Destarte, #3 – O futuro da Poesia

LEIA minha coluna desta sexta-feira, excepcionalmente não publicada na quinta-feira —, em virtude do evento de lançamento do meu “Frágil armação”(2a. edição), editado por Livraria e Editora Caminhos.
Clique no link para ler na íntegra.
Destarte 15 09 2017

Destino palavra (poemas), 2016

Esta é a íntegra do discurso parcialmente dito na Ube, ontem, dia 18/10/2016. A emoção e o tempo me impediram de dizê-lo todo. Digo-o aqui. Boa noite! disse, bom dia, boa tarde,,,dependendo do seu fuso, amigo do blog Leveza & Esperança.

Saudações a todos. Autoridades e Amigo(a)s.

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Porque Chesterton tinha razão, ao afirmar que  “…a prova de toda a felicidade é a gratidão” –
eis como quero dizer-lhes a frase inicial. No princípio era a felicidade e esta é composta por pequenas alegrias e demonstrada de forma suprema no ato de agradecer. Quero, pois, desde logo, demonstar minha gratidão. Se me sinto feliz hoje (e como me sinto!), devo-o a vocês e em especial a todos vocês que vieram me dar mais alegria com sua presença hoje à noite.

 

Agradecimentos especiais. Especialíssimos – a minha companheira Helenir Queiroz, filhas, genros e netos. Aos amigos e confrades do grupo Lit GoYaZ – onde se prova que “escrever é ato solitário, mas publicar pode (e deve) ser solidário!”. À Ube, na pessoa do nosso presidente Edival Lourenço e da sua leal e fiel escudeira Ana Serra. Ao Zeidler, ao Sérgio (editor e revisor da obra!) com quem se pode dialogar e através dos quais e pelas mãos de quem o meu trabalho só pode se engradecer…

À Ercília, à Sônia Santos, ao Aquino e em especial ao Francisco Perna Filho, que ao lado da querida professora Ercília Macedo-Eckel, e da madrinha Sônia Maria Santos, soube enxergar preciosidades que este criador sequer supõe possuir.DSC_0044.JPG

“A palavra é meu sacerdócio, ela que protege e transforma o ser humano”…
Emblemático que este lançamento se dê na antevéspera do Dia do Poeta e no dia do médico -responsáveis diretos pelas dores do corpo e do espírito.

Como se sabe, tenho lido muito e continuamente me encantado com o poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo. Ele disse uma vez que: “Os livros de poesia (e não só eles) são como viagens, umas com roteiro certo, como as dos homens de negócio e as dos turistas, e outras sem rota determinada, como as dos aventureiros” — Alberto da Cunha Melo.

 Eis-me a propor a todos vocês, amigos e leitores, que viajem comigo.

Viajemos com “Shakespeare, Richard Crashaw, Louis Lavelle, Ivan Junqueira, J. Ortega Y Gasset, Antônio José de Moura, Jorge de Lima e outros que se juntam a Alberto da Cunha Melo, cujas palavras fizeram brotar os poemas de Adalberto de Queiroz. São diversos os versos em intituladas estrofes os que compõem “Destino Palavra”… – [o texto em aspas é da entrevista que dei a Yago Rodrigues Alvim (Opção Cultural)].

Pelo telefone, numa voz de terça-feira de chuva fina na janela, Adalberto foi contando assim miúdo de sua história poética, de suas viagens e do que é feita a obra. Numa das indagações, feito fresta de sol entre nuvens acinzentadas clareou, então, a palavra. Ela, que, num paralelo com a literatura de viagem, é a chegada, o “destino” — como ele mesmo escreve. Afinal, a palavra protege e transforma, sublima o homem. Faz dele mais e mais.

