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Jorge de Lima e sua “Ode ao Coxo Veloz” ou: Bernanos, uma vigília inumerável…


“NO MOMENTO EM QUE IA ESCREVER SOBRE TI, BERNANOS, FUI IMPELIDO POR SECRETA FORÇA ÍNTIMA A ESCREVER-TE…”

Jorge de Lima_Foto RetocadaAssim o poeta Jorge de Lima inicia sua ODE AO COXO VELOZ*. Agora que o mundo relembra o Centenário da I Guerra Mundial, jornais lembram o Diário de Bernanos, com o seu estilo inconfundível e sua cólera e amargura derramadas contra “os poderosos do mundo” nem sempre dispostos a manter a Paz, quebrando pactos e nos afundando em outros conflitos – como foi o caso da II Guerra e de tantos outros conflitos ao redor do mundo. Depois de seu testemunho em prol dos “Rapazes Franceses” e de todo o mundo que são as primeiras vítimas dos campos de batalha, nada pode ser igual e o elogio da coragem nunca é demasiado…

A Ode ao Coxo Veloz abre o livro de Hubert Sarrazin “Bernanos no Brasil”, Testemunhos vividos de grandes escritores brasileiros, reunidos e apresentados por H. Sarrazin. O propósito do livro é reunir depoimentos de “vozes brasileiras que poderiam fazer-se ouvir sobre o homem que foi seu [do Brasil] hóspede de 1938-1945…” – diz a editora na ‘orelha’ do livro citado – a mesma época dos Diários agora revividos em França. Com uma memória enfraquecida por décadas de ideologia nas universidades, cátedras, círculos literários e academias, o país pode perder a memória deste hóspede ilustre e iconoclasta – o “grande Urso”, Le Grand Georges – o escritor para quem não ha descanso – pois sempre lutou; o que não teve ideologias que o calasse: Bernanos que foi um grande Cristão, o Escritor-Católico entre os católicos; o Escritor Francês entre os franco-“Brasileiros” (o adjetivo pátrio aqui desejado por este blogueiro e pelo próprio Bernanos que diversas vezes manifestou-se cidadão do mundo, mas amante incondicional do Brasil…).

Pela manutenção da memória de hóspede tão ilustre das terras de França no Brasil, mantenho uma página dedicada a Bernanos.


Continuemos com a Ode (de J.L.)… 

“…ESTÁS EM FRENTE A MIM, meu amigo, com tua beleza física, esses olhos translúcidos cor de mar, ou cor do céu, com esse jeito meio alçado de enorme pássaro de Deus.

Apenas em vez de me falares, de me falares, de me falares sem parar, és como uma sombra que me escutas as palavras terrenas que tu ouves sem me poder responder, pois tua linguagem na eternidade mudou o vocabulário das almas. Agora posso dizer-te as minhas palavras livres e relapsas, as minhas palavras de louvor ou de exaltação sem ferir o homem exíguo que por três vezes recusou a Legião de Honra e três vezes renunciou a postos de comando e três vezes fugiu das ruínas de Babel.

“No momento em que ia escrevendo sobre ti, escrevo-te, ao homem livre das cadeias que o prendiam a esse bichado cipreste humano a que continuo preso como um Prometeu chulo. Em verdade nunca foste homem de órbita, antes um ser de junção e de encruzilhada, encruzilhada que deslocavas à vontade, no litoral, no sertão, nas montanhas mineiras, nos cafés do Rio, no Hotel Suíço da Lapa, sempre a encruzilhada móvel onde em redor de ti, encruzilhada, cruz das almas, as almas de teus amigos se encontravam.

“Nunca paraste Cruz errante. Nunca houve repouso em Bernanos. França, Espanha, Uruguai, África, Barbacena , Pirapora, le sertao sans bornes à mille kilomètres de Rio, nunca houve repouso em Bernanos, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Itaipava, Paracatu le pays des crocodiles couleur de boue, África, África, Paris, é preciso lutar, é preciso lutar, guerra, guerra contra Hitler, contra Franco, contra o Duce, contra Pétain, tu um estropiado, tu um coxo. É preciso lugar, é preciso lutar contra o suborno, contra as capitulações, contra a espionagem, contra a traição, contra a plutocracia, contras os maus bispos, contra os maus católicos, nunca houve descanso em Bernanos. É preciso lutar, lutar contra os campos de concentração, contra a demissão da França, contra le Maréchal guignol politique, é preciso lutar à direita, à esquerda, à retaguarda, contra o visível, contra Satã, contra o visível, nunca houve repouso em Bernanos.

Bernanos à la moto...
Bernanos à la moto…

É preciso lutar contra os guias, tu um coxo, é preciso lutar contra as distâncias, Avenida Rio Branco – Pirapora, tu um coxo. É preciso repor os homens, as coisas e os anjos em seus lugares, sob o sol bem vivo está Satã; mas Hitler e o Duce, perfeitamente defuntos quando vivos é urgente enterrá-los nos grandes cemitérios sob a lua. Mortos, mortos, sob astros mortos.

