Lucchesi, Drummond e adeus! ano velho…

A tendência do cronista, já disse, é fazer o que todos fazem, mas as listas abundam em redor, melhor fazer um levantamento poético-afetivo do ano que finda. E para isso, as musas me concederam lembrar de dois poetas – Lucchesi, tradutor e escritor e do poeta Carlos Drummond de Andrade, que em sua receita de ano novo, constata que há muitos que insistem em sonhar com o champanhe e a birita para desvelar o que só o interior pode revelar: a fórmula de um bom Ano Novo.
**************Clique na figura abaixo para ler a crônica na íntegra!****************

Destarte 28 DEZ 2017.PNG

Giacomo Leopardi (1), a poesia consoladora…

Feliz por completar doze semanas da coluna DESTARTE em Opção Cultural (Goiânia).

Fique à vontade para enviar suas sugestões de pauta para meu email: betoq55@gmail.com
Abraços do Beto.
(*)Clique na figura abaixo para ler a minha crônica literária.
Destarte Capa de 10 NOV 2017.PNG

Merquior e Matthew Arnold

Em 1972, eu me preparava para o vestibular de Física (ou de Agronomia) enquanto José Guilherme Merquior, servindo como conselheiro da Embaixada Brasileira na Alemanha, aproveitava todo o tempo livre que tinha para escrever.

Foi nessa época em que ele escreveu um ensaio em 12 pontos intitulado “Para o Sesquicentenário de Matthew Arnold”.

Em 1972, eu não passava de um pé-rapado de terceiro ano secundário (em ritmo de vestibular) comecei a notar que Merquior era o tipo de crítico que me desafiava.
Eu continuava naquele ritmo de estudar Matemática e Física e me divertir (diria: usar as poucas horas vagas), com a Literatura, na mor parte do tempo lendo Hermann Hesse e tudo que me caísse na mão em forma de versos. Tinha eu dezesseis anos (incompletos) de idade, enquanto o gênio da crítica tupiniquim se exercitava no ofício de espantar fantasmas — entre eles o do Formalismo na crítica.

Textos densos e muitas vezes incompreensíveis de um jovem de 31 anos e que já houvera sido parceiro de ninguém menos que Manuel Bandeira, na seleção e organização de “Poesia no Brasil (antologia)”, 1963 e lançado nada menos que três livros de crítica e participado de um panorama da literatura no continente (com vários autores, em “America Latina en su Literatura”, ed. Siglo XXI, México, 1972); os livros do autor até então haviam de se tornar canônicos: “Razão do Poema” (1965), “Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin (1969), “A astúcia da mímese” (1972) e do mesmo ano fatídico de 72 o seu livro de ensaios sobre a crise da cultura, intitulado “Saudades do Carnaval”.

Hoje, aos 62, senti saudades do Merquior, que se foi tão moço em janeiro de 1991 para o convívio do Eterno… Reli “Para o Sesquicentenário…” no meu volume hoje envelhecido (da Editora da USP) de 1979, que comprei por 150 moedas da época na livraria Sulina (em Porto Alegre).

Porto Alegre, como sabem meus seis leitores, foi o meu primeiro lar de jovem casado, (ainda muito desajuizado) e levado pelo vento da mais nova idéia que aparecesse, no entanto, certo de que só eu próprio faria meu caminho futuro — daí porque continuava estudando Física e lendo o melhor da Literatura que garimpava no Martins Livreiro (mais em conta) e nas livrarias do velho centro histórico de Porto Alegre, onde morei por agradáveis seis anos. Sim, lia Merquior, enquanto muito do que ouvia sobre música e literatura, sociologia e política batia de frente com o aprendizado que ia fazendo nos livros do Merquior.

Anos depois, um amigo de juventude me disse que Merquior surpreendera seus professores na London School of Economics (LSE) pela sua capacidade de memorização e pela voracidade de leitura que demonstrava. Era como se ele tivesse lido tudo e lido (muito) mais que o seu próprio orientador.

Deixo dois ou três pontos dos 12 do ensaio citado e devo voltar ao assunto em breve, porque Merquior merece ser lido (e relido).

“The end and aim of (….)
literature is (…) 
a criticism of life.” 
(M. Arnold, via J.G.Merquior, “Formalismo e tradição moderna: o problema da arte na crise da Cultura”, 1974)
“Criticism of life é uma noção cheia de significado, sobretudo quando, na formulação que Arnold lhe dera em 1864 [reproduzida na epígrafe de Merquior e acima], a “crítica da vida” corresponde ao fim e alvo da literatura, e não (como fórmulas mais sintéticas podem dar a entender) a literatura tout court; pois a presença dessa aristotélica causa final (the end and aim…) permite frisar a essencialidade da relação literatura/vida social `sem subestimar as características técnicas do fenômeno literário` (o tipo específico de discurso que constitui o texto artístico; o tipo também específico de experiência em que consiste o seu consumo etc…). Logo, não há razão para descartar com tanta desenvoltura o bravo dito arnoldiano, sob o pretexto de que se trata da funesta heresia didática… a menos que o descartamento proceda do…formalismo dos mencionados críticos-historiadores.” (J.G.Merquior, “Formalismo e tradição moderna”, p.147, ed. da USP, 1974).

