Místicos e Mestres Medievais

Na UNIVERSIDADE DO NOVO MÉXICO (UNM),Medieval Lectures0001 passei uma agradável semana acompanhando palestras sobre o tema em referência,

– foi uma excelente atividade no meu período de férias in USA, e uma rara oportunidade de retomar o estudo de assuntos que tangenciavam meu dia-a-dia como comerciante, sofrendo em meio à ázafama do cotidiano o que S.Tomás (ele que foi membro de uma família de comerciantes) – , chamava de “as agruras do comércio”.

O evento MEDIEVAL MYSTICS AND MASTERS, Spring Lectures Series 2014, ocorrido em Albuquerque (NM, USA), de 18 abril/1o. de Maio; de iniciativa do Institute for Medieval Studies (IMS) e apoio da comunidade local.

O fato me animou a retornar à UNM no próximo Outono (Fall ‘14), para me dedicar aos estudos de Humanidades (Francês e estudos Medievais), que por muitos anos foram sendo adiados em virtude da agenda quase sempre repleta de compromissos comerciais, como diretor da Multidata Informática nestes últimos 20 anos.

Abaixo, o leitor encontrará minha visão geral do evento e o que nele mais me chamou a atenção. Foram seis dias de intensa atividade de retorno a uma época da história da Humanidade que é de uma riqueza insondável, às vezes obnubliada pelo preconceito difundido por certa parte da mídia.

Ao designar a era Medieval como idade das trevas, não fazem tais críticos senão uma ‘generalização apressada’ sobre uma período riquíssimo em cultura, espiritualidade e visões definitivas para o que hoje gozam no ambiente acadêmico e cultural pós-Iluminista.

FRANKLIN de Oliveira resumiu muito bem tal preconceito, em seu magistral livro sobre Literatura e Civilização:

A idade Médianão foi, de forma alguma, a Dark Ages inventada pelos historiadores liberais do séc. XIX, mas genuína herdeira do mundo greco-romano. (*)

“Desde logo acentue-se que sem o conhecimento de sua história torna-se impossível a compreensão do mundo moderno, consequentemente do mundo contemporâneo.

Há um fato fundamental, que, dizendo de sua importância, também elide as teorias que a definiram como época escura: ela significa a fundação da Europa em sua base cristã-romana. Para apreender-se o veio subterrâneo que a informou basta pensar, numa simplificação que, apesar de ser quase um despojamento histórico, nem por isto despe-se de significação cultural, em dois fatos que ocorreram no seu seio: o estupendo fato da literatura provençal e a aparição da poesia dos clerici vagantes.

“…Pense-se nos vários proto-renascimentos que ocorreram no bojo do Medievo, onde Francesco d’Assisi acionou a grande revolução espiritual de que se nutriram a pintura de Giotto, o visionarismo libertário de Gioacchino da Fiore, de Giovanni da Parma, de Pier di Giovanni Olivi, Ubertino da Casale, Michele da Cesena, Almarico di Bena, os Spirituali e a poesia de Dante.” (1)

a) DO ESCOPO do evento:

NOTA-SE, desde logo, um claro ecumenismo na programação do evento, o que se refletiu também no auditório, onde era notável a presença de diversos credos.
No primeiro dia sentei-me ao lado do meu colega Bernard Hassan (Ossian), e logo travamos relacionamento com dois padres que estavam sentados na fila atrás de nós. O frei Peter é o pároco na igreja santa Maria de la Via Abbey (Our Lady of the Most Holy Rosary). Seu interesse naturalmente é imenso sobre o tema, muito mais porque acaba de concluir alguns anos de pesquisa e deve preparar um livro sobre a idade Média, com foco no Tomismo. Havia outros clérigos católicos e leigos de diversas religiões (protestantes, islamitas, judeus e hindus), além, é claro, de membros (amigos) da sociedade que patrocina o evento junto com o ISM – veja no verso do folheto em cópia os apoios, com destaque para a sociedade “Friends of Medieval Studies”.

O programa incluía, pois, uma mirada ampla que começava nos místicos cristãos Hildegard de Bingen e Giocchiano da Fiore; passando por dois mestres muçulmanos – Avicena e al-Farabi; chegando ao Sufismo medieval (com Jalal al-Din Rumi); além de uma sessão dedicada ao Budismo tibetano, representado na vida e obra de Yeshe Tsogyal, figura central da mais antiga escola tibetana de Budismo.
Sem dúvida, Os palestrantes eram todos de alto nível, como se pode ver pela ficha de cada um deles, sempre professores eméritos, mestres e doutores com uma ou várias publicações sobre o tema que focaram em suas conferências. Um especialista em filosofia islâmica e judaica –
Lenn E. Goodman abordou os dois mestres muçulmanos (Al-Farabi e Avicena), além da vida e obra do Rabbi Moses ben Maimon (1138-1204)  – que não são objeto deste post.

b) DOS MÍSTICOS CRISTÃOS – O professor Dr. Bernard McGinn foi o palestrante que mais me empolgou, seja pela qualidade das intervenções, seja pela vitalidade e bom-humor demonstrados em suas conferências.

Especialista em história da teologia Cristã, em Patrística e Medievalismo, McGinn tem diversos livros publicados (veja lista no link abaixo) e, recentemente, tem se dedicado a escrever sobre escatologia e história da espiritualidade e do misticismo.

