O que podemos aprender com o Rabi

UM RABI , MESMO QUANDO VIRTUAL é um bom conselheiro a quem podemos recorrer quando estamos diante de dilemas – eis o que representa para mim este livro de Martin Buber. Mesmo que virtualmente, um sábio pode ajudar. A leitura pode ajudar.  E precisamos entender o sentido correto de “ajuda” – palavra que tem um especial eco Buberiano. “Os anjos, dizem os chassídicos, nascem da ajuda realmente dada”(*).

E quando digo ‘virtual’, traduza, caro leitor, por “a virtualidade do livro“, – de onde emerge um sábio; “não presencial”, sim, mas presente – e este é um meio de recorrer a um sábio a quem costumo buscar em momentos de enfrentamento de um dilema. E eis que o livro se firma como “pura responsabilidade” – como dizia Martin Buber.

A voz dele – Martin Buber – aparece nesta manhã com uma “sabedoria tranquila”, uma voz que soa – como quer Albrecht Goes, no posfácio do livrinho de seis capítulos: “…que não transmite receita nem orientação, mas sim, com uma simplicidade sublime, experiência e sabedoria“. Herman Hesse ao ler este “O Caminho do Homem” disse: “Esta deve ser a coisa mais bonita que li sua. Agradeço-lhe de coração por esse presente nobre e infinito. Ainda voltarei a ele muitas vezes“.

Se transcrevo palavras como essas aqui é porque são textos que me ajudaram a encontrar uma resposta para mim.
Se elas forem úteis para meus seis leitores, já me dou por satisfeito.
Há os que aqui chegam, em busca de algum termo fruto de uma pesquisa (p.ex.: Rabi, virtual, poemas do Autor, Judaísmo etc.). Se é este o seu caso e conseguiu ler até aqui, por favor vá adiante, pois que o texto de Martin Buber é de grande sabedoria.

“Pensamento, palavra e ação” que tal começar Martin Buber_Fotoconsigo mesmo ?

É a pergunta que BUBER nos faz, para pegar o leitor de “O Caminho do Homem” – ser humano (que é também o das mulheres, neste momento em que até os padres dizem todos & todas, por uma questão de sutileza da política de gêneros). Anyway, aí vai o texto:

“CERTA VEZ, alguns grandes de Israel foram fazer uma visita ao rabi Jizchak de Worki. A conversa girava em torno do valor de um empregado íntegro para comandar a casa; se ele fosse bom, tudo se ornaria bom, como aconteceu com José, em cuja mão tudo germinava. O rabi Jizchak objetou: “Essa também era minha opinião, mas meu professor me mostrou que tudo depende do dono da casa. É que, na minha juventude, minha mulher me trouxe muitas dificuldades; suportei a situação, mas me compadeci dos meus empregados. Por isso, fui até meu professor, o rabi David de Lelow, e perguntei-lhe se eu deveria enfrentá-la. Ele me respondeu: ‘Por que você está falando comigo? Fale com você mesmo!”. Tive de dar um tempo a sua resposta antes de compreendê-la, mas o fiz quando me recordei das palavras do Baal Schem : – ‘Existe o pensamento, a palavra e a ação.
O pensamento corresponde à mulher; a palavra aos filhos; e a ação, aos empregados. Tudo ficará bem para aquele que conseguir constituir a ordem dos três dentro de si’ .(1)  Então eu entendi o que meu professor queria dizer: tudo depende de mim”.
Baal Schem
”Essa história toca um dos problemas mais profundos e difíceis de nossa vida: a verdadeira origem do conflito entre as pessoas.
”A princípio, explicamos as origens dos conflitos ou pelos temas que os envolvidos na disputa consideram como o motivo da contenda e pelas situações e acontecimentos objetivos que derivaram desses temas nos quais os dois lados estão envolvidos; ou partimos de maneira analítica e procuramos investigar os complexos inconscientes em relação aos quais esses temas se comportam apenas como sintomas. O ensinamento chassídico tem algo em comum com essa linha, quando diz que a problemática exterior da vida aponta para o seu interior. Mas ele se diferencia em dois pontos essenciais, um fundamental e um prático, embora ainda mais importante”.

“O motivo fundamental é que o ensinamento chassídico não parte da investigação das complicações psíquicas individualmente, mas se ocupa do homem como um todo. Isso não assinala, de modo algum, uma diferença quantitativa. Trata-se muito mais da compreensão de que dissociar elementos e processos parciais do todo sempre atrabalha a compreensão do todo e somente a compreensão do todo como todo pode levar à mudança real, à cura real – primeiro do indivíduo e depois do seu relacionamento com as pessoas próximas. (Exprimindo um paradoxo: a procura pelo ponto principal faz com que ele se desloque, frustrando assim toda a tentativa de superar a problemática). Isso não quer dizer que não devemos observar todos os fenômenos da alma; mas nenhum deles deve ser colocado no centro da observação, como se todo o resto devesse ser derivado dele; antes, é preciso levar em conta todos os pontos, e não um a um, mas exatamente em sua ligação vital.

”A diferença prática, porém, consiste em que o homem aqui não é tratado como o objeto da investigação, mas é conclamado a constituir sua ordem. O homem deve, em primeiro lugar, reconhecer que a situação de conflito entre ele e os outros é apenas efeito de situações de conflito em sua própria alma; em seguida, deve tentar superar esse seu conflito interno, para então ter com seus próximos, como um homem transformado, pacificado, novas relações, transformadas.