O ensaísmo religioso de Matthew Arnold leva a essa posição de considerar a Poesia uma Religião.
9. “Arnold considerava a literatura herdeira da religião, sucessora das emoções fundamentais outrora atendidas pela fé religiosa. É verdade que, humanista liberal em matéria de crença, tocado pela crítica racionalista das Escrituras, ele adere à aposentadoria do dogma, valorizando principalmente o “significado humano” do cristianismo. Ainda assim, no entanto, soa bem parcial afirmar como T.S. Eliot (Arnols and Pater, in Selected Essays, Faber, Londres, 1951, p.434), que o efeito do ensaísmo religioso de Arnold é “to diverce Religion from thought”, transformando a religiosidade “poética”, puramente emotiva, resultante, numa clara prefiguração do hedonismo esteticista de Pater. Pois “a religião sem dogma” é [e eu me pergunto: vem a ser?] Poesia ” — onde há um senso de Beleza e de conduta (Merquior cita “Literature and Science” como a defesa mais apropriada da literatura contra o positivismo de Huxley, que pretendia reduzir a poesia ao “beletrismo ornamental”.
Ainda segundo J.G.Merquior, “justamente por conter esse sentido ético, sem nenhum prejuízo da sua natureza artística, é que a literatura pode ser crítica da vida”. E mais:
“De modo que a poesia herdeira da religião de Arnold não saberia prefigurar, sem mais aquela, o esteticismo de Pater; “a poesia como religião não se confunde com a religião da poesia, culto ´fin-de-siècle`; ela é antes a herdeira laica da religião-como-poesia — da religião como “poesia prática” de Novalis, ou da religião como “poetry of Mankind” de Coleridge e do antiutilitarismo romântico, relembrados por Octavio Paz em El Arco y la Lira. Dando à literatura o papel de orientadora moral da sociedade, o humanismo utopístico de Matthew Arnold inverte a sequência hegeliana : a idade estética sucederá à época da fé” (p.151 do livro citado).

Todo poeta gostaria que a profecia de Matthew Arnold fez, seja realidade:
“More and more mankind will discover that we have to turn to poetry…”
(Matthew Arnold cit. by Merquior, p.150).

Bem, eu não vou tomar o tempo do leitor com um post longo sobre um intelectual que merece ser relembrado. Deixo pra vocês um link para a aquisição de livros na editora É Realizações – a obra de J.G.Merquior e um vídeo em que o Merquior é debatido pelo professor João Cézar de Castro Rocha e o economista Joel Pinheiro.

Kazuo Ishiguro (I)

Para ler a coluna DESTARTE de hoje, 02 NOV 2017, peço ao distinto leitor que clique na imagem abaixo que o levará ao link do Jornal Opção Cultural (Goiânia). Dedico-me a entender as conexões do romance “O gigante enterrado” (Kazuo Ishiguro, 2015) – Nobel de 2017; e as relações entre esquecimento e a paz (entre os casais e as Nações). Aproveite, dileto Leitor.
Obrigado.

 

Destarte 02 NOV 2017
Destarte, 02 NOV 2017

Destarte, #3 – O futuro da Poesia

LEIA minha coluna desta sexta-feira, excepcionalmente não publicada na quinta-feira —, em virtude do evento de lançamento do meu “Frágil armação”(2a. edição), editado por Livraria e Editora Caminhos.
Clique no link para ler na íntegra.
Destarte 15 09 2017

Notas esparsas

Um artigo, quando bem lido – o que pressupõe, às vezes, ser relido, pode dar ao leitor muitos insights, propor novas visões e ampliar-lhe os horizontes para novas leituras e o conhecimento de novos autores.

Fabricio Tavares de Moraes.jpg
Fabrício Tavares de Moraes, cristão, tradutor e Doutor em Literatura  pela Queen Mary University of London.

Se o ensaio pressupõe uma tentativa, um misto linguístico de poesia e raciocínio, de liberdade temática, em Fabrício Tavares Moraes vemos o desenvolvimento claro de um misto de erudição e pedagogia — tudo isso feito sem fogos de artifício na linguagem, embora sempre desafiador para o comum dos leitores, mas principalmente tudo feito para a glória de Deus, pois que o autor é um cristão dedicado e racional.

