Amor à França (2) Yves Bonnefoy

No segundo texto da série “Amor à França”, Adalberto De Queiroz escreve na coluna Destarte sobre a poesia de Yves Bonnefoy.

 Para ler o texto completo, clique no link abaixo:

https://www.facebook.com/plugins/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fadalberto.queiroz%2Fposts%2F10157485091342538&width=500

Meu velho tamboril & memórias de Carmo Bernardes

PUBLICADA EM OPÇÃO CULTURAL em 16.JUN.2016.

Clique na figura para ler o artigo no site do Opção Cultural ou leia a íntegra abaixo.

2016-06-16 (2)

 

Meu velho tamboril  ensina-me a ouvir o vento

                                                                                          Adalberto de Queiroz, Especial para o jornal Opção

Dia desses conversava com um dos meus compadres sobre as árvores do quintal da casa de minha filha. Lá, existem algumas espécies que me surpreenderam quando adquirimos o terreno. Tudo fiz para manter as árvores e enfrentei com bravura a mudança de um velho bacuri que havia anos se erguia faceiro no que hoje é um dos quartos da casa. Quando soube, por telefone – estava nos EUA, que o velho bacuri teria que ser removido fiquei furioso e pedi que adiassem a decisão.

Com a casa pronta, em uma das primeiras reuniões em território de meu genro e de minha filha, orgulhoso, mostrei ao compadre Chico cada uma das árvores – todas têm sua história especial e única, principalmente o bacuri que se mudara e pousa com galhardia em frente aos quartos da nova residência.

– Você devia escrever sobre as árvores – arrematou ele, ao final do giro que fizemos em torno da casa, rodeada de belas espécies: dois ingazeiros, um baruzeiro[1], o formoso bacuri que, mesmo mudado (em uma odisséia familiar importante) continua lá, altivo, a provar meu amor pelas árvores.

Um dos responsáveis pelo meu interesse pelas árvores foi um monitor de nome e personalidade estranhas que conheci no orfanato – Sêo Alcides, que, perdoados os hábitos rudes com que tratava a todos – meninos e adultos, transmitiu-me a consciência de que tudo deveríamos fazer para plantar e cuidar das árvores, pois delas dependia nossa sobreviência. Mais tarde, o pouco de nomes e da sabença real que possuo sobre tão vasto tema, aprendi mesmo foi lendo e observando os escritos de Carmo Bernardes.

Ele foi o mais acadêmico dos mateiros goianos, nascido mineiro e criado nos campos dos Goyazes, aprendeu com o pai tudo que nos transmitiu sobre a riqueza vegetal do cerrado. O Sêo Carmo, ou para o respeito do cargo de imortal – o escritor Carmo Bernardes é, pois, um dos responsáveis por este meu amor às árvores.

Fui conversar com um amigo dele, por conta das memórias todas que esta crônica veio me trazendo. O poeta Aidenor Aires conviveu com Carmo e dele aprendeu muito, não apenas sobre árvores.

– Eu tenho uma relação muito próxima com as árvores – disse-me o poeta Aidenor Aires. “A primeira imagem importante que eu tenho na vida é de um jatobazeiro que existia na porta de nossa casa no sertão do oeste da Bahia. Esse jatobazeiro era meu parque de diversões, ali caíam uns jatobazinhos que a gente fazia de boizinhos, para brincarmos…”.

O improviso do brinquedo infantil transforma-se em aprendizado do adulto que, mais tarde em Goiânia, torna-se amigo de Carmo Bernardes.

– Aprendi com a amizade e na convivência com o Carmo que os nomes das árvores vêm do papel econômico que têm numa sociedade: “olha, dizia o Carmo, toda árvore que você conhece tem nome; árvore que não tem nome você chama de pau-à-toa!”. É pau à toa porque não servem pra nada” –  diz o poeta. “Aroeira serve para fazer estacas, a sicupira serve como remédio e boa madeira, imburana, idem; o mogno e o cedro – pela preciosidade do móvel que podem gerar; até aquelas árvores que servem só pra fazer um chicote que corrija menino têm nome. O restante, se você perguntar a um cidadão da roça: que árvore é esta aqui? Se não souber, ele dirá logo: “É pau-à-toa!”

