“A flor de Coleridge”, de Borges e JLG

BORGES

“Aqueles que copiam minunciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal, fazem-no por confundir esse escritor com a literatura, fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastar-se da razão e a ortodoxia. Durante muitos anos, eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey” (Jorge Luis Borges, em Outras inquisições).

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Toute la mémoire du monde

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coleridge 5 Histoire(s) du cinéma: Les signes parmi nous

“Em 1938, Paul Valéry escreveu: “a história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes de uma carreira ou da carreira de suas obras e sim a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura. Essa história poderia chegar ao fim sem mencionar um só escritor”. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação; em 1844, no povoado de Concord, outro de seus amanuenses havia anotado: “diria-se que uma só pessoa havia redigido quantos livros há no mundo; tal unidade central há neles que é inegável que sejam obra de um só cavaleiro onisciente” (Emerson: Essays, 2, VIII). Vinte anos antes, Shelley julgou que todos os poemas do passado, do presente e do porvir, são episódios ou fragmentos de um só poema infinito, erigido por todos os poetas do universo (A Defence of Poetry, 1821).

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Queres ler o quê? (VIII)

DOSTOIÉVSKI (1)
Existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoiévski. Dostoiévski é, se não o maior, decerto o mais poderoso escritor do século XIX; ou do século XX, pois a sua obra constitui o marco entre dois séculos da literatura. Literariamente, tudo o que é pré-dostoievskiano é  pré-histórico; ninguém escapa à sua influência subjugadora, nem sequer os mais contrários. Parece, porém, que toda a Europa tenta resistir-lhe, instintivamente e obstinadamente; e como esse bárbaro barbado, com a face sulcada de sofrimentos, parece irresistível, os europeus entrincheiram-se, ao menos, num baluarte de interpretações erradas.

O texto acima abre o artigo “Ensaios de interpretação dostoievskiana” em “A cinza do purgatório”, do crítico austro-brasileiro Otto Maria Carpeaux. A análise do pensamento político do escritor russo, feita por Carpeaux dá conta do que o analista chama de “interpretações erradas” diante da rica produção deste “bárbaro barbado“, pois que a Europa fixa-se no pan-eslavismo do autor que seria “um escritor político” – e, acentua o crítico austro-brasileiro: “e o é apaixonadamente”.

Para Dostoiévski político – e isso aparece não só nas “Recordações da casa dos mortos” mas, principalmente, nos “Irmãos Karamazov” trata-se de afirmar a decadência do Ocidente, a apostasia da Igreja Católica Apostólica Romana, “pregando o domínio universal dos eslavos ortodoxos”.

É irritante, constata Carpeaux, que para aprovar o escritor, tenha o leitor europeu ou ocidental (nós, brazucas, aí incluídos) que “aceitar as convicções políticas“. Não. É o que prova o belo ensaio. Podemos, adotando uma postura de C.S. Lewis, na polêmica católicos romanos versus anglicanos, falar apenas daquilo que nos une.

Se olharmos para o escritor que “fixa – com segurança, as paisagens da alma“, esse passo fica mais fácil de ser dado. Este é passo decisivo para encontrarmos o “terreno comum” entre o leitor católico romano (ou o protestante, anglicano etc) e o ortodoxo Dostoiévski, assegura Carpeaux. Para isso, é mister esquecermos o Dostoiévski que, apesar de irritar-se com a revolução política (e o advento do socialismo na Rússia), “luta pela revolução social” (similarmente ao outro grande russo Tólstoi).

O campo comum é que no fim e ao cabo, “Dostoiévski é cristão. Nós também”. Esse, no entanto, não seria ainda – para Otto Maria Carpeaux – o “campo de encontro“, porque “Dostoiévski nos recusa o direito de nos chamarmos cristãos”.  Para o escritor russo, estão lado-a-lado em “O grande inquisidor” o padre romano e o operário londrino, o burguês parisiense e o professor de Heidelberg – acentua Carpeaux.