ComAutografo Dr.BernardMcGinno fiquei fã do estilo e do alto saber do professor, superei minha timidez e ousei  pedir-lhe um autógrafo em livro que eu já havia encomendado à Amazon: “The Doctors of the Church”.

Escolhi esse e mais um outro exemplar para adquirir durante o evento por conta de interesses anteriores – p.ex., minha admiração e constante desejo de conhecer mais aprofundadamente a obra de Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz; Santa Catarina de Sena entre outros Doutore(a)s da Igreja. Adquiri também “ (Modern Library Classics)” – vide resenha neste link.
Ambos estão na fila de leitura que aumentou consideravelmente depois deste seminário na UNM.

Fiquei impressionado com a força espiritual e muito interessado em dois personagens que eu não conhecia tanto, em meio a tantos Mestres e Místicos (do período abordado); além do visionário Gioacchino Da Fiori (que eu já conhecia de minhas leituras nos livros de Eric Voegelin) – destaco Hildegard de Bingen e Mestre Eckhart.

O traço comum que encontrei entre esses homens e mulheres deste rico período medieval foi a imensa capacidade que tiveram de manter contínuo diálogo com Deus, de manter a centralidade no Sagrado e uma forte determinação de manter fina sintonia com o Criador.

Fiquei também muito interessado em ler os Sermões de Eckhart, o dominicano de Colônia (Alemanha) que encantou Paris com suas homilias, mas não agradou o papa João XXIII, que o acusa de heresia e o persegue mesmo depois da morte do mestre Eckhart…


O raro título de “Magister Academus” (Meister) recebido na Sorbonne se incorpora ao seu nome de batismo, passando o dominicano Johannes Eckhart a ser chamado de Meister Eckhart (**) – “um servo de Deus que nunca parou de sonhar e de trabalhar, pregador, doutrinador e escritor incansável..”

Ele recebeu de seus colegas dominicanos a fraternidade e a láurea de ser reconhecido o primeiro pregador a juntar a Escolástica com a Nova Teologia em vernáculo (a chamada “emerging vernacular theology”, lembrando que o Latim era a língua da Igreja, nos sermões e nos estudos teológicos à época).

Apesar da grandeza de tudo que fez, Mestre Eckhart teve divergências com o papa. Na época em que João XXIII ordena que ele justifique uma nova série de proposições extraídas de seus escritos, ele declarou:

“Eu posso errar, mas eu não sou um herege, pois errar tem a ver com a mente e o segundo com a vontade!”

Diante de juízes que não tinham experiência mística comparável a sua própria, Eckhart se referiu a sua certeza interior assim:

…O que eu tenho ensinado é a verdade nua e crua”; pois:
O olho com que eu vejo Deus é o mesmo pelo qual Ele me vê…

A bula do Papa João XXII , de 27 de março de 1329, condena 28 proposições extraídas das duas listas. Uma vez que fala de Meister Eckhart como já morto, infere-se que Eckhart morreu algum tempo antes, talvez em 1327 ou 1328. Ele também diz que Eckhart tinha recolhido os erros da acusação.

Era intensa e íntima sua ligação com Deus e esse era o caminho que desejava para os seus fiéis e o que pregava em seus sermões. Uma frase sintetiza sua definição prática do que seu misticismo:

“Misticismo é profunda consciência de Deus em nossa vida;
é busca de profundo conhecimento e profunda União com Deus…”

Medieval Lectures0002O professor McGinn criou um gráfico (manual mesmo) sobre o pensamento místico da maturidade do Meister Eckhart – baseado em “Grunt = Ground” – quatro estágios da união entre a alma humana e Deus: algo na linha do que a enciclopédia Britannica considera como traços de “dissimilarity, similarity, identity, breakthrough” no maduro Eckhart (e muito mais!) – e quem sabe, me animo a num próximo post dedicar-me a repercutir esse aspecto da palestra, pois que amplo e profundo demais para o final dessas linhas?!

NOTAS ESPARSAS – de B.McG.
– 3 são os tipos de cristãos do Medievo:
a) Os visionários; b) Os místicos; c) Os Profetas.
Gioacchino-da-Fiore-232x300
Joaquim da Fiori reúne as 3 qualidades. (cfme. II Cor. 12: Os sinais distintivos do verdadeiro apóstolo se realizaram em vosso meio através de uma paciência a toda prova, de sinais, prodígios e milagres.).

– No Evangelho de S. João o dom que caracteriza o “Visionário” se torna evidente em 24 citações do verbo “Ver” (em diversos tempos), incluindo o convite: “Vinde e Vede…”
(Ev. Jo.: 1:38 – “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes:
Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
39 Vinde e vede, respondeu-lhes Ele…”).

– Comuns aos apóstolos e seguidores de Cristo até a idade Média, as “Visões” foram decisivas para a construção do Cristianismo e dos espaços que a Igreja viria a ocupar – ordens, templos, escritos, releitura da Tradição etc. A Revelação continuada se traduz, assim, em visões espirituais e intelectuais. Essas visões se tornam formas externas de uma “extasis” (cf. ecstasis).

– Aquilo que designamos por “visões supernaturais”, restritas a uns poucos é “um Olhar especial para Deus”. Por vezes, essas visões permitem construir mosteiros (Hildegard de Bingen e Joaquim da Fiori), descobrir continentes (Colombo e a visão de novas terras); o dom de fornecer “dicas” sobre eventos futuros – vide o encontro de Da Fiori com o Rei Ricardo “Coração de Leão”; exercer uma pedagogia (educação de noviços, disciplina para o serviço religioso: pregadores, monges e monjas) – entender (e fazer entender) o mistério da Santíssima Trindade (p.ex., em Hildegard).