Carmo Bernardes, em sua obra inteira tanto a respeito da fauna quanto da flora – sempre vai nominando as árvores que conhece e quase sempre dá informações sobre elas. Carmo é classificado pelo poeta Aidenor como um verdadeiro pedagogo: “O Carmo achava que só podia escrever se sua escrita servisse para alguma coisa e para alguém, fosse para conscientizar, fosse para que o leitor aprendesse alguma coisa…” – diz Aidenor.

Em “Jângala”, livro em que Carmo Bernardes faz um levantamento da fauna e da flora do “Complexo do Araguaia”, surge informação relevante a cada capítulo. O 7º capítulo, intitulado “As madeiras” nos dá exemplos da pedagogia do Carmo:

“O jatobazeiro, uma leguminosa – cesalpinácea – é a espécie predominante nos matos de terra seca; depois vem o angelim, também chamado angelim-pedra. Tem esse nome devido à fibra da madeira ser encaracolada, entremeada de resinas, com a aparência de pedra; pertence à família das ochnáceas, bela madeira de marcenaria, muito macia para cortar; as peças confeccionadas com ela não trincam e aceitam finíssimo polimento”.

E sobre aquele Baru à porta da casa de minha filha, que, mesmo agredido pelo caminhão de entregas durante a obra, permanece firme em  frente à casa…, quem há de contar sua história? Histórias de uma família que da sombra e dos frutos tirará proveito das castanhas? Falará esta árvore com os netos que começam a ter notícia de uma nova cidade, de um novo clima (nascidos fora do Brasil), de uma nova cidade para onde se mudaram e onde começam a fazer sua história?

Carmo responde em “Jângala”: “O  Baru aparece mais para a área de beira-campo, uma Papilionácea, árvore de tronco médio, madeira fixe[2], apropriada para trabalhos de torno. É do grupo dos castanheiros. O fruto tem a forma achatada e ovalada, é revestido por uma polpa farinácea de acentuado sabor de alcaçuz, apreciado pelo gado e pelo índio Xavante. Cada fruto contém uma pequena castanha, de sabor próximo ao do amendoim, mas com um cheiro forte e enjoativo do feijão cru.”

Do destino do baruzeiro e das histórias que este haverá de reunir, o tempo dirá.

Carmo Bernardes foi pioneiro da chamada “maré ecológica” em Goiás, e sempre nutriu umaconsciência a respeito do meio-ambiente. “Desde os tempos em que foi editor em Anápolis, ele lutava contra os efeitos da migração do homem rural para as grandes cidades. Às vezes, quando viajávamos juntos, passando numa estrada, ele mostrava no meio do pasto um pé de limão-rosa abandonado, um pé de manga morrendo, pé de laranja; e dizia: ‘aqui morou uma família que foi obrigada pelo êxodo rural a sair da fazenda, portanto, as árvores são o testemunho da vida das pessoas lá naquele ermo…”, relata Aidenor Aires.

Às vezes, o “mateiro Carmo” usava uma linguagem euclidiana, nota Aidenor Aires: “O Carmo tinha uma versatilidade muito grande. Foi secretário da Celg [distribuidora de energia elétrica de Goiás], secretário da Universidade, depois assessor de governos. Ele era perito em escrever correspondências oficiais, discursos. Ele era um mago. Um dia ele me falou: “Olha, Aidenor, para nós, que andamos com essas caraminholas na cabeça, é muito difícil arrumar emprego, então, aprende isso aqui: escrever um ofício, uma carta para um embaixador, um presidente da República – com todos os formalismos, sem a dureza da linguagem oficial. Ele era perito nisso. “Nosso destino”, disse Carmo a Aidenor, “é carregar jumento. Eu carreguei jumento a vida inteira…isto é, nós escrevemos, trabalhamos, para outro levar a fama, mas disso, ele viveu a vida inteira, porque livro não dá fortuna pra ninguém…”

O título de “Jângala: Complexo do Araguaia” foi inspirado em “Jangal”, do escritor britânico Rudyard Kipling, revela Aidenor. E é um livro onde fala tanto da fauna quanto da flora, porque “para ele, Carmo, o mundo é uma coisa só…porque a vida que tem na formiga tem em nós – a vida das árvores, dos animais é a mesma e temos que preservá-la porque as vidas estão interconectadas. A falta de uma é uma perda para a Humanidade, como acentua Hemingway na epígrafe do romance “Por quem os sinos dobram ?”

                “A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” (John Donne).