“Certamente, o homem procura escapar dessa transformação, decisiva e profundamente dolorosa, de seu relacionamento habitual com o mundo apontando – tanto para aquele que o instiga ou à própria alma, caso seja ela que o instigue – para o fato de que, em todo o conflito, são dois os envolvidos: se exigimos que um deles se volte ao conflito interior, então seria preciso exigir o mesmo do outro. Mas exatamente nessa maneira de pensar – na qual a pessoa se enxerga apenas como indivíduo com o qual outros indivíduos se defrontam, e não como uma pessoa autêntica, cuja transformação do mundo –, exatamente nesse ponto está o engano fundamental, ao qual o ensinamento chassídico se contrapõe. Trata-se apenas de começar consigo mesmo, e nesse momento não devo me preocupar com nada no mundo senão esse começo. Qualquer outra atitude me desvia do meu começo. Qualquer outra atitude me desvia do meu começo, enfraquece minha iniciativa, frustra todo o empreendimento audaz e poderoso. O ponto arquimediano no qual posso movimentar o mundo a partir do meu lugar é minha própria transformação. Se, por outro lado, eu levar em consideração dois pontos arquimedianos, esse aqui em minha alma e aquele lá na alma da pessoa que vive em conflito comigo, então rapidamente desaparecerá aquele ponto no qual um acesso se havia aberto para mim.

”O rabi Bunam ensinava: “Nossos sábios dizem: ‘procure a Paz aí onde estás’. Não podemos procurar a paz em nenhum outro lugar senão em nós mesmos, até encontrá-la. Está escrito nos Salmos: ‘Não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado’ (2). Somente quando o homem tiver encontrado a paz em si mesmo ele poderá procurá-la no mundo todo”.

”Mas a narrativa, que foi meu ponto de partida, não se satisfaz em apontar a verdadeira origem dos conflitos externos, o conflito interno. Na palavra do Baal Schem, que nela é citado, também é dito claramente qual a composição exata do conflito interno. É o conflito entre três princípios no ser e na vida do homem: o princípio do pensamento, o  princípio da palavra e o princípio da ação. A origem de todos os conflitos entre mim e os que me rodeiam é eu não dizer o que penso e não fazer o que digo. Assim, a situação entre mim e o outro se torna cada vez mais envenenada e tumultuada, e em minha confusão não consigo mais dominá-la; ao contrário, contra todas minhas ilusões, tornei-me seu escravo inerte. Alimentamos e fazemos crescer as situações de conflito com nossa contradição, com nossa mentira, conferindo-lhes poder sobre nós, até que sejamos escravizados por elas. A partir daqui não há outra saída senão pelo entendimento da transformação: tudo depende de mim, e pela vontade da transformação: quero constituir minha ordem.

“Mas, para que o homem alcance esse grande feito, ele precisa primeiro – partindo de todos os penduricalhos de sua vida – chegar ao seu EU (3), ele precisa se encontrar, não o eu evidente do indivíduo egocêntrico, mas o ‘eu’ profundo da pessoa que vive numa relação com o mundo. E também a isso se opõe todo nosso costume.

“Quero encerrar o capítulo com uma velha piada, que se renovou na boca de um zaddik.
”O rabi Chanoch contava: “Em algum momento do passado viveu um tolo, tão tolo que era chamado de Golem. Ao acordar pelas manhãs, sua dificuldade para encontrar suas roupas era tanta que, às noites, pensando nisso, ele muitas vezes se sentia pouco à vontade para ir se deitar. Certa noite, ele finalmente tomou uma atitude, pegou um papel e um lápis e anotou, ao se despir, onde colocava cada roupa. Na manhã seguinte, ele pegou o papel, contente, e leu: ‘o gorro’ – aqui estava a peça, e ele a colocou; ‘as calças’ – lá estavam elas, e ele as vestiu; e assim por diante até o fim. ‘Sim, mas onde estou eu, afinal? ‘, ele se perguntou, preocupado, ‘onde foi que me meti?’ . Ele procurou e procurou – em vão, porque não conseguiu se encontrar. É assim que acontece conosco também, disse o rabi.
(FIM).
[© Martin Buber, fonte citada abaixo.]
+++++
FONTE: BUBER, Martin. “O Caminho do Homem”, É Realizações. S. Paulo, 2006, trad. Claudia Abeling, p. 29/35.
Observações, cfme. Notas da Tradutora:
(1) No original: zurechtschaffen. A tradução por ‘organizar’, ‘arrumar’, seria mais simples, mas perderia a noção de criação, presente em schaffen.
(2) Salmos, 38:3.
(3) “Selbst”, no original.

(*)”Buber escreveu essa frase num agradecimento a Albert Schweitzer, a quem se sentia especialmente ligado como um ‘apóstolo do imediato’; e nós, aqueles que tocados pela ayeka (chamado) divina, procuram pela resposta, pegamos para nós as belas palavras da mão de Buber: recebemos ajuda, ao mesmo tempo atual e atemporal.
(Albrecht Goes, no posfácio da obra citada, p. 55/6).

