A gênese de um livro (2017)

VIII – Farsante (I)

“Assim é que eu deveria ter escrito, dizia consigo.
Meus últimos livros são demasiado secos,
teria sido preciso passar várias camadas de tinta,
tornar a minha frase preciosa em si mesma,
como este panozinho de muro” –  
Marcel Proust.

Tempo não há de refazê-lo
a este livro duro e insone
a este pão, insosso, ei-lo!

Ainda pão, sem forma ou forma
própria, alimenta ao que tem fome
de poesia ou beleza, que importa!

Além da forma pronta de um nome,
deseja o moto próprio, chave da porta
à saída do inferno onde se encontra.

Também o bardo a chave busca
sozinho à deriva; afogado em ar.

E na enésima camada de tinta fresca
sofre com a secura do que dissera –
coxo solto em perdido paraíso
cego vagando o Éden imaginado

Seus brancos ossos, a Fera fixa:
– tempo não há de dizê-lo, Hélas!

Mas insiste, desafinado farsante –
pé-quebrado do verso, as falhas
o ferem de morte no instante.

./.

 

Dia dos Namorados na América

Valentine’s Day 2017

Mesmo com a advertência de Drummond na memória (“Não faças versos sobre acontecimentos“),
ousei um poema para minha musa, neste Valentine’s Day in USA.
Confira, caro(a) leitor(a).
cancoes-americanas-1
AQ./.
Plantation, Florida, US, 14th, Feb/2017.

A gênese de um livro (II)

Os decapitados*
(c)Adalberto de Queiroz

Eles vêm ao acaso de todos os cantos do mundo – serão os algozes
Atenderam o chamado, às dezenas, depois às centenas; ao fim, milhares
Tantos assim que por último não havia onde as cabeças depositar-lhes.
Os homens que ali sacrifícios realizam, do deserto eram flores ferozes.

As nossas armas eram usadas, disparadas sem balas; as canções rasgadas.
Interessavam-lhes as cabeças cortadas por primeiro, como a morte requisitara:
Na bandeja de prata da blogosphera as ofertavam – uma a uma expostas: cortadas.

Eles se chamam Omar, Abu, Amihl, Hamel, e Ayman, Abu Du’a, Sirajuddin, Saeed – e se escondem sobre o mesmo capuz negro.

Caçam com ferocidade a Joseph, João, Mateus, Lucas, Marcos, Marc e a Jacques Hamel…

– O que fizeram ao João, o Batista, que no deserto de mel silvestre e gafanhotos
Se alimentava? a cabeça cortada ofertaram a Salomé – e hoje ela está vestida de
Senhora de grande poder – Herodíades sob jóias; sob um véu negro engastadas.

A bandeira negra, ao som de cavalos disparados – as kalashnikovas automáticas
mortais – post-modern cimitarras: a profecia de João, o Batista, como vergasta
– entre a Cruz e o Crescente opostos na areia de sangue genuflexos, afogados.

A ferocidade da caixa-grade de Pound – loucura de deus afásico;
um funâmbulo, sob a corda bamba do século mau e seu clamor
de sangue sem sal – o grão de mostarda escondido no alforje.

Afásico, acidentado, imobilizado na noite de Tomás – o Tranströmer
todos “Os carrascos vão buscar pedras, Deus escreve na areia.”

Sim. Só há mesmo um livro de areia e o deserto interior e feroz dos homens –
pedra de tropeço de outros homens – sem mel, nem sal, nem pomba salvadora.

++++
Fonte: Caderno de drafts de poemas, 2017. 07.02.17.

Pai ignorado*

PAI IGNORADO

(Um poema de ocasião.
Ou como dizia Goethe: toda minha poesia foi de ocasião…)

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Eu não acompanhei o enterro
Do pai que nunca conheci.
De minha carne, não erro:
não era nariz do morto que vi.

Albert Camus enterrou o pai dele:
Le premier Homme – um estertor.

A dor dele em Alger, senti. E na Vila Jaiara
debalde procurei, sem nunca tê-lo visto – pai!

Rodasse o mundo inteiro,
não o veria, mas no lago à tarde,
por ordem de santo Ignacio de Loyola
pranto suave verti.
– E dei Adeus! ao pai ignorado…

Eu o vi ao cair da tarde no ribeirão
João Leite – e enterrei-o, sozinho;
feito cai o lírio de Chile,
na secura do meio dia.

