Link para a Imaginação

É tanto o que me passa pela cabeça, lendo aqui e ali em papel e na tela, tenho mil idéias nos domínios da imaginação – não aquela “doida da casa” que Santa Teresa d´Ávila nos ensina a evitar. A imaginação que o comunista Italo Calvino achou como a solução para a pergunta de Starobinski baseada no verso de Dante de que “a imaginação é um lugar dentro do qual chove“.

A pergunta original era:

Por qual dessas você optaria: a imaginação como instrumento de saber ou como identificação com a alma do mundo?

E uma pergunta decorrente do ensaio de Calvino tanto ou mais forte me retorna:

Que futuro estará reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar de a civilização da imagem?

Cedo à imaginação seu lugar privilegiado como motor da poesia e do exercício espiritual (como queria Santo Inácio de Loyola). Em geral, no entanto, eu descambo para a imaginação pecaminosa como criatório de vermes do universo (e para vermes, deve-se procurar o bom remédio).

E nesse caso, ainda não achei outra possibilidade tão forte, nesse embate, como os Salmos e as preces.

Repetir uma oração é então a saída pois que a sua força está na repetição, ao longo prece, tenho a devolução da paz interior que garante a ligação palavra-visão do que crê (o que quer crê) com o lugar em que está Nosso Senhor e A Virgem Maria.
O liame da prece com o lugar imaginado é uma dádiva: o deslocamento do lugar em que se deseja estar meditando.
Pode ser um deslumbramento.
Aí não interessa ao que reza estar no mundo e tão somente, quer ir mais longe, sem desgrudar-se fisicamente do chão físico de onde se está, não quer perder a referência, não que perder o fio da sua essência, o que reza não quer enlouquecer.

O imaginativa che ne rube
talvolta sì di fuor, ch’om non s’accorge
perché dintorno suonin mille tube,

chi move te, se ‘l senso non ti porge?
Moveti lume che nel ciel s’informa,
per sé o per voler che giù lo scorge.

(Na tradução de Ivo Barroso:

“Ó imaginativa que por vezes
tão longe nos arrasta, e nem ouvimos
as mil trombetas que ao redor ressoam;
que te move, se o senso não te excita?
Move-te a luz que lá no céu se forma
por si ou esse poder que a nós te envia.”

(…)

E encerro esta croniqueta com Adélia Prado para que meus seis leitores continuem imaginando. Ela, que assim reagia, diante da imaginação poética, diante da voz interior – a sua tagarela implacável:

Se eu não ficar doida

É saúde demais…

E sem ceder à imaginação como ceder “àquela doida da casa”, vou varrendo minha morada interior com um Salmo e a poesia metafísica…

 

A história da Idade Média levada a sério

Não, a História não deve “terminar em pizza”. Sobre o “fatiamento” da história e outros ajustes, para uma melhor compreensão da Idade média, leia e comente meu artigo em Destarte, Opção Cultural Online.
Clique para ler.Destarte 24 JAN 2018.PNG

Uma cabeça sem olhos e um corpo sem sepultura…

Livros, meu refúgio ou: uma cabeça sem olhos e um corpo sem sepultura                                                                                 por Adalberto de Queiroz.                                                                                                (originalmente publicado em 2006 no blog “Zadig”)

Um conselho do escritor Marcel Proust me parece o mais sensato nesta hora exata do nosso país e de nosso noticiário: afaste-se dos jornais e se ancore nos livros, para reabilitar algo como “os jornais e as coisas insignificantes” versus “os livros e as coisas essenciais“.

Há muito deixei de ver os jornais de TV – os jornais falados – estão infectados de interesses e de uma retórica gramsciana. Me irritam os jornais. A realidade que lêem para os analfabetos é um prato de propaganda do lulismo, do agnosticismo, da república sindical que se instalou entre nós e da ausência de valores, da tristeza que nos circunda.
E a angústia, olhando para os livros tem outra cara?
– “A angústia é uma cabeça sem olhos.”

confusao-presidio-semiaberto-aparecida-goiania

Eis a realidade do nosso país, e de outros ao redor do mundo; realidade que os jornais são incapazes de decifrar.

