Começou a pré-venda de “Frágil armação”, 2a. edição

TENHO o prazer de repercutir o anúncio da Editora Livraria Caminhos de início da pré-venda de meu livro “Frágil armação” – 2a. edição, revisada por mim.

Clique no link para aproveitar a oferta de pré-lançamento.

Pré-venda Frágil Armação Canva 2

O espaço

O Espaço
*********Adalberto de Queiroz

Porque a poesia nos coloca
em estado-de-emergência –
como dizia o Gaston,
Eu vos digo: eis-me aqui, acólito
do ritual canônico do verbo
criando stanzas velhas – atónito (!)
com o poder etéreo, soberbo.


Sem impertinências, nem pedras pelo caminho,
– pedras estão diante dos olhos!
as pedras clamarão, agora clamam.
Não há senão as que me levem de volta à casa do Pai.
– Eis-me aqui, Senhor, de corpo e alma;
inaugurando uma forma:
voando pelo Espaço
sem deixar a doida da casa
roubar-me o plano de voo.
./.

Adalberto de Queiroz, Destino Palavra, 2016. p.50.
Este poema encontra-se gravado no SoundCloud, falado por mim, para ouvi-lo, clique no link abaixo.

Queres ler o quê (VII)

Mais um Poema falado no SoundCloud.DestinoPalavraMenor
Fonte: “Destino palavra”, edição do Autor, 2016, p.51/2.
Queres ler o quê?

Do poeta Jorge de Lima um poema-
pergunta me assalta; e me lança a poço
tão fundo, de tardia Samaria isolada:


– Queres ler o que
tão só se entrelê
e o resto em ti está?

Flor no ar sem umbela
nem tua lapela;
flor que sem nós há.”

Leio, leio, e pouco se me dá
que o lido da memória escape
como líquido que se esvai –
e, assim, da flor o fruto não sai.

 

Não estando preso na jaula de Pound
O poeta feito pássaro triste na gaiola
Da métrica, da rima exata – na Roma
De uma só pedra mineral e ingrata:
Ao lido e relido colho a flor falhada.


Vou assim pelo caminho lendo com prazer,
até  que me alcance Filipe, como ao eunuco,
o carro em movimento, a mente em chamas,
coração em brasas; e repita a pergunta de Jorge:

– Entendes tu o que lês?


Desabrochará na flor d’água a flor mais próxima
A flor-estrela, a flor entendimento do que houver
A flor que há, árida ou úmida – não importa a lapela
de etíope, ou americano que soa – coração do que lê…

A gênese de um livro (IV)

A taça dourada*

O sol não brota; ele se mostra
com tudo o que a noite esconde.
Sol em minha janela e sua fronde
de pinheirinho molhado; amostra

de desejo e fonte de toda paz;
do que tenho merece graças dar
o que não tenho aragem sagaz
da chuva que cai a nos molhar.

A chuva que caiu ontem à noite
aqui deixou à mostra nosso lar:
se o pesadelo agride feito açoite,
vem a manhã a fronte nos dourar.

Dourado-esmeralda é o seu rosto,
sol, estrela maior, insofismável
do mestre a lembrar bem disposto
que a vida é sempre incontornável.

A taça onde do vinho nos servimos
um dia ao mar o rei de Tule a atira;
bebe-se com ardor por toda a vida,
perdido o amor, no mar ela suspira.

Assim o sol que à janela forte bate
irá se pôr à montanha docemente,
como a vida da chuva se ressente
na morte o ser eterno tem o embate.
./.

(*)Poema em draft do livro em preparo (2017).

A gênese de um livro (III)

Canções americanas (2)

Ah! azevinheiro em minha janela
mas meu coração não está mais lá;
estreita era a cama – nós dois nela,
mas meu amor está amarrado lá.

Mas meu amor está amarrado lá
onde a grama está sempre verde
o silêncio permite ao nightingale
cantar sem que o deserdem.

Cantar sem que o deserdem
o poeta deseja desde Homero;
sem Calipso o verso tecer-lhe
com saudades partir austero.

Com saudades, partiu austero
sobre o mar do Caribe e além –
só desejava um passarinho
do cerrado que o acordasse
de madrugada
de volta ao domo donde provém.

./.

Plantation, Fl, 15.02. GYN, 23.02.17

Da série canções mexicanas (iv)

MEXICANAS (4)

Cantar uma canção que seja pura umidade
Abolir o seco do cerrado com água do mar.
O canto assim reproduzido na seca tarde:
um por ter vivido e outro por se fabricar.

Eis o mister do que se quer molhado –
sem espanto ou abalo, na face do fado.
Do que do seco há de estar à contrapelo,
Silente se deseja mas cria grave apelo.

Eis o candente canto que reluz sem nada
Eis o mar do que na savana embarcara
Só a vela e o vento, sem trastes ou remos
Eis o que vai à raiz da fala e o ser aclara.

Todo dia, quando da janela, te vejo, ó Mar
– É o que desejo dizer-te: sou do Cerrado…
Desde menino tenho notícia do salgado
escondido e velado: tua face mais vulgar.

A candente luz na superfície de vidro é falsa
Sei que queres à lagoa grande te esgueirares
Deixa estar, amigo, viajo com a gaivota –

Aqui não estarei para sempre. Meu caminho
entanto, não deixarás jamais; o sal da memória
Vale, ó mar, intenso e duradouro – isso me basta!