É Bento Fleury, outro apaixonado pelas árvores, quem me justifica meu choro quando dizimam-nas em nome do progresso ou de uma bela construção, como se parte de nossa vida fossem. Na crônica “O jatobazeiro da Chácara Baumann” (ou: “O espaço que uma arvore ocupa na nossa vida”), Bento Fleury resume o que poderia essa crônica dizer em uma frase: “Eu amo as árvores, pois elas sabem do seu destino”, aduzindo: sabem do destino delas e do destino humano.

Retomo o fio da prosa e o eito dessa crônica para não se tornar infinda. À história de minhas árvores devo sempre adicionar a observação que não sou nem nunca fui um que vive em partido em defesa do meio ambiente ou se intitula “verde” por oportunismo ou como seguidor de um modismo, de uma ‘maré ecológica’ passageira.

O parágrafo que se segue dedico-o a lembrar como veio Sêo Carmo a gostar de árvores. E se você tiver paciência de ler esta crônica descobrirá como a orelha-de-macaco pode apontar os rumos do vento e sentir o cheiro da chuva que se avizinha.

Nascido em Patos de Minas, a 2 de dezembro de 1915, Carmo se mudou com a família para a cidade de Formosa em 1920 e, em 1925, para o município de Anápolis. Estudou o primário entre as duas cidades e acompanhou o pai em suas atividades madeireiras. Fez curso de estatística e recenseamento e, a seguir, publicou os primeiros trabalhos de uma escrita pródiga e diversificada: contos, crônicas e romances, além do ofício administrativo de secretário de muitas entidades. Os “volantes de propaganda do recenseamento de 1940”, no entanto, foram seus primeiros trabalhos publicados.

Jornalista durante boa parte de sua vida, Carmo Bernardes foi um autodidata em tudo. Em 1972, contava já 30 anos de atividades no setor de defesa do meio-ambiente. Quando poucos ou ninguém falava do tema, já estava o Carmo dedicando-se ao tema em suas andanças por Goiás. Foi conselheiro da Fundação Inca e representante ao I Encontro Nacional sobre a Proteção e Melhoria do Meio Ambiente e à 1ª Conferência Nacional do Meio Ambiente – conforme se aprende na sua pequena biografia publicada na 2ª edição do romance “Jurubatuba” (1979).

O pesquisador Bento Fleury em artigo intitulado “Carmo Bernardes, o Doutor do Sertão”, justifica o título. “O Carmo escreveu ensinando e foi um doutor no tema sertão e cerrado. Sua obra fala, ensina, tem sabor. Ele conseguiu fazer uma literatura que não está apenas escrita, mas também vivida“.

Bariani Ortêncio, companheiro de amizade e profissão do Carmo, conviveu com ele no programa de televisão “Frutos da Terra”, da TV Anhanguera e como cronistas do jornal “O Popular”. É outro que pode falar com autoridade sobre a formação do “Doutor do Cerrado”.

Foi o pai o grande instrutor do Carmo. “Luiz Bernardes, trançador de couro, carapina, construtor de engenhos de cana, currais, madeiramentos de casas, pilões, colher de pau, monjolos e até trapizonga, ensinou ao filho Carmo tais profissões, deixando para ele, que já se julgava homem, pois andava calçado de botas, os “servicinhos”, como tecer chicote e colocar argola em laço. O avô, José Pernagrossa, também artesão, era fabricante de produtos à base de chifres, de berrantes a pentes e até botões.”

Conheci Sêo Carmo numa sessão de autógrafos em Anápolis. Em minha cidade de formação, onde ele fora editor do jornal “O Anápolis”. Essa oportunidade, perdida na memória, se salva pelo autógrafo na letrinha miúda que me deixou em “Reçaga”: “Adalberto: os meus  votos pelos seus êxitos nos estudos e obrigado por ser você o primeiro a adquirir este livro”. Seguem-se a assinatura de Carmo Bernardes e data. Em Anápolis, 25 de setembro de 1972.

Mais tarde, já estudante em Goiânia, encontrei-o, diversas vezes, na Livraria Cultura Goiana e na Feira Hippie, onde, nas manhãs de domingo ele e outros escritores faziam ponto na banca do Paulo Araújo, assinando livros e conversando entre si. Eu os apreciava de longe, por pura timidez de jovem distante dos graúdos das letras. Bernardo Élis, tímido, nunca deu-nos a mesma atenção que o Sêo Carmo. Este, à sua maneira, tímido também, meio que ensimesmado permitia-nos aproximação e tinha uma resposta sempre didática, ainda que sempre voltado para assuntos da mais alta metafísica interior.

