“Destarte” destaca Ursulino Leão

Nesta quinta-feira, 07 de setembro, no Jornal Opção Cultural Online, meu artigo é sobre o cronista e romancista goiano URSULINO LEÃO.

Confira no link, clique na figura abaixo:

Ursulino Leão e eu

A cachoeira*

Das idas a Corumbá de Goiás, posso lembrar-me com alegria. Minha memória guarda um desses passeios como um dia envolto na neblina, vaporzinho descendo sobre a alma plena de alegria, da mesma forma que este café da tarde faz subir a razão em sua fumaça, semelhante ao gênio da lâmpada. Para o menino que fui fazia calor, mas esta lembrança tem algo da friagem dos junhos cinquentões.

A tarde talvez fosse azul,  descobri no poema lido já adulto – em outras circunstâncias -, tateando a cidade grande para evitar que o corpo deixasse a alma se recolher ao covil da falta de alegria. O ondeado verdolengo das matas em torno ao salto d’água se impôs ao olhar do menino esculpido em desafio. Hoje, a onda fraca dos pingos d’água ricocheteiam de uma chuveirada quentinha.

Tremia por dentro, naquela viagem. quando viagem era ir de Anápolis ao Salto de Corumbá; tudo por conta de uma conversa havida no caminho. Haveria lá, diziam os grandes, uma prova de resistência e só alguns de nós conseguiria subir ao mais alto da cachoeira – na verdade apenas um “salto”: o Salto de Corumbá.Salto_Corumbá+Sepia

Eu, que sempre fui um medroso renitente, enxerguei logo o gigante negro e fantasiei a minha impossibilidade de realizar a subida, mentalizei o horror que seria para todos os demais vitoriosos e a chacota em que me tornaria diante, principalmente, das meninas da caravana.

Chegamos ao Salto. Despimo-nos e pedi à minha irmã para manter-me com a camiseta. Autorizado, senti a alegria dessa decisão quando os mosquitos se esparramavam em meio à massa de meninos e meninas, urubus diante de carniça nova. Estávamos todos mais ou menos certos de que haveria provas difíceis pelos sermões antecipados, que nos pregaram antes da aventura. Só não havíamos nos afeitos às precauções naturais dos pequenos habitantes da savana goiana – os menores que mais incomodam, aprenderia mais tarde também.

Despidos braços e pernas, cabeças ao sol, serpenteamos em meio às árvores numa subida que parecia impossível de se completar. A penitência parecia maior porque nós, os pequenos, íamos ao rabo da fila indiana e sempre sobrava uma cipoada de um mais atrevido que segurava o galho até ao exato minuto da nossa passada… e seguia sorrindo para alternar-se com outro gaiato que abriria caminho à meninada.

Por dentro de mim, já havia tantas reclamações quanto arranhões no rosto. O que me salvou foi aquela camiseta que, embora puída, livrou-me de mais uma cicatriz entre as sete adquiridas à peine – o suficiente para tornar-me o homem que escreve esta croniqueta.

Finalmente, chegamos ao topo. Tendo obtido o êxito que os grandes esperavam ou desejavam que eu não conseguisse, senti-me um completo mateiro em meio aos maiorais. Deu-se, entanto, que não estava a missão terminada. Lá do alto, começaram os graúdos a escorregar pelo mato, descendo o longo declive feito tivéssemos cada qual uma prancha sob seu corpo.

– Valha-me, deus, pensei!

Nem tempo de uma prece tive quando me senti empurrado ladeira abaixo. Aos poucos, venci o barranco e a camiseta velha parecia um trapo pronto para virar pano-de-chão, quando a água fria do rio Corumbá me gelou as carnes e o espírito. Que alívio!

Nunca mais me esqueço de que um salto não é uma cachoeira e que mosquitos não gostam de certas horas do dia à flor-d’água. Ali fiquei tiritando calado e pensando: “que despautério ser da “banda dos pequenos”; mas a água caindo branca do alto da cachoeira vale-me o dia, até mesmo com os arranhões que levei comigo vida adentro.

