“Destarte” estreia em Opção Cultural

Olhar de Bernanos

Um dos propósitos de 2017 – produtividade em torno dos escritos sobre Arte, literatura e idéias (assim mesmo, pré-Acordo ortográfico), realizado com a generosidade do editor geral do Jornal Opção, o amigo Euler de França Belém — de Goiânia (GO).

Leiam e divulguem em seus círculos de amigos.
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Post ligeiros (3) – Georges Bernanos

Georges Bernanos no opúsculo “JOANA, Relapsa e Santa” mostra como o processo da Igreja contra Joana D’Arc “pura e simplesmente foi o da condenação de uma santa”.

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Ainda "Sob o Sol do Exílio" (II) : lições e correlações

NÃO SERVISSE O LIVRO DE SÉBASTIEN LAPAQUE para nada, já seria de enorme utilidade – como uma espécie de tapa-na-cara! –

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Este blogueiro com o livro de Lapaque no original da Ed. Grasset, Paris, 2003.
utilidade ESTa DE alertar nossa intelectualidade sobre a importância dos escritores católicos franceses na inteligência do Brasil das décadas de 30 a 60 do século XX (esquecidos, como tantos outros, pela mídia).

CREIO ser o livro em epígrafe da maior importância por relembrar a grande mídia (e aos bem-pensantes do Brasil) que um dos mais importantes escritores católicos da França (e do mundo!) escreveu parte de sua literatura de combate e alguma ficção em Pirapora (onde pôs ponto final a um de seus mais importantes romances “Monsieur Ouine” – ver o 1o. post sobre o livro Sob o Sol do Exílio), Belo Horizonte ou Barbacena.

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Capa da edição brasileira de “Sob o Sol do Exílio“, de Sébastien Lapaque, trad. de Pablo Simpson.

Relevante, pois, o papel que Bernanos e outros imigrantes da intelectualidade francesa tiveram para o Brasil na Academia e, principalmente (do meu ponto de vista, anti-acadêmico por natureza!), fora do ambiente universitário; pois bem, considerando tudo isso, o livro de Sébastien Lapaque presta um grande serviço ao leitor apaixonado pela literatura de Bernanos e interessado nas formas de resistência da inteligência rebelde – as emissões de rádio enviadas a BBC; os artigos para “La Marseillaise” (Londres e Alger) – órgão da Resistência Francesa; as afinidades eletivas de Bernanos e a admiração crítica (em alguns casos, muito crítica como a de Carpeaux); fraterna e apaixonada – como a Virgílio de Mello Franco e de Geraldo França de Lima); cristã e quase discipular – como a de Alceu Amoroso Lima.

Georges Bernanos
Bernanos em foto de divulgação da Editora Plon.

Este livro de S. Lapaque, ora lançado pela É Realizações, ganha relevo maior por ser uma espécie de tapa na cara de nossa intelectualidade que, depois do livro de Humberto Sarrazin (obra da Vozes, 1968, e nunca reeditada!) relegou Bernanos a um silêncio sepulcral na Academia, sem jamais voltar a se debruçar sobre essa riqueza chamada Bernanos no Brasil. O grande urso em Barbacena precisou de um escritor francês que cruzasse o Atlântico para levantar-lhe do túmulo a que fora condenado pelos bem-pensantes de nossas Academias, e nos mostrasse o ouro que deixamos escondido em uma pequena cidade de Minas Gerais e em arquivos esparsos pelo país, fora a quase espartana casa pequenina da Cruz da Almas a que a memória dele dedicamos como mini-museu (e vez por outro abandonado, ao longo desses mais de 60 anos).

Casa de G.Bernanos em Barbacena, hoje transformada em Museu Bernanos.
A humilde casa de G. Bernanos em Barbacena, hoje transformada em Museu Bernanos.

A história da inteligência no Brasil tem curtíssima memória – eis ao quê mais serve demonstrado na didática publicação de Lapaque – e a quem ficamos devedores para sempre…

Bernanos no Brasil
Capa de “Bernanos no Brasil”, organizado por Humbert Sarrazin e nunca reeditado pela Vozes (original de 1968).
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Originais de Bernanos, retirados da obra de Daniel Perezil, Cahiers de Monsieur Ouine.

Opesquisador da obra de Bernanos há-de se debruçar nos volumes antigos da Biblioteca Nacional para recuperar-lhe os artigos que duas vezes por semana
(diz-nos Lapaque na p.120 de “Sob o Sol…” edição francesa da Grasset) publicou o escritor francês, assim anunciado em “O Diário”, no dia 21 de maio de 1940 como “UN ANCIEN COMBATANT s’exprime sur l’offensive allemande” (Um ex-combatente [da I Guerra Mundial] fala sobre a ofensiva alemã n’O Diário):

Bernanos em foco com Lapaque (2003) e Sarrazin (1968) - a figura do mais brasileiro dos escritores católicos franceses ganha novas leituras
Bernanos em foco com Lapaque (2003) e Sarrazin (1968) – a figura do mais brasileiro dos escritores católicos franceses ganha novas leituras

L’écrivain français Georges Bernanos est à nouveau à Belo Horizonte, ayant pour destination Pirapora, où il réside, et d’où il reviendra peut-être bientôt, pour habiter une propriété rurale proche de Belo Horizonte
(O escritor francês G.Bernanos está novamente em BH, em direção a Pirapora, onde reside e de onde deverá retornar em breve, para morar em uma propriedade rural perto de BH).