Lembrai-vos, leitores de jornais, há algum tempo atrás um outro menino jogava a cabeça decepada de um colega por sobre o muro, mas não há suite dos fatos e das interpretações.

Qual é o sacrifício possível numa realidade sem interpretação como esta?
Qual sacrifício aceitável entre nós, brasileiros, exaustos mas incapazes de reação?
Todas as reações foram elegíveis ao supremo altar da representação – o parlamento, inundado de interesses mas ainda menos podre que o reino – a coorte neo-marxista que se exime do dever de solução posto que suprema coorte representando os próprios executores. Dormir com tal ruído, quem há-de?

Que o sacrifício deste pequeno menino carioca seja examinado sob a luz do “acidente de trabalho” de pequenos malfeitores, assaltantes (estes falsos moedeiros) escondidos em pele do cordeiro (da legislação) na caverna do monstro Ciclope (Ulisses às avessas…). Eles não foram capazes de apagar as pistas sobre o asfalto ensangüentado, não se deram conta da violência que cometeram?

Provavelmente, é comum tal intensidade de violência no meio dos pequenos delinquentes sem pena (quem sabe?).
E quem sabe o que se seguirá a essa violência do Rio, quando a Igreja e o Executivo dizem que não há correção – e os magistrados se calam ou torcem a Lei – se negando a admitir ou a exercer de fato o castigo sobre os violentos e assassinos, independentemente de suas idades…

Desde que se acende em um reino ou em uma república este fogo violento e impetuoso, vemos os magistrados aturdidos, as populações apavoradas, o governo desarticulado. A justiça não é mais obedecida; os trabalhos param; as famílias perdem sua coesão, e as ruas sua animação. Tudo se reduz à extrema confusão. Tudo cai em ruínas. Com efeito, tudo é atingido e abalado pelo peso e pela grandeza de uma calamidade tão horrível. As pessoas, sem distinção de estado ou de de fortuna, são afogadas por uma tristeza mortal…Aqueles que ontem enterravam, hoje são enterrados…  Recusa-se qualquer piedade pelos amigos, pois toda piedade é perigosa…

“Todas as leis do amor e da natureza se encontram afogadas ou esquecidas no meio dos horrores de tão grande confusão, as crianças são repentinamente separadas de seus pais, as mulheres dos maridos, os irmãos ou os amigos uns dos outros… Os homens perdem sua coragem natural e, não sabendo mais qual conselho seguir, caminham como cegos desesperados que se obstinam a cada passo em seu medo e em suas contradições.” (1)

+++++
(1) Francisco de Santa Maria, “História de sagradas congregações”, Lisboa, 1697, citado por René GIRARD,  “O Bode Expiatório”, p.20.

Para Ler na Semana Santa 2015 (2)

M I S T É R I O da Paixão de C R I S T O
**********************************************

Com meu amigo Sérgio Souza dO BLOG “OCAMPONES.COM”
(c)imagem by Veniteadme.wordpress.com
Santo Agostinho

“Nós – dizia Santo Agostinho ao povo – sabemos e acreditamos com fé certíssima que Cristo morreu só uma vez por nós […]. Sabeis perfeitamente bem que tudo isto foi feito apenas uma vez e ainda assim a solenidade periodicamente o renova […]. Verdade histórica e solenidade litúrgica não estão em contradição entre si, como se a segunda fosse falácia e somente a primeira correspondesse à verdade. Do que a história afirma ter acontecido uma só vez na realidade, a solenidade renova muitas vezes a celebração nos corações dos fiéis”.
(S. Agostinho, Sermone 220; PL 38, 1089).
Numa homilia de Páscoa do século IV, o bispo pronunciava estas palavras surpreendentemente modernas e, por assim dizer, existenciais: “Para cada homem, o princípio da vida é aquele, a partir do qual Cristo foi imolado por ele. Mas Cristo é imolado por ele quando ele reconhece a graça e se torna consciente da vida que lhe foi dada por aquela imolação”(Homilia pascal do ano 387; SCh 36, p. 59 s.). Com ZENITCésar Miranda e Sergio de Souza.