– As visões de Hildegard, diz McGinn “indicam sempre um didático propósito: a Unidade da Santíssima Trindade (vide figuras que bem ilustram as visões).
Santa Hildegard de Bingen
foi declarada
Doutora da Igreja por Bento XVI, em 2012. Sua obra mais difundida e que dela faz quase um consenso de que é uma Santa para o nosso século – “The Book of Divine Works”.

Fico devendo também algumas linhas (mais aprofundadas) sobre Gioacchino da Fiori e Hildegard de Bingen, ambos visionários e realizadores, sempre inspirados na sua Fé e em viver o misticismo inteiramente

c) E antes de terminar, alinho minhas perspectivas e sonhos de voltar à UNM no próximo Outono ( Fall’14 ) para cursos de Religião comparada e de Francês, departamento este em que fui muito bem recebido pela professora Marina Peters-Newells.

d) Plano de leituras e livros referenciados no conclave:
Perdoe-me se o tempo e o espaço não me permitem me dedicar a outras conferências, mas como se sabe, todo texto exige escolha de palavras e é comandado pelo gosto pessoal do blogueiro.
Não imagine o leitor que desgostei das demais palestras, mas por ter gostado tanto das palestras e dos temas de McGinn, é que escolhi dedicar-me mais aos tópicos por ele levantados. E, para finalizar, deixo aos interessados nos livros do dr. Bernard McGinn, um link da Amazon dos livros de sua autoria e da página especial dedicada no website ao Autor.

LINK para >>>Dr. Bernard McGinn na AMAZON.com Bernard McGinn

(*) Conexões: um agradecimento especial a meu amigo Bernard Hassan e à professora Marina Peter-Newells (French Department) pelas orientações e pelas conexões que me ajudaram a sonhar com (e tornar possível) meu retorno à Universidade do Novo México em setembro próximo, para estudos em Religião e Francês.

+++++
Fontes:
(1) DE OLIVEIRA, Franklin. “Literatura e Civilização”, Ed. Difel-INL/Mec, S. Paulo, 1978. p.18/19.
…Idade Média: esta nova aetas, que Melchior Goldast, em 1604 denominou medium aevum e Joachim von Watt media aetas – nesta linha de seccionamento da unidade do fluxo histórico navegaram Beatus Rhenanus e Heerwegwn, utilizando-se em Basiléia dos conceitos de media antiquitas e media tempora, e Georg Horn, em Leiden, que incorporaram em 1665 o período à historia recentior em oposição à historia antiqua…”
(**) Mestre Eckhart nasceu por volta de 1260 e faleceu em 1327/8.

(2) McGINN, Bernard. Obra completa – veja link – Amazon. Ref. cit. acima (link).
Folheto do evento – com os agradecimentos aos patrocinadores.

Místicos e Mestres Medievais

Na UNIVERSIDADE DO NOVO MÉXICO (UNM),Medieval Lectures0001 passei uma agradável semana acompanhando palestras sobre o tema em referência,

– foi uma excelente atividade no meu período de férias in USA, e uma rara oportunidade de retomar o estudo de assuntos que tangenciavam meu dia-a-dia como comerciante, sofrendo em meio à ázafama do cotidiano o que S.Tomás (ele que foi membro de uma família de comerciantes) – , chamava de “as agruras do comércio”.

O evento MEDIEVAL MYSTICS AND MASTERS, Spring Lectures Series 2014, ocorrido em Albuquerque (NM, USA), de 18 abril/1o. de Maio; de iniciativa do Institute for Medieval Studies (IMS) e apoio da comunidade local.

O fato me animou a retornar à UNM no próximo Outono (Fall ‘14), para me dedicar aos estudos de Humanidades (Francês e estudos Medievais), que por muitos anos foram sendo adiados em virtude da agenda quase sempre repleta de compromissos comerciais, como diretor da Multidata Informática nestes últimos 20 anos.

Abaixo, o leitor encontrará minha visão geral do evento e o que nele mais me chamou a atenção. Foram seis dias de intensa atividade de retorno a uma época da história da Humanidade que é de uma riqueza insondável, às vezes obnubliada pelo preconceito difundido por certa parte da mídia.

Ao designar a era Medieval como idade das trevas, não fazem tais críticos senão uma ‘generalização apressada’ sobre uma período riquíssimo em cultura, espiritualidade e visões definitivas para o que hoje gozam no ambiente acadêmico e cultural pós-Iluminista.

FRANKLIN de Oliveira resumiu muito bem tal preconceito, em seu magistral livro sobre Literatura e Civilização:

A idade Médianão foi, de forma alguma, a Dark Ages inventada pelos historiadores liberais do séc. XIX, mas genuína herdeira do mundo greco-romano. (*)

“Desde logo acentue-se que sem o conhecimento de sua história torna-se impossível a compreensão do mundo moderno, consequentemente do mundo contemporâneo.

