América: roteiro literário

Olá! leitor(a):
Estive ausente por umas semanas, tempo em que aproveitei para fazer um roteiro diferente nesta viagem à América e o blog recebeu manutenção da competente equipe de Suporte WordPress.

Roteiros literários (1).
Abaixo, uma sequência de crônicas literárias da viagem que planejei assim no RoadTrippers – Literary Tour of New England.

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Feito o planejamento, seguimos – nem tão à risca assim, o roteiro. E por onde fomos passando, fruímos a experiência da vida de escritores da rica região da Nova Inglaterra (New England), com direito a um “excursus”, que foi à visita à nossa afilhada Juliana Sena, na Cidade do Québec, dali um pulo a Montréal e retorno aos EUA.
Acompanhe como ficaram as crônicas desta viagem nos links abaixo.

I – Boston, JFK & Hemingway Biblioteca/Museu.

JFK, primeiro presidente católico dos EUA, faria 100 anos no passado 24 de maio.

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“Jack”, como era chamado em casa, foi aluno relapso mas brilhante observador da realidade. Suas notas baixas que incomodavam o pai Joseph Kennedy, não o impediram de seguir a carreira de escritor, em que estreou com “Why England Slept” (não traduzido no Brasil)

 

II
d1207247-4974-44f4-8a00-30551281767eA primeira parada, depois da visita a Boston e ao Museu JFK e sua coleção de Ernest Hemingway, sigo para uma cidadezinha próxima (Derry, situada no Estado de New Hampshire, entre Salem e Manchester) para a visita à “Frost Farm”, casa-museu dedicada à memória de Robert Frost.

III
Robert Frost, Emily Dickinson, Herman Melville, Mark Twain e Wallace Stevens sempre estiveram em meu radar de leitor e procurar conhecer mais sobre as suas vidas sempre me pareceu um desejo natural.

Ao visitar as casas que são dedicadas à memória de quatro deles, constato que há uma humanidade que salta dos objetos, dos móveis, dos fracassos e sucessos vividos nessas casas.
Ou seja: “A recordação tem frente e fundos,/ É tal e qual uma casa” – consoante ao poema de Emily Dickinson. Continue lendo…

Imagens e impressões de Milão

Nesta viagem à Itália, decidimos vir à Toscana, começando a viagem por Milão.

Como voamos via Miami, chegamos a Milão bem cansados, numa semana em que a cidade vive uma agitação especial por conta de uma das centenas de feiras que a cidade recebe por ano. Desta vez, a “Milan Fashion Week“.

Claro, há o Duomo (a Catedral) de Milão era incontornável, apesar da multidão que acorreu ao local na sexta-feira pela manhã.

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Ficamos pouco tempo na área, onde ficamos pouco tempo, tomamos um café e não nos animamos a entrar na fila para ir ao topo da catedral, tampouco animei-me a ir ao Museu do Novecento, ao lado do Duomo.

As multidões nos assustam um pouco, desde que turismo e terrorismo estão intimamente ligados na Europa, com a proposta de violência que parece ser o motor de ignição do Islã… ficamos, portanto, em um pequeno passeio pela área do centro histórico – sendo que o mercado medieval se encontrava em obras.

Um vendedor de revistas e discos (formato vinil) chamou-me atenção num daqueles arcos que divide a área do mercado medieval, claro que minha mulher superou o temor às multidões para dar uma olhadinha na galeria mais chique do centro de Milão, mas o que ficou mesmo na memória da gente foi o vendedor de vinil com seu quiosque “Discovery”.

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Galeria Vittorio Emanuele II
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Um quiosque dedicado ao vinil

 

 

 

 

Em Sant´Ambrogio

Sant’Ambrogio é um bairro calmo e familiar, embora exista lá uma penitenciária.
Talvez por isso mesmo, sente-se um clima de segurança a mais para os habitantes.
Ruas tranquilas, com crianças, idosos e religiosos que vêm e vão, sem muito agito.

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O maior atropelo que se tem é o barulho das ambulâncias que chegam ao Hospital da Via San Vittore, próximo ao museu de Ciência e tecnologia, que fica ao lado da Igreja local.

Nosso hotel (B&B) fica na calma Via Degli Olivetani, 4 – um lugar tranquilo para o turista. Ao católico que esteja interessado em arte, Milão oferece muitas alternativas – como a cinco minutos daqui o quadro da Santa Ceia de Da Vinci, recentemente restaurado. O quadro fica aqui próximo, na Igreja Santa Maria delle Grazie.

Mas, para quem quer apenas (!) rezar, pode-se ficar pelo bairro mesmo, pois a San Vittore oferece o melhor ambiente de meditação e oração, sem o ruído dos clics de máquinas e celulares de turistas.