Deram-nos um pão com salame e uma caneca de suco. Foi tudo o que se salvou daquela tarde, mas nem por isso o café que me aquece nesta tarde de julho deixa-me a alma atrelada ao corpo – a presa de um covil. Não!

Sorrio por dentro, mangando do menino medroso que visitou o Salto do Corumbá pela vez primeira, sabendo que dele não puderam maldar os mais crescidos.

(*) Ao amigo, poeta-cronista Luiz de Aquino. Reescrita em 20/3;2017.

Um artigo impublicável

Um artigo escrito e reescrito à pequena multidão de seis leitores deste blog.*


Adiós te digo, pero no me voy.
Me voy, pero no puedo decirte adiós!

(Pablo Neruda, Canto General)

Sempre tive a ilusão de escrever para um grande público. Tive uma oportunidade e a perdi. Há um ano, fiz a experiência de adequar meu modo de escrever ao modo de pensar atual e, assim, atingir um grande público. O meio me daria, em tese, acesso a milhões de leitores. Não atingi essa meta. Voltei para a pequena multidão de seis leitores que me prestigiam há muitos anos em meu blog. Fica um certo amargo e um ilusório sabor que o “gigante rubro da ira gerou no meu ser, através do seu filhote mais horrendo: “o pálido rancor”.

E, comprovando o dito popular, que não há bem que sempre dure, eis que mal assim se acaba – dele falando. Outras portas se abriram desde então, e meus seis leitores pularam para uns 600. Nada mal. Sigo rabiscando essas crônicas para a pequena multidão de poucos.

Quando lá cheguei fiz uma primeira crônica, feito cachorro que demarca o território, dei o tom que deveria perpassar todas as demais – tive a pretensão de atingir um leitor que “queima pestanas” (Augusto Meyer) e se dá o direito de ser “um leitor petulante”.

Do alto de minha cadeira confortável ao fundo do quarto, meu posto de observação predileto, donde tento livrar-me do cansaço de um um dia estressante, leio os jornais – de preferência em papel e vou tentando lê-los em voz alta para os meus próximos. A vida é o que se lê, diria o gato a Alice.

Entanto, cada vez, convenço-me que mundo, mais do que de cronistas e poetas, precisa de monges, de rezadores, de educadores, do exemplo dos que crêem no Sobrenatural mas não se descuram do natural. O mundo atual precisa reler Chesterton e C.S.Lewis. Estes homens que em meio ao ruído do século em que viveram (vários decibéis a menos do que este séc. xxi) escreveram centenas de páginas inspiradoras sobre o fenômeno de um ser sobrenatural e da importância da Tradição.

Sinto-me, pois, depois da frustrada experiência com a grande imprensa digital, um homem ultrapassado. Junto-me à multidão dos ancestrais e me calo; volto minha atenção para o passado, procurando a cura pela homeopatia literária – um pouquinho de veneno para me curar de um mal maior. Sabendo que só o sábio sabe adoecer, tento adoecer quando quero.

Quem deseja curar-se mais rápido dá o passo na direção do Sobrenatural – desde um São João a um C.S. Lewis; de Teresa d’Ávila a Hildegard de Bingen, passando por Amoroso, Gustavo, Bernardo e Francisco.

Os olhos da alma que se debruçam sobre o Sagrado jamais deixarão de crer nas visões. A visão de que a poesia se esvai do dia-a-dia das pessoas, de que não está contida no algoritmo da pós-modernidade é como uma visão apocalíptica àquele leitor que “queima pestanas”.

Até mesmo o cronista da página dois de um grande diário, um dia desses fez sua “jihad” pessoal contra a necessidade da Poesia ou do poema.

Embora houvesse em Carlos Cony uma confissão, quase um credo – transformado em declaração (ou desejo supremo) de não querer ser mediano, isto é: na hipótese de não ser cronista (ficcionista) e sim poeta, se… fosse poeta, só lhe interessaria ser um Dante, um Petrarca etc. E, assim, dizia o cronista, embora admitindo ali um quê de amargo olhar sobre a criação, embora ali resida uma espécie de batalha entre gêneros (ou espécies) literárias, há também uma Esperança.

