Post ligeiros (XI)

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Dostoiévski sobre Cristianismo e Socialismo

Pai ignorado*

PAI IGNORADO

(Um poema de ocasião.
Ou como dizia Goethe: toda minha poesia foi de ocasião…)

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Eu não acompanhei o enterro
Do pai que nunca conheci.
De minha carne, não erro:
não era nariz do morto que vi.

Albert Camus enterrou o pai dele:
Le premier Homme – um estertor.

A dor dele em Alger, senti. E na Vila Jaiara
debalde procurei, sem nunca tê-lo visto – pai!

Rodasse o mundo inteiro,
não o veria, mas no lago à tarde,
por ordem de santo Ignacio de Loyola
pranto suave verti.
– E dei Adeus! ao pai ignorado…

Eu o vi ao cair da tarde no ribeirão
João Leite – e enterrei-o, sozinho;
feito cai o lírio de Chile,
na secura do meio dia.

Acólito de La Solitude parti.
Parti e nunca mais dele lembrei
nem do registro civil.

Ignorado confronto
A grafia númida –
nímia de meus dias.

Filho do pecado,
no dia dos pais
levo presente
para minha tia.

(A G.M.Q.)
./.
Goiânia, dia dos pais de 2016.

 

Livros, a lista 2015

ESTE ANO como há muitos outros...
Eis a lista, que de resto serve a muito pouco. 2 ou 3 comentários e lixo!
O que importa é que se algum moço ou moça pelo Brasil afora tomar essa lista e procurar ler um livro por mês no ano que se segue, o blogueiro terá cumprido sua missão.
Separei este ano apenas 12 livros – nem todos dados como lidos, concluídos – pois que alguns são livros de consulta e de estudo.
A tônica de 2015 foi mesmo a de que estivemos diante de um bom ano para os conservadores. Muitos bons livros que não constam da lista – pela rigidez que me impus do número 12 atestariam essa afirmação. O catálogo de editoras como a É Realizações, Resistência Cultural e outras “alternativas” – como Concreta; o vigor de uma revista como “Nabuco” e um certo destemor na expressão de setores do pensamento nacional que pareciam sufocados pela política editorial-educacional do governo no poder são outras evidências objetivas disto.

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Livros novos ou antigos – o conservador ganhou espaço nas estantes das livrarias e editoras.

