Com seus versos, alguns poetas provam que “o amor é mais sublime do que o mero pensamento, pois o pensamento absoluto é amar…”

Uma inspiração divina leva alguns homens a escrever, às vezes sem compreender toda a extensão do que escrevem. A inspiração divina nos leva àqueles versos ditos “inspirados” que podem também ser compreendidos melhor como resultados de visões de homens que miram o império divino – de Virgílio a Vinícius de Moraes (o jovem ainda católico, ainda crente de uma realidade expandida, não o velho entregue aos vícios e às seitas afro-brasileiras!); de Fernando Pessoa a Tasso da Silveira, passando pelo incontornável Jorge de Lima, talvez o maior poeta católico do Brasil.

Este é o terceiro de quatro artigos programados para este mês de dezembro de 2017. Confiram e curtam lá no site do jornal que dão endosso a que eu continue minha missão como colunista do prestigioso Opção Cultural, o maior jornal de literatura do país.

PARA LER A COLUNA, CLIQUE NA FIGURA ABAIXO.

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Poesia Metafísica (2)

Poesia Metafísica
Cenas de poesia explícita em Antologia da Poesia Metafísica.
Poesia Metafísica
Uma Antologia.
Organização, tradução, introdução e notas de
Aíla de Oliveira Gomes

>>AQUI AMOSTRAS DO AMOR “Sensous Thought” na Poesia Metafísica.<< Áudio de Naxos Poetas Metafísicos (em inglês) Retiro outros poemas e outro trecho do TRABALHO CAPRICHOSO feito por minha tradutora predileta – D. Aíla de Oliveira Gomes -, de quem divulgo há muito tempo as traduções impecáveis de Emily Dickinson (devo ainda em breve dedicar-me às traduções de Gerard Manley Hopkins feitas por D. Aíla) – aqui, agora, o foco é em “Poesia Metafísica”. Recorro, ainda, às anotações de leitura de anos atrás. Já havíamos ressaltado o “pensamento e a sensibilidade” advindas da prática da meditação cristã na obra dos poetas desta “escola”. A profundeza da concepção cristã da vida e o forte pendor espiritual que os aproxima da poesia medieval, ainda que composições datadas dos “Seiscentos”. O segundo aspecto ressaltado pela organizadora do volume citado é o “sensous thought em uma aura de wit”. Leia mais

T.S.Eliot (4) com Ivan Junqueira, poeta e tradutor

IVAN JUNQUEIRA e T.S. ELIOT ou:

Como um devoto quebra o altar onde  sua poesia é incensada

e, ainda assim, se torna o maior criador da poesia inglesa?

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 legenda

 

T.S. Eliot (1888-1965)

 

 

 


– Essa a pergunta que o poeta e crítico literário Ivan Junqueira tenta responder num ensaio belíssimo (lembrando que a palavra ensaio tem também o sentido da “tentativa“) – que é uma aula para compreender um poeta considerado enigmático e difícil, erudito e fragmentário.

Por entender que esta pergunta e suas múltiplas respostas tem em Junqueira um bom ponto de parte é que repercuto o ensaio neste e em outros dois posts.

Sob o título “Eliot e a Poética do Fragmento”, Ivan Junqueira
traça com seu estilo inconfundível uma visão da erudição de Eliot e a representação do que ele chama de “fragmentação” e citação – um debruçar-se sobre as janelas da tradição (poético-literária) e reinventá-la, respeitando-a e recriando-a como um poeta inovador – o poeta par excellence do séc.XX.

Leia mais

“Porque estás vivo aqui, agora e sempre…” Adeus, poeta!

IVAN JUNQUEIRA, 1934-2014, poeta e tradutor, autor entre outros de “Os Mortos” (1964), “Três Meditações na Corda Lírica” (1977), “A Rainha Arcaica” ( 1980). Tradutor a quem devemos o melhor de T.S. Eliot em português – “Quatro Quartetos” (1967) e T.S.Eliot Poesia Completa (1981) e os Ensaios (1991). Para consultar uma 
bibliografia completa visite este link da ABL.