Alguns termos que estão no Glossário de outro livro de BUBER (Histórias do Rabi):

Chassídico: (ou hasidic) : The Hebrew for Hasidism, hasidut, denotes piety or saintliness, an extraordinary devotion to the spiritual aspects of Jewish life. Hasidism centered on a charismatic personality, the tzaddik. (Zaddik in the usual English transliteration)

Zaddik: a Hasidic spiritual leader believed to maintain a channel to God; is the charismatic leader in Hasidism, also known as the Rebbe in order to distinguish him from the Rabbi in the conventional sense. ©Fontes citadas.

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Místicos e Mestres Medievais

Na UNIVERSIDADE DO NOVO MÉXICO (UNM),Medieval Lectures0001 passei uma agradável semana acompanhando palestras sobre o tema em referência,

– foi uma excelente atividade no meu período de férias in USA, e uma rara oportunidade de retomar o estudo de assuntos que tangenciavam meu dia-a-dia como comerciante, sofrendo em meio à ázafama do cotidiano o que S.Tomás (ele que foi membro de uma família de comerciantes) – , chamava de “as agruras do comércio”.

O evento MEDIEVAL MYSTICS AND MASTERS, Spring Lectures Series 2014, ocorrido em Albuquerque (NM, USA), de 18 abril/1o. de Maio; de iniciativa do Institute for Medieval Studies (IMS) e apoio da comunidade local.

O fato me animou a retornar à UNM no próximo Outono (Fall ‘14), para me dedicar aos estudos de Humanidades (Francês e estudos Medievais), que por muitos anos foram sendo adiados em virtude da agenda quase sempre repleta de compromissos comerciais, como diretor da Multidata Informática nestes últimos 20 anos.

Abaixo, o leitor encontrará minha visão geral do evento e o que nele mais me chamou a atenção. Foram seis dias de intensa atividade de retorno a uma época da história da Humanidade que é de uma riqueza insondável, às vezes obnubliada pelo preconceito difundido por certa parte da mídia.

Ao designar a era Medieval como idade das trevas, não fazem tais críticos senão uma ‘generalização apressada’ sobre uma período riquíssimo em cultura, espiritualidade e visões definitivas para o que hoje gozam no ambiente acadêmico e cultural pós-Iluminista.

FRANKLIN de Oliveira resumiu muito bem tal preconceito, em seu magistral livro sobre Literatura e Civilização:

A idade Médianão foi, de forma alguma, a Dark Ages inventada pelos historiadores liberais do séc. XIX, mas genuína herdeira do mundo greco-romano. (*)

“Desde logo acentue-se que sem o conhecimento de sua história torna-se impossível a compreensão do mundo moderno, consequentemente do mundo contemporâneo.

Há um fato fundamental, que, dizendo de sua importância, também elide as teorias que a definiram como época escura: ela significa a fundação da Europa em sua base cristã-romana. Para apreender-se o veio subterrâneo que a informou basta pensar, numa simplificação que, apesar de ser quase um despojamento histórico, nem por isto despe-se de significação cultural, em dois fatos que ocorreram no seu seio: o estupendo fato da literatura provençal e a aparição da poesia dos clerici vagantes.

“…Pense-se nos vários proto-renascimentos que ocorreram no bojo do Medievo, onde Francesco d’Assisi acionou a grande revolução espiritual de que se nutriram a pintura de Giotto, o visionarismo libertário de Gioacchino da Fiore, de Giovanni da Parma, de Pier di Giovanni Olivi, Ubertino da Casale, Michele da Cesena, Almarico di Bena, os Spirituali e a poesia de Dante.” (1)

a) DO ESCOPO do evento:

NOTA-SE, desde logo, um claro ecumenismo na programação do evento, o que se refletiu também no auditório, onde era notável a presença de diversos credos.
No primeiro dia sentei-me ao lado do meu colega Bernard Hassan (Ossian), e logo travamos relacionamento com dois padres que estavam sentados na fila atrás de nós. O frei Peter é o pároco na igreja santa Maria de la Via Abbey (Our Lady of the Most Holy Rosary). Seu interesse naturalmente é imenso sobre o tema, muito mais porque acaba de concluir alguns anos de pesquisa e deve preparar um livro sobre a idade Média, com foco no Tomismo. Havia outros clérigos católicos e leigos de diversas religiões (protestantes, islamitas, judeus e hindus), além, é claro, de membros (amigos) da sociedade que patrocina o evento junto com o ISM – veja no verso do folheto em cópia os apoios, com destaque para a sociedade “Friends of Medieval Studies”.

O programa incluía, pois, uma mirada ampla que começava nos místicos cristãos Hildegard de Bingen e Giocchiano da Fiore; passando por dois mestres muçulmanos – Avicena e al-Farabi; chegando ao Sufismo medieval (com Jalal al-Din Rumi); além de uma sessão dedicada ao Budismo tibetano, representado na vida e obra de Yeshe Tsogyal, figura central da mais antiga escola tibetana de Budismo.
Sem dúvida, Os palestrantes eram todos de alto nível, como se pode ver pela ficha de cada um deles, sempre professores eméritos, mestres e doutores com uma ou várias publicações sobre o tema que focaram em suas conferências. Um especialista em filosofia islâmica e judaica –
Lenn E. Goodman abordou os dois mestres muçulmanos (Al-Farabi e Avicena), além da vida e obra do Rabbi Moses ben Maimon (1138-1204)  – que não são objeto deste post.

b) DOS MÍSTICOS CRISTÃOS – O professor Dr. Bernard McGinn foi o palestrante que mais me empolgou, seja pela qualidade das intervenções, seja pela vitalidade e bom-humor demonstrados em suas conferências.