2015 – deve (e para mim foi) lembrado como o ano do Cinquentenário do livro 1 da lista – “Sonetos”, de Augusto Frederico Schmidt e da morte do autor. Este blog tem uma boa memória sobre o assunto, pois com Caminhos Livraria e Editora produzimos um livreto sobre a efeméride.
O livro 2 – é “Esquecidos & Superestimados” de Rodrigo Gurgel, o professor que realizou o prodígio de nos fazer  voltar a ler boa crítica literária em português do Brasil – no dizer de Bruno Garschagen, agradecimento feito na “orelha” do livro e que endosso, quando mais não fosse pelos ensaios sobre Euclides da Cunha e Coelho Neto.
3 – A Beleza Salvará o Mundo (Gregory Wolfe) – um estilo próprio para dizer o que precisamos em meio ao ruído ideológico das guerrilhas, elevando o debate e marcando estilo próprio. Não, não é um pastiche de Bloom como este não o foi de Mortimer Adler…Escritor, professor e editor, Wolfe é um dos pioneiros do ressurgimento do interesse na relação arte e religião.
4 – A Poeira da Glória – Um Martin Vasques da Cunha para ser estudado. Livro de referência. Como anda na contra-mão da crítica tupiniquim, há de desagradar a muitos. O curriculum do autor e a qualidade do texto devem enriquecer meu 2016.
5 – Bruno Garschagen – fez-me sedimentar uma intuição. O que eu já imaginava – que “governo nos olhos dos outros é refresco” – se confirma; foi por isso que acompanhei com prazer a leitura de “Pare de Acreditar no Governo”.
6 – JÚLIO MESQUITA e seu tempo – de Jorge Caldeira, vol. 1 – o Jornal de prelo locomotores e República; seguido de outros 3 volumes. Do primeiro posso dizer que há sim interesse por um catatau sobre a história do criador de O Estado de São Paulo, porque o que se conhece não é apenas o jornal (do qual sou leitor e assinante) mas o país do período retratado e este assino deste pequenininho – como nacionalista não eufórico.
7 – G.K. Chesterton – “Contos de fadas e Outros Escritos” – outro exemplo de retomada da obra de um conservador na mão de uma editora alternativa, publicação via crowdfunding – sem dinheiro de governos e bancado pelos leitores, como este blogueiro.
8 – Javier Marías – “Assim começa o mal” – Uma ficção de valor que é para a vida se movimentar em pura imaginação. Neste caso pecaminosa e soberbamente bem escrita. O desejo é o pano de fundo da história, tal como “é um dos motores mais poderosos da vida”. Uma outra Beatriz que não move o poeta mas um ficcionista de valor – um dos que dominam plenamente sua arte.
9 – O diário sentimental de uma viagem ao Chile será sempre lembrado pelos bons livros que de lá trouxe. Em minha viagem, relatada aqui e no jornal Opção, cito este e outros livros. O Antologista Erwin Díaz nos prova com “Poesia chilena de hoy” que o pequeno país costeiro tem, além de dois prêmios Nobel, uma rica poesia, além e apesar do icônico Pablo Neruda.
10 – Dona Adélia – Poesia Reunida. A paixão do verso e a postura civica me fazem amar esta cidadã. “Lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo” – tenho que concordar em como Drummond colocou-a em verso definida.
11 – “A vida intelectual” – Há muitos anos recebi um arquivo pdf com este texto que agora a É Realizações traz a lume. O padre e educador A.D.Sertillanges é para ser lido, relido, estudado e tido à cabeceira. Evoé, editores, por este “livro dedicado a todos aqueles que desejam uma vida pleana…” Eu me senti incluído e feliz com a edição.
12 – Olavo de Carvalho – “A  dialética simbólica”. Sim, não se assuste amigo de formação e prática política. É muito bom esse livro, apesar de ser uma seleta de artigos, anotações de aulas e que ficariam dispersos não fosse o esforço do pensador e do editor de reuni-los em livro “de grossa lombada”. Mesmo que considerados “escritos menores” esses textos trazem a marca de “um dos mais originais e audaciosos pensadores do Brasil”. Eu sou muito grato ao professor Olavo por ter acompanhado seu (dele) COF – não a tosse! – mas o Curso Online de Filosofia e com ele aprendi muito. Se você conseguir passar por sobre a camada de verniz que o nome recebeu – como os móveis antigos de bom Carvalho devem receber – perder o preconceito, há de descobrir um pensador original e um provocador que nada tem de sisudo mas que pode e deve ser levado a sério para pensarmos o país.

De resto, Boas Leituras a você e um 2016 de reencontro com a Essência.
Abraço fraterno

Beto Queiroz

Poesia Falada também é Poesia…É o declamador que vai acordar os poemas prisioneiros das páginas dos livros antigos (e nem tanto…).

Coisas de Cabeceira, Recife & Sevilha: Tecendo a Manhã

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A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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Coisas de Cabeceira: Recife
Diversas coisas se alinham na memória
numa prateleira com o rótulo: Recife.
Coisas como de cabeceira da memória.
a um tempo coisas e no próprio índice;
e pois que em índice: densas, recortadas,
bem legíveis, em suas formas simples.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
o combogó, cristal do número quatro;
os paralelepípedos de algumas ruas,
de linhas elegantes, mas grão áspero;
a empena dos telhados, quinas agudas
como se também para cortar, telhados;
os sobrados, paginados em romancero,
várias colunas por fólio, imprensados.
(Coisas de cabeceira, firmando módulos:
assim, o do vulto esguio dos sobrados).
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Coisas de cabeceira: Sevilha
Diversas coisas se alinham na memória
Numa prateleira com o rótulo: Sevilha.
Coisas, se na origem apenas expressões
De ciganos dali; mas claras e concisas.
A um ponto de se condensarem em coisas,
Bem concretas, em suas formas nítidas.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
não esparramar-se, fazer na dose certa;
por derecho, fazer qualquer que fazer,
e o do ser, com a incorrupção da reta;
con nervio, dar a tensão ao que se faz
da corda de arco e a retensão da seta;
pies claros, qualidade de quem dança,
se bem pontuada a linguagem da perna.
(Coisas de cabeceira somam: exponerse,
fazer no extremo, onde o risco começa).
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Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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FONTE: Poemas da Antologia “Poesias Completas: João Cabral de Melo Neto”, Ed. José Olympio, 1979, 3a.ed.