Posts curtos – poema a Ursulino Leão

Da série “Gênese de um livro”

O burrico

A Ursulino Leão.

 

Platero e eu” é história antiga
de quando os animais falavam;
quem contou foi Ursulino –
por Leão de sobrenome, mas
d’alma de cordeiro cativo.

No dia de seu octogésimo ano,
nós, seus leitores brindados
co’a história de um burrinho
queimado e malhado na testa;
burrinho de pernas rajadas
e de alma bíblica completa.

O burrinho da crônica além
de clone do jumento do Cristo,
milênios antes em Jerusalém –
nos encantava com seu dístico:

Dá-nos u’a “nesga de satisfação
na caligem dos nossos pesares”

Do burro xucro de meus dias
aprendi que escoicear o vento
inseparável companheiro cria
aos pobres, aos fracos intentos
de nossas bocas de infantes
um mundo de hosanas e vivas.
Platero e eu; eu e Platero
congresso de vida refazemos

E saio da história do amigo
desejoso de saudar o Cristo
com as palmas na mão agito
o hosana ao Filho Bendito.

Tudo por conta de um jumento
que, como de Balaão o animal,
enxerga, previamente ao seu dono,
figura do Anjo a libertar-lhes do Mal.

 O adeus do burrico é um gemido:
“uma nesga de satisfação
na caligem dos nossos pesares…”

(*) Ursulino Leão e euPlatero e eu“, título do romance de Juan Ramón Jimenez, Edição dos Livros do Brasil, sem data, desenhos de Bernardo Marques e tradução de José Bento. O livro foi tema de crônica de Ursulino Leão no jornal O Popular, Goiânia,  sob o título de “O Burrico e o meu (80°.) Aniversário”, depois reproduzida no livro de crônicas “GYN”, lançado pela Editora Contato/Kelps, 2015, p. 65/6.

Ursulino Leao e eu

Foto 1 – Com Ursulino na Casa Altamiro (1); e em visita a sua residência – (2).

Cartas do Pai (1)

DA NATURALIDADE, post originalmente publicado em 28/02/2004.Alceu Amoroso Lima: “Cartas do pai: de Alceu para sua filha Madre Maria Teresa”

Collagem Alceu Cartas do pai: de Alceu a sua filha madre Maria Teresa

Montagem com Capa e algumas páginas de “Cartas do Pai: de Alceu a madre Teresa ou simplesmente: Tukinha!”

Um dos muitos presentes que eu ganhei em meu aniversário, o livro do Alceu Amoroso Lima tem lugar de destaque. Estou lendo as “Cartas do Pai*” com a economia da contemplação.
Um livro tão bem escrito assim merece ser lido com atenção e cuidado. A seleção de cartas foi feita por Alceu Filho e pela destinatária das cartas, a madre superiora de um mosteiro beneditino, a abadessa Maria Teresa, a filha bem amada de Alceu, ou simplesmente a “querida Tukinha” das cartas do pai Amoroso.

Contaram esses dois filhos com o privilégio divino de ter recebido como pai esse grande brasileiro (e grande católico) Alceu AMOROSO Lima. Para navegar por 11 anos de vida de Alceu, brindando-nos com este belo livro, contaram com o apoio do Instituto Moreira Salles (IMS) e com a revisão da irmã Sílvia do citado mosteiro beneditino.

Eis-nos, leitores, diante de um grande e marcante livro. Aos poucos trarei pra vocês trechos que me encantem como este sobre a naturalidade,

Da carta enviada da fazenda São Lourenço em 6 de julho de 1958.

[…]

Alceu a Madre Teresa...

“Tukinha do meu coração…”

Você define a humildade como a porta de todas as virtudes. Como dizer melhor? Para mim, ela quase se confunde com a naturalidade. Esta é um modo de ser, alguma coisa que precede a virtude. É como que o adro de todas as virtudes,
de que a humildade é a porta de entrada. A naturalidade é qualquer coisa de indefinido, de aberto, de vago, é como um grupo de crianças brincando à porta da igreja. A marca da naturalidade é a despreocupação. Quem procura ser natural já não é.

A naturalidade é uma vocação. Embora a simples ausência de pose já seja uma forma de naturalidade. Esta, porém, no duro mesmo, é um estado constante.
[…]
A naturalidade é a preparação indefinida para a humildade. Esta já é alguma coisa de consciente, de definida, de consistente. Não é mais uma predisposição, uma vocação. É um estado. É uma estrutura do espírito. É uma moldura, dentro da qual nós colocamos a nossa pintura interior e exterior. (Ontem li que alguém – o pai de um tal de Paul Morand – classificava os pintores em de superfície, ou extrovertidos, como Rubens, ou de fundo, e introvertidos, como Rembrandt. A classificação é muito boa, não acha?)

Alceu e Madre Maria Teresa, Lia

Dr. Alceu ou simplesmente Papai (P.) e Lia, ou simplesmente Madre Maria Teresa.

Pois a naturalidade é como a pintura de fundo, vem de dentro e por isso é uma preparação, a melhor possível, para a humildade. Esta, porém, já é uma pintura de superfície, voltada para fora, no sentido de dever ser visível, embora nunca contrafeita ou artificial. Mas podendo e até devendo ser cultivada. Aprendemos a ser humildes. Temos de adestrar a nossa humildade. Melhoramos ou pioramos de humildade. A vida é uma mestra de humildade. Mas naturalidade, esta não se ensina, nem se melhora ou piora.

É ou não é. Pronto. Mas a humildade só é realmente uma grande coisa quando vem precedida de naturalidad, quando é uma humildade natural, que apenas temos o dever de cultivar, de educar, de melhorar, de ensinar, para que sempre vá crescendo
e não se deixe estragar pela vida e sobretudo artificializar-se. Pois a humildade que se contenta e se compraz consigo mesma, a que se exibe, já deixa de ser humildade – isto é, virtude real do publicano – para ser um farisaísmo às avessas,
um falso publicanismo, que é então pior que o verdadeiro farisaísmo. Pois o fariseu verdadeiro ao menos se exibe, é tolo, é ridículo, expõe a sua mazela, embora convencido de que não a tem, nem que é doença alguma julgar-se o tal.
[…]

Alceu a Madre Teresa...

“Tukinha do meu coração…”

A falsa humildade é o pior dos orgulhos, como a verdadeira humildade é a mais humana e mais natural das virtudes, desde que é justamente a que vem logo depois da naturalidade e é apenas uma naturalidade consciente e elaborada, embora essa elaboração deva tornar-se uma segunda natureza, sob pena de se converter em falsa humildade.
(Está um cheiro de melado que é uma gostosura…)!
P.
Que livro! Merci, Sirlene…:-)
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Fonte: *”Cartas do pai”, Ed. IMS, S.Paulo, 2003, p.36. Post publicado por Adalberto Queiroz 28/02/2004. Meus agradecimento à Sirlene Vieira, empreendedora, ex-sócia e para sempre amiga, que me presentou tão bem no meu aniversário de 2004. Deste livro pode-se repetir, sem medo de errar, o que Antonio F. De Franceschi diz no prefácio, repetindo Montaigne: “Eis aqui, leitor, um livro de boa fé – … ou melhor: “simplesmente, um livro de Fé”! Pois sim, foi na Fé que este livro encontrou razão de ser editado.