Especialista em história da teologia Cristã, em Patrística e Medievalismo, McGinn tem diversos livros publicados (veja lista no link abaixo) e, recentemente, tem se dedicado a escrever sobre escatologia e história da espiritualidade e do misticismo.

ComAutografo Dr.BernardMcGinno fiquei fã do estilo e do alto saber do professor, superei minha timidez e ousei  pedir-lhe um autógrafo em livro que eu já havia encomendado à Amazon: “The Doctors of the Church”.

Escolhi esse e mais um outro exemplar para adquirir durante o evento por conta de interesses anteriores – p.ex., minha admiração e constante desejo de conhecer mais aprofundadamente a obra de Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz; Santa Catarina de Sena entre outros Doutore(a)s da Igreja. Adquiri também “ (Modern Library Classics)” – vide resenha neste link.
Ambos estão na fila de leitura que aumentou consideravelmente depois deste seminário na UNM.

Fiquei impressionado com a força espiritual e muito interessado em dois personagens que eu não conhecia tanto, em meio a tantos Mestres e Místicos (do período abordado); além do visionário Gioacchino Da Fiori (que eu já conhecia de minhas leituras nos livros de Eric Voegelin) – destaco Hildegard de Bingen e Mestre Eckhart.

O traço comum que encontrei entre esses homens e mulheres deste rico período medieval foi a imensa capacidade que tiveram de manter contínuo diálogo com Deus, de manter a centralidade no Sagrado e uma forte determinação de manter fina sintonia com o Criador.

Fiquei também muito interessado em ler os Sermões de Eckhart, o dominicano de Colônia (Alemanha) que encantou Paris com suas homilias, mas não agradou o papa João XXIII, que o acusa de heresia e o persegue mesmo depois da morte do mestre Eckhart…


O raro título de “Magister Academus” (Meister) recebido na Sorbonne se incorpora ao seu nome de batismo, passando o dominicano Johannes Eckhart a ser chamado de Meister Eckhart (**) – “um servo de Deus que nunca parou de sonhar e de trabalhar, pregador, doutrinador e escritor incansável..”

Ele recebeu de seus colegas dominicanos a fraternidade e a láurea de ser reconhecido o primeiro pregador a juntar a Escolástica com a Nova Teologia em vernáculo (a chamada “emerging vernacular theology”, lembrando que o Latim era a língua da Igreja, nos sermões e nos estudos teológicos à época).

Apesar da grandeza de tudo que fez, Mestre Eckhart teve divergências com o papa. Na época em que João XXIII ordena que ele justifique uma nova série de proposições extraídas de seus escritos, ele declarou:

“Eu posso errar, mas eu não sou um herege, pois errar tem a ver com a mente e o segundo com a vontade!”

Diante de juízes que não tinham experiência mística comparável a sua própria, Eckhart se referiu a sua certeza interior assim:

…O que eu tenho ensinado é a verdade nua e crua”; pois:
O olho com que eu vejo Deus é o mesmo pelo qual Ele me vê…

A bula do Papa João XXII , de 27 de março de 1329, condena 28 proposições extraídas das duas listas. Uma vez que fala de Meister Eckhart como já morto, infere-se que Eckhart morreu algum tempo antes, talvez em 1327 ou 1328. Ele também diz que Eckhart tinha recolhido os erros da acusação.

Era intensa e íntima sua ligação com Deus e esse era o caminho que desejava para os seus fiéis e o que pregava em seus sermões. Uma frase sintetiza sua definição prática do que seu misticismo:

“Misticismo é profunda consciência de Deus em nossa vida;
é busca de profundo conhecimento e profunda União com Deus…”

Medieval Lectures0002O professor McGinn criou um gráfico (manual mesmo) sobre o pensamento místico da maturidade do Meister Eckhart – baseado em “Grunt = Ground” – quatro estágios da união entre a alma humana e Deus: algo na linha do que a enciclopédia Britannica considera como traços de “dissimilarity, similarity, identity, breakthrough” no maduro Eckhart (e muito mais!) – e quem sabe, me animo a num próximo post dedicar-me a repercutir esse aspecto da palestra, pois que amplo e profundo demais para o final dessas linhas?!

NOTAS ESPARSAS – de B.McG.
– 3 são os tipos de cristãos do Medievo:
a) Os visionários; b) Os místicos; c) Os Profetas.
Gioacchino-da-Fiore-232x300
Joaquim da Fiori reúne as 3 qualidades. (cfme. II Cor. 12: Os sinais distintivos do verdadeiro apóstolo se realizaram em vosso meio através de uma paciência a toda prova, de sinais, prodígios e milagres.).

– No Evangelho de S. João o dom que caracteriza o “Visionário” se torna evidente em 24 citações do verbo “Ver” (em diversos tempos), incluindo o convite: “Vinde e Vede…”
(Ev. Jo.: 1:38 – “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes:
Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
39 Vinde e vede, respondeu-lhes Ele…”).