 

San Vittore
Rua San Vittore
Um morador de rua_chapeu Burberry
Um caminhante com um chapéu de marca (Burberry)!
Restaurante Simon's
Simon’s Restaurante na Via San Vittore

No próprio bairro Sant’Ambrogio pode-se comer e se instruir (há bons restaurantes mais badalados e também restaurantes de bom preço, onde os moradores do local usam fazer suas refeições!) e há algumas livrarias e teatros (dois no mínimo).

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Um Hölderlin com uma introdução histórica do poeta italiano Giorgio Vigolo (1938).

Um manjar cultural à italiana

Nessa edição da coluna DESTARTE, em Opção Cultural, escrevo sobre o impacto das artes plásticas e do encontro direto com Sandro Boticelli e Leonardo, na Galeria Uffizi.

Para ler o artigo, clique no link abaixo das fotos.

DESTARTE – Opção Cultural.

Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)

A SUPREMA ARTE seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso Baedecker que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual Guide Michelin, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético – sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos) pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher – já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas – línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa – viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela vez primeira, cheguei a ler dois livros interessantes e que, mesmo distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil, valem como verdadeiros “Guias”: livros de Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética dos enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Albert Camus (e suas viagens aos Estados Unidos!).

Pois bem, vou seguindo em vôo tranquilo com o Maurois que no relato viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado (membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile – Augusto Frederico Schmidt ) – dou-lhe a palavra:

Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas idéias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain, como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois. “Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud.”
“Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.”

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil – instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Mendes” , em evento internacional na Universidade de Santiado do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos – minha mulher e eu, uma agenda de flanêrie pela cidade de Santiago e uma curta visita a Valparaíso.
As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

– “…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê – a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite – e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram 0h40 do dia 07 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante.

O personagem que viaja conosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.|

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Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)

A SUPREMA ARTE seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso Baedecker que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual Guide Michelin, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético – sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos) pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher – já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas – línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa – viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela vez primeira, cheguei a ler dois livros interessantes e que, mesmo distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil, valem como verdadeiros “Guias”: livros de Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética dos enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Albert Camus (e suas viagens aos Estados Unidos!).

Pois bem, vou seguindo em vôo tranquilo com o Maurois que no relato viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado (membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile – Augusto Frederico Schmidt ) – dou-lhe a palavra:

Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas idéias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain, como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois. “Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud.”
“Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.”

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil – instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Mendes” , em evento internacional na Universidade de Santiado do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos – minha mulher e eu, uma agenda de flanêrie pela cidade de Santiago e uma curta visita a Valparaíso.
As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

– “…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê – a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite – e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram 0h40 do dia 07 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante.

O personagem que viaja conosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.|

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Diário de uma viagem ao Chile (III)

Santiago de Chile, 09 e 10 de outubro de 2015 – natural ansiedade com o fato de que irei falar amanhã numa universidade internacional. Há muitos anos falo para auditórios diversos e há sempre um pouco de ansiedade, mas não como esta. Não sei o que vou encontrar, não sei o perfil do público que me ouvirá, se me ouvirá; ou, sequer, se haverá público. Acordo com essa sensação estranha de que não haverá ninguém para ouvir-me que falarei para o coordenador – que no pesadelo é uma espécie de Inspetor Geral, severo como era o professor Hegel no velho ginásio em Anápolis.

O dia amanhece frio como usual nesta viagem. No meu caderno de rascunhos (como diz o professor Olavo sobre o seu, dele, facebook), registrei: 37°F Feels Like 37° – Santiago a exigir café e cobertor de orelhas…Buenos Dias, Chile!

Das rotinas do dia, o sol foi o que mais me agradou presenciar. Viajar a dois tem o condão de aproximar ou afastar os viajantes. No meu caso, sinto-me mais próximo de minha companheira de viagens (a mesma há mais de quarenta anos). Lembro-me que numa dessas viagens (à França), tivemos uma terceira pessoa em nosso convívio e pessoa de tamanha calma e boa personalidade que não só não rompeu o equilíbrio, como serviu de ponto de apoio na extensão da viagem até o território marroquino. Tempos idos, lá vamos nós caminhando…como dizia o mago António Machado na España dos 1890 et plus…

E a mais fina das notícias e descobertas de hoje, cai do céu:
O MAIS POÉTICO dos pareceres científicos vem da NASA. Cito Mr. Alan STERN:
“Quem teria esperado um céu azul no Cinturão de Kuiper? É lindo”,
disse Alan Stern, da missão New Horizons –
pesquisador principal do Instituto Southwest Research (SwRI), em Boulder, no Colorado.
link consultado dia 09.oct-15

E fomos andando. Agora, tenho no meu telefone móvel (antes celular, hoje ‘smartphone’, no anglicismo diário!) um conta-passos que é uma coisa muito útil. Caminho muito nas minhas viagens e nunca tive idéia (ortografia antiga, por favor revisor!) do quanto caminhava… hoje, consegui um recorde (10.786 passos). De nada valeria isso, se não deixasse gravado em minhas retinas e meus sentimentos mais profundos, a alegria que o dia me proporcionou em Santiago.