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A casinha pequenina de Cruz das Almas guarda o que restou da memória de Bernanos no Brasil. Um pequeno recanto onde o escritor francês sonhou reproduzir um pedacinho da França no Brasil. Na sequência, um presente aos amantes da obra do “Grande Urso”, páginas esparsas de “Cahiers de M. Ouine”, de D.Pérezil

IMG_9151 IMG_9150Reproduzo aqui um texto retirado do site da Academia Brasileira de Letras sobre a amizade de Virgílio e Afonso Arinos com o escritor GB na visão de Afonso Arinos Filho.

******Clique sobre o texto em destaque para acessar o arquivo em PDF: Bernanos_Virgilio_AfonsoArinos

Jorge de Lima e sua “Ode ao Coxo Veloz” ou: Bernanos, uma vigília inumerável…

“NO MOMENTO EM QUE IA ESCREVER SOBRE TI, BERNANOS, FUI IMPELIDO POR SECRETA FORÇA ÍNTIMA A ESCREVER-TE…”

Jorge de Lima_Foto RetocadaAssim o poeta Jorge de Lima inicia sua ODE AO COXO VELOZ*. Agora que o mundo relembra o Centenário da I Guerra Mundial, jornais lembram o Diário de Bernanos, com o seu estilo inconfundível e sua cólera e amargura derramadas contra “os poderosos do mundo” nem sempre dispostos a manter a Paz, quebrando pactos e nos afundando em outros conflitos – como foi o caso da II Guerra e de tantos outros conflitos ao redor do mundo. Depois de seu testemunho em prol dos “Rapazes Franceses” e de todo o mundo que são as primeiras vítimas dos campos de batalha, nada pode ser igual e o elogio da coragem nunca é demasiado…

A Ode ao Coxo Veloz abre o livro de Hubert Sarrazin “Bernanos no Brasil”, Testemunhos vividos de grandes escritores brasileiros, reunidos e apresentados por H. Sarrazin. O propósito do livro é reunir depoimentos de “vozes brasileiras que poderiam fazer-se ouvir sobre o homem que foi seu [do Brasil] hóspede de 1938-1945…” – diz a editora na ‘orelha’ do livro citado – a mesma época dos Diários agora revividos em França. Com uma memória enfraquecida por décadas de ideologia nas universidades, cátedras, círculos literários e academias, o país pode perder a memória deste hóspede ilustre e iconoclasta – o “grande Urso”, Le Grand Georges – o escritor para quem não ha descanso – pois sempre lutou; o que não teve ideologias que o calasse: Bernanos que foi um grande Cristão, o Escritor-Católico entre os católicos; o Escritor Francês entre os franco-“Brasileiros” (o adjetivo pátrio aqui desejado por este blogueiro e pelo próprio Bernanos que diversas vezes manifestou-se cidadão do mundo, mas amante incondicional do Brasil…).

Pela manutenção da memória de hóspede tão ilustre das terras de França no Brasil, mantenho uma página dedicada a Bernanos.


Continuemos com a Ode (de J.L.)…  Leia mais

Ainda e sempre, Bernanos

“- Para mim, a obra de um artista não é nunca a soma de suas decepções, sofrimentos e dúvidas, do mal e do bem de toda sua vida, mas de sua vida ela própria, transfigurada, iluminada, reconciliada. Sei bem que não se prova nunca do vinho novo desta reconciliação consigo próprio, senão quando a colheita é feita – como a dor física que pode se prolongar muito depois de terminada a sua causa – e assim, tendo acontecido essa reconciliação, fruto de um esforço imenso, nós continuamos ainda a desejá-la.
Porque nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva: é preciso que nós tenhamos nos doado, na mesma medida que sabemos que morreremos vazios, que morreremos como natimortos (…) antes de despertarmos (deste `seuil franchi´) na doce piedade de Deus, como quem desperta numa manhã fresca e profunda.” 

(G. Bernanos)

[(*) seuil franchi = ao cruzar o limiar, entre a Vida e a Morte, biensûr!]

Green light?