– Comuns aos apóstolos e seguidores de Cristo até a idade Média, as “Visões” foram decisivas para a construção do Cristianismo e dos espaços que a Igreja viria a ocupar – ordens, templos, escritos, releitura da Tradição etc. A Revelação continuada se traduz, assim, em visões espirituais e intelectuais. Essas visões se tornam formas externas de uma “extasis” (cf. ecstasis).

– Aquilo que designamos por “visões supernaturais”, restritas a uns poucos é “um Olhar especial para Deus”. Por vezes, essas visões permitem construir mosteiros (Hildegard de Bingen e Joaquim da Fiori), descobrir continentes (Colombo e a visão de novas terras); o dom de fornecer “dicas” sobre eventos futuros – vide o encontro de Da Fiori com o Rei Ricardo “Coração de Leão”; exercer uma pedagogia (educação de noviços, disciplina para o serviço religioso: pregadores, monges e monjas) – entender (e fazer entender) o mistério da Santíssima Trindade (p.ex., em Hildegard).

– As visões de Hildegard, diz McGinn “indicam sempre um didático propósito: a Unidade da Santíssima Trindade (vide figuras que bem ilustram as visões).
Santa Hildegard de Bingen
foi declarada
Doutora da Igreja por Bento XVI, em 2012. Sua obra mais difundida e que dela faz quase um consenso de que é uma Santa para o nosso século – “The Book of Divine Works”.

Fico devendo também algumas linhas (mais aprofundadas) sobre Gioacchino da Fiori e Hildegard de Bingen, ambos visionários e realizadores, sempre inspirados na sua Fé e em viver o misticismo inteiramente

c) E antes de terminar, alinho minhas perspectivas e sonhos de voltar à UNM no próximo Outono ( Fall’14 ) para cursos de Religião comparada e de Francês, departamento este em que fui muito bem recebido pela professora Marina Peters-Newells.

d) Plano de leituras e livros referenciados no conclave:
Perdoe-me se o tempo e o espaço não me permitem me dedicar a outras conferências, mas como se sabe, todo texto exige escolha de palavras e é comandado pelo gosto pessoal do blogueiro.
Não imagine o leitor que desgostei das demais palestras, mas por ter gostado tanto das palestras e dos temas de McGinn, é que escolhi dedicar-me mais aos tópicos por ele levantados. E, para finalizar, deixo aos interessados nos livros do dr. Bernard McGinn, um link da Amazon dos livros de sua autoria e da página especial dedicada no website ao Autor.

LINK para >>>Dr. Bernard McGinn na AMAZON.com Bernard McGinn

(*) Conexões: um agradecimento especial a meu amigo Bernard Hassan e à professora Marina Peter-Newells (French Department) pelas orientações e pelas conexões que me ajudaram a sonhar com (e tornar possível) meu retorno à Universidade do Novo México em setembro próximo, para estudos em Religião e Francês.

+++++
Fontes:
(1) DE OLIVEIRA, Franklin. “Literatura e Civilização”, Ed. Difel-INL/Mec, S. Paulo, 1978. p.18/19.
…Idade Média: esta nova aetas, que Melchior Goldast, em 1604 denominou medium aevum e Joachim von Watt media aetas – nesta linha de seccionamento da unidade do fluxo histórico navegaram Beatus Rhenanus e Heerwegwn, utilizando-se em Basiléia dos conceitos de media antiquitas e media tempora, e Georg Horn, em Leiden, que incorporaram em 1665 o período à historia recentior em oposição à historia antiqua…”
(**) Mestre Eckhart nasceu por volta de 1260 e faleceu em 1327/8.

(2) McGINN, Bernard. Obra completa – veja link – Amazon. Ref. cit. acima (link).
Folheto do evento – com os agradecimentos aos patrocinadores.

Místicos e Mestres Medievais

Na UNIVERSIDADE DO NOVO MÉXICO (UNM),Medieval Lectures0001 passei uma agradável semana acompanhando palestras sobre o tema em referência,

– foi uma excelente atividade no meu período de férias in USA, e uma rara oportunidade de retomar o estudo de assuntos que tangenciavam meu dia-a-dia como comerciante, sofrendo em meio à ázafama do cotidiano o que S.Tomás (ele que foi membro de uma família de comerciantes) – , chamava de “as agruras do comércio”.

O evento MEDIEVAL MYSTICS AND MASTERS, Spring Lectures Series 2014, ocorrido em Albuquerque (NM, USA), de 18 abril/1o. de Maio; de iniciativa do Institute for Medieval Studies (IMS) e apoio da comunidade local.

O fato me animou a retornar à UNM no próximo Outono (Fall ‘14), para me dedicar aos estudos de Humanidades (Francês e estudos Medievais), que por muitos anos foram sendo adiados em virtude da agenda quase sempre repleta de compromissos comerciais, como diretor da Multidata Informática nestes últimos 20 anos.

Abaixo, o leitor encontrará minha visão geral do evento e o que nele mais me chamou a atenção. Foram seis dias de intensa atividade de retorno a uma época da história da Humanidade que é de uma riqueza insondável, às vezes obnubliada pelo preconceito difundido por certa parte da mídia.

Ao designar a era Medieval como idade das trevas, não fazem tais críticos senão uma ‘generalização apressada’ sobre uma período riquíssimo em cultura, espiritualidade e visões definitivas para o que hoje gozam no ambiente acadêmico e cultural pós-Iluminista.