Na censura dostoievskiana à Igreja romana, coube ao cônego e teólogo católico alemão Paul Simon a melhor defesa, ensina-nos Carpeaux: quando Dostoiévski acusa a Igreja Romana de não ser a igreja de Deus mas unicamente a igreja dos homens, cai numa especia de “… censura [que] é arquivelha; ela foi destruída e volta sempre, cada vez mais violenta. Isto – diz o cônego – deve ter uma causa profunda; e – continua – se nisto não há verdade, deve haver uma “possibilidade”. “A Igreja romana não é espiritualista” – como deseja o ortodoxo Dostoiévski, “ela é a Igreja de Deus e a igreja dos homens, ao mesmo tempo. Ela é, até, profundamente humana; daí vem a eterna “possibilidade” de “humanizar-se”… ou para lembrar o título já clássico de Jacques Maritain, é o “espaço” que une “a Pessoa da Igreja a seu Pessoal” – com suas misérias e sua Graça infundida.

Esse “humanizar-se” de que nos fala o cônego Paul Simon é estendido e entendido por Carpeaux como uma possibilidade de “humanizar-se mesmo demasiadamente, razão por que no dizer de Rosmini, “as cinco chagas do corpo humano do Cristo não cessam de sangrar sobre o corpo da sua Igreja” – numa paráfrase às Cinco chagas da Santa Igreja…

Mas é justamente por isso, assevera Carpeaux, que a Igreja deve ser a rocha de nossa condição humana, a advogada da humanidade perante o trono de Deus.” 

E a coda do ensaio não podia ter senão a mesma beleza humana (e crítica) dos melhores textos do católico Otto Maria Carpeaux: “A Europa deixou, há muito tempo, de ser cristã. Porém, enquanto viver, continuará humanista. A Rússia nunca foi humanista, mas continuou, assim mesmo, cristã, até ao risco de deixar de ser humana. A morte temporal ou espiritual, nos espreita, cá e lá. Aqui, o humanismo descristianizado, petrificado na letra morta da filologia ou endurecido no disfarce de um neocatolicismo neopagão. Lá, o cristianismo desumanizado, petrificado pelo dogma da Igreja sectária ou endurecido pela dissimulação do evangelho socialista [presentemente quase inteiramente superado, digo eu, em 2017!] – Mais claramente: esses perigos já não nos espreitam, eles nos devoram. Cumpre recomeçar. Cumpre recristianizar o mundo e a fé, por um esforço de síntese, por um “humanismo cristão”, que lance uma ponte sobre o abismo.”

dostoievski

Sabendo assim o que nos separa daquilo que nos une ao “barbado bárbaro” Fiodor M. Dostoiévski”, Carpeaux nos recomenda transigir diante da “face barbada, sulcada pelos sofrimentos. O que nos une é o Cristo; et tout le reste est littérature. (1)

Assim procedendo, Dostoiévski continuará atual e desafiador ao humanista cristão que o lê sem ser o intransigente leitor católico romano pronto a desafiá-lo a um duelo imaginário.

+++++
Fonte: Otto Maria Carpeaux, “A cinza do purgatório“, Livraria Editora Danúbio, 2015, p.161/169. (1) em francês, no original: e o resto é literatura.

Queres ler o quê (VII)

Mais um Poema falado no SoundCloud.DestinoPalavraMenor
Fonte: “Destino palavra”, edição do Autor, 2016, p.51/2.
Queres ler o quê?

Do poeta Jorge de Lima um poema-
pergunta me assalta; e me lança a poço
tão fundo, de tardia Samaria isolada:


– Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?

Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.”

Leio, leio, e pouco se me dá
que o lido da memória escape
como líquido que se esvai –
e, assim, da flor o fruto não sai.

 

Não estando preso na jaula de Pound
O poeta feito pássaro triste na gaiola
Da métrica, da rima exata – na Roma
De uma só pedra mineral e ingrata:
Ao lido e relido colho a flor falhada.


Vou assim pelo caminho lendo com prazer,
até  que me alcance Filipe, como ao eunuco,
o carro em movimento, a mente em chamas,
coração em brasas; e repita a pergunta de Jorge:

– Entendes tu o que lês?


Desabrochará na flor d’água a flor mais próxima
A flor-estrela, a flor entendimento do que houver
A flor que há, árida ou úmida – não importa a lapela
de etíope, ou americano que soa – coração do que lê…

Comunicação no I Colóquio de Poesia Goiana, 2017

Mesa da Nova Poesia ColoquioI Colóquio de Poesia UFG,  12 de Junho de 2017 – participação na Mesa coordenada pelo poeta Miguel Jubé, doutorando em Letras pela UFG; tema: “A nova poesia em Goiás”. Participação minha com os poetas Edmar Guimarães, Fabrício Clemente e a poetisa Dheyne de Souza.