Quando o que se lê é um artigo da erudição do amigo (e irmão em Cristo) Fabrício Tavares de Moraes, isso se torna um desafio à inteligência e ao desenvolvimento de potencialidades que estão amortecidas ou dormentes em nossas rotinas cansativas e nossas retinas desacostumadas às grandes e belas imagens — sim, pois ainda as possuímos, malgrado o desastre deste apocalíptico século mau.

Tome-se por exemplo a coluna dele, em “Estado da arte”, do último sábado, 02 de setembro, sob o título e leia-a com atenção e cuidado.

Fomos dados em espetáculo ao mundo: o drama divino e humano em Kevin Vanhoozer, parte 1 de 2

Começa assim…

“Para lá do deserto da crítica, queremos ser interpelados de novo”, disse Paul Ricouer em sua obra A Simbólica do Mal. O deserto no qual ele e outros perambulavam era precisamente a crítica textual e a hermenêutica modernas que somente ofereciam miragens, mantendo-os num eterno êxodo que impedia tanto a entrada na terra da promessa do sentido do texto quanto o retorno à realidade referencial.

“A morte do autor, a hermenêutica da suspeita e a epistemologia da dúvida aparentemente são elos numa cadeia que atravancou, quando não aprisionou, a compreensão e o famigerado “prazer da leitura”. O desconstrucionismo, por exemplo, sagrou no meio acadêmico a concepção do texto como uma espécie de mise en abyme, um eco de outros ecos numa regressão sem fim. (…)

E prossegue no link, mas antes de se ir veja que uma das referências apenas já valeu-me uma imersão num pensador interessantíssimo, pelo que agradeço ao articulista amigo e divido com meus seis leitores.
Trata-se de Robert C. Roberts,

Robert C Roberts
Professor Dr. Robert C. Roberts autor de “Emotions, perception and moral judgment”, entre outros…

autor de “Emotions, perception and moral judgment”. Há uma série de vídeos em que Roberts expõe uma síntese de suas ideias e há em Google Livros partes importantes de outro de seus livros (escrito em parceria com  W. Jay Wood) – Intellectual virtues: an essay in regulative epistemology (ver link abaixo).

Mas, antes de seguir esse link, permita-me citar que, de acordo com um mestre do ensaio, Michel de Montaigne, é acertado associar a virtude ao hábito; donde exara a recomendação: “aos jovens que se preparem e aos velhos, que gozem do fruto desse preparo”. O jovem Fabrício mostra-se virtuoso, preparou-se com a lei da prudência para isso. Eu, de minha parte, como idoso, dou-me o prazer da leitura de seus elaborados textos. Acertado é levar em conta a lição de São Tomás de Aquino, pois estamos diante de um jovem escritor que podemos chamar virtuoso, à vista do que o Aquinate afirma:

(…) “a virtude designa uma certa perfeição da potência. Ora, o fim da potência é o ato. Por onde, consideramos perfeita a potência na medida em que é determinada para o seu ato. Ora, há certas potências que, em si mesmas, se determinam para os seus atos; tais as potências naturais ativas; e por isso, estas se chamam em si mesmas virtudes. Porém as potências racionais, próprias do homem, não são determinadas a uma só operação, mas, são indeterminadas e relativas a muitas. Ora, elas determinam-se aos atos pelos hábitos, como do sobredito resulta; logo, as virtudes humanas são hábitos.” (Tomás de Aquino, Suma Teológica, IaIIæ, questão 55, solução).

Link para o livro de Robert C. Roberts em GoogleLivros.

“A flor de Coleridge”, de Borges e JLG

BORGES

“Aqueles que copiam minunciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal, fazem-no por confundir esse escritor com a literatura, fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastar-se da razão e a ortodoxia. Durante muitos anos, eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey” (Jorge Luis Borges, em Outras inquisições).

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Queres ler o quê? (VIII)

DOSTOIÉVSKI (1)
Existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoiévski. Dostoiévski é, se não o maior, decerto o mais poderoso escritor do século XIX; ou do século XX, pois a sua obra constitui o marco entre dois séculos da literatura. Literariamente, tudo o que é pré-dostoievskiano é  pré-histórico; ninguém escapa à sua influência subjugadora, nem sequer os mais contrários. Parece, porém, que toda a Europa tenta resistir-lhe, instintivamente e obstinadamente; e como esse bárbaro barbado, com a face sulcada de sofrimentos, parece irresistível, os europeus entrincheiram-se, ao menos, num baluarte de interpretações erradas.