Acólito de La Solitude parti.
Parti e nunca mais dele lembrei
nem do registro civil.

Ignorado confronto
A grafia númida –
nímia de meus dias.

Filho do pecado,
no dia dos pais
levo presente
para minha tia.

(A G.M.Q.)
./.
Goiânia, dia dos pais de 2016.

 

Drafts de poemas (xii)

Chuva feito enxame de abelhas

 – à memória de yêda schmaltz,

I

chuva feito     enxame
de abelhas           que  sobrevoam      –    e querem enxotar –
tomba  em tons e        sobretons, como se sob
o zinco houvessem.

sobre o teto de minha casa  no cerrado esta savana amada  chove  poesia sobre o teto da casa onde a poeta yêda                                                   schmaltz
ante-
vi(u)veu.

eu nem te vi; quem te vê, poeta amiga, sumida nos tempos de antanho; tanta abelha, tanto zumbido tanto som de mato tanto som de rio de riacho.

le douve como o joão leite

                                   rio, riacho       clara     sanga…

la douce                           

la douceur

du sexe, du feu.

II

sons de minha terra e da tua terra e era céu o que via ouvia quando era pequeno e o teto desabava e eu nem era Asterix                                                  nem era nada

do que eu sou agora  –

um nada diante de ti e de tua memória se fosses viva eu te daria um beijo na boca um beijo como só klimt dera em teu poema eu daria uma casa e uma kombi cheia de poesia só para que tu visses ouvisses vivesses o que vivo agora – Withman o que dissera que um menino leria o poema dele (him) –
séculos depois.

Eis-nos: não o dera nada de bandeja para que o menino o lesse – eu o li e tu?
eu o ouvi e a Ti;
(tudo confesso)
fumando um cigarro de folha de chuchu ou diamba – sim, eu ouvi quando a chuva de prata pousou em tua casa do bairro Feliz.

eu vi eu ouvi quando o mato passara pelo couro de gibão do teu avô do meu avô eu prometo que é a mesma coisa do que eu juro eu não esconjuro ninguém                                                       que ouve vozes, como tu, você e eu o fizéramos, mas já nos curamos somos todos uns sem ouvidos – oiças duras somos – uns moucos
uns loucos que não ouvimos mais nada…

 
III

gerardo mourão e hermilo, o borba; e yves bonnefoy, de boa fé ouviam vozes e bruno também – eles ouviam coisas tão claras, tão distintas do sussurro que ouço  sem estrutura que resista.

como em joaquim cardozo, o moço nordestino, nas minas gerais que viu ruir toda a sua (dele, him) estrutura mental

– como quando vozes nenhuma ouvia mais

aquele pobre padre –
o que descreu e não conseguia mais celebrar a Eucaristia!

como quando aquele menino lá do abrigo
teve leucemia como aquele que um dia fez um furo no muro do hospício –

e por ali eu ouvi; ele me ouvia – outros também – o José Décio ouvia,                           José J.Veiga [eu desconfio que também ] –

porque não é possível a ninguém criar nada nesse mundo de meu Deus
se não ouvir vozes,
se não ouvir a chuva como Benedetti a ouvia em menino, se não ouvir o doce  frio friozinho friozão; bão-bá-lá-lão –
de um poeta na contramão…

se não, se não …

poesia pé de poesia poesia pela poesia feito sobrinho e sua tia
poesia sobre si sobre Ti

a mesma mentirosa só:
fingida e fugidia…

IV

pode outra coisa a não ser o poeta fazer assim chover?

– pode essa chuva de poesia no meio da madrugada

acordar a gente dizendo

que está chovendo poesia em nossa horta

– quando hei de me lembrar e quem há de?

fazer ouvido mouco para tanta doidera de ouvir vozes

bastardas vespas zumbindo em nossa cabeça quando a tempestade assume o comando e já não se é ninguém

só a memória de abelhas                                      européias

e de sonetos que o florentino –
(não o meu tio Flô!) escrevia
com giz nas paredes antes de (se) jogar
pela janela do paraíso.

Ω
[Goiânia, Abril de 2016]

Caderno de rascunhos (draft xxvii)

O Tarol*
I
Minha memória musical
alhures em remota escola
toca tarol na banda marcial
e clama o direito de parola.