No último dia 03 de julho, em meio às notícias geradas pela Copa do Mundo da Fifa/14, somos comunicados da morte do poeta Ivan Junqueira. Entre os inúmeros obituários, dou a preferência a este, escrito no website do colégio em que o poeta fez seus primeiros estudos – o Colégio Notre Dame de Ipanema no Rio de Janeiro.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o ex-aluno do Notre Dame, estudou Medicina e Filosofia, sem terminar os cursos, voltando-se ao chamado das letras na imprensa e como tradutor e, principalmente, poeta. Dele disse o presidente da ABL, ao saber de seu passamento: “…grande poeta, mestre indiscutível nas artes do ensaio crítico e da tradução literária, Ivan deixa um legado que enriquece a nossa tradição e a história literária do Brasil.”

Li pela vez primeira os poemas de Ivan na década de 80, com o belo volume de “A rainha arcaica”.

Dentro do volumezinho lido e relido – tantas vezes assustado com a grandeza do poeta, que me deixa(va) envergonhado de me pretender poeta, encontro um recorte da Folha de S.Paulo, em que Nogueira Moutinho exalta a poesia de Ivan, com frase lapidar:

“O poeta pertence, realmente, à família dos que preferem sugerir e entremostrar em vez de praticar uma incisão nítida na  placa metálica da linguagem. Não é um gravador, é antes um debuxador de ‘fusains’. Nesses desenhos a carvão que são alguns de seus poemas, eu destacaria as ‘Três Meditações na Corda Lírica”, sobretudo a primeira, em que Ivan Junqueira parece delinear os princípios de sua arte poética, fora do tempo, mas no tempo audível” .

Talvez por essa observação gravada no recortezinho, apaixonei-me pelo poema, que reproduzo aqui  – como minha forma de dizer Adeus ao poeta Ivan e aos leitores: sei que o poeta está vivo…

Ivan Junqueira

Três Meditações na Corda Lírica (1)

(À Margarida)

“Only trough time time is conquered” (T.S.Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92).

Deixa tombar teu corpo sobre a terra
e escuta a voz escura das raízes,
do limo primitivo, da limalha
fina do que é findo e ainda respira.

O que passou (não tanto a treva e a cinza
que os mortos vestem para rir dos vivos)
mais vivo está que toda essa harmonia
de claves e colcheias retorcidas,
mais vivo está porque o escutas limpo,
fora do tempo, mas no tempo audível
de teu olvido, partitura antiga,
para alaúde e lira escrita, timbre
que vibra sem alívio no vazio,
coral de sinos, música de si
mesma esquecida, aquém e além ouvida.

O que passou (à tona, cicatriz)
é dor que nunca dói na superfície,
ao nível do martírio, mas na fibra
da dor que só destila sua resina
quando escondida sob o pó das frinchas
e que, doída assim tão funda e esquiva,
é mais que dor ou cicatriz: estigma
aberto pela morte de outras vidas
nas pálpebras cerradas do existido,
espessa floração de espinhos ígneos,
solstício do suplício, dor a pino
de te saberes resto de um menino
que anoiteceu contigo num jardim
entre brinquedos e vogais partidas.

E tudo é apenas isso, esse fluir
de vozes quebradiças, ida e vinda
de ti por tuas veias e teus rios,
onde o tempo não cessa, onde o princípio
de tudo está no fim, e o fim na origem,
onde a mudança e movimento filtram
sua alquimia de vigília e ritmo,
onde és apenas linfa e labirinto,
caminho que retorna ao limo, à fina
limalha do que é findo e ainda respira
para depois, o mesmo, erguer-se a ti,
ao que serás, porqu estás vivo aqui,
agora e sempre, antes e após de tudo.

Deixa tombar teu corpo e te acostuma,
húmus, à terra – útero e sepulcro.
+++++
Fonte: JUNQUEIRA, Ivan. “A rainha arcaica”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira Edit. , 1980.