Boa tarde!

Concordando com o escritor britânico Gilbert Keith Chesterton que: “a prova de toda felicidade é a gratidão” – gostaria que minha primeira palavra aqui fosse de gratidão. À professora doutora Goiandira Ortiz, e à equipe organizadora deste colóquio, ao professor e poeta doutor Jamesson Buarque, pela acolhida sempre fraterna e a comunhão da poesia – na admiração e no respeito mútuo – o que se estende ao coordenador desta mesa, poeta-amigo Miguel Jubé.
Pois bem, “Colóquio” – venho a descobrir, eu que nunca havia participado de um anteriormente – , que nada tem de coloquial – “o colóquio é um espaço de comunicação de certa maneira formal em comparação com outras formas comunicativas, pois sendo o objetivo a exposição ou debate sobre tema particular, não há muito espaço para se desviar, exigindo-se um formalismo na estrutura”…  Exige-se a língua culta padrão, o tom adloquial – é assim que me habilito, pois, como a devida regra manda a assim proceder.

Já havia eu escrito este texto para 15 minutos, quando recebi a mensagem do organizador sobre a orientação em 03 pontos – incluindo poemas. Desconfiado que sou de minha memória, peço que me permitam ler e não improvisar minha fala neste colóquio, tentando adaptar-me ao tempo disponível.

***Coloquio Poesia UFG dia 12.jpg

Comecemos, pois, depois dessa breve introdução, voltando-me à pauta de nosso colóquio. Cabe-me, pois, pedir socorro para orientar-me nesta jornada de um quarto de hora. Ao pensar na idade dos participantes que me circundam, e no tema desta mesa, lembrei-me de um artigo de O Espectador de Jose Ortega y Gasset:  “La vida es un viaje, decian los ascetas, y corrigiendo la puntería disparaban sus armas como dardos hacia la eterna posada…” – Por que eleger a viagem como metáfora substancial da vida inteira?! – nada me pareceu mais apropriado por ter sido considerado o poeta da viagem…

 – É o que indaga o mestre espanhol, para responder sobre a fugacidade, caráter essencial que é próprio de nossa relação com as coisas – o que me pareceu de grande utilidade para mim, hoje. Ao mesmo tempo em que dizemos a uma paisagem, de um acontecimento ou de um amigo, estão chegando (já vêm, já vêm…) temos logo que preparar nossos lábios para pronunciar: “ya se van, ya se van…” já se vão, já se vão…(Jose Ortega Y Gasset).

Estou diante de uma geração que possui muitos talentos e entre estes jovens poetas, donos de muitos recursos para a construção poética. Necessário acentuar que diante da “Nova Poesia”, sinto-me como um anão entre gigantes. É de um desses que busco a inspiração para começar a falar sobre a minha presença aqui hoje.

Há aí, em toda essa poesia nova os matizes apontados por Benedito Nunes e repisados por Jamesson Buarque de i. Verso livre; ii. Variedade rítmica; iii. Coloquialismo; iv. Estilo de mistura – em que convivem o “elevado e o vulgar, as imagens de choque e o humor”.

São CONSTANTES da nova poesia:

  1. Tematização reflexiva sobre a poesia (metapoesia);
  2. A poética do fragmento
  3. Estilo neo-retórico
  4. Configuração epigramática

Ao que eu adicionaria o palimpsesto eliotiano, dentro desta grande herança da tradição moderna.
Assim, volto a me perguntar “Por que me incluir entre os novos?
Foi uma questão que me coloquei diante do convite – ao qual repito sou muito grato.

Organizadores do evento I Colóquio de Poesia Goiana, juntamente com UF, UEG, IFEG e FAPEG.

Ou mais pertinente ainda – “Qual a função da poesia hoje?”
“Esta é uma questão – relembra-nos Robert Graves – não menos pungente porque a levantem com insolência tantos ignorantes ou porque a respondam apologeticamente tantos tolos. A função da poesia é a invocação religiosa da Musa; seu uso é a experiência de uma mistura de exaltação e horror que a presença dela excita. Mas, “hoje”?