Disse também ao Yago, o que  vos digo agora: um pouco mais de MINHA história e deste livro – “Destino Palavra”.
Diz Miguel Unamuno que “todo ser de ficção, todo personagem poético que um autor cria faz parte do próprio autor.”
Um livro – falava do romance – , mas estendi por minha conta ao poema, o que Flaubert dizia de sua (dele) “Emma Bovary – c’est moi” – que era o próprio, que nele havia vivido, antes de ser personagem “de carne e osso”; assim também repete Miguel:

“Minha lenda! Meu romance! Quer dizer, a lenda e o romance que os outros e eu, meu amigos e meu inimigos, meu eu amigo e meu eu inimigo, fizemos conjuntamente a respeito de mim…Minha história é minha lenda…”

Parodiando, assim posso afirmar que meu “Destino palavra” não é outro senão eu próprio. Um pedaço da alma que lhes vai impressa em bom papel e bem envelopada por uma capa para que, lendo, saibam e conheçam um pouco de mim.

Este é meu terceiro livro individual. Além de ter participado de algumas antologias, uma em São Paulo, “Veia Poética”, e outra em Porto Alegre, “Qorpo Insano” e mais a que lancei no último ano, em Goiânia, “Literatura Goyaz”, escrevi “Frágil Armação” e “Cadernos de Sizenando”.

O Edival, que é uma espécie de irmão mais velho na lide literária e um irmão de quem só recebo bons exemplos, pergunta-me e me provoca a pensar – então, depois de tantos anos “de agruras do comércio, como se sente o poeta com mais ou menos energia para escrever – como um dique represado ou um rio seco?” E recorro à história bíblica com uma resposta enviesada, que dei a ele (no Raízes Jornalismo Cultural) e repito a vocês hoje à noite:

“Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivesse merecida,

começa de servir outros sete anos,
dizendo: “Mais servira se não fora
para tão longo amor tão curta a vida”.

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Cenas do super-prestigiado evento na Ube/Seção Goiás, 18/10/2016.

A poesia vale a pena – como a Amada no soneto camoniano. Se hoje posso servir à Literatura, eu o faço com a mesma ardor e sincera devoção que o fiz para construir uma carreira de empresário baseada na confiabilidade e na dedicação ao que fazíamos – minha mulher e eu.

Na Nota do editor, eu conto um pouco do trabalho, que é uma busca em minha poesia por novos rumos. Eu nunca parei de escrever; só parei de publicar. E, recentemente, muito me prendi ao poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo. Ele tem me ensinado que temos que nos colocar em xeque. E, a todo tempo, eu tenho feito isso…

Praticamente por toda a obra, eu trabalhei com um material de memória. Eu rescrevi poemas antigos ou retrabalhei temas antigos e até alguns novos. A viagem é uma constante em minha vida. Apanhei esta ideia do livro como viagem, da poesia como uma viagem muito especial, e a segui. Por 30 anos, eu viajei como executivo, diretor de empresa; e, hoje, eu viajo como aventureiro, mas como um aventureiro que não sabe seu destino, que não sabe aonde ir. E, ainda assim e mais por isso, como aquele que traça seu destino. O livro foi trabalhado nesta dinâmica…

Quando com cerca de 40 poemas, eu submeti o rascunho do livro (a obra em progresso) a duas/três pessoas — a quem agradeço imensamente, Ercília Macedo-Eckel e Francisco Perna Filho – esses contribuíram muito, a ponto até de eu retirar alguns poemas, após a conversa (ou a leitura de mensagens eletrônicas) deles – como também devo agradecer a Luiz Aquino e Maria Lúcia Gigonzac, pelo incentivo a prosseguir crendo, imagino, que estava tomando o caminho apropriado, o norte do que hoje é “Destino Palavra”.

Eles me fizeram, dizia: compreender que eu estava no rumo certo e que tinham certas sujeirinhas que precisavam sair. E outra: um dos poemas virou uma folha enorme A3 – uma homenagem a Yêda Schmaltz, que nem está no livro, e que será entregue a algumas pessoas (os mais pontuais) que comparecem a este lançamento – é um poema experimental (Chuva feito enxame de abelhas).