Eu me interessei por Julien Green através de um poema de Bruno Tolentino.
Só agora posso dar minha gratuita concordância poética com os versos citados, confessando certo mal-estar que a leitura me causou até agora:

“…mas foi Julien Green

quem me tirou do sério e pôs o spleen

do inefável em mim: tive um ataque

quando li Mont Cinère e Leviathan,

minhas flores do mal para amanhã…”

Quis a gentileza de uma dileta amiga francesa me presentear com esse dois volumezinhos de Green (citados no poema) que devorei com muito interesse. Afinal, sabia desde o início que essa leitura fazia parte do meu projeto de conhecer o que Carpeaux chamou de “a nova literatura católica da França” – “um bloco impressionante, embora não homogêneo” que já me propiciou leituras extraordinárias de Mauriac, Bernanos, Claudel, passando pelas análises do filósofo francês Jacques Maritain. No entanto, bastaram dois livros de Green para eu arrumar um problema de relacionamento com o escritor (não um ataque como o do poeta mas um stop no desejo de reler). Dois livros são uma pequena amostra numa obra tão grande, para que eu me sinta atormentado pela escrita de Green. E se publico este post depois de grande indecisão, o faço porque quero polemizar com o projeto Green que não é nada apropriado ao título do próprio post… Os problemas que levantei após a leitura dizem respeito ao Green que faz boa literatura francesa como originário de uma origem norte-americana, com as armas e os barões assinalados da escrita norte-americana, que talvez funcionem bem para os que querem um drama à mexicana, mas não absolutamente como o velho e bom romance católico fancês. É fato que Green confessa a fé católica tendo sido criado no protestantismo (no que estamos em comunhão). Há quem, entre os católicos, não o veja como tão valioso escritor que professe sua fé (o que também, afinal, diziam os críticos de François Mauriac, mas isso, confesso nunca me causou nenhum problema na leitura).

Já se encontra fora da Igreja, confessadamente, Julien GREEN que, norte-americano nato, não teve a mesma sorte de divertir; pois realmente, não é um autor divertido, mas tremendo. Em compensação, a crítica francesa nunca se arrependeu da maneira entusiasmada com que recebeu esse herdeiro da mais terrível tradição ‘gótica’: Green trata, em Mont-Cinère ou em Épaves, assuntos dignos de Hawthorne, histórias de pecados e crimes secretos, com a penetração psicológica aprendida em Dostoievski (visto através de Gide) e com certos recursos estilísticos do surrealismo. Mas não convém repetir elogios exagerados. Julien Green é um escritor muito desigual. Escreveu dois ou três romances notáveis e vários outros, quase medíocres. É um escritor monótono, repetitivo: certos temas – a violência sexual, a pederastia, o crime de morte contra pais e parentes – voltam com a insistência de ´idées fixes`. No fundo, o único assunto de Green parece a revolta dos monstros que se escondem na alma de homens triviais ou frágeis: Léviathan é a obra-prima. Mas essa revolta, apesar dos seus efeitos palpáveis, não é de natureza física; é como um fogo psíquico que, antes de destruir seu portador, lhe destrói os contornos da realidade, até ele, perdendo a orientação, dar o passo para o abismo. (…) “A existência de um gnóstico como Jouhandeau e de um jansenista como Julien Green às portas do movimento católico francês tem significação teológica. O moralismo jansenista insiste em ignorar o fundamento histórico do dogma e a situação histórica da Igreja no mundo. O cristianismo é, porém, uma religião essencialmente histórica. O ideal da sociedade e conduta católica está situado no passado: na Idade Média e, com menor autenticidade, na época da Contra-Reforma. É natural a afinidade entre a litreratura católica e o romance histórico.” (1)

O argumento principal talvez seja que Green é desigual em qualidade da escrita (nenhuma novidade em literatura, onde a regra parece ser a desigualdade, menos nos escritores absolutamente geniais – e como são poucos!). Nele, que escreveu em profusão, só uma coisa parece ser regra e não a exceção: o franco-americano eleito para a cadeira 22 de L´Academie Française (sucedendo ninguém menos que outro escritor católico – François Mauriac) é prolífico e cala a boca de seus críticos mais contundentes ao arrebanhar leitores em diversos países, tratando de temas como o pecado, a culpa e a expiação. É fato que Julien Green foi marcado pela Fé e pelos dilemas de sua homossexualidade ao longo da vida e que se manteve avesso ao culto da personalidade, abandonando a Academia depois de ter sido eleito para a cadeira 22. Fico me perguntando: o que isso tem a ver com a literatura que Green legou à posteridade? – Nada. É a resposta certa (política e intelectualmente), como a pista para entender o mal-estar que Green me cause esteja talvez no seu dramatismo um tanto exacerbado, uma ausência de verossimilhança que faz de seus personagens esboços de figuras já bem melhor desenhadas por mestres da literatura (que ele próprio apreciava), como Balzac. Por certo eu terei ânimo de lhes transcrever bons trechos do “Mont Cinère” e do “Leviathan” (que é um bom livro – ou uma obra-prima, como afirma Carpeaux), mas isso é assunto pra outro post. Por ora, Gros bisous.
Beto.
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(1) Fonte:História da Literatura Ocidental“, Otto Maria Carpeaux, vol. 8, pág. 2222/2223.