FRANKLIN de Oliveira resumiu muito bem tal preconceito, em seu magistral livro sobre Literatura e Civilização:

A idade Médianão foi, de forma alguma, a Dark Ages inventada pelos historiadores liberais do séc. XIX, mas genuína herdeira do mundo greco-romano. (*)

“Desde logo acentue-se que sem o conhecimento de sua história torna-se impossível a compreensão do mundo moderno, consequentemente do mundo contemporâneo.

Há um fato fundamental, que, dizendo de sua importância, também elide as teorias que a definiram como época escura: ela significa a fundação da Europa em sua base cristã-romana. Para apreender-se o veio subterrâneo que a informou basta pensar, numa simplificação que, apesar de ser quase um despojamento histórico, nem por isto despe-se de significação cultural, em dois fatos que ocorreram no seu seio: o estupendo fato da literatura provençal e a aparição da poesia dos clerici vagantes.

“…Pense-se nos vários proto-renascimentos que ocorreram no bojo do Medievo, onde Francesco d’Assisi acionou a grande revolução espiritual de que se nutriram a pintura de Giotto, o visionarismo libertário de Gioacchino da Fiore, de Giovanni da Parma, de Pier di Giovanni Olivi, Ubertino da Casale, Michele da Cesena, Almarico di Bena, os Spirituali e a poesia de Dante.” (1)

a) DO ESCOPO do evento:

NOTA-SE, desde logo, um claro ecumenismo na programação do evento, o que se refletiu também no auditório, onde era notável a presença de diversos credos.
No primeiro dia sentei-me ao lado do meu colega Bernard Hassan (Ossian), e logo travamos relacionamento com dois padres que estavam sentados na fila atrás de nós. O frei Peter é o pároco na igreja santa Maria de la Via Abbey (Our Lady of the Most Holy Rosary). Seu interesse naturalmente é imenso sobre o tema, muito mais porque acaba de concluir alguns anos de pesquisa e deve preparar um livro sobre a idade Média, com foco no Tomismo. Havia outros clérigos católicos e leigos de diversas religiões (protestantes, islamitas, judeus e hindus), além, é claro, de membros (amigos) da sociedade que patrocina o evento junto com o ISM – veja no verso do folheto em cópia os apoios, com destaque para a sociedade “Friends of Medieval Studies”.

O programa incluía, pois, uma mirada ampla que começava nos místicos cristãos Hildegard de Bingen e Giocchiano da Fiore; passando por dois mestres muçulmanos – Avicena e al-Farabi; chegando ao Sufismo medieval (com Jalal al-Din Rumi); além de uma sessão dedicada ao Budismo tibetano, representado na vida e obra de Yeshe Tsogyal, figura central da mais antiga escola tibetana de Budismo.
Sem dúvida, Os palestrantes eram todos de alto nível, como se pode ver pela ficha de cada um deles, sempre professores eméritos, mestres e doutores com uma ou várias publicações sobre o tema que focaram em suas conferências. Um especialista em filosofia islâmica e judaica –
Lenn E. Goodman abordou os dois mestres muçulmanos (Al-Farabi e Avicena), além da vida e obra do Rabbi Moses ben Maimon (1138-1204)  – que não são objeto deste post.

b) DOS MÍSTICOS CRISTÃOS – O professor Dr. Bernard McGinn foi o palestrante que mais me empolgou, seja pela qualidade das intervenções, seja pela vitalidade e bom-humor demonstrados em suas conferências.

Especialista em história da teologia Cristã, em Patrística e Medievalismo, McGinn tem diversos livros publicados (veja lista no link abaixo) e, recentemente, tem se dedicado a escrever sobre escatologia e história da espiritualidade e do misticismo.

ComAutografo Dr.BernardMcGinno fiquei fã do estilo e do alto saber do professor, superei minha timidez e ousei  pedir-lhe um autógrafo em livro que eu já havia encomendado à Amazon: “The Doctors of the Church”.

Escolhi esse e mais um outro exemplar para adquirir durante o evento por conta de interesses anteriores – p.ex., minha admiração e constante desejo de conhecer mais aprofundadamente a obra de Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz; Santa Catarina de Sena entre outros Doutore(a)s da Igreja. Adquiri também “ (Modern Library Classics)” – vide resenha neste link.
Ambos estão na fila de leitura que aumentou consideravelmente depois deste seminário na UNM.

Fiquei impressionado com a força espiritual e muito interessado em dois personagens que eu não conhecia tanto, em meio a tantos Mestres e Místicos (do período abordado); além do visionário Gioacchino Da Fiori (que eu já conhecia de minhas leituras nos livros de Eric Voegelin) – destaco Hildegard de Bingen e Mestre Eckhart.

O traço comum que encontrei entre esses homens e mulheres deste rico período medieval foi a imensa capacidade que tiveram de manter contínuo diálogo com Deus, de manter a centralidade no Sagrado e uma forte determinação de manter fina sintonia com o Criador.

Fiquei também muito interessado em ler os Sermões de Eckhart, o dominicano de Colônia (Alemanha) que encantou Paris com suas homilias, mas não agradou o papa João XXIII, que o acusa de heresia e o persegue mesmo depois da morte do mestre Eckhart…


O raro título de “Magister Academus” (Meister) recebido na Sorbonne se incorpora ao seu nome de batismo, passando o dominicano Johannes Eckhart a ser chamado de Meister Eckhart (**) – “um servo de Deus que nunca parou de sonhar e de trabalhar, pregador, doutrinador e escritor incansável..”