O Francisco Perna Filho, mestre e doutorando em Literatura, me ajudou a enxergar um caminho: definitivamente, não sou um poeta católico, sou um católico poeta. Um homem que sente o peso das seis décadas, diante de um século que se ergue em insensatez: “um velho, conservador e católico que ama a poesia. Sou apenas um católico que escreve poesias e que faz disso um sacerdócio.”

Depois que me aposentei, em 2014, eu escrevo poemas diariamente. Muito mudou em minha vida desde então. Sob a direção espiritual de alguns santos entre nós pecadores, naquele ano, dei uma guinada em minha vida. Redescobri que a minha vida é escrever e isso foi a coisa mais centrada que decidi seguir. Deixei o mundo dos negócios – que nunca me deixará – pois dele trago como Augusto Frederico Schmidt a lembrança de que só me foi possível dar-me ao prazer da leitura e da escrita nesta quadra da vida por conta do dever cumprido em 30 anos de comércio.

Costuma dizer, repetindo Santo Tomás de Aquino, que “ah, as agruras do comércio” dilapidam energias, podem construir ou destruir fortunas e sonhos, mas nunca – jamais poderão destruir a nossa alma. Ei-la exposta através da Arte, da poesia….

Não sou poeta para me diferenciar de nenhum dos meus colegas comerciantes. Sou poeta porque devo cumprir a sina; porque tenho que atender ao chamado de todas as vozes que me procuram à noite, noite-e-dia, para dizer-me palavras; sou poeta porque carrego o “sê-lo” – espécie de manto que nos cobre os ombros – poetas – e que é (ou deve ser) de todo o usual do mais simples dos carpinteiros, fazê-lo mais dourado é enganar-se é ludibriar o que nos lê… Nem por isso, minha poesia não exigirá de quem lê que se proponha um olhar para o Alto, como aquele personagem de Herculano que em meio às agruras da guerra fratricida diz uma trova inesquecível:

“Sem padre [pai], madre ou irmãos
A quem me socorrerei?
A ti, meu Senhor Jesus
Senhor Jesus, me socorrei.”

Neste livro – bem o captou o jovem editor Yago Rodrigues Alvim – o elemento místico está sempre presente, mas o traço fundamental está mesmo na temática da viagem; o título mesmo remete a esta literatura (de viagem), onde o personagem empreita uma aventura e que, por fim, se vê transformado.

Yago R. Alvim – Existe uma sublimação. A palavra transforma o ser humano?

Sim! Disse eu ao jovem editor. A palavra pode transformar o ser humano. Não muda o mundo mas pode mudar o Ser. “Muito lindo o que você disse, eu mesmo assino embaixo”- respondi em entrevista numa tarde de chuvinha fina.  E Até me lembrei de um autor francês que, condenado à prisão domiciliar, escreveu “Viagem ao redor do meu quarto” – falo de Xavier de Maistre é um personagem que consegue viajar através da palavra.
A palavra muda sim, meus caros. A palavra mudou (e moldou) o menino órfão que enviado a um abrigo em Anápolis sempre amou os livros da saudosa biblioteca de Dona Modesta; da biblioteca do Colégio Couto Magalhães – tão bem cuidados por dona Faustina. Um deles marcou a minha juventude. Com ele, eu me resguardei de muitas violências contra mim. O autor é (era) Francisco Marins, “O bugre do chapéu de anta” é uma estória linda. Seu personagem viaja para o interior de Goiás e o que o destaca é o bugre do chapéu de anta.

Pois bem, isso, que hoje se chama “bullying”, na minha época era simplesmente agressão – e foi lendo para mim mesmo e em voz alta para os inúmeros irmãos e colegas que eu deixei de levar muita porrada – era de certa forma sempre salvo pelo livro – por esse e muitos outros livros. Muitos, no recreio, só queriam bater em magrinhos como fui. Por isso, afirmei ao Yago e afirmo a vocês que “a palavra nos protege” e, por consequência de meu desenvolvimento humano e espiritual “a palavra – o ato de ler e escrever é para mim um sacerdócio e salvação”.

