclasta – o “grande Urso”, Le Grand Georges – o escritor para quem não ha descanso – pois sempre lutou; o que não teve ideologias que o calasse: Bernanos que foi um grande Cristão, o Escritor-Católico entre os católicos; o Escritor Francês entre os franco-“Brasileiros” (o adjetivo pátrio aqui desejado por este blogueiro e pelo próprio Bernanos que diversas vezes manifestou-se cidadão do mundo, mas amante incondicional do Brasil…).

Pela manutenção da memória de hóspede tão ilustre das terras de França no Brasil, mantenho uma página dedicada a Bernanos.


Continuemos com a Ode (de J.L.)…  Leia mais

Relendo Bossuet

Um jovem crítico de literatura em França, me envia, regularmente, textos de seus escritos, quase sempre polêmicos. Hoje foi sobre um escritor moderno (por quem não me interessei), mas logo abaixo no site, encontro pérolas de BOSSUET.
Maravilhosos textos:
1) «Tout ce qui unit à Dieu, tout ce qui fait qu’on le goûte, qu’on se plaît en lui, qu’on se réjouit de sa gloire, et qu’on l’aime si purement qu’on fait sa félicité de la sienne, et que, non content des discours, des pensées, des affections et des résolutions, on en vient solidement à la pratique du détachement de soi-même et des créatures; tout cela est bon, tout cela est la vraie oraison».
Em tradução livre (e corrigível, por favor corrigez mes fautes Meg Guimaraes):
Sobre a verdadeira Oração:
“Tudo que nos une a Deus, tudo que nos faça amá-Lo, que tenhamos alegria n’Ele, que nos rejubile com sua glória; e mais – que não satisfeitos com apenas falar, mas tê-Lo em nossos pensamentos, nas afeições e nas decisões que tomamos; assim chegamos de maneira sólida à prática do desapego de nós-mesmos (o si-mesmo) e das criaturas – tudo isso é bom, tudo isso é “a verdadeira Oração”.
Bossuet, Méditations sur l’Évangile, De la meilleure manière de faire une oraison (Desclée et Cie, 1903, p. 15)

2) «Jésus parle encore tous les jours dans son Évangile; mais il parle d’une manière admirable dans l’intime secret du cœur : car il est la parole même du Père éternel, où toute vérité est renfermée. Il faut donc lui prêter ces oreilles intérieures dont il est écrit : Vous avez, Seigneur, ouvert l’oreille à votre serviteur. Heureux ceux à qui Dieu a ouvert l’oreille en cette sorte; ils n’ont qu’à la tenir toujours attentive, leur oraison est faite de leur côté. Jésus leur parlera bientôt, et il n’y a qu’à se tenir en état d’écouter sa voix»

“Jesus fala ainda todos os dias através de seu Evangelho; mas Ele fala de uma maneira admirável ao íntimo segredo do coração, porque Ele é a própria palavra do Pai Eterno, onde toda a Verdade está guardada. É preciso, pois, que abramos nossos ouvidos interiores ao que está escrito: “Tu, Senhor, abristes os ouvidos ao vosso Servo…” [Sl.39/40]. Felizes aqueles a quem Deus abriu os ouvidos dessa forma; não tem estes senão que ficar atentos, que sua oração é feita no íntimo de seu coração. E Jesus responderá de pronto, não havendo ao que reza, senão que escutar a Sua voz …”

(Bossuet cit. par Juan Asensio em http://bit.ly/1ouvAQJ).

lendo Juan Asensio.
Originalmente publicado no FB./adalbertoqueiroz.

J.G. Merquior: Muriloscopia

[Ou: “O travo agridoce da Saudade.]

J.G.MerquiorJ.G. MERQUIOR escreveu, em maio de 1978,
aquele que considero o prefácio definitivo
e, naturalmente, com um título tipicamente merquioriano:

Notas para uma Muriloscopia“.

Ninguém melhor do que J. Guilherme poderia ter uma visão tão aguçada sobre a poesia de MM (1901-1975).

E se o leitor perguntar-se: porque a mensagem de Murilo Mendes, baseada num catolicismo não militante, traz uma mensagem única e até hoje válida num mundo ?

– “…No legado do cristianismo uma mensagem tão ou mais pertinente ao nosso tempo social de que à época de Jesus de Nazaré.
Ou:  porque “o sentimento básico do poeta Murilo Mendes era [é], segundo Merquior: “…no seio mesmo da sua consciência da finitude do mundo criatural, antes a vibração da esperança, a crença… na regeneração do ser.

MURILOSCOPIA (c)J.G. Merquior

“NA CONSCIÊNCIA do público e da crítica de poesia, a imagem da obra ímpar de Murilo Mendes parece ter passado de tangente a eixo da nossa tradição moderna. Longamente considerado voz solitária e insólita, o poeta figura hoje, e com toda a razão, entre os tetrarcas da lírica modernista. Qual o sentido dessa inusitada parábola na recepção de Murilo? Quais as linhas de força que, na sua produção poética, se responsabilizam por ela?
“Creio que o segredo se prende à própria natureza do modernismo. Como estilo compósito, próprio à primeira fase da nossa ‘modernização’, isto é, a esta transição social que ainda estamos vivendo (e em muitos pontos, sofrendo), o modernismo brasileiro foi um estilo híbrido e heterogêneo, feito da convivência ou fricção de estilemas tipicamente ‘arte moderna’ com vários traços a rigor bem pré-modernos (porque prolongamentos de formações artísticas anteriores) e, no entanto, dotados (como se vê em Cecília, Schmidt, Cornélio Pena) de inegável poder adaptativo e funcionalidade estética. Por isso mesmo é que nosso modernismo literário seria, ainda mais que o plástico, e sem dúvida bem mais que o musical, um complexo estilístico. Não foi por acaso que só pôde ter a unidade de um movimento, jamais a uniformidade de uma escola.


Leia mais

Ainda e sempre, Bernanos

“- Para mim, a obra de um artista não é nunca a soma de suas decepções, sofrimentos e dúvidas, do mal e do bem de toda sua vida, mas de sua vida ela própria, transfigurada, iluminada, reconciliada. Sei bem que não se prova nunca do vinho novo desta reconciliação consigo próprio, senão quando a colheita é feita – como a dor física que pode se prolongar muito depois de terminada a sua causa – e assim, tendo acontecido essa reconciliação, fruto de um esforço imenso, nós continuamos ainda a desejá-la.
Porque nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva: é preciso que nós tenhamos nos doado, na mesma medida que sabemos que morreremos vazios, que morreremos como natimortos (…) antes de despertarmos (deste `seuil franchi´) na doce piedade de Deus, como quem desperta numa manhã fresca e profunda.” 

(G. Bernanos)

[(*) seuil franchi = ao cruzar o limiar, entre a Vida e a Morte, biensûr!]