“A função e o uso permanecem os mesmos, apenas sua aplicação se alterou. Outrora, esta fora um alerta ao homem de que deveria viver em harmonia com a família das criaturas viventes dentre as quais ele nasceu, por obediência aos desejos da dona da casa; atualmente, trata-se de um lembrete de que desprezou o aviso e virou a casa de cabeça para baixo por meio de voluntariosas experiências na filosofia, na ciência e na indústria, acarretando ruína para si e para sua família. O termo “hoje” significa uma civilização na qual os principais símbolos da poesia estão desonrados. Nela, a serpente, o leão e a águia pertencem ao circo; o touro, o salmão e o javali, à fábrica de enlatados; os cavalos de corrida e os galgos, às pistas de apostas; as árvores sagradas, às serrarias. Na atual civilização, a Lua é desprezada como satélite apagado da Terra e a mulher, considerada como “contingente auxiliar do Estado”. Nela [nossa civilização], o dinheiro compra quase qualquer coisa, exceto a verdade, e qualquer um, exceto o poeta possuído pela verdade.”
(…)
Pois bem, “Se vocês forem poetas, tomarão consciência de que a aceitação de minha tese histórica há de comprometê-los com uma confissão de deslealdade que estarão pouco propensos a fazer. Vocês escolheram seus afazeres porque eles prometiam fornecer-lhes um salário regular e algum lazer para prestar à Deus que adoram um valioso serviço de meio-expediente. Hão de se perguntar quem sou eu para avisá-los de que “Ela” exige uma jornada integral ou, então, serviço algum? …”

E mais não transcrevo porque não desejo – a exemplo do poeta inglês britânico, sugerir o abandono do emprego e a dedicação quixotesca a uma empresa fracassada, muito mais porque vivendo onde vivemos “com ou sem cauda” estou impedido de dar qualquer sugestão de ordem prática, tendo vivido o que vivi – 30 anos como comerciante e uns outros poucos como bancário – e tendo em vista as decisões que tomei após a marca dos cinquent´anos – qual seja, a de dedicar-me inteiramente à cultura e em especial à Poesia. De outra parte, porque sei estar entre pessoas que fizeram uma séria profissão de fé na Poesia.

Retomo o jovem poeta-crítico Jamesson Buarque disse em sua tese sobre o poeta Gerardo Mello Mourão que “o movimento morrer – viver – morrer – nascer” – no contexto do reconhecimento de um talento poético que só a geração seguinte foi capaz de se dar conta do valor – como o é o caso de Mourão – cabe antes citar Graves novamente para quem “embora ela (a Deusa) ame para destruir; ela destrói apenas para ressuscitar” – e voltar a Jamesson:
Diz ele: “…parece [tal movimento!] com o movimento de expatriamento muito comum aos inventores da modernidade como T.S. Eliot e Ezra Pound” [1]

Isso me faz lembrar de outros escritores “redivivos” (tais como Mourão) – Jorge de Lima e Murilo Mendes (ou um Tasso da Silveira) – todos eles seguiram aquela espécie de esperança – a Esperança com E maiúsculo que moveu a prosa e a poesia de um Lúcio Cardoso – cujo traço comum é escrever na perspectiva do Eterno e não do temporal, para os quais “Morrer é recomeçar/porque duramos//das infindáveis mortes que recomeçamos” (Cardoso)

É este esforço que sublinho em minha profissão de fé na Poesia; e hoje aqui entre jovens poetas e professores.

Já se disse de minha minguada produção que nela há nuances do poeta-viajante.
(Ercília Macedo-Eckel, 2007 e Gabriel Viviani, 2016), bem como de um poeta “contrito na sua litania” (Perna Filho, 2016)

De minha parte, considero-me apenas um poeta menor – um poeta improvável – mas um poeta que busca a sobrevida [afinal, como católico, Eu creio na ressurreição ! movimento similar ao descrito por Jamesson] – sei que sou autor de uns poucos versos felizes e uns tantos outros dos quais não tenho que me envergonhar, mas consciente de que não são de entusiasmar senão aos muito próximos e generosos – familiares e amigos. Tenho do meu lado Leodegária que me faz valer a persistência de continuar:

“Eu quero mesmo, assim, viver de lado,
Das multidões passar desconhecida,
Me alimentando de algum sonho amado.
Nada mais quero, e nada mais aspiro:
Teu casto afeto que me doira a vida,
Meus livros, minha mãe e meu retiro. ”

Tomo de empréstimo ao professor-poeta Jamesson mais duas observações que me ajudam a me sentir mais adloquial neste colóquio

  1. “Reconhecer a obra de um poeta não significa, necessariamente, pautar-se por suas posições políticas”
  2. Não menos importante do que a concisa obs. acima – para a qual peço a paciência dos srs e sras. – contextualizando que se trata sim, “Ah! O novo, o velho, o cânone – o reconhecimento, num mesmo nó entrelaçados”.

“O complexo de percepção, identificação e sensação concomitantes do presente, julgamos, está devidamente caracterizado no brado de “Tradição do novo” – de Ezra Pound. Uma poesia, por isso, é contemporânea se suas unidades culturais são recifráveis pela recepção crítica e ingênua “in praesentia” e se projeta seu discurso para aquela recepção “in absentia”. Somente se nos voltarmos para aquele rastro de cinzas, iremos vislumbrar a transcedência e a recepção futura da poesia” (Jamesson Buarque, 2007, A poesia épica de GMMourão).
Dizem por aí que a poesia morreu, que não há mais leitor que resista às linhas, aos versos, aos torvelinhos – matéria das tecelãs (os). Não têm paciência mais, dizem os entendidos da web. – Será mesmo?!

Para mim, o maior desafio em Goyaz é ampliar o público-leitor de poesia. É certo e este colóquio por certo é uma das muitas formas a que podemos lançar mão para essa tarefa.

Recentemente, Fernando Monteiro, um prosador de sucesso, perguntava em um dos poucos suplementos literários ainda em circulação em nossa imprensa nacional – Afinal, estamos escrevendo para quem?
– E poupava os poetas de responder a esta pergunta com base na seguinte afirmação:

“Os poetas não precisarão participar dessa rodada de desencanto, pois eles já escrevem para um vazio que não é só o das grandes livrarias grosseiras, com suas girândolas de livros de ocasião com capas brilhantes como catarro em parede. Os poetas, como que abençoados por Deus ou pelo diabo, estão escrevendo para leitores tão escassos (há muitíssimo tempo), que se tornaram monges trapistas da literatura, escrevendo em monastérios transformados nos palácios da mente que os libertam de escrever para quem já não possui o código da Poesia, a tábua de decifração (e salvação) do verso que foi carne, no Princípio etc.
“Enfim, os poetas estão libertados pelo silêncio que os cerca – enquanto aqui se convocam, sim, principalmente os praticantes da ficção, nesta hora “vigésima quinta” por obra e graça, em parte, das editoras voltadas, nos últimos anos, quase exclusivamente para aquilo que passou a se entender como sucessos”

Parece referir-se diretamente ao mestre Alberto da Cunha Melo, no poema Casa vazia:

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas

seu deserto particular,
ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Alberto da Cunha Melo, “Casa vazia”[2].

Que nos remete à poetisa polonesa WISLAWA SZYMBORSKA  (pron.: “Vissuáva Chembórska”) – 1923-2012 – prêmio Nobel de Literatura 1996 já dizia em poema que “somos dois em mil”.

Alguns gostam de poesia
Alguns gostam de poesia

Alguns –

ou seja nem todos.

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.

Sem contar a escola onde é obrigatório

e os próprios poetas

seriam talvez uns dois em mil.

Creio que “Eu, você, nos dois – os que nesta sala se reúnem em torno da poesia – por certo estamos entre esses 2/1000. Mas nem sempre foi assim…
Tudo para mim no território de floresta negra da poesia, no entanto, está mais longe do que a experiência estética de muitos – corria o ano 1972, preparava-me para o vestibular de Física, opção 2 – Agronomia. No meu caderno de matemática e física (matérias de ênfase), anotava nas laterais, os poemas de Kilômetro Um” (1965) de Antonio José de Moura. Livro publicado em 1964, que tem uma epígrafe de Tasso da Silveira (em meio a outras – de Drummond, Garcia Lorca, Jamil Almansur Haddad, Rimbaud, Moacyr Félix e tantos outros). Para o candidato a Físico, essa foi a grnde descoberta do mundo metafísico.
Do natural, o estudante alçou ao Sobrenatural. Eram dias antes dos “Dias de fogo” (Antonio José de Moura) e para o jovem leitor foram dias de descoberta da amplidão do universo para além dos teoremas e equações.