Os temas do livro

Ocupo-me da dor – de Nosso Senhor à dor comezinha, que já nem olhamos; com o tema da única certeza humana: a morte, com o destino da humanidade; com a violência e as guerras; com a solidão humana. Essa nossa falência humana e social – um século que mal começou e se despedaça em guerras. Há vários poemas sobre a dor, há um outro que diz de navios, mas que não é bem sobre viagens, descobre-se ali a morte e ressurreição da alma. Eu tenho, também, uma busca mística. Tenho dois poetas santos, com os quais falo todos os dias. Santa Teresa d’Ávila e São João da Cruz, patrono dos poetas e autor de “A Noite Escura” (entre outros), são dois grandes amigos. Eles me inspiram todo o tempo. Estão cada vez mais presentes e conscientes. E foi isto que quis, escrever um livro mais consciente.

Eu começo no passado, na minha infância e vou percorrendo um caminho, que vai até à segunda parte da obra; e elas, as partes, falam disso, de que a palavra é capaz de mudar aquele que escreve e aquele que lê — que lê de verdade, que se aprofunda. “Eu devorei tal livro”, diz da fome da palavra — olha só, isso é lindo! O chamado feito a São João no Apocalipse pelo Anjo – Toma e come o livro. Faço-o a você que me ouve hoje: tomai dileto amigo; tomai-o e comei. Dovarai, seu, meu, nosso Destino Palavra!

Obrigado!

 

“Destino Palavra” em Goiânia

Diletos amigos do meu blog:

A presença de vocês me deixará ainda mais feliz!
Venha participar do coquetel. Estarei autografando a partir das 19h30.
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O livro tem posfácio do mestre (doutorando) Francisco Perna Filho.
Capa e projeto gráfico – Mário Zeidler Filho.
Revisão – Sérgio Marinho.
Edição – Beto Queiroz Livros , 88 p.
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Pai ignorado*

PAI IGNORADO

(Um poema de ocasião.
Ou como dizia Goethe: toda minha poesia foi de ocasião…)

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Eu não acompanhei o enterro
Do pai que nunca conheci.
De minha carne, não erro:
não era nariz do morto que vi.

Albert Camus enterrou o pai dele:
Le premier Homme – um estertor.

A dor dele em Alger, senti. E na Vila Jaiara
debalde procurei, sem nunca tê-lo visto – pai!

Rodasse o mundo inteiro,
não o veria, mas no lago à tarde,
por ordem de santo Ignacio de Loyola
pranto suave verti.
– E dei Adeus! ao pai ignorado…

Eu o vi ao cair da tarde no ribeirão
João Leite – e enterrei-o, sozinho;
feito cai o lírio de Chile,
na secura do meio dia.

Acólito de La Solitude parti.
Parti e nunca mais dele lembrei
nem do registro civil.

Ignorado confronto
A grafia númida –
nímia de meus dias.

Filho do pecado,
no dia dos pais
levo presente
para minha tia.

(A G.M.Q.)
./.
Goiânia, dia dos pais de 2016.

 

Drafts de poemas (xii)

Chuva feito enxame de abelhas

 – à memória de yêda schmaltz,

I

chuva feito     enxame
de abelhas           que  sobrevoam      –    e querem enxotar –
tomba  em tons e        sobretons, como se sob
o zinco houvessem.

sobre o teto de minha casa  no cerrado esta savana amada  chove  poesia sobre o teto da casa onde a poeta yêda                                                   schmaltz
ante-
vi(u)veu.

eu nem te vi; quem te vê, poeta amiga, sumida nos tempos de antanho; tanta abelha, tanto zumbido tanto som de mato tanto som de rio de riacho.

le douve como o joão leite

                                   rio, riacho       clara     sanga…

la douce                           

la douceur

du sexe, du feu.

II

sons de minha terra e da tua terra e era céu o que via ouvia quando era pequeno e o teto desabava e eu nem era Asterix                                                  nem era nada

do que eu sou agora  –

um nada diante de ti e de tua memória se fosses viva eu te daria um beijo na boca um beijo como só klimt dera em teu poema eu daria uma casa e uma kombi cheia de poesia só para que tu visses ouvisses vivesses o que vivo agora – Withman o que dissera que um menino leria o poema dele (him) –
séculos depois.

