Green light?


Eu me interessei por Julien Green através de um poema de Bruno Tolentino.
Só agora posso dar minha gratuita concordância poética com os versos citados, confessando certo mal-estar que a leitura me causou até agora:

“…mas foi Julien Green

quem me tirou do sério e pôs o spleen

do inefável em mim: tive um ataque

quando li Mont Cinère e Leviathan,

minhas flores do mal para amanhã…”

Quis a gentileza de uma dileta amiga francesa me presentear com esse dois volumezinhos de Green (citados no poema) que devorei com muito interesse. Afinal, sabia desde o início que essa leitura fazia parte do meu projeto de conhecer o que Carpeaux chamou de “a nova literatura católica da França” – “um bloco impressionante, embora não homogêneo” que já me propiciou leituras extraordinárias de Mauriac, Bernanos, Claudel, passando pelas análises do filósofo francês Jacques Maritain. No entanto, bastaram dois livros de Green para eu arrumar um problema de relacionamento com o escritor (não um ataque como o do poeta mas um stop no desejo de reler). Dois livros são uma pequena amostra numa obra tão grande, para que eu me sinta atormentado pela escrita de Green. E se publico este post depois de grande indecisão, o faço porque quero polemizar com o projeto Green que não é nada apropriado ao título do próprio post… Os problemas que levantei após a leitura dizem respeito ao Green que faz boa literatura francesa como originário de uma origem norte-americana, com as armas e os barões assinalados da escrita norte-americana, que talvez funcionem bem para os que querem um drama à mexicana, mas não absolutamente como o velho e bom romance católico fancês. É fato que Green confessa a fé católica tendo sido criado no protestantismo (no que estamos em comunhão). Há quem, entre os católicos, não o veja como tão valioso escritor que professe sua fé (o que também, afinal, diziam os críticos de François Mauriac, mas isso, confesso nunca me causou nenhum problema na leitura).

Já se encontra fora da Igreja, confessadamente, Julien GREEN que, norte-americano nato, não teve a mesma sorte de divertir; pois realmente, não é um autor divertido, mas tremendo. Em compensação, a crítica francesa nunca se arrependeu da maneira entusiasmada com que recebeu esse herdeiro da mais terrível tradição ‘gótica’: Green trata, em Mont-Cinère ou em Épaves, assuntos dignos de Hawthorne, histórias de pecados e crimes secretos, com a penetração psicológica aprendida em Dostoievski (visto através de Gide) e com certos recursos estilísticos do surrealismo. Mas não convém repetir elogios exagerados. Julien Green é um escritor muito desigual. Escreveu dois ou três romances notáveis e vários outros, quase medíocres. É um escritor monótono, repetitivo: certos temas – a violência sexual, a pederastia, o crime de morte contra pais e parentes – voltam com a insistência de ´idées fixes`. No fundo, o único assunto de Green parece a revolta dos monstros que se escondem na alma de homens triviais ou frágeis: Léviathan é a obra-prima. Mas essa revolta, apesar dos seus efeitos palpáveis, não é de natureza física; é como um fogo psíquico que, antes de destruir seu portador, lhe destrói os contornos da realidade, até ele, perdendo a orientação, dar o passo para o abismo. (…) “A existência de um gnóstico como Jouhandeau e de um jansenista como Julien Green às portas do movimento católico francês tem significação teológica. O moralismo jansenista insiste em ignorar o fundamento histórico do dogma e a situação histórica da Igreja no mundo. O cristianismo é, porém, uma religião essencialmente histórica. O ideal da sociedade e conduta católica está situado no passado: na Idade Média e, com menor autenticidade, na época da Contra-Reforma. É natural a afinidade entre a litreratura católica e o romance histórico.” (1)

O argumento principal talvez seja que Green é desigual em qualidade da escrita (nenhuma novidade em literatura, onde a regra parece ser a desigualdade, menos nos escritores absolutamente geniais – e como são poucos!). Nele, que escreveu em profusão, só uma coisa parece ser regra e não a exceção: o franco-americano eleito para a cadeira 22 de L´Academie Française (sucedendo ninguém menos que outro escritor católico – François Mauriac) é prolífico e cala a boca de seus críticos mais contundentes ao arrebanhar leitores em diversos países, tratando de temas como o pecado, a culpa e a expiação. É fato que Julien Green foi marcado pela Fé e pelos dilemas de sua homossexualidade ao longo da vida e que se manteve avesso ao culto da personalidade, abandonando a Academia depois de ter sido eleito para a cadeira 22. Fico me perguntando: o que isso tem a ver com a literatura que Green legou à posteridade? – Nada. É a resposta certa (política e intelectualmente), como a pista para entender o mal-estar que Green me cause esteja talvez no seu dramatismo um tanto exacerbado, uma ausência de verossimilhança que faz de seus personagens esboços de figuras já bem melhor desenhadas por mestres da literatura (que ele próprio apreciava), como Balzac. Por certo eu terei ânimo de lhes transcrever bons trechos do “Mont Cinère” e do “Leviathan” (que é um bom livro – ou uma obra-prima, como afirma Carpeaux), mas isso é assunto pra outro post. Por ora, Gros bisous.
Beto.
+++++
(1) Fonte:História da Literatura Ocidental“, Otto Maria Carpeaux, vol. 8, pág. 2222/2223.

3 comentários em “Green light?

  1. Apesar de ser já tão fora de tempo (se olharmos para a data em que o Adalberto escreveu este texto sobre Julien Green, não resisto a dizer-lhe (deste cantinho à beira-mar plantado que é Portugal) que para mim, que estudei em França e trabalhei sobre esse autor 17 anos seguidos (é obra! nem sei como não me internaram num manicómio…)é sempre com algum espanto que vejo referências ao homem e à obra vindos dos mais diversos quadrantes. Com efeito, acabei por denvolver, com o autor e a obra, “uma relação de amor-ódio” que não me deixa separar-me dele, ainda hoje, apesar de ter, para bem da minha saúde mental, diversificado os meus interesses investigativos. Mais ainda: pelo Adalberto, acabo de saber que até há quem escreva poemas sobre o J. Green! Quem ia gostar de saber era o “filho-herdeiro” Eric Jourdan!!!
    A propósito, conhece a parte do Diário (o mais volumoso da história da lietratura mundial)em que le fala da sua passagem por Lisboa, em 1940, a caminho do “exílio” para os Estados-Unidos com o seu “amigo” Robert de Saint-Jean? Vale a pena!( “La fin d’un monde”). Até sempre

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  2. Bem-Vinda, Otília.
    Fico feliz com sua visita. Gostaria muito de conhecer esse volume (La Fin d´un Monde).
    Volte sempre a esse meu cantinho de resenhas e testemunhos de minha vida com a arte, a literatura, as viagens e com o Sagrado.
    Amitiés,
    BetoQ.

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  3. Pingback: Minhas leituras em 2008 « Adalberto de Queiroz

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