“Fosse o mundo somente
o meu presente e mais nada;
fosse a vida apenas
um vôo inútil de pássaro,
serviria a bomba atômica
pra matar a passarada
e suicidar uma flor,
aquela flor da calçada
de nossa inutilidade
de candelabro, e mais nada…”

 

Passou o estudante de física a ser um “leitor razoavelmente disciplinado” da Poesia, de toda poesia – boa, ruim, mais ou menos; de modo a que da quantidade, depurasse a qualidade. Passou o sobrenatural a dominá-lo e a ouvir vozes. No início, não dei muita atenção a elas. Depois, descobri que mesmo sem Fôrma, os versos iam ganhando mais espaço no caderno de física do que as equações e as demonstrações de teoremas – como meu predileto: o de Döppler.
Sabe-se que “fenomenologicamente, podemos compreender o Efeito Doppler da seguinte forma: no caso de aproximação, a freqüência aparente da onda recebida pelo observador fica maior que a freqüência emitida. Ao contrário, no caso de afastamento, a freqüência aparente diminui. Um exemplo típico é o caso de uma ambulância com sirene ligada que passe por um observador. Ao se aproximar, o som é mais agudo (maior freqüência e menor comprimento de onda), enquanto que, ao se afastar, o som é mais grave (menor freqüência e maior comprimento de onda).”

Foi o jovem adulto ouvindo cada vez mais as vozes próximas e não teve como aventurar-se pelo espaço da poesia. Já formado em Comunicação Social e tendo abandonado o curso de Física…A poesia que se instaura é motivo de “vergonha” – uma pedra de tropeço – e sempre o será, pois embora não sejam vergonhosos, os versos que deixou o físico frustrado não encanta o poeta imaginado – o que poderia ter sido. Começa como um poeta protestante e passa a católico-poeta, donde cada vez mais me afirmo católico e menos, formalmente, poeta.

(*) Destacaria de meus livros os seguintes poemas, observando que não houve tempo de lê-los – poemas escolhidos: Néon (“Frágil armação”).
Prece ao anjo mago Manuel (“Cadernos de Sizenando”).
Mexicanas (4) (“Destino Palavra”).

Sarau no Coloquio de Poesia 2017
Sarau de poesia, 13/6, com Heleno Godoy, Dheyne de Souza, Salomão de Sousa, eu e Antonio Miranda. Participou também Jamesson Buarque (que não aparece nesta foto).

Poema que interpretei no Sarau (de meu livro “Frágil armação”, que ganhará 2a. edição este ano, pela Editora Caminhos, depois de 32 anos do lançamento!).Poética I e II.jpg


++++++
[1] O poeta Jamesson Buarque destaca na tese a diferença poundiana entre os diversos tipos de poetas, a saber: “inventores, que são autores de um novo processo de criação; mestres, que exploram processos inventados; diluidores – os sucessores mais ou menos competentes do que os dois primeiros; bons escritores que apresentam qualidades artísticas de notoriedade mediana, mas realizam um trabalho legítimo segundo estilos de uma época; beletristass, que cultivam apenas a elegância de bem-escrever; e lançadores de modas, que são tão populare quanto efêmeros. Para o poeta-crítico Buarque, “nossa perspectiva de poeta de “achamentos e invenção” está, grosso modo, entre as duas primeiras categorias poudianas.”

[2] VILÉM FLUSSER, em modo de pensamento em voz alta sobre o fazer poesia (ou literatura em geral): “ O intelecto ´sensu stricto` é uma tecelagem que usa palavras como fios. O intelecto ´sensu lato´ tem uma antessala, na qual funciona uma fiação que transforma algodão bruto (dados dos sentidos) em fios (palavras). A maioria da matéria-prima, porém, já vem em forma de fios.

Sobre Diogo Rosas G

Continuando a série de leituras sobre a novíssima literatura feita no Brasil, apresento artigo sobre o livro de DIOGO ROSAS G. divulgado em Opção Cultural, caderno dedicado à Cultura no Jornal Opção, Goiânia, ed. 2170, 13.02.2017. Para ler o artigo, clique na imagem abaixo.