O texto acima abre o artigo “Ensaios de interpretação dostoievskiana” em “A cinza do purgatório”, do crítico austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux. A análise do pensamento político do escritor russo, feita por Carpeaux dá conta do que o analista chama de “interpretações erradas” diante da rica produção deste “bárbaro barbado“, pois que a Europa fixa-se no pan-eslavismo do autor que seria “um escritor político” – e, acentua o crítico austro-brasileiro: “e o é apaixonadamente”.

Para Dostoiévski político – e isso aparece não só nas “Recordações da casa dos mortos” mas, principalmente, nos “Irmãos Karamazov” trata-se de afirmar a decadência do Ocidente, a apostasia da Igreja Católica Apostólica Romana, “pregando o domínio universal dos eslavos ortodoxos”.

É irritante, constata Carpeaux, que para aprovar o escritor, tenha o leitor europeu ou ocidental (nós, brazucas, aí incluídos) que “aceitar as convicções políticas“. Não. É o que prova o belo ensaio. Podemos, adotando uma postura de C.S. Lewis, na polêmica católicos romanos versus anglicanos, falar apenas daquilo que nos une.

Se olharmos para o escritor que “fixa – com segurança, as paisagens da alma“, esse passo fica mais fácil de ser dado. Este é passo decisivo para encontrarmos o “terreno comum” entre o leitor católico romano (ou o protestante, anglicano etc) e o ortodoxo Dostoiévski, assegura Carpeaux. Para isso, é mister esquecermos o Dostoiévski que, apesar de irritar-se com a revolução política (e o advento do socialismo na Rússia), “luta pela revolução social” (similarmente ao outro grande russo Tólstoi).

O campo comum é que no fim e ao cabo, “Dostoiévski é cristão. Nós também”. Esse, no entanto, não seria ainda – para Otto Maria Carpeaux – o “campo de encontro“, porque “Dostoiévski nos recusa o direito de nos chamarmos cristãos”.  Para o escritor russo, estão lado-a-lado em “O grande inquisidor” o padre romano e o operário londrino, o burguês parisiense e o professor de Heidelberg – acentua Carpeaux.

Na censura dostoievskiana à Igreja romana, coube ao cônego e teólogo católico alemão Paul Simon a melhor defesa, ensina-nos Carpeaux: quando Dostoiévski acusa a Igreja Romana de não ser a igreja de Deus mas unicamente a igreja dos homens, cai numa especia de “… censura [que] é arquivelha; ela foi destruída e volta sempre, cada vez mais violenta. Isto – diz o cônego – deve ter uma causa profunda; e – continua – se nisto não há verdade, deve haver uma “possibilidade”. “A Igreja romana não é espiritualista” – como deseja o ortodoxo Dostoiévski, “ela é a Igreja de Deus e a igreja dos homens, ao mesmo tempo. Ela é, até, profundamente humana; daí vem a eterna “possibilidade” de “humanizar-se”… ou para lembrar o título já clássico de Jacques Maritain, é o “espaço” que une “a Pessoa da Igreja a seu Pessoal” – com suas misérias e sua Graça infundida.

Esse “humanizar-se” de que nos fala o cônego Paul Simon é estendido e entendido por Carpeaux como uma possibilidade de “humanizar-se mesmo demasiadamente, razão por que no dizer de Rosmini, “as cinco chagas do corpo humano do Cristo não cessam de sangrar sobre o corpo da sua Igreja” – numa paráfrase às Cinco chagas da Santa Igreja…

Mas é justamente por isso, assevera Carpeaux, que a Igreja deve ser a rocha de nossa condição humana, a advogada da humanidade perante o trono de Deus.” 

E a coda do ensaio não podia ter senão a mesma beleza humana (e crítica) dos melhores textos do católico Otto Maria Carpeaux: “A Europa deixou, há muito tempo, de ser cristã. Porém, enquanto viver, continuará humanista. A Rússia nunca foi humanista, mas continuou, assim mesmo, cristã, até ao risco de deixar de ser humana. A morte temporal ou espiritual, nos espreita, cá e lá. Aqui, o humanismo descristianizado, petrificado na letra morta da filologia ou endurecido no disfarce de um neocatolicismo neopagão. Lá, o cristianismo desumanizado, petrificado pelo dogma da Igreja sectária ou endurecido pela dissimulação do evangelho socialista [presentemente quase inteiramente superado, digo eu, em 2017!] – Mais claramente: esses perigos já não nos espreitam, eles nos devoram. Cumpre recomeçar. Cumpre recristianizar o mundo e a fé, por um esforço de síntese, por um “humanismo cristão”, que lance uma ponte sobre o abismo.”

dostoievski

Sabendo assim o que nos separa daquilo que nos une ao “barbado bárbaro” Fiodor M. Dostoiévski”, Carpeaux nos recomenda transigir diante da “face barbada, sulcada pelos sofrimentos. O que nos une é o Cristo; et tout le reste est littérature. (1)

Assim procedendo, Dostoiévski continuará atual e desafiador ao humanista cristão que o lê sem ser o intransigente leitor católico romano pronto a desafiá-lo a um duelo imaginário.