Há um fato fundamental, que, dizendo de sua importância, também elide as teorias que a definiram como época escura: ela significa a fundação da Europa em sua base cristã-romana. Para apreender-se o veio subterrâneo que a informou basta pensar, numa simplificação que, apesar de ser quase um despojamento histórico, nem por isto despe-se de significação cultural, em dois fatos que ocorreram no seu seio: o estupendo fato da literatura provençal e a aparição da poesia dos clerici vagantes.

“…Pense-se nos vários proto-renascimentos que ocorreram no bojo do Medievo, onde Francesco d’Assisi acionou a grande revolução espiritual de que se nutriram a pintura de Giotto, o visionarismo libertário de Gioacchino da Fiore, de Giovanni da Parma, de Pier di Giovanni Olivi, Ubertino da Casale, Michele da Cesena, Almarico di Bena, os Spirituali e a poesia de Dante.” (1)

a) DO ESCOPO do evento:

NOTA-SE, desde logo, um claro ecumenismo na programação do evento, o que se refletiu também no auditório, onde era notável a presença de diversos credos.
No primeiro dia sentei-me ao lado do meu colega Bernard Hassan (Ossian), e logo travamos relacionamento com dois padres que estavam sentados na fila atrás de nós. O frei Peter é o pároco na igreja santa Maria de la Via Abbey (Our Lady of the Most Holy Rosary). Seu interesse naturalmente é imenso sobre o tema, muito mais porque acaba de concluir alguns anos de pesquisa e deve preparar um livro sobre a idade Média, com foco no Tomismo. Havia outros clérigos católicos e leigos de diversas religiões (protestantes, islamitas, judeus e hindus), além, é claro, de membros (amigos) da sociedade que patrocina o evento junto com o ISM – veja no verso do folheto em cópia os apoios, com destaque para a sociedade “Friends of Medieval Studies”.

O programa incluía, pois, uma mirada ampla que começava nos místicos cristãos Hildegard de Bingen e Giocchiano da Fiore; passando por dois mestres muçulmanos – Avicena e al-Farabi; chegando ao Sufismo medieval (com Jalal al-Din Rumi); além de uma sessão dedicada ao Budismo tibetano, representado na vida e obra de Yeshe Tsogyal, figura central da mais antiga escola tibetana de Budismo.
Sem dúvida, Os palestrantes eram todos de alto nível, como se pode ver pela ficha de cada um deles, sempre professores eméritos, mestres e doutores com uma ou várias publicações sobre o tema que focaram em suas conferências. Um especialista em filosofia islâmica e judaica –
Lenn E. Goodman abordou os dois mestres muçulmanos (Al-Farabi e Avicena), além da vida e obra do Rabbi Moses ben Maimon (1138-1204)  – que não são objeto deste post.

b) DOS MÍSTICOS CRISTÃOS – O professor Dr. Bernard McGinn foi o palestrante que mais me empolgou, seja pela qualidade das intervenções, seja pela vitalidade e bom-humor demonstrados em suas conferências.

Especialista em história da teologia Cristã, em Patrística e Medievalismo, McGinn tem diversos livros publicados (veja lista no link abaixo) e, recentemente, tem se dedicado a escrever sobre escatologia e história da espiritualidade e do misticismo.

ComAutografo Dr.BernardMcGinno fiquei fã do estilo e do alto saber do professor, superei minha timidez e ousei  pedir-lhe um autógrafo em livro que eu já havia encomendado à Amazon: “The Doctors of the Church”.

Escolhi esse e mais um outro exemplar para adquirir durante o evento por conta de interesses anteriores – p.ex., minha admiração e constante desejo de conhecer mais aprofundadamente a obra de Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz; Santa Catarina de Sena entre outros Doutore(a)s da Igreja. Adquiri também “ (Modern Library Classics)” – vide resenha neste link.
Ambos estão na fila de leitura que aumentou consideravelmente depois deste seminário na UNM.

Fiquei impressionado com a força espiritual e muito interessado em dois personagens que eu não conhecia tanto, em meio a tantos Mestres e Místicos (do período abordado); além do visionário Gioacchino Da Fiori (que eu já conhecia de minhas leituras nos livros de Eric Voegelin) – destaco Hildegard de Bingen e Mestre Eckhart.

O traço comum que encontrei entre esses homens e mulheres deste rico período medieval foi a imensa capacidade que tiveram de manter contínuo diálogo com Deus, de manter a centralidade no Sagrado e uma forte determinação de manter fina sintonia com o Criador.

Fiquei também muito interessado em ler os Sermões de Eckhart, o dominicano de Colônia (Alemanha) que encantou Paris com suas homilias, mas não agradou o papa João XXIII, que o acusa de heresia e o persegue mesmo depois da morte do mestre Eckhart…


O raro título de “Magister Academus” (Meister) recebido na Sorbonne se incorpora ao seu nome de batismo, passando o dominicano Johannes Eckhart a ser chamado de Meister Eckhart (**) – “um servo de Deus que nunca parou de sonhar e de trabalhar, pregador, doutrinador e escritor incansável..”

Ele recebeu de seus colegas dominicanos a fraternidade e a láurea de ser reconhecido o primeiro pregador a juntar a Escolástica com a Nova Teologia em vernáculo (a chamada “emerging vernacular theology”, lembrando que o Latim era a língua da Igreja, nos sermões e nos estudos teológicos à época).

Apesar da grandeza de tudo que fez, Mestre Eckhart teve divergências com o papa. Na época em que João XXIII ordena que ele justifique uma nova série de proposições extraídas de seus escritos, ele declarou:

“Eu posso errar, mas eu não sou um herege, pois errar tem a ver com a mente e o segundo com a vontade!”