Eis a boa leitura, antes que anunciemos a Páscoa de Cristo… Continue lendo n’O Camponês.com/

 

Posts Ligeiros (II)

ONTEM, depois de uma rápida reunião com um amigo, vivi uma tarde de garimpagem nos sebos. O melhor me veio da Feira Cultural da Rua 4. Bamburrei nas raridades do livreiro Sr. Joari, há 40 anos no ramo.

Foto de Adalberto De Queiroz.
Foto de Adalberto De Queiroz.
Foto de Adalberto De Queiroz.

Jorge de Lima e sua “Ode ao Coxo Veloz” ou: Bernanos, uma vigília inumerável…

“NO MOMENTO EM QUE IA ESCREVER SOBRE TI, BERNANOS, FUI IMPELIDO POR SECRETA FORÇA ÍNTIMA A ESCREVER-TE…”

Jorge de Lima_Foto RetocadaAssim o poeta Jorge de Lima inicia sua ODE AO COXO VELOZ*. Agora que o mundo relembra o Centenário da I Guerra Mundial, jornais lembram o Diário de Bernanos, com o seu estilo inconfundível e sua cólera e amargura derramadas contra “os poderosos do mundo” nem sempre dispostos a manter a Paz, quebrando pactos e nos afundando em outros conflitos – como foi o caso da II Guerra e de tantos outros conflitos ao redor do mundo. Depois de seu testemunho em prol dos “Rapazes Franceses” e de todo o mundo que são as primeiras vítimas dos campos de batalha, nada pode ser igual e o elogio da coragem nunca é demasiado…

A Ode ao Coxo Veloz abre o livro de Hubert Sarrazin “Bernanos no Brasil”, Testemunhos vividos de grandes escritores brasileiros, reunidos e apresentados por H. Sarrazin. O propósito do livro é reunir depoimentos de “vozes brasileiras que poderiam fazer-se ouvir sobre o homem que foi seu [do Brasil] hóspede de 1938-1945…” – diz a editora na ‘orelha’ do livro citado – a mesma época dos Diários agora revividos em França. Com uma memória enfraquecida por décadas de ideologia nas universidades, cátedras, círculos literários e academias, o país pode perder a memória deste hóspede ilustre e iconoclasta – o “grande Urso”, Le Grand Georges – o escritor para quem não ha descanso – pois sempre lutou; o que não teve ideologias que o calasse: Bernanos que foi um grande Cristão, o Escritor-Católico entre os católicos; o Escritor Francês entre os franco-“Brasileiros” (o adjetivo pátrio aqui desejado por este blogueiro e pelo próprio Bernanos que diversas vezes manifestou-se cidadão do mundo, mas amante incondicional do Brasil…).

Pela manutenção da memória de hóspede tão ilustre das terras de França no Brasil, mantenho uma página dedicada a Bernanos.


Continuemos com a Ode (de J.L.)…  Leia mais

Educação Continuada no meu ano sabático

Primeiro dia do programa de estudos do Fall’14, na UNM.

Depois voltarei com mais detalhes.
Por ora, só passo pra manifestar meu entusiasmo dessa volta às aulas…

Beto na UNM, Fall14
Na entrada do CE Building UNM, Albuquerque, NM

Fixo-me neste primeiro insight que recebi no curso – e tal como Sidonius, estou usando o final deste meu ano sabático para estudos e reflexões – “Otium Rustica“.

Saint GermainSaint Martin, France