Ele recebeu de seus colegas dominicanos a fraternidade e a láurea de ser reconhecido o primeiro pregador a juntar a Escolástica com a Nova Teologia em vernáculo (a chamada “emerging vernacular theology”, lembrando que o Latim era a língua da Igreja, nos sermões e nos estudos teológicos à época).

Apesar da grandeza de tudo que fez, Mestre Eckhart teve divergências com o papa. Na época em que João XXIII ordena que ele justifique uma nova série de proposições extraídas de seus escritos, ele declarou:

“Eu posso errar, mas eu não sou um herege, pois errar tem a ver com a mente e o segundo com a vontade!”

Diante de juízes que não tinham experiência mística comparável a sua própria, Eckhart se referiu a sua certeza interior assim:

…O que eu tenho ensinado é a verdade nua e crua”; pois:
O olho com que eu vejo Deus é o mesmo pelo qual Ele me vê…

A bula do Papa João XXII , de 27 de março de 1329, condena 28 proposições extraídas das duas listas. Uma vez que fala de Meister Eckhart como já morto, infere-se que Eckhart morreu algum tempo antes, talvez em 1327 ou 1328. Ele também diz que Eckhart tinha recolhido os erros da acusação.

Era intensa e íntima sua ligação com Deus e esse era o caminho que desejava para os seus fiéis e o que pregava em seus sermões. Uma frase sintetiza sua definição prática do que seu misticismo:

“Misticismo é profunda consciência de Deus em nossa vida;
é busca de profundo conhecimento e profunda União com Deus…”

Medieval Lectures0002O professor McGinn criou um gráfico (manual mesmo) sobre o pensamento místico da maturidade do Meister Eckhart – baseado em “Grunt = Ground” – quatro estágios da união entre a alma humana e Deus: algo na linha do que a enciclopédia Britannica considera como traços de “dissimilarity, similarity, identity, breakthrough” no maduro Eckhart (e muito mais!) – e quem sabe, me animo a num próximo post dedicar-me a repercutir esse aspecto da palestra, pois que amplo e profundo demais para o final dessas linhas?!

NOTAS ESPARSAS – de B.McG.
– 3 são os tipos de cristãos do Medievo:
a) Os visionários; b) Os místicos; c) Os Profetas.
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Joaquim da Fiori reúne as 3 qualidades. (cfme. II Cor. 12: Os sinais distintivos do verdadeiro apóstolo se realizaram em vosso meio através de uma paciência a toda prova, de sinais, prodígios e milagres.).

– No Evangelho de S. João o dom que caracteriza o “Visionário” se torna evidente em 24 citações do verbo “Ver” (em diversos tempos), incluindo o convite: “Vinde e Vede…”
(Ev. Jo.: 1:38 – “Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes:
Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?
39 Vinde e vede, respondeu-lhes Ele…”).

– Comuns aos apóstolos e seguidores de Cristo até a idade Média, as “Visões” foram decisivas para a construção do Cristianismo e dos espaços que a Igreja viria a ocupar – ordens, templos, escritos, releitura da Tradição etc. A Revelação continuada se traduz, assim, em visões espirituais e intelectuais. Essas visões se tornam formas externas de uma “extasis” (cf. ecstasis).

– Aquilo que designamos por “visões supernaturais”, restritas a uns poucos é “um Olhar especial para Deus”. Por vezes, essas visões permitem construir mosteiros (Hildegard de Bingen e Joaquim da Fiori), descobrir continentes (Colombo e a visão de novas terras); o dom de fornecer “dicas” sobre eventos futuros – vide o encontro de Da Fiori com o Rei Ricardo “Coração de Leão”; exercer uma pedagogia (educação de noviços, disciplina para o serviço religioso: pregadores, monges e monjas) – entender (e fazer entender) o mistério da Santíssima Trindade (p.ex., em Hildegard).

– As visões de Hildegard, diz McGinn “indicam sempre um didático propósito: a Unidade da Santíssima Trindade (vide figuras que bem ilustram as visões).
Santa Hildegard de Bingen
foi declarada
Doutora da Igreja por Bento XVI, em 2012. Sua obra mais difundida e que dela faz quase um consenso de que é uma Santa para o nosso século – “The Book of Divine Works”.

Fico devendo também algumas linhas (mais aprofundadas) sobre Gioacchino da Fiori e Hildegard de Bingen, ambos visionários e realizadores, sempre inspirados na sua Fé e em viver o misticismo inteiramente

c) E antes de terminar, alinho minhas perspectivas e sonhos de voltar à UNM no próximo Outono ( Fall’14 ) para cursos de Religião comparada e de Francês, departamento este em que fui muito bem recebido pela professora Marina Peters-Newells.

d) Plano de leituras e livros referenciados no conclave:
Perdoe-me se o tempo e o espaço não me permitem me dedicar a outras conferências, mas como se sabe, todo texto exige escolha de palavras e é comandado pelo gosto pessoal do blogueiro.
Não imagine o leitor que desgostei das demais palestras, mas por ter gostado tanto das palestras e dos temas de McGinn, é que escolhi dedicar-me mais aos tópicos por ele levantados. E, para finalizar, deixo aos interessados nos livros do dr. Bernard McGinn, um link da Amazon dos livros de sua autoria e da página especial dedicada no website ao Autor.