Diante de juízes que não tinham experiência mística comparável a sua própria, Eckhart se referiu a sua certeza interior assim:

…O que eu tenho ensinado é a verdade nua e crua”; pois:
O olho com que eu vejo Deus é o mesmo pelo qual Ele me vê…

A bula do Papa João XXII , de 27 de março de 1329, condena 28 proposições extraídas das duas listas. Uma vez que fala de Meister Eckhart como já morto, infere-se que Eckhart morreu algum tempo antes, talvez em 1327 ou 1328. Ele também diz que Eckhart tinha recolhido os erros da acusação.

Era intensa e íntima sua ligação com Deus e esse era o caminho que desejava para os seus fiéis e o que pregava em seus sermões. Uma frase sintetiza sua definição prática do que seu misticismo:

“Misticismo é profunda consciência de Deus em nossa vida;
é busca de profundo conhecimento e profunda União com Deus…”

Medieval Lectures0002O professor McGinn criou um gráfico (manual mesmo) sobre o pensamento místico da maturidade do Meister Eckhart – baseado em “Grunt = Ground” – quatro estágios da união entre a alma humana e Deus: algo na linha do que a enciclopédia Britannica considera como traços de “dissimilarity, similarity, identity, breakthrough” no maduro Eckhart (e muito mais!) – e quem sabe, me animo a num próximo post dedicar-me a repercutir esse aspecto da palestra, pois que amplo e profundo demais para o final dessas linhas?!

NOTAS ESPARSAS – de B.McG.
– 3 são os tipos de cristãos do Medievo:
a) Os visionários; b) Os místicos; c) Os Profetas.
Gioacchino-da-Fiore-232x300
Joaquim da Fiori reúne as 3 qualidades. (cfme. II Cor. 12: Os sinais distintivos do verdadeiro apóstolo se realizaram em vosso meio através de uma paciência a toda prova, de sinais, prodígios e milagres.).

– No Evangelho de S. João o dom que caracteriza o “Visionário” se torna evidente em 24 citações do verbo “Ver” (em diversos tempos), incluindo o convite: “Vinde e Vede…”
(Ev. Jo.: 1:38 – “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes:
Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
39 Vinde e vede, respondeu-lhes Ele…”).

– Comuns aos apóstolos e seguidores de Cristo até a idade Média, as “Visões” foram decisivas para a construção do Cristianismo e dos espaços que a Igreja viria a ocupar – ordens, templos, escritos, releitura da Tradição etc. A Revelação continuada se traduz, assim, em visões espirituais e intelectuais. Essas visões se tornam formas externas de uma “extasis” (cf. ecstasis).

– Aquilo que designamos por “visões supernaturais”, restritas a uns poucos é “um Olhar especial para Deus”. Por vezes, essas visões permitem construir mosteiros (Hildegard de Bingen e Joaquim da Fiori), descobrir continentes (Colombo e a visão de novas terras); o dom de fornecer “dicas” sobre eventos futuros – vide o encontro de Da Fiori com o Rei Ricardo “Coração de Leão”; exercer uma pedagogia (educação de noviços, disciplina para o serviço religioso: pregadores, monges e monjas) – entender (e fazer entender) o mistério da Santíssima Trindade (p.ex., em Hildegard).

– As visões de Hildegard, diz McGinn “indicam sempre um didático propósito: a Unidade da Santíssima Trindade (vide figuras que bem ilustram as visões).
Santa Hildegard de Bingen
foi declarada
Doutora da Igreja por Bento XVI, em 2012. Sua obra mais difundida e que dela faz quase um consenso de que é uma Santa para o nosso século – “The Book of Divine Works”.

Fico devendo também algumas linhas (mais aprofundadas) sobre Gioacchino da Fiori e Hildegard de Bingen, ambos visionários e realizadores, sempre inspirados na sua Fé e em viver o misticismo inteiramente

c) E antes de terminar, alinho minhas perspectivas e sonhos de voltar à UNM no próximo Outono ( Fall’14 ) para cursos de Religião comparada e de Francês, departamento este em que fui muito bem recebido pela professora Marina Peters-Newells.

d) Plano de leituras e livros referenciados no conclave:
Perdoe-me se o tempo e o espaço não me permitem me dedicar a outras conferências, mas como se sabe, todo texto exige escolha de palavras e é comandado pelo gosto pessoal do blogueiro.
Não imagine o leitor que desgostei das demais palestras, mas por ter gostado tanto das palestras e dos temas de McGinn, é que escolhi dedicar-me mais aos tópicos por ele levantados. E, para finalizar, deixo aos interessados nos livros do dr. Bernard McGinn, um link da Amazon dos livros de sua autoria e da página especial dedicada no website ao Autor.

LINK para >>>Dr. Bernard McGinn na AMAZON.com Bernard McGinn

(*) Conexões: um agradecimento especial a meu amigo Bernard Hassan e à professora Marina Peter-Newells (French Department) pelas orientações e pelas conexões que me ajudaram a sonhar com (e tornar possível) meu retorno à Universidade do Novo México em setembro próximo, para estudos em Religião e Francês.