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Um “serpentário de erros”

JORGE DE LIMA em seu testamento poético criou uma longa “biografia épica” e recriou-se como poeta, na pele de um insular da poesia de nosso hemisfério

Canto I, 1
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e  noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.

(…)

Canto I, 15
E em cada passo surge um serpentário de erros
e uma face sutil que de repente estaca
os meninos, os pés, os sonhos e os bezerros.

Canto X, 20
No momento de crer,
criando
contra as forças da morte
a fé.

No momento de prece,
orando
pela fé que perderam
os outros.

No momento de fé
crivado
com umas setas de amor
as mãos
e os pés e o lado esquerdo
Amém.

EXPLICIT.

invencao-de-orfeu_

Há tanto para redescobrir nesta ébria viagem, desde a “Fundação da ilha” (Canto I) até a findada “Missão e promissão” (Canto X) que, causando ódio ou amor, as dificuldades suplementares surgem para entender os cimos e os vales do poeta em seu derradeiro canto.

“Invenção de Orfeu – diz-nos Fábio de Souza Andrade, “recoloca em circulação outro Jorge de Lima, mais ambicioso (e, portanto, mais ricos em picos e vales), mais resistente à assimilação, que costuma provocar reações extremas: ódio ou amor.”

Experimentação e hermetismo se misturam nessa ilha e o poeta – um insular bem treinado, exige do que navega igual perícia ou maior. Considerada uma biografia épica “Invenção de Orfeu” teria sido a sua própria, dele poeta “que propõe a forjar aqui, combinando gêneros eles mesmos, se apresentam abalados, compostos e heteróclitos. Sua ‘épica’ convoca os modelos clássicos (Virgílio, Dante, Camões e Milton), nunca como uma imitação exterior da tradição agonizante, mas como uma releitura de seus temas, episódios e motivos líricos e narrativos a partir da valorização pós-romântica do polo subjetivo no processo de criação”.

No Canto I, a gênese do longo poema de dez cantos, em que os 1800 versos primeiros são como “a explosão inicial” (Fábio Andrade) e aí, no centro, a referência bíblica ao lado da referência a uma tradição poética imensa. Tarefa árdua seria a de cavar nesse terreno da ilha para descobrirmos mais e mais. Uma hermenêutica se impõe à leitura de Invenção de Orfeu (Jorge de Lima, e sua “biografia épica”), dedicada ao amigo (também católico) Murilo Mendes.


Por ora,  fica a gênese do Mal que no jardim plantada hoje se repete ao longo de um século mau. “O serpentário de erros” aponta-nos a humanidade que conspurca o Éden divino – somos nós, humanos, na ilha,

“Vês, vão os reis de Lúcifa e Malvilha
batidos, tão sem brilho a espada de aço;
tão cansada a carcaça de olho em quilha;
são réus de quem, senão do humano braço
ou de quem for que à sombra os dentes rilha?
Ou de quem vencer pode todo o espaço?
Vencer com jogos tais e tal bravura,
de Deus chamar podemos, de loucura.”


E a violência que espoca na ilha tem nome e referência:

“Contudo grande Ovídio, o calendário
necessita de grandes abluções.
Mataram César ontem – sangue diário
nesses marços de guerra e de aflições;
os jogos deste mês tumultuário
são os roteiros das condenações.
Penduraram cabeças inocentes,
enodoaram de sangue os teus poentes.”

Como seu o poeta pudesse antecipar o Século Mau e o Mal banalizado dos vindouros.
Uma hermenêutica se impõe. Ou como dizia Murilo Mendes, lembrado não sem utilidade por João Gaspar Simões: “O trabalho de exegese do livro terá que ser lentamente feito, através dos anos, por equipes de críticos que o abordem com amor, ciência e intuição, e não apenas com um frio aparelhamento erudito”. Entre os críticos, Murilo por primeiro; outros mais vêm se debruçando (ou navegando a dentro, se prefere o leitor) “penetrando” (como quer Gaspar Simões):
“Extraño todo el designio, la fábrica y el modo” como diria Góngora, é de Góngora que realmente nos lembramos quando penetramos nesta floresta de imagens, de metáfora, de símbolos, de mitos, de ritos, de formas, de seres, de coisas que se associam para viver dentro dessa ‘ilha’ tropical que é a ‘ilha’ em que vamos assistir à invenção de Orfeu”.
Será preciso que sucessivas gerações de críticos se debrucem sobre a fábrica imensa deste imenso poema para, finalmente, se obter uma rigorosa exegese do mistério que o envolve.

