Passeando com Goethe em Carlsbad, na Tchéquia

A maioria das viagens começa como ideia, como um movimento ainda sem forma, um anseio interior que antecede qualquer gesto.

A decisão de Goethe de partir para a Itália não nasce em Karlsbad, mas é ali que ele encontra um meio favorável, uma viabilidade, não uma revelação.

Aqui em Karlovy Vary, que na época de Goethe era chamada Karlsbad, eu sinto a presença do escritor alemão numa cervejaria, num hotel em que se hospedava e numa torre que hoje é atração turística. Frequentador assíduo das termas, colhia pedras, estudava as plantas locais e subia as montanhas, cumprindo rituais.

Hotel Mozart, em Carlsbad, que registra a presença de Goethe em 1786.

Conhecia o ritmo, o gosto das águas minerais e a função prática da cura. Nada ali lhe era novo, por isso, o essencial pode ter ocorrido sem alarde.

Filho da corte de Weimar, Goethe trazia consigo algo que não se desenvolve por decreto. Sua vida de prestígio era cheia de funções, mas nem por isso o impedia de manter a curiosidade científica e cultural.

Se a ideia precede o movimento, ela não se realiza sem um certo consentimento do corpo. Tal como em nossa Caldas Novas, aqui as águas quentes não ditam destinos, mas preparam o físico.

Sob o efeito do calor mineral, a alma parece aceitar o que a rigidez do cotidiano negaria. Há nisso uma dimensão concreta, pois o corpo apaziguado deixa de resistir.

Quando parte para a Itália, Goethe não o faz como quem organiza uma viagem, mas como quem rompe uma continuidade. Foge às três da manhã, sem nenhum anúncio, nenhuma despedida, vai em busca da arte e da cultura greco-romana.

A cidade dorme e ele escolhe não ser visto. Há nisso menos drama do que precisão.

Ele age antes que sua vida, com suas amarras, possa reagir.

No livro icônico “Viagem à Itália”, Karlsbad aparece como o ponto de partida, onde a ideia se tornou ato. Talvez por isso, esta cidade o retenha com tanta insistência, nos bares, nos hotéis e na Goethe Tower, de onde a cidade se oferece como um organismo vivo, recolhido entre colinas, quase um anfiteatro natural de cura e permanência.

Para o francês Paul Claudel, “católico de quatro costados” que via em Goethe um asno solene, essa fuga teria um sabor de insuficiência. Falta-lhe o abalo, o anseio e a ruptura interior que pode transformar a viagem em conversão.

Ao contrário de Dante, Goethe não desce aos infernos, não atravessa círculos nem se submete a um juízo superior. Não parte em busca de redenção.

O mundo, para ele, não precisa ser salvo e sim ser visto com precisão. Sem crise declarada, o homem muda sua vida. Isso não vem por iluminação súbita, mas por uma coerência entre ideia e gesto, paixão e pura razão.

Para ele, a transformação podia prescindir do abismo. Como se ao homem bastasse a própria finitude, sem o socorro da transcendência.

Por isso, Karlsbad não oferece respostas, desloca a pergunta: é possível uma mudança verdadeira sem ruptura espiritual? Pode a harmonia substituir a conversão?

Na famosa Elegia de Marienbad, ele se confessa:

O que esperar agora do reencontro,
Desta jornada a flor ainda fechada?
O céu e o inferno abertos ao confronto;
Que mente tão instável e alterada!


Avatar de Adalberto Queiroz

Published by

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.