Lembro-me bem de uma vez, na livraria, em que solicitei ao Sêo Carmo uma sugestão de leitura. Foi na exígua mas riquíssima livraria que o Paulo Araújo mantinha, próxima ao Café Central (a Cultura Goiana). Com seu jeito mateiro, sempre ensimesmado, ele não titubeou, foi à estante próxima e retirou o livro de Evgueni Evutchenko – “Os Frutos Silvestres da Sibéria”. Guardo-o comigo, como um troféu, autografado que foi pelo autor russo, em Recife, em 1987 – sempre os frutos silvestres hão de me trazer à memória o Sêo Carmo Bernardes.

Aí se vai a crônica finda sem que eu justifique o título. O perdão que pede o cronista, talvez não o mereça. O vento desse junho já friorento à beira desse lago bate na copa rala de um dos dois pés de tamburil que mantenho a todo custo em frente à minha casa, avisando-me que é hora de eu virar a folhinha da época de minha própria vida. Na próxima jornada chuvosa que virá depois desse friozinho de junho/julho, os galhos mais altos do mais jovem dos tamburis deve oferecer perigo ao beiral da minha casa. Essas árvores chegaram aqui bem uns 30 anos antes de mim, mas a eles devemos o respeito e a defesa inconteste da vida que representam.
Quando os sinos dobrarem por nós ou por nossos semelhantes serão as árvores que darão o melhor testemunho do que somos e do melhor que legamos ao futuro.
Goiânia, 11 de junho de 2016.

(*) Carmo Bernardes, o autodidata que se fez “Doutor do Cerrado”, foi membro da Academia Goiana de Letras e recebeu prêmios internacionais de literatura. Listam-se entre seus livros os títulos: Reçaga, Rememórias (vols. I e II), Vida Mundo, Jurubatuba, Idas e Vindas, Ressurreição de um Caçador de Gatos, Santa Rita, Nunila, Quarto Crescente, Memórias do Vento, Jângala: Complexo Araguaia e Força da Nova.
[1]O baruzeiro é uma espécie importante para o equilíbrio do Cerrado, pois se trata de uma das poucas árvores cujo fruto amadurece na seca. Nessa época, torna-se uma valiosa fonte de alimento para muitos animais.

[2] Fixe, no original, 2. [Popular] Que é fixo, firme ou seguro.

 

Da série “mexicanas” (iii)

Mexicanas (3) – Crônica – Poema em prosa.

ERA UMA VEZ uma menina e seus pais e um viajante – um homem na casa dos seus sessent’anos e alma de menino, doravante “Caminhante”.
Entraram na mesma van que os levaria do aeroporto ao hotel com o Caminhante. Estar alhures e no México, ter viajado com os versos de António Machado ressoando na mente, reverbera ainda mais quando o cansaço nos ilude entre sono e paisagem, entre sonho e realidade.
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
O Caminhante viu muitas estradas e lateja em suas têmporas: “Caminhante, são teus rastos; o caminho, e nada mais”… E como em The Road, taxativo: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar…”. Como andam pai e filho na estória que tomou todo o tempo de vôo – a companhia do apocalíptico McCarthy…

 

CormacMcCarthy_AEstrada2
(c)ilustr. site do filme The Road.

Voou sobre os mares, tomou um paquete em Algeciras e uma barquinha no rio São Francisco; o Caminhante andou voando; e sente-se alhures dois dias após deixar a savana em que vive. Heureux qui comme Ulysses a fait um beau voyage… Georges Brassens toca na vitrola instalada na cabeça do Caminhante (vitrola onde repassa canções antigas, quando quer dormir ou quando estar a despertar…).
O Caminhante está a caminho da velhice, lembra-se de tantas coisas que não quer e não se recorda do que quer, pelo menos não na rapidez com que quer – demorou uma era para lembrar-se do nome do músico francês que lhe povoou a partitura da juventude com a primeira língua estrangeira que aprendeu. Ele tem fé; certa mística o acompanha desde tenra idade; leu muito mas esqueceu quase todos os enredos. A trama de sua vida é complexa e mais se assemelha a uma daqueles cobertores que viu na Pensylvannia, anos atrás… Quilt! – Isso! Aquelas colchas de retalhos das mulheres Amish que tanto lembram o cobertor velho que lhe dera sua avó paraibana!