+++++
Fonte: Otto Maria Carpeaux, “A cinza do purgatório“, Livraria Editora Danúbio, 2015, p.161/169. (1) em francês, no original: e o resto é literatura.

Queres ler o quê (VII)

Mais um Poema falado no SoundCloud.DestinoPalavraMenor
Fonte: “Destino palavra”, edição do Autor, 2016, p.51/2.
Queres ler o quê?

Do poeta Jorge de Lima um poema-
pergunta me assalta; e me lança a poço
tão fundo, de tardia Samaria isolada:


– Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?

Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.”

Leio, leio, e pouco se me dá
que o lido da memória escape
como líquido que se esvai –
e, assim, da flor o fruto não sai.

 

Não estando preso na jaula de Pound
O poeta feito pássaro triste na gaiola
Da métrica, da rima exata – na Roma
De uma só pedra mineral e ingrata:
Ao lido e relido colho a flor falhada.


Vou assim pelo caminho lendo com prazer,
até  que me alcance Filipe, como ao eunuco,
o carro em movimento, a mente em chamas,
coração em brasas; e repita a pergunta de Jorge:

– Entendes tu o que lês?


Desabrochará na flor d’água a flor mais próxima
A flor-estrela, a flor entendimento do que houver
A flor que há, árida ou úmida – não importa a lapela
de etíope, ou americano que soa – coração do que lê…

Comunicação no I Colóquio de Poesia Goiana, 2017

Mesa da Nova Poesia ColoquioI Colóquio de Poesia UFG,  12 de Junho de 2017 – participação na Mesa coordenada pelo poeta Miguel Jubé, doutorando em Letras pela UFG; tema: “A nova poesia em Goiás”. Participação minha com os poetas Edmar Guimarães, Fabrício Clemente e a poetisa Dheyne de Souza.


Boa tarde!

Concordando com o escritor britânico Gilbert Keith Chesterton que: “a prova de toda felicidade é a gratidão” – gostaria que minha primeira palavra aqui fosse de gratidão. À professora doutora Goiandira Ortiz, e à equipe organizadora deste colóquio, ao professor e poeta doutor Jamesson Buarque, pela acolhida sempre fraterna e a comunhão da poesia – na admiração e no respeito mútuo – o que se estende ao coordenador desta mesa, poeta-amigo Miguel Jubé.
Pois bem, “Colóquio” – venho a descobrir, eu que nunca havia participado de um anteriormente – , que nada tem de coloquial – “o colóquio é um espaço de comunicação de certa maneira formal em comparação com outras formas comunicativas, pois sendo o objetivo a exposição ou debate sobre tema particular, não há muito espaço para se desviar, exigindo-se um formalismo na estrutura”…  Exige-se a língua culta padrão, o tom adloquial – é assim que me habilito, pois, como a devida regra manda a assim proceder.

Já havia eu escrito este texto para 15 minutos, quando recebi a mensagem do organizador sobre a orientação em 03 pontos – incluindo poemas. Desconfiado que sou de minha memória, peço que me permitam ler e não improvisar minha fala neste colóquio, tentando adaptar-me ao tempo disponível.

***Coloquio Poesia UFG dia 12.jpg

Comecemos, pois, depois dessa breve introdução, voltando-me à pauta de nosso colóquio. Cabe-me, pois, pedir socorro para orientar-me nesta jornada de um quarto de hora. Ao pensar na idade dos participantes que me circundam, e no tema desta mesa, lembrei-me de um artigo de O Espectador de Jose Ortega y Gasset:  “La vida es un viaje, decian los ascetas, y corrigiendo la puntería disparaban sus armas como dardos hacia la eterna posada…” – Por que eleger a viagem como metáfora substancial da vida inteira?! – nada me pareceu mais apropriado por ter sido considerado o poeta da viagem…

 – É o que indaga o mestre espanhol, para responder sobre a fugacidade, caráter essencial que é próprio de nossa relação com as coisas – o que me pareceu de grande utilidade para mim, hoje. Ao mesmo tempo em que dizemos a uma paisagem, de um acontecimento ou de um amigo, estão chegando (já vêm, já vêm…) temos logo que preparar nossos lábios para pronunciar: “ya se van, ya se van…” já se vão, já se vão…(Jose Ortega Y Gasset).

