Um artigo impublicável


Um artigo escrito e reescrito à pequena multidão de seis leitores deste blog.*


Adiós te digo, pero no me voy.
Me voy, pero no puedo decirte adiós!

(Pablo Neruda, Canto General)

Sempre tive a ilusão de escrever para um grande público. Tive uma oportunidade e a perdi. Há um ano, fiz a experiência de adequar meu modo de escrever ao modo de pensar atual e, assim, atingir um grande público. O meio me daria, em tese, acesso a milhões de leitores. Não atingi essa meta. Voltei para a pequena multidão de seis leitores que me prestigiam há muitos anos em meu blog. Fica um certo amargo e um ilusório sabor que o “gigante rubro da ira gerou no meu ser, através do seu filhote mais horrendo: “o pálido rancor”.

E, comprovando o dito popular, que não há bem que sempre dure, eis que mal assim se acaba – dele falando. Outras portas se abriram desde então, e meus seis leitores pularam para uns 600. Nada mal. Sigo rabiscando essas crônicas para a pequena multidão de poucos.

Quando lá cheguei fiz uma primeira crônica, feito cachorro que demarca o território, dei o tom que deveria perpassar todas as demais – tive a pretensão de atingir um leitor que “queima pestanas” (Augusto Meyer) e se dá o direito de ser “um leitor petulante”.

Do alto de minha cadeira confortável ao fundo do quarto, meu posto de observação predileto, donde tento livrar-me do cansaço de um um dia estressante, leio os jornais – de preferência em papel e vou tentando lê-los em voz alta para os meus próximos. A vida é o que se lê, diria o gato a Alice.

Entanto, cada vez, convenço-me que mundo, mais do que de cronistas e poetas, precisa de monges, de rezadores, de educadores, do exemplo dos que crêem no Sobrenatural mas não se descuram do natural. O mundo atual precisa reler Chesterton e C.S.Lewis. Estes homens que em meio ao ruído do século em que viveram (vários decibéis a menos do que este séc. xxi) escreveram centenas de páginas inspiradoras sobre o fenômeno de um ser sobrenatural e da importância da Tradição.

Sinto-me, pois, depois da frustrada experiência com a grande imprensa digital, um homem ultrapassado. Junto-me à multidão dos ancestrais e me calo; volto minha atenção para o passado, procurando a cura pela homeopatia literária – um pouquinho de veneno para me curar de um mal maior. Sabendo que só o sábio sabe adoecer, tento adoecer quando quero.

Quem deseja curar-se mais rápido dá o passo na direção do Sobrenatural – desde um São João a um C.S. Lewis; de Teresa d’Ávila a Hildegard de Bingen, passando por Amoroso, Gustavo, Bernardo e Francisco.

Os olhos da alma que se debruçam sobre o Sagrado jamais deixarão de crer nas visões. A visão de que a poesia se esvai do dia-a-dia das pessoas, de que não está contida no algoritmo da pós-modernidade é como uma visão apocalíptica àquele leitor que “queima pestanas”.

Até mesmo o cronista da página dois de um grande diário, um dia desses fez sua “jihad” pessoal contra a necessidade da Poesia ou do poema.

Embora houvesse em Carlos Cony uma confissão, quase um credo – transformado em declaração (ou desejo supremo) de não querer ser mediano, isto é: na hipótese de não ser cronista (ficcionista) e sim poeta, se… fosse poeta, só lhe interessaria ser um Dante, um Petrarca etc. E, assim, dizia o cronista, embora admitindo ali um quê de amargo olhar sobre a criação, embora ali resida uma espécie de batalha entre gêneros (ou espécies) literárias, há também uma Esperança.

Na declaração do cronista Carlos Heitor quase que há uma adesão ao regulamento de Platão em sua República, proibida aos poetas. E, por último, mas não menos importante: na afirmação de Cony perdeu-se a essência em meio ao turbilhão da pletora informativa da Web – como de resto os bons pensamentos viram vapor em meio à grande queda d’água que é a produção na Internet hoje.

Confesso meu desconhecimento dos algoritmos e ritmos hodiernos. Meu desejo de sonhar sempre com “Quaresmeiras Roxas” (local ficcional criado por Alexandre Soares Silva) – aquele rincão próximo de Nárnia, me alimenta a continuar sonhando com um mundo em que não apenas a poesia tenha seu lugar, mas mais ainda que esta seja parte da economia da salvação terrena.


No livro “Sábado”, do romancista inglês Ian McEwan o exemplo definitivo. Só a leitura de “Meu barco atrevido, de atrevida Daisy Perowne” é capaz de salvar a família Perowne, em poder de sequestradores (ou se prefere “salteadores”). O avô Grammaticus a incentiva a ler um poema e o sequestrador é bem explícito:

–“Cale a merda dessa boca, vovô.”


Na estória de McEwan, “Daisy olhou perplexa para Grammaticus, na hora em que ele falou, mas agora ela parece compreender. Abre o livro de novo e vira as páginas para trás, em busca do local, e então, com um olhar de relance para o avô, começa a ler. Sua voz está rouca e fina, a mão mal consegue segurar o livro de tanto tremer, e ela traz a outra mão até o livro, a fim de segurá-lo.” Não hei de tirar ao “leitor petulante” o gosto de ler no original de McEwan o fim deste drama, pois egoisticamente prefiro continuar no meu mundinho.

 

Vendo uma faca no pescoço da mãe, Daisy Pewrone é a minha voz como cronista, pode ser a voz do leitor de McEwan ou desta crônica.

O mar está calmo esta noite. É maré cheia, a lua paira alta acima do canal, no litoral da França, a luz brilha e se apaga… os rochedos da Inglaterra cintilantes e vastos, acima da baía tranquila… “as ondas trazem consigo a nota eterna da tristeza”. Como Sófocles, nem toda Antiguidade clássica, tampouco a pós-modernidade associa este som das ondas ao “fluxo e refluxo velados da miséria humana”.


Talvez olhando fotos na internet, vejamos que é numa mará-baixa de uma praia distante que desencavamos um nome estranho – Bodrum -, quem sabe, nome capaz de nos abrir os olhos e ouvidos e nos fazer livres da faca que temos em nossos pescoços, nós, membros da humanidade civilizada – nós os Perownes, os Machados, os Lewis, os Smiths, os Silva e Souza…

No mais das vezes escorados em almofadas confortáveis do outro lado do globo, não nos deixamos tocar pelo natural nem pelo Sobrenatural. Mas o susto da faca no pescoço, talvez possa fazer-nos encontrar sentido da salvação pelo sobrenatural dos versos de um poeta de minha terra (Aidenor Aires), quando diz:

Irmãos refugiados no coração do mundo,
Aylan Kurdi é o nome de meus filhos;
e dos filhos que ainda nascerão
.”

Por não ver sentido senão na intervenção salvífica da Poesia, dita em voz alta nas esquinas, lida em silêncio nas catedrais do livro que são as bibliotecas; eu queria deixar registrado meu Adeus à famosa revista mas não pude. Seria um Adeus poético, repetindo Pablo Neruda:

“Te digo Adiós”pero no me voy” – pelo menos não sozinho.
“Me voy – [amigos diletos], pero no lhes digo Adeus! (AQ).


(*) Um lamento por ter sido dispensado de uma grande revista digital e não ter sequer dito Adeus aos leitores. Obrigado aos meus seis leitores por continuamente me incentivarem a fazer o que eu faço (AQ).

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