A decepção com o Museu Nacional de Belas Artes foi amplamente compensada hoje, com a visita que fizemos à Catedral e ao Museu Histórico Nacional na Plaza de Armas. O lugar respira a história de Santiago e, apesar de lotado, com tantos turistas atraídos pelo sol que desfazia a friagem da manhã, tudo demonstrava uma ordem europeia ou, se preferir, espanhola e mestiça. E se todos caminhamos e ao caminhar aprendemos, como queria o poeta alemão H. Heine – “todos nós marchamos; homens e deuses; crenças, lendas e tradições...” – eis-nos, minha mulher e eu, caminhando na Santiago histórica e aprendendo.
Um guia interessante vem das páginas de um historiador que descobri quase por acaso, com meu hábito de ler os jornais locais (ou pelo menos um deles, em papel) e, agora, também via internet. O guia seguro é Alfredo Jocelyn-Holt que me chega através do tablóide “La Tercera”. O texto me atrai e vou seguindo em busca de livros do autor.

Uma observação rápida sobre o museu histórico nacional feita por minha mulher marca bem o que é a compensação completa: eis um museu agradável de se visitar. Ordenado, rico em informações e didático, o museu recebia uns dois grupos de alunos dos colégios da Capital. Ambos bem uniformizados e em trajes sociais – os meninos de gravata e paletó e as meninas, saias e também lenços a imitar gravatas… um traço bem europeu dos colegiais enriquecia a atmosfera do museu. Curiosamente, além do cão (exposto que está, empalhado) de um presidente da Nação, o museu chamava a atenção dos pequenos por um grande painel nacional no pátio interno do recinto. Os cães são personagens da cena urbana chilena. Estão por toda a parte.

Não sei desse fato senão o que me contou meu compadre (que é um Franciscano até no nome!) que estes convivem com as pessoas e as rotinas urbanas por seu grande préstimo da acuidade auditiva, que poderia prevenir (avisar com seus ganidos) a proximidade de um terremoto… Não fui conferir a história, mas o fato é que os cães são uma maioria silenciosa pelas ruas… E eis que os meninos nossos colegas de visita ao museu na manhã de 09 de outubro, paravam entusiasmados com o cão empalhado pelos milagres da taxidermia. Reabilito a história do cão, deixando com vocês o texto do website do Museu. Confira:


HISTORIA DEL OBJETO – o cão “ULK” – do presidente Arturo Alessandri (1932-1938).

El ejemplar fue preparado por el taxidermista del Museo Nacional de Historia Natural, Sr. Carlos Vergara, ayudado por su hermano Adrián Vergara, durante la presidencia de don Arturo Alessandri. Don Carlos era tío y don Adrián padre del actual taxidermista del MNHN Ricardo Vergara. Esta pieza fue una atracción de público por muchos años y se exhibía en el hall central del MNHN. En 1984 y por insistencia del Jefe del Área de Zoología, el biólogo José Yáñez, respecto a que el ejemplar tenía un tremendo valor histórico antes que biológico, el Director de la época (Hans Niemeyer) accedió a entregar el ejemplar y su correspondiente collar al Museo Histórico Nacional.© Surdoc – Museu Histórico Nacional do Chile.


Bem, chegou finalmente a hora de enfrentar a Academia. Sei por informação preliminar que a universidade aqui, como no Brasil, está em mãos de uma esquerda quase furiosa e que ali se aninha, se concentra como em barricada…
Vou para a Aula Magna e me agrada o discurso de uma pessoa (cabelos brancos, um reitor?!) que denuncia o publicismo das teses, a publicação atual no mundo universitário que cresce em razão inversamente proporcional ao número de marcas e patentes. Segundo o palestrante, ao contrário dos países da Ásia que, menos preocupados na indústria da publicação de teses, ocupa-se em construir novos objetos úteis a toda a comunidade. Fico pensando no incrível número de universitários que conheço lá no Brasil e que, formados por um sistema gratuito de ensino, nunca devolveram nada à comunidade. Decido não ficar para o coquetel prometido, o ar, o clima da academia não me é acolhedor; mesmo do coordenador da viagem que resolvi fazer…

Na volta ao flat, onde estamos “morando” minha mulher e eu, falo sobre o que ouvi, fazemos uma refeição leve à base de omeletes (podemos cozinhar aqui e estocar nossa própria comida, quando conveniente). Ela concorda e ilustra meu raciocínio de apoio à tese ouvida na Aula-Magna. [Esqueci-me de fazer a inscrição ao congresso.]