Estou diante de uma geração que possui muitos talentos e entre estes jovens poetas, donos de muitos recursos para a construção poética. Necessário acentuar que diante da “Nova Poesia”, sinto-me como um anão entre gigantes. É de um desses que busco a inspiração para começar a falar sobre a minha presença aqui hoje.

Há aí, em toda essa poesia nova os matizes apontados por Benedito Nunes e repisados por Jamesson Buarque de i. Verso livre; ii. Variedade rítmica; iii. Coloquialismo; iv. Estilo de mistura – em que convivem o “elevado e o vulgar, as imagens de choque e o humor”.

São CONSTANTES da nova poesia:

  1. Tematização reflexiva sobre a poesia (metapoesia);
  2. A poética do fragmento
  3. Estilo neo-retórico
  4. Configuração epigramática

Ao que eu adicionaria o palimpsesto eliotiano, dentro desta grande herança da tradição moderna.
Assim, volto a me perguntar “Por que me incluir entre os novos?
Foi uma questão que me coloquei diante do convite – ao qual repito sou muito grato.

Organizadores do evento I Colóquio de Poesia Goiana, juntamente com UF, UEG, IFEG e FAPEG.

Ou mais pertinente ainda – “Qual a função da poesia hoje?”
“Esta é uma questão – relembra-nos Robert Graves – não menos pungente porque a levantem com insolência tantos ignorantes ou porque a respondam apologeticamente tantos tolos. A função da poesia é a invocação religiosa da Musa; seu uso é a experiência de uma mistura de exaltação e horror que a presença dela excita. Mas, “hoje”?

“A função e o uso permanecem os mesmos, apenas sua aplicação se alterou. Outrora, esta fora um alerta ao homem de que deveria viver em harmonia com a família das criaturas viventes dentre as quais ele nasceu, por obediência aos desejos da dona da casa; atualmente, trata-se de um lembrete de que desprezou o aviso e virou a casa de cabeça para baixo por meio de voluntariosas experiências na filosofia, na ciência e na indústria, acarretando ruína para si e para sua família. O termo “hoje” significa uma civilização na qual os principais símbolos da poesia estão desonrados. Nela, a serpente, o leão e a águia pertencem ao circo; o touro, o salmão e o javali, à fábrica de enlatados; os cavalos de corrida e os galgos, às pistas de apostas; as árvores sagradas, às serrarias. Na atual civilização, a Lua é desprezada como satélite apagado da Terra e a mulher, considerada como “contingente auxiliar do Estado”. Nela [nossa civilização], o dinheiro compra quase qualquer coisa, exceto a verdade, e qualquer um, exceto o poeta possuído pela verdade.”
(…)
Pois bem, “Se vocês forem poetas, tomarão consciência de que a aceitação de minha tese histórica há de comprometê-los com uma confissão de deslealdade que estarão pouco propensos a fazer. Vocês escolheram seus afazeres porque eles prometiam fornecer-lhes um salário regular e algum lazer para prestar à Deus que adoram um valioso serviço de meio-expediente. Hão de se perguntar quem sou eu para avisá-los de que “Ela” exige uma jornada integral ou, então, serviço algum? …”

E mais não transcrevo porque não desejo – a exemplo do poeta inglês britânico, sugerir o abandono do emprego e a dedicação quixotesca a uma empresa fracassada, muito mais porque vivendo onde vivemos “com ou sem cauda” estou impedido de dar qualquer sugestão de ordem prática, tendo vivido o que vivi – 30 anos como comerciante e uns outros poucos como bancário – e tendo em vista as decisões que tomei após a marca dos cinquent´anos – qual seja, a de dedicar-me inteiramente à cultura e em especial à Poesia. De outra parte, porque sei estar entre pessoas que fizeram uma séria profissão de fé na Poesia.

Retomo o jovem poeta-crítico Jamesson Buarque disse em sua tese sobre o poeta Gerardo Mello Mourão que “o movimento morrer – viver – morrer – nascer” – no contexto do reconhecimento de um talento poético que só a geração seguinte foi capaz de se dar conta do valor – como o é o caso de Mourão – cabe antes citar Graves novamente para quem “embora ela (a Deusa) ame para destruir; ela destrói apenas para ressuscitar” – e voltar a Jamesson:
Diz ele: “…parece [tal movimento!] com o movimento de expatriamento muito comum aos inventores da modernidade como T.S. Eliot e Ezra Pound” [1]

Isso me faz lembrar de outros escritores “redivivos” (tais como Mourão) – Jorge de Lima e Murilo Mendes (ou um Tasso da Silveira) – todos eles seguiram aquela espécie de esperança – a Esperança com E maiúsculo que moveu a prosa e a poesia de um Lúcio Cardoso – cujo traço comum é escrever na perspectiva do Eterno e não do temporal, para os quais “Morrer é recomeçar/porque duramos//das infindáveis mortes que recomeçamos” (Cardoso)

É este esforço que sublinho em minha profissão de fé na Poesia; e hoje aqui entre jovens poetas e professores.