Eis-nos: não o dera nada de bandeja para que o menino o lesse – eu o li e tu?
eu o ouvi e a Ti;
(tudo confesso)
fumando um cigarro de folha de chuchu ou diamba – sim, eu ouvi quando a chuva de prata pousou em tua casa do bairro Feliz.

eu vi eu ouvi quando o mato passara pelo couro de gibão do teu avô do meu avô eu prometo que é a mesma coisa do que eu juro eu não esconjuro ninguém                                                       que ouve vozes, como tu, você e eu o fizéramos, mas já nos curamos somos todos uns sem ouvidos – oiças duras somos – uns moucos
uns loucos que não ouvimos mais nada…

 
III

gerardo mourão e hermilo, o borba; e yves bonnefoy, de boa fé ouviam vozes e bruno também – eles ouviam coisas tão claras, tão distintas do sussurro que ouço  sem estrutura que resista.

como em joaquim cardozo, o moço nordestino, nas minas gerais que viu ruir toda a sua (dele, him) estrutura mental

– como quando vozes nenhuma ouvia mais

aquele pobre padre –
o que descreu e não conseguia mais celebrar a Eucaristia!

como quando aquele menino lá do abrigo
teve leucemia como aquele que um dia fez um furo no muro do hospício –

e por ali eu ouvi; ele me ouvia – outros também – o José Décio ouvia,                           José J.Veiga [eu desconfio que também ] –

porque não é possível a ninguém criar nada nesse mundo de meu Deus
se não ouvir vozes,
se não ouvir a chuva como Benedetti a ouvia em menino, se não ouvir o doce  frio friozinho friozão; bão-bá-lá-lão –
de um poeta na contramão…

se não, se não …

poesia pé de poesia poesia pela poesia feito sobrinho e sua tia
poesia sobre si sobre Ti

a mesma mentirosa só:
fingida e fugidia…

IV

pode outra coisa a não ser o poeta fazer assim chover?

– pode essa chuva de poesia no meio da madrugada

acordar a gente dizendo

que está chovendo poesia em nossa horta

– quando hei de me lembrar e quem há de?

fazer ouvido mouco para tanta doidera de ouvir vozes

bastardas vespas zumbindo em nossa cabeça quando a tempestade assume o comando e já não se é ninguém

só a memória de abelhas                                      européias

e de sonetos que o florentino –
(não o meu tio Flô!) escrevia
com giz nas paredes antes de (se) jogar
pela janela do paraíso.

Ω
[Goiânia, Abril de 2016]

Um artigo impublicável

Um artigo escrito e reescrito à pequena multidão de seis leitores deste blog.*


Adiós te digo, pero no me voy.
Me voy, pero no puedo decirte adiós!

(Pablo Neruda, Canto General)

Sempre tive a ilusão de escrever para um grande público. Tive uma oportunidade e a perdi. Há um ano, fiz a experiência de adequar meu modo de escrever ao modo de pensar atual e, assim, atingir um grande público. O meio me daria, em tese, acesso a milhões de leitores. Não atingi essa meta. Voltei para a pequena multidão de seis leitores que me prestigiam há muitos anos em meu blog. Fica um certo amargo e um ilusório sabor que o “gigante rubro da ira gerou no meu ser, através do seu filhote mais horrendo: “o pálido rancor”.

E, comprovando o dito popular, que não há bem que sempre dure, eis que mal assim se acaba – dele falando. Outras portas se abriram desde então, e meus seis leitores pularam para uns 600. Nada mal. Sigo rabiscando essas crônicas para a pequena multidão de poucos.

Quando lá cheguei fiz uma primeira crônica, feito cachorro que demarca o território, dei o tom que deveria perpassar todas as demais – tive a pretensão de atingir um leitor que “queima pestanas” (Augusto Meyer) e se dá o direito de ser “um leitor petulante”.

