Crônica do deserto particular

Um poema de Alberto da Cunha Melo

Poema nenhum, nunca mais,
será um acontecimento:
escrevemos cada vez mais
para um mundo cada vez menos,

para esse público dos ermos
composto apenas de nós mesmos
uns joões batistas a pregar
para as dobras de suas túnicas

seu deserto particular,
ou cães latindo, noite e dia,
dentro de uma casa vazia.

Foi o que deflagrou pensar naqueles períodos conhecidos como de deserto espiritual (ou deserto de criatividade). Daí o mote para a “Crônica do deserto particular”.
Clique na figura para lê-la.
Destarte 23 MAIO 2018.PNG

Um poema falado na revista Perseus

Feliz por poder ampliar meus poemas falados num novo veículo.
Agradeço aos editores da Revista Perseus pela acolhida.

Cliquem na figura para ouvir o poema de Afonso Felix de Sousa, nosso conterrâneo (goiano) mais famoso no mundo da Poesia do século XX.

afonso_felix_de_sousa1

TURRIS EBURNEA ****Afonso Felix de Sousa.
Turris eburnea

Foram degraus
e degraus
e degraus
e aqui estou
senhora
no alto
da torre

Céu limpo
e eu limpo
do pó das ruas
assim purificado
senhora
aqui eu só espero
que venhas

Enfim sós e longe
de tudo
e embalados em rede
de nuvem
que senhora farra
faremos
senhora

Enfim sós e longe
de tudo
e sentado a uma mesa
de nuvem
com que versos mais belos
senhora
vou falar do mundo
ao mundo

Por que me trazes
senhora
à janela
da torre?
Não vês
que aquele lá embaixo
crucificado
nos cruzamentos
das ruas
sou eu
senhora?
Não vês
como me jogam
as ruas
pra lá e pra cá
e como de mim fazem
gato e sapato
senhora?

Foram degraus
e degraus
e degraus
para chegar ao alto
da torre
e a torre
senhora
não existia

Afonso Felix de Sousa. “Itinerário Leste & outros poemas.”

Dois andares na “Casa da poesia brasileira”

Para os poetas Augusto Frederico Schmidt e Tasso da Silveira…

E ao traçar estes dois perfis em resumida crônica, encerro o ciclo “Poetas católicos do Brasil”.

Confira o artigo na íntegra, clicando no link abaixo:Destarte 11 ABR 2018.PNG


 

Érico Nogueira, post curtos (i)

Ele tem 38 anos e um doutorado em Letras. É de Bragança Paulista (SP). Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2015. É polemista e tradutor; deve torcer pro Bragantino. Odeia o desAcordo Ortográfico; lê e escreve em Latim;  foi próximo de Bruno Tolentino; leu todo o Kant e escreveu um livro inteiro “sobre” os últimos poemas de Hölderlin; gosta de Lucano e Horácio; de Olavo de Carvalho e deve gostar de seu (dele) editor, Edson Filho, da É Realizações; detesta poesia “cocô-de-cabrito” que praticamos eu e tu (você, vai! diria o Professor Nogueira, apaixonados que somos por Cabral; e dessa epigonia, de poetas e críticos pós-cabralinos, desfiliou-se há tempos…/”Quanto à cena poética brasileira, o prestígio internacional da poesia de Tolentino reabriu espaço para uma poesia mais filosófica e menos social, mais lírica e menos seca — mais clássica, em suma, e menos comprometida com a rigidez das vanguardas.” Nogueira pratica uma “Arte aristocrática” — uma espécie do que é (foi?!) Alexandre Soares Silva para a prosa (tupiniquim e) miúda dos 90… é polemista (eu não!).
Alegra-me saber que tenho um contemporâneo dessa estirpe.
Às vezes, só de vez em quando, me parece pedante… Logo-logo, volto ao livro “Quase Poética” — donde, sim, devo voltar trazendo uns posts curtinhos, rerrerê! como diz o doutor Nogueira – na linguagem da geração dele.

Amostra da poesia de Érico.20171003_090650.jpg

Acho que esqueceram de postar a casa onde nasceu o jovem bardo bragantino… Eu achei essa foto num arquivo escondido na Casa de Rui Barbosa, data de 1979, mesmo ano de nascimento do poeta-crítico-tradutor.

Amostra 2.
Múmia helenística
****Érico Nogueira

Patético o corpo que se embalsamasse
no auge da forma, e num túmulo hermético
se trancafiasse, coroa-de-rosas
e olor de jasmim temperando a figura.