Eis um projeto que pode nutrir toda uma vida de apreciador da poesia de Jorge de Lima. Eis uma agenda para um leitor atento dos poetas católicos do Brasil (Jorge, Murilo, Schmidt e o 4o. elemento adicionado à Tríade – Tasso da Silveira).

“Os poemas se tingem de vermelho;
é uma face sangrenta cada espelho.”

Uma chave para entender o futuro em que nos situamos. Ah, século xxi de “pura veneza e seu restelo“; de civilização e seu revés; de fausto e violência extremada – das prisões às areias sem lei do deserto em que se nutre “o serpentário de erros” dos humanos, sobretudo dos maometanos.

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Meus posts mais lidos em 2016

Leitores amigos de Leveza & Esperança:

Olá! As veredas da leitura e da reflexão. É o que posso dizer sobre meu persistente trabalho aqui no blog. Um exercício pessoal que vai ganhando adeptos, sem nunca ceder à mesmice e ao mainstream editorial – estou mais interessado naqueles “talvez uns dois em mil” leitores de que nos fala o poema de  Wislawa SZYMBORSKA
(1923-2012).

Alguns gostam de poesia

Alguns –

ou seja nem todos.

Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Sim, dois em mil. Não milhões, tampouco half a million –  como parece imperar nos sites e portais atuais aqui você e eu (dois em mil) podemos nos deleitar com temas que não passam na web massiva; notadamente temas como Literatura e Fé, catolicismo, poesia e crítica literária. Essas reflexões sobre leituras ganharam este ano uma nova série de posts, intitulada “Queres ler o quê?” 

Eis-nos diante de mais um ano que chega, com aquela tendência natural ao ser humano racional e minimamente organizado: fazer um balanço do ano que se vai…

Nas estatísticas de 2016, eis os 5 posts mais lidos:

  1. Queres ler o quê (IV).

    BALZAC

    Se disser sim a Honoré de Balzac, terá o leitor uma miríade de informações a seu dispor – entre romances, originais e em tradução ao português, bem como uma das mais ricas fortunas críticas. Siga lendo…

  2. A Prece, Emily Dickinson.

    PRAYER is ……
    Pintura_Sassoferrato-The-Virgin-in-Prayer MilleChristi

    Prayer is the little implement…continue lendo!

  3. José J. Veiga – a ilha dos gatos pingados.

    Um conto excepcional, lido por mim… confira neste link.

  4. Especial Georges Bernanos

    DAQUI, você pode ir direto aos posts dedicados a Georges Bernanos, o mais brasileiro dos autores franceses. Confira no link.

    Capas Novos Livros Bernanos
  5. Livros – a lista 2015.

    Confira no link.

  6. Observação final.

    Espero que você, leitor especial do blog – dois deles especialíssimos (Eliana Pessoa e Nelson L. Castro) que sempre vêem, lêem e nem sempre comentam – tenha um bom 2017.

    Que a leitura seja sua, minha, nossa companheira, nosso alimento e nossa reserva de isolamento do mundo que se encontra em atoleiros cultural e moral inaceitáveis.
    Dois dos novíssimos escritores apreciados numa nova série de posts também tiveram enorme repercussão aqui e no Facebook. Autores do século XXI – uma fortuna crítica para os que (ainda) não são escritores famosos!
    6.1 – Karleno Bocarro – que apreciei neste post (ver link).
    karleno-bocarro_perfil
    6.2 – Rodrigo Duarte Garcia – neste aqui.
    O artigo completo está nos arquivos de Opção Cultural.
    os-invernos-da-ilha
    Em 2017, espero continuar trazendo até, você leitor, minhas avaliações de leituras, reflexões poéticas e culturais sobre o que vai publicando, aquilo que considero o melhor, sem influências outras que as dos irmãos de Fé e da tradição Católica. Espero continuar respondendo à pergunta:  “Queres ler o quê?
    Au revoir. Merci!
    Ω.Ω.Ω.Ω.Ω