Os Dois Finais de Ulisses

Do jovem Pedro Almendra, um ótimo texto sobre cinema e literatura.

o homem e sua hora

 

“(…) levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.

O filho lhe disse, então: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.

Mas, o pai falou aos servos: Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lhe, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos. Trazei também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa.

Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha se perdido, e foi achado.”

 (Lucas 15, O filho Pródigo)

I. “Lá e de volta outra vez”

“Marge, você precisa de um bom café da manhã. Irei lhe preparar alguns ovos(…)”. Essa é a reação de Norm quando vê sua mulher acordar de madrugada para ir trabalhar como policial. Ela que, grávida, terá de…

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Jorge Luis Borges (1)

EM Destarte, coluna do Opção Cultural Online, desta quinta-feira, 19, escrevo sobre Borges.

SE “somos versículos, palavras ou letras de um livro mágico, e esse livro incessante é a única coisa que existe no mundo; ou melhor dito: é o mundo…” (conforme Léon Bloy, citado pelo próprio Borges) — ele, Borges, é um capítulo único e desafiador desse livro coletivo que se escreve com sofreguidão abaixo do Equador.
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Segundo Carpeaux, Borges “integrou os elementos irracionalistas do criacionismo num sistema filosófico cuja tese principal é o caráter cíclico do Tempo e, portanto, a reversibilidade de todos os acontecimentos. Mas em vez de um tratado de metafísica, escreveu contos filosóficos, as “ficciones” altamente fantásticas, engenhosamente construídas e baseadas em notas eruditas diabolicamente inventadas, com a ajuda de toda a erudição fabulosa de que Borges dispõe realmente. É uma arte das mais requintadas, algo fria e desumana, sempre fascinante: obra significativa do século XX”.


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UM NOBEL SURPREENDENTE E MERECIDO

Uma resenha de Alfredo Monte sobre um dos livros do escritor que recebeu o prêmio Nobel de Literatura 2017 – o britânico-japonês Kazuo Ishiguro.

MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de outubro de 2017)

Kazuo Ishiguro, o surpreendente e merecido Nobel 2017, é um especialista em vidas desperdiçadas (um exemplo pungente: “Não me abandone jamais”), escreveu uma das obras-primas das últimas décadas, “OS RESÍDUOS DO DIA”.

É nirvânica a concepção que o mordomo Stevens tem do seu ofício. A individualidade deve desaparecer no exercício da função: “Um mordomo de qualidade tem que mostrar que habita seu papel, inteira e completamente; não pode ser visto jogando-o de lado num momento e simplesmente vesti-lo no momento seguinte, como se nada mais fosse que uma fantasia teatral”. Em virtude desse modo de pensar, tirar uma semana de folga (em 1956) só é aceitável com uma motivação profissional: reencontrar, e se possível trazer de volta, miss Kenton, a antiga governanta de Darlington Hall.

Por que, então, omite ou…

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Virgílio (1)

“Então tu és Virgílio, aquela fonte
que expande de eloquência um largo rio?”
– perguntei-lhe, baixando humilde a fronte.

“Dos outros poetas honra e desafio,
valham-me o longo esforço e o fundo amor
que ao teu poema votei anos a fio.

Na verdade, és meu mestre e meu autor;
ao teu exemplo devo, deslumbrado,
o belo estilo que é meu só valor”.

São palavras de Dante no Canto I do Inferno (Commedia, depois reintitulada por Boccacio de Divina Comédia), resgatadas da introdução de Nogueira Moutinho à tradução brasileira das BUCÓLICAS (Virgílio), feita por Péricles Eugênio da Silva Ramos (“Virgílio, o pai do Ocidente”).

“C´est le plus grand génie que l´humanité ait jamais produit, inspiré d´un soufle vraiment divin, le prophète de Rome” – afirmou Paul Claudel.

PUBLIUS VERGILIUS MARO (70 a.C/19 a.C.). “Os grandes poetas anunciam-se muito cedo” – diz John Macy. O primeiro trabalho de Virgílio foram as Éclogas ou Bucólicas, poemas da vida campesina, lendas imitadas de Teocrito e impregnadas do amor do poeta pelo norte da Itália onde então vivia. Foi ele que anunciou o nascimento do Cristo – segundo a crença corrente entre os cristãos primitivos e confirmada ao longo da vida da Igreja.

