Palestra sobre viagem & literatura

A viagem é tema antigo e recorrente, mas sempre atual. De Homero a V.S. Naipaul, passando por Camões e anônimos da Idade Média, a viagem inspira relatos, poemas, sagas. Nesta palestra, sigo os rastros de James Joyce em Trieste (Itália).

Leia Mais...

América: roteiro literário

Olá! leitor(a):
Estive ausente por umas semanas, tempo em que aproveitei para fazer um roteiro diferente nesta viagem à América e o blog recebeu manutenção da competente equipe de Suporte WordPress.

Roteiros literários (1).
Abaixo, uma sequência de crônicas literárias da viagem que planejei assim no RoadTrippers – Literary Tour of New England.

RoadTrippers_New England 2018.PNG

Feito o planejamento, seguimos – nem tão à risca assim, o roteiro. E por onde fomos passando, fruímos a experiência da vida de escritores da rica região da Nova Inglaterra (New England), com direito a um “excursus”, que foi à visita à nossa afilhada Juliana Sena, na Cidade do Québec, dali um pulo a Montréal e retorno aos EUA.
Acompanhe como ficaram as crônicas desta viagem nos links abaixo.

I – Boston, JFK & Hemingway Biblioteca/Museu.

JFK, primeiro presidente católico dos EUA, faria 100 anos no passado 24 de maio.

img_2806

“Jack”, como era chamado em casa, foi aluno relapso mas brilhante observador da realidade. Suas notas baixas que incomodavam o pai Joseph Kennedy, não o impediram de seguir a carreira de escritor, em que estreou com “Why England Slept” (não traduzido no Brasil)

 

II
d1207247-4974-44f4-8a00-30551281767eA primeira parada, depois da visita a Boston e ao Museu JFK e sua coleção de Ernest Hemingway, sigo para uma cidadezinha próxima (Derry, situada no Estado de New Hampshire, entre Salem e Manchester) para a visita à “Frost Farm”, casa-museu dedicada à memória de Robert Frost.

III
Robert Frost, Emily Dickinson, Herman Melville, Mark Twain e Wallace Stevens sempre estiveram em meu radar de leitor e procurar conhecer mais sobre as suas vidas sempre me pareceu um desejo natural.

Ao visitar as casas que são dedicadas à memória de quatro deles, constato que há uma humanidade que salta dos objetos, dos móveis, dos fracassos e sucessos vividos nessas casas.
Ou seja: “A recordação tem frente e fundos,/ É tal e qual uma casa” – consoante ao poema de Emily Dickinson. Continue lendo…

Imagens e impressões de Milão

Nesta viagem à Itália, decidimos vir à Toscana, começando a viagem por Milão.

Como voamos via Miami, chegamos a Milão bem cansados, numa semana em que a cidade vive uma agitação especial por conta de uma das centenas de feiras que a cidade recebe por ano. Desta vez, a “Milan Fashion Week“.

Claro, há o Duomo (a Catedral) de Milão era incontornável, apesar da multidão que acorreu ao local na sexta-feira pela manhã.

Piazza Duomo lateral.jpg

Ficamos pouco tempo na área, onde ficamos pouco tempo, tomamos um café e não nos animamos a entrar na fila para ir ao topo da catedral, tampouco animei-me a ir ao Museu do Novecento, ao lado do Duomo.

As multidões nos assustam um pouco, desde que turismo e terrorismo estão intimamente ligados na Europa, com a proposta de violência que parece ser o motor de ignição do Islã… ficamos, portanto, em um pequeno passeio pela área do centro histórico – sendo que o mercado medieval se encontrava em obras.

Um vendedor de revistas e discos (formato vinil) chamou-me atenção num daqueles arcos que divide a área do mercado medieval, claro que minha mulher superou o temor às multidões para dar uma olhadinha na galeria mais chique do centro de Milão, mas o que ficou mesmo na memória da gente foi o vendedor de vinil com seu quiosque “Discovery”.