Na declaração do cronista Carlos Heitor quase que há uma adesão ao regulamento de Platão em sua República, proibida aos poetas. E, por último, mas não menos importante: na afirmação de Cony perdeu-se a essência em meio ao turbilhão da pletora informativa da Web – como de resto os bons pensamentos viram vapor em meio à grande queda d’água que é a produção na Internet hoje.

Confesso meu desconhecimento dos algoritmos e ritmos hodiernos. Meu desejo de sonhar sempre com “Quaresmeiras Roxas” (local ficcional criado por Alexandre Soares Silva) – aquele rincão próximo de Nárnia, me alimenta a continuar sonhando com um mundo em que não apenas a poesia tenha seu lugar, mas mais ainda que esta seja parte da economia da salvação terrena.


No livro “Sábado”, do romancista inglês Ian McEwan o exemplo definitivo. Só a leitura de “Meu barco atrevido, de atrevida Daisy Perowne” é capaz de salvar a família Perowne, em poder de sequestradores (ou se prefere “salteadores”). O avô Grammaticus a incentiva a ler um poema e o sequestrador é bem explícito:

–“Cale a merda dessa boca, vovô.”


Na estória de McEwan, “Daisy olhou perplexa para Grammaticus, na hora em que ele falou, mas agora ela parece compreender. Abre o livro de novo e vira as páginas para trás, em busca do local, e então, com um olhar de relance para o avô, começa a ler. Sua voz está rouca e fina, a mão mal consegue segurar o livro de tanto tremer, e ela traz a outra mão até o livro, a fim de segurá-lo.” Não hei de tirar ao “leitor petulante” o gosto de ler no original de McEwan o fim deste drama, pois egoisticamente prefiro continuar no meu mundinho.

 

Vendo uma faca no pescoço da mãe, Daisy Pewrone é a minha voz como cronista, pode ser a voz do leitor de McEwan ou desta crônica.

O mar está calmo esta noite. É maré cheia, a lua paira alta acima do canal, no litoral da França, a luz brilha e se apaga… os rochedos da Inglaterra cintilantes e vastos, acima da baía tranquila… “as ondas trazem consigo a nota eterna da tristeza”. Como Sófocles, nem toda Antiguidade clássica, tampouco a pós-modernidade associa este som das ondas ao “fluxo e refluxo velados da miséria humana”.


Talvez olhando fotos na internet, vejamos que é numa mará-baixa de uma praia distante que desencavamos um nome estranho – Bodrum -, quem sabe, nome capaz de nos abrir os olhos e ouvidos e nos fazer livres da faca que temos em nossos pescoços, nós, membros da humanidade civilizada – nós os Perownes, os Machados, os Lewis, os Smiths, os Silva e Souza…

No mais das vezes escorados em almofadas confortáveis do outro lado do globo, não nos deixamos tocar pelo natural nem pelo Sobrenatural. Mas o susto da faca no pescoço, talvez possa fazer-nos encontrar sentido da salvação pelo sobrenatural dos versos de um poeta de minha terra (Aidenor Aires), quando diz:

Irmãos refugiados no coração do mundo,
Aylan Kurdi é o nome de meus filhos;
e dos filhos que ainda nascerão
.”

Por não ver sentido senão na intervenção salvífica da Poesia, dita em voz alta nas esquinas, lida em silêncio nas catedrais do livro que são as bibliotecas; eu queria deixar registrado meu Adeus à famosa revista mas não pude. Seria um Adeus poético, repetindo Pablo Neruda:

“Te digo Adiós”pero no me voy” – pelo menos não sozinho.
“Me voy – [amigos diletos], pero no lhes digo Adeus! (AQ).


(*) Um lamento por ter sido dispensado de uma grande revista digital e não ter sequer dito Adeus aos leitores. Obrigado aos meus seis leitores por continuamente me incentivarem a fazer o que eu faço (AQ).