Dia seguinte, ainda sob o efeito dos pesadelos sobre a responsabilidade que me pesa sobre “a palestra”, parto para a Universidade, novamente caminhando – o que me é extremamente saudável e me deixa animado… Ao chegar encontro colegas de viagem – a Sra. S., o sr. V. e a esposa deste, mas não o coordenador.
A melhor acolhidaUSACH
Esperamos por mais um tempo, até a sua (dele) chegada e abertura da porta da sala, onde dar-se-ia a palestra. Ufa!
Há um pequeno colóquio sobre a conveniência de adiarmos para a parte da tarde, ao que me oponho, pois não aguento de ansiedade – ter que esperar mais um turno para ministrar a ‘bendita` palestra que já me exaspera. (Na foto, ao lado, sentindo-me acolhido por Signorelli, Vanderlan e Teresinha, à espera da palestra…).
BetoUSACH_Palestrando
Finalmente, há concordância e faço a palestra… Para agradar alguns poderia dizer, ao final: “Que maravilha!” Estaria mentindo. A um confidente, entretanto, respondo pelo sistema de mensagens do Facebook o que achei: “Frustrante”; embora tenha saldo positivo em falar da tríade Poética, ou “um instantâneo de poesia falada de católicos poetas do Brasil no séc. XX”. Pretensioso título e amazônico para contar minha paixão e a necessidade de relermos Jorge de Lima, Augusto Schmidt e Murilo Mendes… Talvez salve-se o artigo, consolo-me… Se tiver ânimo de voltar ao assunto, pois estou no meu limite sobre o tema. Fiz minha inscrição – puxa, com o mesmo valor compraria uma série de livros usados… Está feita.

Almoço sozinho, na verdade passo com um sanduíche e um “jugo” (os sucos aqui são maravilhosos, apesar de muito adocicados, mais ainda do que no Brasil). Descanso e chego com 10 minutos de atraso para a palestra dos colegas da parte da tarde. Aproveito bem as palestras (quatro) e tenho um bom diálogo todos do grupo, com exceção de um jovem acadêmico paulista que tenta provar que a criminalidade aumentou por conta do analfabetismo, manipulando números estranhos e desconexos, mas com “sólidos” argumentos ideológicos. Em sua (dele) réplica o sr. F. insinuou que sou um fascista.

Entristeci-me e calei-me; ao final do evento, presentei-lhe com um livreto que fizemos (eu e Mário Zeidler Filho) sobre o Cinquentenário da morte do poeta Augusto F. Schmidt. Fico triste apenas, não me revolto, nem tampouco revido quando me chamam ‘fascista’, pois sei que não o sou.

BetoPoesiaFaladaUSACH2
Falando Jorge de Lima, O Poema do Cristão, final

Como não gosto de polêmica, nem de enfrentar o contraditório, e mesmo assim decidi-me a debater, me sinto exausto… ainda mais frustrado.

Uma anotação do La Tercera do dia dá-me a exata dimensão do sacrifício a que está submetido um sujeito não alinhado à esquerda ou esquerdófilo que tenha que (sobre)viver neste meio:
Alfredo-Jocelyn-Holt_avatar_1-200x200
“A universidade é um centro de operação donde (a esquerda) se replica, onde ela se reconhece, onde pretende concentrar os humilhados, com o objetivo de fazer-lhes ver quão mal anda o sistema…”
(Alfredo Jocelyn-Holt, em La Tercera, oct-2015).
Creio que esse evento terminou para mim. Última providências: repasso os livros que trouxe para doação a uma instituição local (dois meus e dois da amiga romancista Clara) e me vou… Pretendo acompanhar minha mulher em nossas caminhadas (e dependendo da confirmação, visitar uma empresa líder no setor de software aqui); e vamos de ônibus para Valparaíso.

A cidade cultural nos espera amanhã cedo. Está decidido. Adeus, Academia, Universidade, adeus a tudo em Santiago, penso em visitar a Sebastiana – uma das três (!) casas do poeta laureado com o Nobel após a primeira chilena que foi (e é minha predileta) premiada em 1945 – Gabriela Mistral. É. Vou a Valparaíso e a uma das casas do “comunista” laureado; o proprietário abastado Pablo Neruda … Vejamos o que há de se passar! Amanhã, conto o resto. ./.
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Para ler as partes 1 e 2 do Diário de uma viagem ao Chile, clique aqui.