20170922_061457.jpg
Galeria Vittorio Emanuele II
20170922_070559.jpg
Um quiosque dedicado ao vinil

 

 

 

 

Em Sant´Ambrogio

Sant’Ambrogio é um bairro calmo e familiar, embora exista lá uma penitenciária.
Talvez por isso mesmo, sente-se um clima de segurança a mais para os habitantes.
Ruas tranquilas, com crianças, idosos e religiosos que vêm e vão, sem muito agito.

20170923_180642.jpg

O maior atropelo que se tem é o barulho das ambulâncias que chegam ao Hospital da Via San Vittore, próximo ao museu de Ciência e tecnologia, que fica ao lado da Igreja local.

Nosso hotel (B&B) fica na calma Via Degli Olivetani, 4 – um lugar tranquilo para o turista. Ao católico que esteja interessado em arte, Milão oferece muitas alternativas – como a cinco minutos daqui o quadro da Santa Ceia de Da Vinci, recentemente restaurado. O quadro fica aqui próximo, na Igreja Santa Maria delle Grazie.

Mas, para quem quer apenas (!) rezar, pode-se ficar pelo bairro mesmo, pois a San Vittore oferece o melhor ambiente de meditação e oração, sem o ruído dos clics de máquinas e celulares de turistas.

 

San Vittore
Rua San Vittore
Um morador de rua_chapeu Burberry
Um caminhante com um chapéu de marca (Burberry)!
Restaurante Simon's
Simon’s Restaurante na Via San Vittore

No próprio bairro Sant’Ambrogio pode-se comer e se instruir (há bons restaurantes mais badalados e também restaurantes de bom preço, onde os moradores do local usam fazer suas refeições!) e há algumas livrarias e teatros (dois no mínimo).

20170923_113816.jpg
Um Hölderlin com uma introdução histórica do poeta italiano Giorgio Vigolo (1938).

Um manjar cultural à italiana

Nessa edição da coluna DESTARTE, em Opção Cultural, escrevo sobre o impacto das artes plásticas e do encontro direto com Sandro Boticelli e Leonardo, na Galeria Uffizi.

Para ler o artigo, clique no link abaixo das fotos.

DESTARTE – Opção Cultural.

Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)

A SUPREMA ARTE seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso Baedecker que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual Guide Michelin, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético – sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos) pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher – já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas – línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa – viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela vez primeira, cheguei a ler dois livros interessantes e que, mesmo distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil, valem como verdadeiros “Guias”: livros de Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética dos enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Albert Camus (e suas viagens aos Estados Unidos!).

Pois bem, vou seguindo em vôo tranquilo com o Maurois que no relato viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado (membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile – Augusto Frederico Schmidt ) – dou-lhe a palavra:

Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas idéias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain, como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois. “Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud.”
“Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.”

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil – instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Mendes” , em evento internacional na Universidade de Santiado do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos – minha mulher e eu, uma agenda de flanêrie pela cidade de Santiago e uma curta visita a Valparaíso.
As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

– “…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê – a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite – e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram 0h40 do dia 07 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante.

O personagem que viaja conosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.|

Leia mais

Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)

A SUPREMA ARTE seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso Baedecker que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual Guide Michelin, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético – sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos) pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher – já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas – línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa – viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela vez primeira, cheguei a ler dois livros interessantes e que, mesmo distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil, valem como verdadeiros “Guias”: livros de Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética dos enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Albert Camus (e suas viagens aos Estados Unidos!).

Pois bem, vou seguindo em vôo tranquilo com o Maurois que no relato viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado (membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile – Augusto Frederico Schmidt ) – dou-lhe a palavra:

Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas idéias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain, como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois. “Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud.”
“Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.”

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil – instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Mendes” , em evento internacional na Universidade de Santiado do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos – minha mulher e eu, uma agenda de flanêrie pela cidade de Santiago e uma curta visita a Valparaíso.
As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

– “…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê – a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite – e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram 0h40 do dia 07 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante.

O personagem que viaja conosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.|

Leia mais