Para dizer adeus a 2015

CRÔNICA PUBLICADA EM PORTAL RAÍZES. – Goiânia, 23-DEZ-15.
ANTES que o ano se vá, esvaindo-se em dias, horas, minutos; antes que a contagem regressiva que anuncia o Novo comece, eis-me aqui para dizer-lhe duas ou três coisinhas. Nem sei ao certo se ficaria bem dizê-las numa página de jornal eletrônico; se melhor não ficariam em uma folha de papel envelhecido, num cartão artesanal, desses feitos com muito amor pelos Pintores com a Boca e os Pés…
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Quero dizer mas não me sinto seguro se esta mensagem há de chegar-lhe inteira. Quero dizer mas não encontro as palavras. Há um ruído medonho no mundo a impedir-me de ouvir (ou sentir) sua reação; nem seus olhos dialogam comigo, usando essa página de computador.
Entanto, sei que se persistir dizendo; você dirá a outro e outros mais e tê-lo-emos dito de uma forma intensa e duradoura.
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Minha crônica em Revista Bula

Zebras de Josh Brown

Um clarão na página que acenda sua imaginação — eis o que pretendo continuar fazendo. Se você já pulou a barreira do título, entre mil manchetes mais picantes do seu dia-a-dia na internet, seja bem-vindo ao sanatório, desculpe, ao zoológico brasileiro da política.

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Das coisas como entidades sentimentais (2)

A rotina diária deste dezembro tão célere me aconselha a não continuar derramando migalhas de tartines e gotas de Bordeaux sobre o teclado de meus seis leitores. Abandono temporário das crônicas com seu sabor de andívias e com cheiros das boas cozinhas da Douce France por onde circulei neste outono passado. Dedico-me, pois, a dizer-lhes duas ou três palavras sobre as coisas da viagem e uma específica sobre os chapéus.

Não vai longe o dia em que um senhor comprava verduras na mesma banca que eu, usando begala e me transmitiu aquele sentimento inominável que começa pela observação visual e vai ganhando as fímbrias do espírito para ali se debruçar com o nome de saudade. Sim, senti, como dois dos meus seis leitores seriam capazes se lembrar: saudades de um chapéu panamá que jamais usei. Na verdade, deveria nomear o sentimento como saudade do que não fui.

Longe vai o dia em que olhava com respeito um senador da República pousando no Salgado Filho, com um belo chapéu e um sobretudo. Era o Senador Brossard (seria mesmo senador àquela época do início dos anos 70?) que me chamava a atenção pela elegância de seus ternos, pela redondilha maior de seus discursos e por uma certa dignidade que o chapéu parecia conferir ao polítido. Longe me parece o dia em que sob o chapéu se carregava decência e dignidade na vida dita pública, pois que, pra mim a vida é única.

Mas deixemos de lado o vestuário e nos ocupemos com o espírito. Saímos de Aix-en-Provence na manhã de uma segunda-feira, depois de sermos surpreendidos com o anúncio de nossa hotelier, na hora do check-out, de os amigos já haviam quitado nossa conta de hotel, no belo balneário de Sausset-les-Pins. No domingo, havíamos almoçado com os amigos Jean e Marie na varanda de uma casa em obras, a metros do Mediterrâneo, próxima a uma grande usina da EDF. Na segunda, surpreenderam-nos com o presente da estadia e um chapéu.

Brindados com um céu de um azul sem nuvens, ali ficamos horas em torno de um Vaqueyras, entre amigos e nossas esposas, em fraterna amizade. E foi por amar os chapéus que deixei aflorar na conversação meu sonho de ter um panamá… À saída, Jean Madar me presenteou com seu velho panamá, que passei a orgulhosamente usar desde logo.