+++++
Fontes:
(1) DE OLIVEIRA, Franklin. “Literatura e Civilização”, Ed. Difel-INL/Mec, S. Paulo, 1978. p.18/19.
…Idade Média: esta nova aetas, que Melchior Goldast, em 1604 denominou medium aevum e Joachim von Watt media aetas – nesta linha de seccionamento da unidade do fluxo histórico navegaram Beatus Rhenanus e Heerwegwn, utilizando-se em Basiléia dos conceitos de media antiquitas e media tempora, e Georg Horn, em Leiden, que incorporaram em 1665 o período à historia recentior em oposição à historia antiqua…”
(**) Mestre Eckhart nasceu por volta de 1260 e faleceu em 1327/8.

(2) McGINN, Bernard. Obra completa – veja link – Amazon. Ref. cit. acima (link).
Folheto do evento – com os agradecimentos aos patrocinadores.

Ideologia de Gênero e a destruição da família

Um alerta que o Papa Francisco já havia feito sobre o tema:

Agência ZENIT:

A ideologia de “gênero” prega, em matéria sexual, a “liberdade” e a “igualdade”. A “liberdade”, porém, é entendida como o direito de praticar os atos mais abomináveis. E a “igualdade” é vista como a massificação do ser humano, de modo a nivelar todas as diferenças naturais que existem entre o homem e a mulher.

A origem da ideologia de gênero é marxista. Para Marx, o motor da história é a luta de classes. E a primeira luta ocorre no seio da família. Em seu livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), Engels escreveu:

Em um velho manuscrito não publicado, escrito por Marx e por mim em 1846, encontro as palavras: ‘A primeira divisão de trabalho é aquela entre homem e mulher para a propagação dos filhos’. E hoje posso acrescentar: A primeira oposição de classe que aparece na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher unidos em matrimônio monogâmico, e a primeira opressão de classe coincide com a do sexo feminino pelo sexo masculino[1].

Dentro da família, há uma segunda opressão – a dos filhos pelos pais – que Marx e Engels, no Manifesto Comunista (1848), pretendem abolir: “Censurai-nos por querer abolir a exploração das crianças por seus próprios pais? Confessamos esse crime”[2].

Fiel à sua raiz marxista, a ideologia de gênero pretende que, em educação, os pais não tenham nenhum controle sobre os filhos. Nas escolas, as crianças aprenderão que não há uma identidade masculina nem uma feminina, que homem e mulher não são complementares, que não há uma vocação própria para cada um dos sexos e, finalmente, que tudo é permitido em termos de prática sexual.

Note-se que a doutrina marxista não se contenta com melhorias para a classe proletária. Ela considera injusta a simples existência de classes. Após a revolução proletária não haverá mais o “proletário” nem o “burguês”. A felicidade virá em uma sociedade sem classes – o comunismo – onde tudo será de todos.

De modo análogo, a feminista radical Shulamith Firestone (1945-2012), em seu livro A dialética do sexo (1970), não se contenta em acabar com os privilégios dos homens em relação às mulheres, mas com a própria distinção entre os sexos. O fato de haver “homens” e “mulheres” é, por si só, inadmissível.

Como a meta da revolução socialista foi não somente a eliminação do privilégio da classe econômica, mas a eliminação da própria classe econômica, assim a meta da revolução feminista deve ser não apenas a eliminação do privilégio masculino, mas a eliminação da própria distinção de sexo; as diferenças genitais entre seres humanos não importariam mais culturalmente[3].

Se os sexos estão destinados a desaparecer, deverão desaparecer também todas as proibições sexuais, como a do incesto e a da pedofilia. Diz Firestone:

O tabu do incesto é necessário agora apenas para preservar a família; então, se nós acabarmos com a família, na verdade acabaremos com as repressões que moldam a sexualidade em formas específicas[4].

Os tabus do sexo entre adulto/criança e do sexo homossexual desapareceriam, assim como as amizades não sexuais […] Todos os relacionamentos estreitos incluiriam o físico[5].

Por motivos estratégicos, por enquanto os ideólogos de gênero não falam em defender o incesto e a pedofilia, que Firestone defende com tanta crueza. Concentram-se em exaltar o homossexualismo.

Ora, não é preciso uma inteligência extraordinária para perceber que os atos de homossexualismo são antinaturais. Nas diversas espécies, o sexo se caracteriza por três notas: a dualidade, a complementaridade e a fecundidade.
Continue lendo os números citados estão na matéria original de Zenit (*) ou siga para o Blog abaixo:

*** ASSINE A PETIÇÃO CONTRA A IDEOLOGIA DE GÊNERO:

 http://www.citizengo.org/pt-pt/5312-ideologia-genero-na-educacao-nao-obrigado

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.

Presidente do Pró-Vida de Anápolis.

Ideologia de Gênero e a destruição da família.

Papa Francisco e a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”, nov-2013

Papa_Sorrindo“Evangelii Gaudium”:

Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (24 de novembro de 2013).

~O Rabi e o Yoghi: 2 estórias~*

Selecionei duas histórias para você, leitor, nesta manhã de 17 de fevereiro. Outros a lerão à noite, à tarde, numa madrugada qualquer, quando procurarem no Google por rabi, místico yoghi ou meditação.