Já se disse de minha minguada produção que nela há nuances do poeta-viajante.
(Ercília Macedo-Eckel, 2007 e Gabriel Viviani, 2016), bem como de um poeta “contrito na sua litania” (Perna Filho, 2016)

De minha parte, considero-me apenas um poeta menor – um poeta improvável – mas um poeta que busca a sobrevida [afinal, como católico, Eu creio na ressurreição ! movimento similar ao descrito por Jamesson] – sei que sou autor de uns poucos versos felizes e uns tantos outros dos quais não tenho que me envergonhar, mas consciente de que não são de entusiasmar senão aos muito próximos e generosos – familiares e amigos. Tenho do meu lado Leodegária que me faz valer a persistência de continuar:

“Eu quero mesmo, assim, viver de lado,
Das multidões passar desconhecida,
Me alimentando de algum sonho amado.
Nada mais quero, e nada mais aspiro:
Teu casto afeto que me doira a vida,
Meus livros, minha mãe e meu retiro. ”

Tomo de empréstimo ao professor-poeta Jamesson mais duas observações que me ajudam a me sentir mais adloquial neste colóquio

  1. “Reconhecer a obra de um poeta não significa, necessariamente, pautar-se por suas posições políticas”
  2. Não menos importante do que a concisa obs. acima – para a qual peço a paciência dos srs e sras. – contextualizando que se trata sim, “Ah! O novo, o velho, o cânone – o reconhecimento, num mesmo nó entrelaçados”.

“O complexo de percepção, identificação e sensação concomitantes do presente, julgamos, está devidamente caracterizado no brado de “Tradição do novo” – de Ezra Pound. Uma poesia, por isso, é contemporânea se suas unidades culturais são recifráveis pela recepção crítica e ingênua “in praesentia” e se projeta seu discurso para aquela recepção “in absentia”. Somente se nos voltarmos para aquele rastro de cinzas, iremos vislumbrar a transcedência e a recepção futura da poesia” (Jamesson Buarque, 2007, A poesia épica de GMMourão).
Dizem por aí que a poesia morreu, que não há mais leitor que resista às linhas, aos versos, aos torvelinhos – matéria das tecelãs (os). Não têm paciência mais, dizem os entendidos da web. – Será mesmo?!

Para mim, o maior desafio em Goyaz é ampliar o público-leitor de poesia. É certo e este colóquio por certo é uma das muitas formas a que podemos lançar mão para essa tarefa.

Recentemente, Fernando Monteiro, um prosador de sucesso, perguntava em um dos poucos suplementos literários ainda em circulação em nossa imprensa nacional – Afinal, estamos escrevendo para quem?
– E poupava os poetas de responder a esta pergunta com base na seguinte afirmação:

“Os poetas não precisarão participar dessa rodada de desencanto, pois eles já escrevem para um vazio que não é só o das grandes livrarias grosseiras, com suas girândolas de livros de ocasião com capas brilhantes como catarro em parede. Os poetas, como que abençoados por Deus ou pelo diabo, estão escrevendo para leitores tão escassos (há muitíssimo tempo), que se tornaram monges trapistas da literatura, escrevendo em monastérios transformados nos palácios da mente que os libertam de escrever para quem já não possui o código da Poesia, a tábua de decifração (e salvação) do verso que foi carne, no Princípio etc.
“Enfim, os poetas estão libertados pelo silêncio que os cerca – enquanto aqui se convocam, sim, principalmente os praticantes da ficção, nesta hora “vigésima quinta” por obra e graça, em parte, das editoras voltadas, nos últimos anos, quase exclusivamente para aquilo que passou a se entender como sucessos”

Parece referir-se diretamente ao mestre Alberto da Cunha Melo, no poema Casa vazia:

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas

seu deserto particular,
ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo, “Casa vazia”[2].

Que nos remete à poetisa polonesa WISLAWA SZYMBORSKA  (pron.: “Vissuáva Chembórska”) – 1923-2012 – prêmio Nobel de Literatura 1996 já dizia em poema que “somos dois em mil”.

Alguns gostam de poesia
Alguns gostam de poesia

Alguns –

ou seja nem todos.

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.

Sem contar a escola onde é obrigatório

e os próprios poetas

seriam talvez uns dois em mil.