Só tem agora o Caminhante ouvidos para a menininha – também cansada; provavelmente exausta de ter que se parecer adulta; Alberto Da Costa e Silva está ao seu lado na van, estranhamente recordando que em breve a meninazinha estará no “curral dos adultos”. Por ora, sonha. Sonha com a praia e a nomeia – areia.
– Papai, chegamos à areia? Arena, areia, cimento da vida; la arena
Desperta, enquanto a van continua balançando-se no asfalto já úmido da chuvinha fina da temporada, ao cair da tarde, a caminho do destino – banho quente e cama estão nos planos do Caminhante, mas la arena o arranca de seu torpor.
– É já la arena, Papá?!

Criança na Praia (c)LucianaMisura
(c) Ilust./foto blog luciana.misura.org

A estrada (The Road) de que leu no avião é uma estrada solitária e apocalíptica. Cormac McCarthy conduzia-o pela estrada afora… Quase não dormiu entre uma turbulência e outra – está aqui, a centenas de milhas de casa – centenas de anos-luz de sua origem. Savana e mar se encontram quando repousa, mas a voz da menina o acalenta ao longo do sono profundo. Desperta ao amanhecer em outro cenário. Há o mar. Há o mar caminho de Augusto (o Schmidt), o mar “rude e profundo”… aquela obra de Zeus onde reina Poseidon; desde a Criação e seu trabalho no segundo dia; quiçá, antes quando a Sabedoria pairava sobre a superfície das águas. E viu o Caminhante que era bom – da cosmogonia à realização.

Como Ulisses, viajante de epopéias antigas, pensa o Caminhante que no saldo final a viagem foi boa e assim será para sempre. Espera que um cão (ou um gato) venha, ao retornar à casa, reconhecer-lhe a cicatriz em seu pé direito e achegar-se com ternura ao dono que volta à casa.
– Chegamos à arena, Papai?
Se o mar para os poetas é devaneio e perdição, é caminho e é destino; para a menina é construir castelos na areia. Para ela, o mar é tudo isso: la arena… Como a vida, ao fim de tudo.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

E ao retornar, saberá o Caminhante que “ao andar faz-se o caminho, e ao olhar-se para trás vê-se a senda que jamais se há-de voltar a pisar…”
Retornará. E ao ar marinho, há o viajante de preferir voltar mais experiente à casa ora distante, ao fim desta temporada, com uma garrafinha mental plena da areia; da areia em seus pés, na seca doçura de sua aldeia, no cerrado – sua casa erigida na savana, eis onde planeja viver o resto de seus dias, mais experiente e, nem por isso, menos sonhador. Caravelas em noites de leves sonhos. Eia, avante!… Ao mar dos sonhos como “embarcado em seco”; pois é o que terá aprendido a lição de Machado:
“Caminhante, não há caminho, somente sulcos no mar.”
Adiós, Caminhante. Au revoir.
****
(c) Ilustrações. Do blog de luciana.misura.org e filme “The Road”, baseado no livro homônimo de Cormac McCarthy. Obrigado, poeta Luiz de Aquino, pela revisão do texto, só não aceitei (como de hábito) a ortografia do Novo “Acordo” Ortográfico.

Minha crônica em revista bula

Convido você a ler e comentar minha crônica de maio em revista Bula.
Os olhos da alma que se debruçam sobre o horror como que se emudecem — molhados e tristonhos, quando cedem à tentação de espiar o cortejo dos crimes como espetáculo, divulgados na web. Decrescemos em humanidade quando soçobramos, cedendo à tentação midiática, e damos uma espiadela nos porões do espetáculo de horror em que se tornou nossa política internacional, de guerra a guerra, passando do hediondo à catástrofe em dois quadros rápidos do noticiário na TV. “

(Para continuar lendo, clique sobre a figura!)

Bula_Maio2015

Minha crônica em revista bula

Convido você a ler e comentar minha crônica de maio em revista Bula.
Os olhos da alma que se debruçam sobre o horror como que se emudecem — molhados e tristonhos, quando cedem à tentação de espiar o cortejo dos crimes como espetáculo, divulgados na web. Decrescemos em humanidade quando soçobramos, cedendo à tentação midiática, e damos uma espiadela nos porões do espetáculo de horror em que se tornou nossa política internacional, de guerra a guerra, passando do hediondo à catástrofe em dois quadros rápidos do noticiário na TV. “

(Para continuar lendo, clique sobre a figura!)

Bula_Maio2015