Do alto de minha cadeira confortável ao fundo do quarto, meu posto de observação predileto, donde tento livrar-me do cansaço de um um dia estressante, leio os jornais – de preferência em papel e vou tentando lê-los em voz alta para os meus próximos. A vida é o que se lê, diria o gato a Alice.

Entanto, cada vez, convenço-me que mundo, mais do que de cronistas e poetas, precisa de monges, de rezadores, de educadores, do exemplo dos que crêem no Sobrenatural mas não se descuram do natural. O mundo atual precisa reler Chesterton e C.S.Lewis. Estes homens que em meio ao ruído do século em que viveram (vários decibéis a menos do que este séc. xxi) escreveram centenas de páginas inspiradoras sobre o fenômeno de um ser sobrenatural e da importância da Tradição.

Sinto-me, pois, depois da frustrada experiência com a grande imprensa digital, um homem ultrapassado. Junto-me à multidão dos ancestrais e me calo; volto minha atenção para o passado, procurando a cura pela homeopatia literária – um pouquinho de veneno para me curar de um mal maior. Sabendo que só o sábio sabe adoecer, tento adoecer quando quero.

Quem deseja curar-se mais rápido dá o passo na direção do Sobrenatural – desde um São João a um C.S. Lewis; de Teresa d’Ávila a Hildegard de Bingen, passando por Amoroso, Gustavo, Bernardo e Francisco.

Os olhos da alma que se debruçam sobre o Sagrado jamais deixarão de crer nas visões. A visão de que a poesia se esvai do dia-a-dia das pessoas, de que não está contida no algoritmo da pós-modernidade é como uma visão apocalíptica àquele leitor que “queima pestanas”.

Até mesmo o cronista da página dois de um grande diário, um dia desses fez sua “jihad” pessoal contra a necessidade da Poesia ou do poema.

Embora houvesse em Carlos Cony uma confissão, quase um credo – transformado em declaração (ou desejo supremo) de não querer ser mediano, isto é: na hipótese de não ser cronista (ficcionista) e sim poeta, se… fosse poeta, só lhe interessaria ser um Dante, um Petrarca etc. E, assim, dizia o cronista, embora admitindo ali um quê de amargo olhar sobre a criação, embora ali resida uma espécie de batalha entre gêneros (ou espécies) literárias, há também uma Esperança.

Na declaração do cronista Carlos Heitor quase que há uma adesão ao regulamento de Platão em sua República, proibida aos poetas. E, por último, mas não menos importante: na afirmação de Cony perdeu-se a essência em meio ao turbilhão da pletora informativa da Web – como de resto os bons pensamentos viram vapor em meio à grande queda d’água que é a produção na Internet hoje.

Confesso meu desconhecimento dos algoritmos e ritmos hodiernos. Meu desejo de sonhar sempre com “Quaresmeiras Roxas” (local ficcional criado por Alexandre Soares Silva) – aquele rincão próximo de Nárnia, me alimenta a continuar sonhando com um mundo em que não apenas a poesia tenha seu lugar, mas mais ainda que esta seja parte da economia da salvação terrena.


No livro “Sábado”, do romancista inglês Ian McEwan o exemplo definitivo. Só a leitura de “Meu barco atrevido, de atrevida Daisy Perowne” é capaz de salvar a família Perowne, em poder de sequestradores (ou se prefere “salteadores”). O avô Grammaticus a incentiva a ler um poema e o sequestrador é bem explícito:

–“Cale a merda dessa boca, vovô.”


Na estória de McEwan, “Daisy olhou perplexa para Grammaticus, na hora em que ele falou, mas agora ela parece compreender. Abre o livro de novo e vira as páginas para trás, em busca do local, e então, com um olhar de relance para o avô, começa a ler. Sua voz está rouca e fina, a mão mal consegue segurar o livro de tanto tremer, e ela traz a outra mão até o livro, a fim de segurá-lo.” Não hei de tirar ao “leitor petulante” o gosto de ler no original de McEwan o fim deste drama, pois egoisticamente prefiro continuar no meu mundinho.