As Geórgicas…são um canto da vida rural, dos campos, do gado, das árvores. Justifica-se a ideia de Mecenas, o protetor dos poetas, de encorajar Virgílio a descrever a vida rural de modo a induzir o povo à volta aos campos.” (John Macy, traduzido por Monteiro Lobato).Virgilio_Verso

“Naquele assunto o gênio do poeta se achava em casa, mais à vontade ainda do que na Eneida. Virgílio amava a terra tão profundamente como o seu mestre Hesíodo e conhecia de contacto pessoal a vida do campo. As cenas que pinta mostram-se ainda hoje frescas como o eram há dois mil anos. Seus rouxinóis gorgeiam tal qual o de Keats.
Livros sobre poesia grega e latina

“A Eneida foi de algum modo uma empresa patriótica. O herói do poema, mais que Enéias, era a própria cidade de Roma.
[…]
“Num tempo como o nosso em que a Poesia não passa de mero recreio é impossível compreender a recepção que os romanos deram ao poema de Virgílio. Naqueles versos se expressava o verdadeiro ideal do povo. Graças a isso e à perfeição da forma, a Eneida superou tudo quanto a literatura latina produzira até então.

“Virgílio não viveu o bastante para conhecer a grande obra que havia feito. O poema só foi publicado depois de sua morte. Diz a história que ele se mostrava tão mal satisfeito da obra que a queria destruir, só não o fazendo graças à interposição de amigos e ordem de Augusto. Como esse imperador fosse o herói final do poema, tinha razão para zelar pela filha do seu mais notável súdito. Se Virgílio vivesse um pouco mais teria sido coroado e colocado logo abaixo do imperador. Seu túmulo tornou-se um santuário – e havemos de concordar que nenhum poeta mereceu tanto.”

Muitos anos depois, Hermann Broch escreveu o romance “em que se projeta por inteiro” (A morte de Virgílio, 1958), traduzido no Brasil pelo mestre Herbert Caro.

“Hannah Arendt, no magistral ensaio que escreveu sobre Broch, diz que a tragédia central de sua (dele) vida foi sua luta para não ser poeta. Neste sentido, A morte de Virgílio é uma grande capitulação. Nele, Broch rende-se à poesia. À poesia que ele transforma em cosmogonia, cosmologia e humanologia.”

[…]
“…o monólogo no livro de Broch é “como um comentário lírico – comentário, no preciso sentido musical do termo: no seu texto a poesia contraponteia com a poesia. Esse contraponto exigiu, inclusive, de Broch, o uso da intertextualidade, como a absorção, no corpo fremente de seu poema, de tópicos das Geórgicas, das Bucólicas e da Eneida, numa interação que permite apresentar a consciência de Virgílio, em estado de criação contínua, em perpétua ação criativa. “Um poeta é um homem que possui a dádiva de dominar a loucura e guiá-la” – diz Broch, numa passagem de seu poema (romance) sobre Virgílio.
“É essa possessão órfica, elevada aos mais intenso grau lírico que vai levar agora, através da Morte de Virgílio, o leitor brasileiro ao pórtico do alumbramento”
(Franklin de Oliveira, “Entrada no alumbramento”, introd. à ed. brasileira de “A morte de Virgílio, Broch, edit. Nova Fronteira, 1982).

Junguiana I

Carl Jung e eu.

Leveza e Esperança

Carl G Jung
O que mais me atrai neste livro de Jung é seu profundo compromisso com a verdade. Seus sonhos e suas análises, seus relatos das passagens da infância me soam absolutamente verdadeiros. Ao redigir um texto sobre este amado livro, por provisório que seja, queria me sentir na pele do menino Carl entregando sua redação ao professor e certo de que havia sido absolutamente verdadeiro.

As reflexões que faço durante a leitura são persistentes. Torço para terminar o dia e me encontrar de novo com seus sonhos e reflexões. Vez por outra, no meio da estafante rotina comercial, flagro passagens dos sonhos dele a me espreitar desde o alto da divisória do escritório com uma inusitada e inconsciente idéia antiga, chamando-me para passear no campo, jogar pedras no lago, perder-me no cerrado da infância interiorana.

Hoje na cadeira da dentista (é, penso, ao final da sessão: eis-me de novo aqui, para…

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