LINK para >>>Dr. Bernard McGinn na AMAZON.com Bernard McGinn

(*) Conexões: um agradecimento especial a meu amigo Bernard Hassan e à professora Marina Peter-Newells (French Department) pelas orientações e pelas conexões que me ajudaram a sonhar com (e tornar possível) meu retorno à Universidade do Novo México em setembro próximo, para estudos em Religião e Francês.

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Fontes:
(1) DE OLIVEIRA, Franklin. “Literatura e Civilização”, Ed. Difel-INL/Mec, S. Paulo, 1978. p.18/19.
…Idade Média: esta nova aetas, que Melchior Goldast, em 1604 denominou medium aevum e Joachim von Watt media aetas – nesta linha de seccionamento da unidade do fluxo histórico navegaram Beatus Rhenanus e Heerwegwn, utilizando-se em Basiléia dos conceitos de media antiquitas e media tempora, e Georg Horn, em Leiden, que incorporaram em 1665 o período à historia recentior em oposição à historia antiqua…”
(**) Mestre Eckhart nasceu por volta de 1260 e faleceu em 1327/8.

(2) McGINN, Bernard. Obra completa – veja link – Amazon. Ref. cit. acima (link).
Folheto do evento – com os agradecimentos aos patrocinadores.

Ideologia de Gênero e a destruição da família

Um alerta que o Papa Francisco já havia feito sobre o tema:

Agência ZENIT:

A ideologia de “gênero” prega, em matéria sexual, a “liberdade” e a “igualdade”. A “liberdade”, porém, é entendida como o direito de praticar os atos mais abomináveis. E a “igualdade” é vista como a massificação do ser humano, de modo a nivelar todas as diferenças naturais que existem entre o homem e a mulher.

A origem da ideologia de gênero é marxista. Para Marx, o motor da história é a luta de classes. E a primeira luta ocorre no seio da família. Em seu livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado (1884), Engels escreveu:

Em um velho manuscrito não publicado, escrito por Marx e por mim em 1846, encontro as palavras: ‘A primeira divisão de trabalho é aquela entre homem e mulher para a propagação dos filhos’. E hoje posso acrescentar: A primeira oposição de classe que aparece na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre homem e mulher unidos em matrimônio monogâmico, e a primeira opressão de classe coincide com a do sexo feminino pelo sexo masculino[1].

Dentro da família, há uma segunda opressão – a dos filhos pelos pais – que Marx e Engels, no Manifesto Comunista (1848), pretendem abolir: “Censurai-nos por querer abolir a exploração das crianças por seus próprios pais? Confessamos esse crime”[2].

Fiel à sua raiz marxista, a ideologia de gênero pretende que, em educação, os pais não tenham nenhum controle sobre os filhos. Nas escolas, as crianças aprenderão que não há uma identidade masculina nem uma feminina, que homem e mulher não são complementares, que não há uma vocação própria para cada um dos sexos e, finalmente, que tudo é permitido em termos de prática sexual.

Note-se que a doutrina marxista não se contenta com melhorias para a classe proletária. Ela considera injusta a simples existência de classes. Após a revolução proletária não haverá mais o “proletário” nem o “burguês”. A felicidade virá em uma sociedade sem classes – o comunismo – onde tudo será de todos.

De modo análogo, a feminista radical Shulamith Firestone (1945-2012), em seu livro A dialética do sexo (1970), não se contenta em acabar com os privilégios dos homens em relação às mulheres, mas com a própria distinção entre os sexos. O fato de haver “homens” e “mulheres” é, por si só, inadmissível.

Como a meta da revolução socialista foi não somente a eliminação do privilégio da classe econômica, mas a eliminação da própria classe econômica, assim a meta da revolução feminista deve ser não apenas a eliminação do privilégio masculino, mas a eliminação da própria distinção de sexo; as diferenças genitais entre seres humanos não importariam mais culturalmente[3].

Se os sexos estão destinados a desaparecer, deverão desaparecer também todas as proibições sexuais, como a do incesto e a da pedofilia. Diz Firestone:

O tabu do incesto é necessário agora apenas para preservar a família; então, se nós acabarmos com a família, na verdade acabaremos com as repressões que moldam a sexualidade em formas específicas[4].

Os tabus do sexo entre adulto/criança e do sexo homossexual desapareceriam, assim como as amizades não sexuais […] Todos os relacionamentos estreitos incluiriam o físico[5].

Por motivos estratégicos, por enquanto os ideólogos de gênero não falam em defender o incesto e a pedofilia, que Firestone defende com tanta crueza. Concentram-se em exaltar o homossexualismo.

Ora, não é preciso uma inteligência extraordinária para perceber que os atos de homossexualismo são antinaturais. Nas diversas espécies, o sexo se caracteriza por três notas: a dualidade, a complementaridade e a fecundidade.
Continue lendo os números citados estão na matéria original de Zenit (*) ou siga para o Blog abaixo:

*** ASSINE A PETIÇÃO CONTRA A IDEOLOGIA DE GÊNERO:

 http://www.citizengo.org/pt-pt/5312-ideologia-genero-na-educacao-nao-obrigado

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.

Presidente do Pró-Vida de Anápolis.

Ideologia de Gênero e a destruição da família.