É preciso lutar contra os homens, contra os paisanos e militares, contra estrangeiros e franceses, contra a mentira, contra a verdade que se envergonha do escândalo, contra a impostura, contra a tirania, contra a ubiqüidade do mal, contra a velocidade do erro, tu um coxo. Nunca houve descanso em ti. França, África, África, Brasil, Cruz das Almas, Espanha, há cárceres no mundo, hidrofobias nos homens, angústias nas almas abandonadas, desespero nos corações, mutilações, tudo transferiste a ti.
Muitas vezes vieste te queixar de cânceres, de angústias, de desesperos e até da raiva hidrofóbica que atingiam o mundo; e te aleijaste para que os estigmas verdadeiros se transpusessem a ti. A tua alma deu audiência em segredo a todos os assombros e dúvidas e tuas mãos – pássaros de arrojo captaram mensagens e canções que iam e vinham. Então conheceste a alegria transfigurada em mulher e escreveste o teu mais belo romance – “La Joie“. A viuvez do mundo já agora não geme no teu peito, tu te acercas dos pobres curas, curas de aldeias, dos santos anônimos, pobrezinho de Lumbres.

Li-te, Bernanos, li-te como se deve ler palavra por palavra traduzindo-te, uma, duas, três, quatro obras, um, dois, três, dezenas de artigos, de páginas, de cartas, de dores, de minutos sombrios de confidências intermináveis, de queixas amaríssimas. Ah! não há descanso em Bernanos. Tu vens de muito longe. Ouvi vozes vindas de rasgados confins perguntando por ti, tu o exilado de uma idade mais pura, tu o andarilho, tu o coxo na eternidade.

Um dia, em frente ao mar me disseste sombrio: – “Somos afinal cúmplices“. Somos cúmplices, sim, somos cúmplices de muitos crimes, de muitos delitos, de muitas desgraças. Já crucificamos um homem que era Deus e lhe rasgamos o lado com uma lança rasteira. Tinhas o dom, querido amigo, de aproximar de nós tragédias distantes e impregnar os momentos sem Deus com as dimensões do eterno.

De outra vez me escreveste: “Não vemos faces nem carinhos, apenas apreendemos vozes que nos chamam“. E em outra carta dizias que “no deserto de Pirapora a Solidão como uma imensa ave pousara na anca do teu cavalo“.

E eu adivinhei, querido amigo, nesta frase, tão densamente poética, o teu horror à solidão, o teu galope para deixá-la à garupa contanto que a sentindo pelas costas, tu o coxo veloz, voltasses sempre para o convívio dos homens, contra o silêncio encovado nas almas, contra o confinamento das criaturas mornas. A tua vigília, Bernanos, era inumerável como as noites estreladas; lembro-me de tuas intermináveis conversas pela noite adentro enquanto o meridiano de tudo o que nela ou gira, ou não pára no mundo vinha de ti para nós, dos teus lábios para as nossas frontes, dos teus olhos para os nossos olhos. E sempre a França como corolário de tudo, a França, a gloriosa França, a França déchue par ce Boulanger octogénaire et maurrasien – le Maréchal Pétain.

A visita do Sr. Philippe Pétain ao Marechal Hitler (escreveste em 1940) foi classificada de acontecimento histórico pela imprensa totalitária. O sr. Philippe Pétain saiu da história da França desde o dia da capitulação e para ela jamais voltará. Cadáver. Quanto ao Marechal Hitler pergunto se ele sobrevive ainda a esse triunfo. A conversação de M. Philippe Pétain e do Marechal Hitler é um diálogo de mortos.

Oito anos depois tu é que te substituis, ó morto glorioso, aos vencedores de 40. Tu soubeste viver com honra e com honra morrer porque jamais quiseste repousar nem na velhice nem na paz. Por ti, a França continuaria a lutar ontem, hoje, amanhã.

Há dias ias repetir o raid de andarilho – África, Paris… faltava Pirapora, Barbacena, Hotel Suíço da Lapa e os amigos que ficaram, Alceu, Raul Fernandes, Carneiro, Mendes, Virgílio de Mello Franco, Afonso Arinos, Miguel Osório, Austregésilo de Athayde, Jorge de Lima.

Trocaste tudo isso pela eternidade, onde as distâncias estão nas próprias plantas de Deus. E onde Ele te sustendo nas mãos, beijou-te na face como a um discípulo de Cafarnaum: “Repousa, filho, abre os olhos cheios ainda das terras de França. Aqui os vivos me contemplam”.

(c) Jorge Lima, acervo de “O Jornal”, Rio de Janeiro, 7-11-1948.

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Fonte: SARRAZIN, Hubert. “Bernanos no Brasil: Testemunhos vividos” – reunidos e apresentados por H. Sarrazin, Editora Vozes, 1968, p.15-18. (*) A expressão COXO VELOZ do título da Ode do poeta refere-se à seqüela de um acidente de motocicleta que sofreu o cronista-romancista francês, ele que era um amante das motocicletas.
Saiba mais sobre o poeta Jorge de Lima.

2 thoughts on “Jorge de Lima e sua “Ode ao Coxo Veloz” ou: Bernanos, uma vigília inumerável…”

    1. Olá, MIRIAN.
      O meu projeto de escrever um ‘booklet’ sobre a temporada brasileira de BERNANOS em Minas Gerais agora é 99% realidade. Em 2015, devo viajar para sua terra e entrevistar todos que tiverem conhecimento, notícia, dados sobre “O Grande Urso”.
      Você é fundamental para esse projeto.
      Podemos conversar sobre isso via GMail?
      Se sim, enviar-me mensagem pessoal para acertarmos os detalhes.
      Abraço fraterno do mais Bernanosiano dos blogueiros do Brasil hoje…
      Beto Queiroz 🙂

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