História #1(i)
O Fabricante de Meias

CERTA VEZ, em viagem, parou o Baal Schem numa cidadezinha cujo nome não chegou até nós. Uma manhã, antes das preces, fumava, como de costume, o seu cachimbo e olhava pela janela. Passou então um homem, xale e filactérios na mão, andando com solenidade tão natural,como se estivesse a caminho das portas do céu. O Baal Schem perguntou, ao fiel em cuja casa estava hospedado, quem era aquele homem. Respondeu que era um fabricante de meias que, inverno ou verão, pouco importava, ia todos os dias à sinagoga dizer suas orações, mesmo que não estivesse completo o quórum prescrito de dez crentes. O Baal Schem pediu que o chamassem, mas o dono da casa replicou:
– Esse louco não irá interromper sua caminhada, nem que o próprio Imperador o chame. – Após as orações, o Baal Schem mandou ao homem um recado, para que lhe trouxesse quatro pares de meias. Pouco depois, o fabricante achava-se diante dele, apresentando sua mercadoria, honestamente trabalhada em boa lã de carneiro.
– Quanto queres por um par? – perguntou o Rabi Israel. – Um florim e meio.
–  Suponho que ficarias satisfeito com um florim. – Neste caso, teria pedido esse preço. – O Baal Schem pagou-lhe imediatamente o preço pedido; depois, continuou a inquirir: – Com o que te ocupas? – Faço o meu ofício – respondeu o homem. – E como o fazes? – Trabalho até juntar quarenta ou cinquenta pares de meias. Depois ponho-as numa gamela com água quente e moldo-as até que fiquem como devem ficar. – E como é que as vendes? – Não saio de casa, são os lojistas que vêm até mim e as compram. Também me trazem boa lã, que compram pra mim, e eu lhes dou compensação pelo trabalho. Só em honra ao rabi saí hoje de casa. – Mas quando levantas, de manhã cedo, o que fazes, antes de ir rezar? – Faço meias também. – E como te arranjas te dizer os salmos? – Os salmos que sei de cor – respondeu o homem – recito-os durante o trabalho.
“Depois que o fabricante de meias voltou para casa, disse o Baal Schem aos discípulos que o rodeavam: – Vistes hoje a pedra que sustenta o templo até que venha o redentor.
“Disse o Baal Schem: – Imaginem um homem cujos negócios o precipitem, durante o dia todo, pelas ruas e pelo mercado. Chega quase a esquecer-se de que existe um Criador do mundo. Só à hora de recitar a Min-há(*) é que se embra: Preciso rezar! Então, do fundo do coração, escapa-lhe um suspiro por ter gasto o dia em coisas vãs, e ele corre a uma ruela qualquer, onde pára e reza: caro, muito caro é ele a Deus, e sua oração perfura os firmamentos.”
—-
(*) Min-Há: oferenda. Prece vespertina, antes do pôr-do-sol.

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~O Rabi e o Yoghi: 2 estórias~*

Selecionei duas histórias para você, leitor, nesta manhã de 17 de fevereiro. Outros a lerão à noite, à tarde, numa madrugada qualquer, quando procurarem no Google por rabi, místico yoghi ou meditação.

História #1(i)
O Fabricante de Meias

CERTA VEZ, em viagem, parou o Baal Schem numa cidadezinha cujo nome não chegou até nós. Uma manhã, antes das preces, fumava, como de costume, o seu cachimbo e olhava pela janela. Passou então um homem, xale e filactérios na mão, andando com solenidade tão natural,como se estivesse a caminho das portas do céu. O Baal Schem perguntou, ao fiel em cuja casa estava hospedado, quem era aquele homem. Respondeu que era um fabricante de meias que, inverno ou verão, pouco importava, ia todos os dias à sinagoga dizer suas orações, mesmo que não estivesse completo o quórum prescrito de dez crentes. O Baal Schem pediu que o chamassem, mas o dono da casa replicou:
– Esse louco não irá interromper sua caminhada, nem que o próprio Imperador o chame. – Após as orações, o Baal Schem mandou ao homem um recado, para que lhe trouxesse quatro pares de meias. Pouco depois, o fabricante achava-se diante dele, apresentando sua mercadoria, honestamente trabalhada em boa lã de carneiro.
– Quanto queres por um par? – perguntou o Rabi Israel. – Um florim e meio.
–  Suponho que ficarias satisfeito com um florim. – Neste caso, teria pedido esse preço. – O Baal Schem pagou-lhe imediatamente o preço pedido; depois, continuou a inquirir: – Com o que te ocupas? – Faço o meu ofício – respondeu o homem. – E como o fazes? – Trabalho até juntar quarenta ou cinquenta pares de meias. Depois ponho-as numa gamela com água quente e moldo-as até que fiquem como devem ficar. – E como é que as vendes? – Não saio de casa, são os lojistas que vêm até mim e as compram. Também me trazem boa lã, que compram pra mim, e eu lhes dou compensação pelo trabalho. Só em honra ao rabi saí hoje de casa. – Mas quando levantas, de manhã cedo, o que fazes, antes de ir rezar? – Faço meias também. – E como te arranjas te dizer os salmos? – Os salmos que sei de cor – respondeu o homem – recito-os durante o trabalho.
“Depois que o fabricante de meias voltou para casa, disse o Baal Schem aos discípulos que o rodeavam: – Vistes hoje a pedra que sustenta o templo até que venha o redentor.
“Disse o Baal Schem: – Imaginem um homem cujos negócios o precipitem, durante o dia todo, pelas ruas e pelo mercado. Chega quase a esquecer-se de que existe um Criador do mundo. Só à hora de recitar a Min-há(*) é que se embra: Preciso rezar! Então, do fundo do coração, escapa-lhe um suspiro por ter gasto o dia em coisas vãs, e ele corre a uma ruela qualquer, onde pára e reza: caro, muito caro é ele a Deus, e sua oração perfura os firmamentos.”
—-
(*) Min-Há: oferenda. Prece vespertina, antes do pôr-do-sol.