A sonoridade perdida,
inclusive nos poemas;
– Mas jamais si desirée’ –
“…de la musique
avant toute chose;
et pour cela préfère
L’Impair…”

Voltas, idas e vindas
co’a rara matemática
musical do regente:
muito tempo ainda
há de ensair na mente;
antes que o tio violeiro –
o nome me emprestara;
e sua viola de doze cordas
mostrasse – bem antes
das guitarras na igreja
iconoclastas – e nem assim
aprendi a tocá-las…

O incapaz de dó maior
vai tocar tarol! – determinou
o maestro ante o desafinado
contralto: capataz do coral.

II
Em compensação, a Física
toca bem – é outra coisa
matéria mais definida –
maçã bem mais vadia
caída bem direitinho
em meu 1º. caderno
do ginásio – aquela
que caindo n’alma
para sempre…

A música, entanto,
sempre ligada n’alma
sabe-se Ímpar; cabeça
é maior que 7 notas
e suas variações –
Et pourtant‘ fala à alma:
(#) sustenidos & bemóis (b)
desafinado canto alto:
Staccato‘ – para sempre
às partituras audíveis
sorvidas, outro toca
instrumental vário.
+++++
Drafts xxvii para Cadernos II.

Da série canções mexicanas (iv)

MEXICANAS (4)

Cantar uma canção que seja pura umidade
Abolir o seco do cerrado com água do mar.
O canto assim reproduzido na seca tarde:
um por ter vivido e outro por se fabricar.

Eis o mister do que se quer molhado –
sem espanto ou abalo, na face do fado.
Do que do seco há de estar à contrapelo,
Silente se deseja mas cria grave apelo.

Eis o candente canto que reluz sem nada
Eis o mar do que na savana embarcara
Só a vela e o vento, sem trastes ou remos
Eis o que vai à raiz da fala e o ser aclara.

Todo dia, quando da janela, te vejo, ó Mar
– É o que desejo dizer-te: sou do Cerrado…
Desde menino tenho notícia do salgado
escondido e velado: tua face mais vulgar.

A candente luz na superfície de vidro é falsa
Sei que queres à lagoa grande te esgueirares
Deixa estar, amigo, viajo com a gaivota –

Aqui não estarei para sempre. Meu caminho
entanto, não deixarás jamais; o sal da memória
Vale, ó mar, intenso e duradouro – isso me basta!

Caderno de rascunhos poéticos (2)

Mexicanas (1)
************AguaEsol_shutterstock_156114050

Deito-me com a água
Ela me envolve e acaricia
Feito nuvem à montanha –
pelagem de lhama
em cordilheira.

Deito-me com a água
Ela me exalta –
dedo de um deus
Na corredeira:
Sábio riacho.

Deito-me com a água
Como quem vai renascer:
Ela me dessedenta –
Fresco pote de barro
Na tarde do sertão.

Deito-me com a água
Ela tão doce;
Ela tão clara…

Cheio de sonhos e clareiras
Na mata: meu coração.
Deito-me com a água
em divórcio-aquário
à amada não causo
ciúme nem paixão…

Deito-me em seu ventre
Nasciturno e dependente
Um Jonas penitente –
à espera de voltar à praia e à missão:
escavar o mineral do verso em terra.

Deito-me com a água
epifania –
ressurreição.
***************
Cancún, 02/05/16.

Caderno de rascunhos (1)

O temor ao Grifo

                                       “…encolhe-se o animal nas entrelinhas,
                                             e ri-se a sós de quem, por estar vivo,
                                             faz da poesia um desafio e um risco.”                                                                                                                                                (Ivan Junqueira).Grifo

Dizer o quê – do posto em que me vejo?
– Todo dia ler um pouco e estar a postos.
Não é o rio de minha aldeia nenhum Tejo.
Restam-me esses parcos versos compostos.

Digo do ponto de vista em que me vejo:
Ler e reler o mesmo livro, au rez-de-chaussée
Vehementius et pronfundius‘ – é meu desejo.
Confissão de leitor, doravante réu do escrever.

Ler e reler o mesmo livro de alto a baixo,
antes de o véu noturno cobrir-me o rosto
de solidão e medo qual a Ciência amarga.

Seguir incólume à fera que nas dobras do livro
A poesia abafa; ah, sede que o Grifo encolhido;
Sobranceiro, ameaça quem, sedento, vá ao poço.
*****
Goiânia, abril 2016.