 

Vendo uma faca no pescoço da mãe, Daisy Pewrone é a minha voz como cronista, pode ser a voz do leitor de McEwan ou desta crônica.

O mar está calmo esta noite. É maré cheia, a lua paira alta acima do canal, no litoral da França, a luz brilha e se apaga… os rochedos da Inglaterra cintilantes e vastos, acima da baía tranquila… “as ondas trazem consigo a nota eterna da tristeza”. Como Sófocles, nem toda Antiguidade clássica, tampouco a pós-modernidade associa este som das ondas ao “fluxo e refluxo velados da miséria humana”.


Talvez olhando fotos na internet, vejamos que é numa mará-baixa de uma praia distante que desencavamos um nome estranho – Bodrum -, quem sabe, nome capaz de nos abrir os olhos e ouvidos e nos fazer livres da faca que temos em nossos pescoços, nós, membros da humanidade civilizada – nós os Perownes, os Machados, os Lewis, os Smiths, os Silva e Souza…

No mais das vezes escorados em almofadas confortáveis do outro lado do globo, não nos deixamos tocar pelo natural nem pelo Sobrenatural. Mas o susto da faca no pescoço, talvez possa fazer-nos encontrar sentido da salvação pelo sobrenatural dos versos de um poeta de minha terra (Aidenor Aires), quando diz:

Irmãos refugiados no coração do mundo,
Aylan Kurdi é o nome de meus filhos;
e dos filhos que ainda nascerão
.”

Por não ver sentido senão na intervenção salvífica da Poesia, dita em voz alta nas esquinas, lida em silêncio nas catedrais do livro que são as bibliotecas; eu queria deixar registrado meu Adeus à famosa revista mas não pude. Seria um Adeus poético, repetindo Pablo Neruda:

“Te digo Adiós”pero no me voy” – pelo menos não sozinho.
“Me voy – [amigos diletos], pero no lhes digo Adeus! (AQ).


(*) Um lamento por ter sido dispensado de uma grande revista digital e não ter sequer dito Adeus aos leitores. Obrigado aos meus seis leitores por continuamente me incentivarem a fazer o que eu faço (AQ).

Francisco Perna Filho, seleta de poemas

Eis abaixo uma Seleção da poesia de meu amigo Francisco (Chico) Perna, feita pelo próprio.

Fiquei muito honrado com a participação do Chico Perna em nosso projeto “Literatura Goyaz: Antologia (2015). Capa e Contracapa Antologia 2015.jpg

Em um tempo qualquer

[Ouvindo a Sinfonia nº. 5 de Gustav Mahler]

Eu vi o Mar
e a face líquida de Deus.
Um transbordamento
desta longa avenida,
no misterioso das águas.

São plenas,
e, daqui de cima,
sob o rumor dos motores a cortar
a carne líquida do Atlântico,
Contemplo os azulegos corcéis
desta aventura,
e precipito-me no desconhecido.
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Os rios são como os cavalos selvagens,
rumam em desatino, florescem a seu tempo,
investem no que acreditam. Não respondem a ordens, seguem.

Mais?! Siga o link…
Leia mais

*Literatura Goyaz: Antologia 2015

 *Lançamento.
Data: 19 de abril de 2016
Hora: 19h00
Local: Galeria do Teatro Basileu Toledo.
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DM Antologia

Uma nota na coluna do dileto amigo Ulisses Aesse merece uma ressalva no adjetivo usado pelo colunista no título: de acordo com o mestre Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, em seu clássico dicionário Analógico, “colaborativo(a)”, adj. diz respeito à combinação de causas que pressupõe “feito em aliança, em perfeita comunhão, conjuntamente com, em parceira com, ombro a ombro”; já “colaboracionista” diz respeito à inconfidência (sobretudo na França ocupada), à colaboração para fins de “arreglo”; o que em hipótese nenhuma tipifica-se nesta coletânea.
UlissesAesse!

Outras repercussões: Opção Cultural.
A Redação. O Popular. Coluna Oficina Poética. Revista Conexão Literatura.