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Noite de Natal

Um menino pobrecito
Numa manjedoura
E hoje, nós todos tão faceiros,
A visitar shoppings
– Eis que salta a pergunta:
Onde o sapatinho,
Na janela?
No quintal?
Ah, o quintal de nossas memórias.
Aqui se vê a estrela de Belém?
– Não. Só o escambo apressado.
Eis-nos diante de abraços não-dados.
Eu os quero.
Dar e receber abraços e afagos.
Eis-nos diante do Amor não recebido.

Mas há quem nos diga
Com gestos simples
Papa e enfermo
O que é mesmo essa data.
– Contemplar o milagre
Do Deus-Menino
Num gesto apenas.
Onde o menos vale muito mais.
++++
Feliz Natal, caros leitores.
Paz & Bem.

Anjos Necessarios

Citação do livro de Robert Alter(*)

“KAFKA registrou a sua visão de anjo no diário no dia 25 de junho de 1914. Apresentada como uma narrativa em primeira pessoa, ela parece o rascunho de uma história que ele não chegou a terminar, ou que preferiu não desenvolver para publicação. O narrador, o ocupante de um quarto alugado, tinha passado o dia inteiro andando de um lado para o outro no aposento, numa mistura de agitação e tédio.
Um pouco antes de anoitecer, ele presencia um acontecimento extraordinário.

Angelus Novus_PaulKlee“Ele percebe um tremor no teto de reboco branco. Surgem diversas rachaduras, e depois várias ondas de luz colorida, amarelas e douradas, que dão ao teto uma estranha transparência.

Parecia haver algumas coisas pairando acima dele,
querendo entrar
.”
“De repente, um braço segurando uma espada de prata atravessa o teto e o narrador vê nele “uma visão envida para a minha libertação“.

“Acontece então o estágio crucial da revelação. Num acesso de violência, o narrador sobe na mesa, arranca o lustre de bronze do teto, e o atira ao chão. Na mesma hora o teto se abre…”

Continue para ler a citação completa, transcrita na fig. abaixo:

image

 Deixo você, querido leitor, sob a luz fraca do anjo, pois creio que esta é melhor do que a feérica iluminação de nossas cidades deste 21o. Século. Bom domingo!
Capa Anjos NecessariosBaixe o PDF do livro aqui.

+++++
(*)Fonte: “ALTER, Robert. “Anjos Necessários: Tradição e Modernidade em Kafka, Benjamin e Scholem”, Imago, 1991,p.151. Íntegra do livro e download.

Diálogo entre cristãos e islamitas (I)

Fletcher_A Cruz

Sob a proteção de Santo Elígio, posto o texto abaixo, recomendando a leitura do livrinho de Richard Fletcher. Motivado pelo desejo de entender os ‘primos’ ismaelitas, cheguei até Fletcher. Já estou lendo em inglês o segundo livro deste historiador britânico, sobre a Conversão da Europa. Se um diálogo entre essas duas religiões (e culturas) – o Cristianismo e o Islã – sem falar nos nosso irmãos Judeus (o 3o. e mais antigo monoteísmo) for possível, isto necessariamente passa por entendermos as histórias (e estórias) de nossas conquistas e de nossos fracassos. Um Santo Tomás relendo Averróis e Avicena é lição que não pode deixar de ecoar em nosso ouvidos católicos. Ah, e porque Santo Elígio (Elói)?

– “Em 1484, exatamente quando a guerra por Granada tomava impulso, ferreiros cristãos e muçulmanos de Segóvia se reuniram para fundar uma confraria ou associação denominada Santo Elígio, em homenagem ao santo padroeiro dos que trabalham com metal, dedicada à Virgem Maria e a todos os santos da corte do céu”. (p.187, ref. abaixo).

Boa leitura!
Goodreads Link.

Diálogo entre cristãos e islamitas (I)

Fletcher_A Cruz

Sob a proteção de Santo Elígio, posto o texto abaixo, recomendando a leitura do livrinho de Richard Fletcher. Motivado pelo desejo de entender os ‘primos’ ismaelitas, cheguei até Fletcher. Já estou lendo em inglês o segundo livro deste historiador britânico, sobre a Conversão da Europa. Se um diálogo entre essas duas religiões (e culturas) – o Cristianismo e o Islã – sem falar nos nosso irmãos Judeus (o 3o. e mais antigo monoteísmo) for possível, isto necessariamente passa por entendermos as histórias (e estórias) de nossas conquistas e de nossos fracassos. Um Santo Tomás relendo Averróis e Avicena é lição que não pode deixar de ecoar em nosso ouvidos católicos. Ah, e porque Santo Elígio (Elói)?

– “Em 1484, exatamente quando a guerra por Granada tomava impulso, ferreiros cristãos e muçulmanos de Segóvia se reuniram para fundar uma confraria ou associação denominada Santo Elígio, em homenagem ao santo padroeiro dos que trabalham com metal, dedicada à Virgem Maria e a todos os santos da corte do céu”. (p.187, ref. abaixo).

Boa leitura!
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