T.S.Eliot (ii), 1959, Paris Review

Aos interessados na figura e na pessoa do poeta Thomas Stearns Elioteliot-na-velhice, há hoje um grande acervo para estudo da vida, das idéias e da vida diária do poeta. Muito se escreveu a respeito de T.S. Eliot (1888-1965). A entrevista linkada abaixo, conduzida por Donald Hall, na edição Spring-Summer da Paris Review de 1959 pode ser um bom guia para começar a conhecer Eliot, incluindo até seu senso-de-humor.
Eu próprio já fiz um postzinho bem datado sobre o poeta de “Four Quartets”.
Paris Review – The Art of Poetry No. 1, T. S. Eliot.
(em inglês).

Mas a melhor introdução à vida, às idéias e às obras do poeta norte-americano Capa de TSEliot_Russell Kirk
estão mesmo no livro do conservador Russel Kirk (1918-1994): “A Era de T.S.Eliot: A Imaginação Moral do Século XX”(*).
Este livro pode ser considerado a obra-prima de Russel Kirk, diz o Alex Catharino na apresentação da edição brasileira do livro. Autor do clássico “The Conservative Mind”, Kirk representa para os EUA o que Edmund Burke foi para o conservadorismo na Inglaterra.

A apresentação do livro é uma pequena jóia sobre a obra e a vida de Russel Kirk – “A Vida e a Imaginação de Russel Kirk” – e faz o leitor ficar interessado em um livro referência – a autobiografia de Russel Kirk “The Sword of Imagination” (1965); ousaria dizer mesmo que a apresentação de Catharino é um pequeno grande livro dentro de outro. Um bônus para quem gosta da obra de Eliot e aprecia o autor Russel Kirk e de quem pouco sabíamos até então,  além do clássico citado acima.

O desafio de traduzir a obra de Russel Kirk para a língua de Camões é contado por Márcia de Brito, em nota inicial (p.105/6), principalmente, no que respeita às citações de passagens das obras de Eliot (poesia, teatro, ensaios etc.).

Eliot By Ivan JunqueiraCom muita propriedade, Márcia lança mão de traduções anteriores já consagradas e trazidas para o nosso idioma
por gente do peso de Ivan Junqueira, o poeta que nos deu
T.S. Eliot, Obra Completa – vol. 1: Poesia;
bem como lança mão da tradução de outro poeta –
Ivo Barroso – para o vol. 2 da Obra Completa: Teatro. /School

Ao denunciar o vazio de traduções dos ensaios e textos de Eliot, Márcia conseguiu o feito de arrancar da “É Realizações” a promessa de que os amantes de Eliot teremos traduções de “Notes Towards the Definition of Culture”, “The Idea of a Christian Society” e tambem de “The Use of Poetry and the use of Criticism”.  Soube pelo César Miranda que as notas sobre Cultura foi lançado. De fato, vale a pena acompanhar o cumprimento do restante das promessas do Editor da “É Realizações”. Thumbs up

Por ora, deixo-vos com essa pequena introdução, prometendo voltar com Notas sobre “A Era de T.S.Eliot”. Estou de acordo com o sr. Alex Catharino e espero que esta nota leve o leitor a procurar o livro que entusiasticamente recomendo:

Eliot Meia_IdadeA Editora É, ao iniciar a publicação dos livros de Russel Kirk no Brasil com o lançamento (deste) “A Era de T.S.Eliot…”, mais uma vez disponibiliza aos leitores de língua portuguesa uma obra fundamental que recorda as verdades do ‘contrato primitivo da sociedade eterna’. (…) este excelente trabalho editorial, feito por Edson Manoel de Oliveira Filho, reconhece Catharino o faz “patrono das coisas permanentes” por “ter reunido vários remanescentes em uma importante cruzada na tentativa de reverter o processo de ‘desagregação normativa’ no Brasil, o que o torna, de certo modo, companheiro da mesma batalha intelectual de T.S. Eliot e de Russel Kirk…”

++++
(*)Paris Review-59Fontes: KIRK, Russell. “A Era de T.S.Eliot: A Imaginação Moral do Séc. XX”. São Paulo, É Realizações Editora, 2011.
Website da “Paris Review”, acervo, 1959.
Au revoir, chers amis!Note