Reflexão literária em homenagem à vida e ao legado de Paulo Rónai
Há mais de meio século, ainda muito jovem, recém-casado, mudei-me de Goiânia para Porto Alegre, onde eu seguia o curso de Física e minha mulher, o de Engenharia na UFRGS, ambos trabalhando muito para sustentar nossa vida e da mãe dela, viúva com oito filhos. Naquela época, o troco do pãozinho ou do ônibus era valioso para nós.
Mesmo assim, movidos por uma fé silenciosa nos livros, compramos em prestações, no lendário sebo Martins Livreiro, a coleção completa de A comédia humana, de Balzac, publicada pela Editora Globo. Era usada, mas em ótimo estado e ainda hoje ocupa um lugar de destaque entre meus livros.
Foi assim que Paulo Rónai entrou pela primeira vez na minha vida, como organizador, tradutor e comentarista da obra monumental de Balzac. Esse excepcional tradutor me ajudou a fazer a travessia entre línguas e mundos. Foi o criador da idade de ouro da tradução no Brasil.
Cresci sem conhecer meu pai, sem genealogia, como um personagem largado no mundo sem prólogo. No orfanato, firmei comigo um pacto silencioso: estudar com afinco, pois sabia que só sairia dali pela educação. Vieram os estudos de Física, Jornalismo, Línguas Estrangeiras e, sobretudo, os livros como minha pátria.
Na Aliança Francesa, em Goiânia, reencontrei Rónai através de um pequeno dicionário francês-português. Agora, leio a biografia O homem que aprendeu o Brasil, de Ana Cecília Impellizieri Martins – o único livro físico que trouxe comigo nesta viagem à Hungria. Numa das páginas, Rónai confessa que “o ofício da tradução foi que em parte me permitiu superar o transe doloroso do desarraigamento.”

Em Budapeste, fui ao endereço da infância de Rónai: número 12 da Rua da Constituição. Saí do metrô, admirei o grande Danúbio, ainda sob um sol de primavera fria, e segui a pé, carregando um alvo preciso: a quarta escadaria, 1º. andar, apartamento 10.
Mas nada disso estava lá. Nenhuma placa, nenhuma memória visível. Em seu lugar, uma homenagem a um pastor e, onde antes ficava o apartamento, hoje funciona um jardim de infância.
Por um instante, senti-me desnorteado.
A cidade parecia apagar aquilo que os livros preservam – a memória. Ora, Rónai, se definia, acima de tudo, como professor: “Sou escritor nas horas vagas, professor por vocação e destino“.
O antigo endereço da infância é agora o de reinício: crianças aprendendo as primeiras palavras, entrando sem saber no território da linguagem. Certas vidas não deixam marcas na pedra, mas naquilo que transmitem.
Foi pela literatura que Rónai escapou à violência da guerra e à perseguição nazista, tornando-se mediador entre mundos. Ao deixar a Rua da Constituição, 12, compreendi que minha busca não era por vestígios.
Se fui obrigado a construir um caminho que não me foi dado ao nascer, encontrei nos livros uma forma de pertencimento e com Paulo Rónai aprendi valiosas lições de como construir pontes, de perseverança contínua e de amor pela escrita.
Afinal, as cidades podem até esquecer os seus filhos, mas não a literatura, que é feita de continuidade e resiliência.


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