Creio que “Eu, você, nos dois – os que nesta sala se reúnem em torno da poesia – por certo estamos entre esses 2/1000. Mas nem sempre foi assim…
Tudo para mim no território de floresta negra da poesia, no entanto, está mais longe do que a experiência estética de muitos – corria o ano 1972, preparava-me para o vestibular de Física, opção 2 – Agronomia. No meu caderno de matemática e física (matérias de ênfase), anotava nas laterais, os poemas de Kilômetro Um” (1965) de Antonio José de Moura. Livro publicado em 1964, que tem uma epígrafe de Tasso da Silveira (em meio a outras – de Drummond, Garcia Lorca, Jamil Almansur Haddad, Rimbaud, Moacyr Félix e tantos outros). Para o candidato a Físico, essa foi a grnde descoberta do mundo metafísico.
Do natural, o estudante alçou ao Sobrenatural. Eram dias antes dos “Dias de fogo” (Antonio José de Moura) e para o jovem leitor foram dias de descoberta da amplidão do universo para além dos teoremas e equações.

“Fosse o mundo somente
o meu presente e mais nada;
fosse a vida apenas
um vôo inútil de pássaro,
serviria a bomba atômica
pra matar a passarada
e suicidar uma flor,
aquela flor da calçada
de nossa inutilidade
de candelabro, e mais nada…”

 

Passou o estudante de física a ser um “leitor razoavelmente disciplinado” da Poesia, de toda poesia – boa, ruim, mais ou menos; de modo a que da quantidade, depurasse a qualidade. Passou o sobrenatural a dominá-lo e a ouvir vozes. No início, não dei muita atenção a elas. Depois, descobri que mesmo sem Fôrma, os versos iam ganhando mais espaço no caderno de física do que as equações e as demonstrações de teoremas – como meu predileto: o de Döppler.
Sabe-se que “fenomenologicamente, podemos compreender o Efeito Doppler da seguinte forma: no caso de aproximação, a freqüência aparente da onda recebida pelo observador fica maior que a freqüência emitida. Ao contrário, no caso de afastamento, a freqüência aparente diminui. Um exemplo típico é o caso de uma ambulância com sirene ligada que passe por um observador. Ao se aproximar, o som é mais agudo (maior freqüência e menor comprimento de onda), enquanto que, ao se afastar, o som é mais grave (menor freqüência e maior comprimento de onda).”

Foi o jovem adulto ouvindo cada vez mais as vozes próximas e não teve como aventurar-se pelo espaço da poesia. Já formado em Comunicação Social e tendo abandonado o curso de Física…A poesia que se instaura é motivo de “vergonha” – uma pedra de tropeço – e sempre o será, pois embora não sejam vergonhosos, os versos que deixou o físico frustrado não encanta o poeta imaginado – o que poderia ter sido. Começa como um poeta protestante e passa a católico-poeta, donde cada vez mais me afirmo católico e menos, formalmente, poeta.

(*) Destacaria de meus livros os seguintes poemas, observando que não houve tempo de lê-los – poemas escolhidos: Néon (“Frágil armação”).
Prece ao anjo mago Manuel (“Cadernos de Sizenando”).
Mexicanas (4) (“Destino Palavra”).

Sarau no Coloquio de Poesia 2017
Sarau de poesia, 13/6, com Heleno Godoy, Dheyne de Souza, Salomão de Sousa, eu e Antonio Miranda. Participou também Jamesson Buarque (que não aparece nesta foto).

Poema que interpretei no Sarau (de meu livro “Frágil armação”, que ganhará 2a. edição este ano, pela Editora Caminhos, depois de 32 anos do lançamento!).Poética I e II.jpg


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[1] O poeta Jamesson Buarque destaca na tese a diferença poundiana entre os diversos tipos de poetas, a saber: “inventores, que são autores de um novo processo de criação; mestres, que exploram processos inventados; diluidores – os sucessores mais ou menos competentes do que os dois primeiros; bons escritores que apresentam qualidades artísticas de notoriedade mediana, mas realizam um trabalho legítimo segundo estilos de uma época; beletristass, que cultivam apenas a elegância de bem-escrever; e lançadores de modas, que são tão populare quanto efêmeros. Para o poeta-crítico Buarque, “nossa perspectiva de poeta de “achamentos e invenção” está, grosso modo, entre as duas primeiras categorias poudianas.”

[2] VILÉM FLUSSER, em modo de pensamento em voz alta sobre o fazer poesia (ou literatura em geral): “ O intelecto ´sensu stricto` é uma tecelagem que usa palavras como fios. O intelecto ´sensu lato´ tem uma antessala, na qual funciona uma fiação que transforma algodão bruto (dados dos sentidos) em fios (palavras). A maioria da matéria-prima, porém, já vem em forma de fios.