Eu tenho uma coleção de bonés e só um chapéu, por coincidência um chapéu que um amigo músico me presenteou em meio à militância de meu esquerdismo juvenil. Este outro vinha, pois, na idade da razão e das mãos também de um ex-quadro comunista francês, hoje aos 60, empresário e avô cioso de seus afetos e seus relacionamentos – que são, como ele mesmo diz “contas de adição, jamais de diminuição…”

Enquanto não cedo à tentação de alivanhar uns versos sem rima, as idéias esvoaçavam sobre a minha cabeça como se fossem “livros, esses insetos vegetais” corro para o meu Ortega e graciosas idéias afloram sobre o sentimento que só os falantes da língua portuguesa podem nomear.
“La vida es un viaje, decian los ascetas, y corrigiendo la puntería disparaban sus armas como dardos hacia la eterna posada…
– Por que eleger a viagem como metáfora substancial da vida inteira? – indaga o mestre espanhol, para responder sobre a fugacidade, caráter essencial que é próprio de nossa relação com as coisas. Ao mesmo em que dizemos a uma paisagem, a um acontecimento ou uma amizade, já vêm, já vêm… temos logo que preparar nossos lábios para pronunciar: “ya se van, ya se van…

Das coisas como entidades sentimentais (1)

Algum leitor remanescente, de minha temporada no Verbeat, deve se perguntar porquê dessa republicação.
– Ocorre que perdi o backup que me foi gentilmente cedido pelos Verbeaters e assim só me restam alguns post daquele período, que vou tentar recuperar pouco a pouco, em meu velho computador. Portanto, ao republicar esses artigos, faço um acerto de contas rilkeano que faz justiça à memória de meus velhor posts perdidos, que são como o caderno de poemas perdidos do passado, esquecido alhures, n´algum canto ou num banco de ônibus, ou n´alguma gare distante…

Esvazio meus bolsos após um dia de fadiga comercial e, lentamente, descalço os pés dos sapatos e conquisto meus chinelos, enquanto o boné me espia do armário (à espera de um fim-de-semana, tão carente quanto meu cão). Sobre a escrivaninha as moedas – essas mesmas que me acompanharam ao longo do dia, e me “escolheram” entre milhões de pessoas a quem poderiam ter acompanhado, entre mil bolsos pelos quais passarão, depois de mim; sobre a escrivaninha repousam a gravata e o cinto, a carteirinha, os papeizinhos de lembrete (sempre carreguei dezenas de papeizinhos e listas que inventariam meu dia com a memória das frutas), o talão de cheques, os documentos do carro, o telefone móvel (que já ninguém põe a tocar para me dar um afeto)
– “As coisas são tão intensas“.

Ainda hoje um senhor usava bengala comprava verduras na mesma banca que eu e senti saudades de um chapéu panamá que jamais usei. Saudades do que não fui.
A escova de dente que daqui a pouco usarei, estou certo mexerá com o nervo sensitivo de minha alma, mas me dará certa paz na higiene diária, só superada pela água quente descendo sobre meu corpo que envelhece (é preciso lembrar-se da advertência da esposa: “água quente demais estraga o cabelo, mas minhas juntas cansadas não reclamam de nada”). Hoje queria ter tomado o bonde número 5 e andando sem destino, chegado alhures, passado pelas coisas como elas passaram por mim.

Enquanto tento conciliar sono e repouso, as idéias esvoaçavam sobre a minha cabeça (“livros, esses insetos vegetais“, decreta o poeta-amigo, C.M.) e concluo que é impossível dormir…
Sobre a cômoda outra infinidade de coisas me espiam esperando calor e toque: o rosário, a pena antiga e estilizada, as flores de madeira e ao lado delas os lápis (árvores desencarnadas e, no entanto, cheias da vida do negro grafite), o papel da caderneta entreaberta (e essa minha letra irreconhecível amanhã), o sonífero em estado de deleição.

O copo d´água cristalina brilha, quando acendo o abajur que deita luz sobre o meu cansaço da jornada. Espero insone que o dia estenda seu lençol branquíssimo sobre minhas angústias. Por ora, apenas observo todas essas coisas como entidades sentimentais e a elas me apego como mamífero às tetas da mamãe noite.