Estéril a voz que trincasse o cristal,
vencesse o ouvido e sumisse da goela
sem antes dizer todo o bem, todo o mal,
e o núcleo de nós, tão vazio e secreto.

Histérico, enfim, o desejo de glória,
de corpo, de voz, de porquê, de remédio,
que mata de enfarte, não mata de tédio,
e quando, soberbo, possui, joga fora.
+++++
in Poesia bovina (São Paulo: É, 2014).
fonte – link + poemas:

Frágil armação: poemas – 2a. edição *Lançamento

O Autor em 2016

* É hoje! o lançamento da segunda edição deste livrinho que conta 32 anos de publicação.

LEIA melhor avaliação crítica, feita pela escritora e acadêmica da Aflag, professora Ercília Macedo-Eckel, sobre o livro que está neste link do Opção Cultural.Flyer É Hoje.jpg

Poesia falada

CONTINUAÇÃO do projeto – agora com poemas de amor (1).
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Poemas lidos nesta versão:

Poeminha Amoroso – Cora Coralina

 

Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu…
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu…

E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.

Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.

Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo…
eu te amo, perdoa-me, eu te amo…

♠♠♠♠♠♠

As sem razões do amor  Carlos Drummond de Andrade

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,

E nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
E com amor não se paga.

Amor é dado de graça
É semeado no vento,
Na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários
E a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
Bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,

Não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
Feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
E da morte vencedor,
Por mais que o matem (e matam)
A cada instante de amor.

♠♠♠♠♠♠

Bilhete – Mário Quintana

 

Se tu me amas, ama-me baixinho

Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!

Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

Clique no link abaixo para ouvir os poemas falados:
SOUNDCLOUD do Beto.

Dia dos Namorados na América

Valentine’s Day 2017

Mesmo com a advertência de Drummond na memória (“Não faças versos sobre acontecimentos“),
ousei um poema para minha musa, neste Valentine’s Day in USA.
Confira, caro(a) leitor(a).
cancoes-americanas-1
AQ./.
Plantation, Florida, US, 14th, Feb/2017.

Poemas de esperança (memorial)

Goyaz (1)

No outono da vida o sol do cerrado
seca as mesmas sementes — sol a pino:
sementes de abóbora comidas assadas
coisas de antanho com igual desatino.
Cajá-manga devorado com sal, à sexta hora
o gosto arcaico na boca desata sonhar —
feito pamonhas ao leite ou torta de amora
vem só o torniquete do acerbo no maxilar.

Minha avó comendo manga com faca
nas tardes de outrora, parece retornar;
uma sombra morna no sonho que sou.
Igual lembrança aperta de mansinho
a segunda costela à sinistra do sono
e traz o pousoso passado ao ninho.

Poemas novíssimos. Goiânia, 26.01.2017

Celebrando 40 Anos da poesia de Nei Duclós – ‘Outubro’ edição especial…

NEI DUCLÓS, segundo a Wikipedia– é um jornalista, poeta e escritor brasileiro. Tem 17 livros lançados de crônicas, contos, poesias, romance e ensaios. Além de inúmeros textos publicados na imprensa brasileira, sites e blogs e redes sociais.

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Para nós, seus leitores, Nei é um mago da palavra que nos permite celebrar seus 40 anos de Poesia, da publicação de seu primeiro livro – com poemas escritos entre os seus 20 a 28 anos – com plena vitalidade e uma atividade intensa nas mídias sociais. Seu site, com o sugestivo nome de Consciência.org é pleno de bons textos sobre diversos temas.

São os temas que inspiram e fazem transpirar o poeta, que é também historiador, cronista e crítico de cinema.

Tenho comigo o livro “Outubro” há vários outonos, desde 1977, e com ele mantenho um bom relacionamento como leitor que admira, relendo com entusiasmo a poesia de Nei. À cada véspera do mês, repetia o estribilho:

“Lento e bruto
Eu mudo
Sei que vem
Outubro”

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Hoje, publico um artigo – que é mais uma “Louvação”, à maneira dos meus antepassados nordestinos, sobretudo Hermilo Borba Filho, porque ficar calado quando se tem a honra e a chance de celebrar 40 Anos de Outubro com o poeta em plena atividade é um crime de lesa poesia. Eis o artigo em Opção Cultural (Goiânia) – clique na imagem para continuar lendo.

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(c)foto: Naná Monteiro.
Eu e as duas edições, separadas por 40 Outubros. Na edição comemorativa, uma bela dedicatória: “A Poesia nos une…” Sim, poeta!
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