Imagens e impressões de Milão

Nesta viagem à Itália, decidimos vir à Toscana, começando a viagem por Milão.

Como voamos via Miami, chegamos a Milão bem cansados, numa semana em que a cidade vive uma agitação especial por conta de uma das centenas de feiras que a cidade recebe por ano. Desta vez, a “Milan Fashion Week“.

Claro, há o Duomo (a Catedral) de Milão era incontornável, apesar da multidão que acorreu ao local na sexta-feira pela manhã.

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Ficamos pouco tempo na área, onde ficamos pouco tempo, tomamos um café e não nos animamos a entrar na fila para ir ao topo da catedral, tampouco animei-me a ir ao Museu do Novecento, ao lado do Duomo.

As multidões nos assustam um pouco, desde que turismo e terrorismo estão intimamente ligados na Europa, com a proposta de violência que parece ser o motor de ignição do Islã… ficamos, portanto, em um pequeno passeio pela área do centro histórico – sendo que o mercado medieval se encontrava em obras.

Um vendedor de revistas e discos (formato vinil) chamou-me atenção num daqueles arcos que divide a área do mercado medieval, claro que minha mulher superou o temor às multidões para dar uma olhadinha na galeria mais chique do centro de Milão, mas o que ficou mesmo na memória da gente foi o vendedor de vinil com seu quiosque “Discovery”.

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Galeria Vittorio Emanuele II
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Um quiosque dedicado ao vinil

 

 

 

 

Em Sant´Ambrogio

Sant’Ambrogio é um bairro calmo e familiar, embora exista lá uma penitenciária.
Talvez por isso mesmo, sente-se um clima de segurança a mais para os habitantes.
Ruas tranquilas, com crianças, idosos e religiosos que vêm e vão, sem muito agito.

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O maior atropelo que se tem é o barulho das ambulâncias que chegam ao Hospital da Via San Vittore, próximo ao museu de Ciência e tecnologia, que fica ao lado da Igreja local.

Nosso hotel (B&B) fica na calma Via Degli Olivetani, 4 – um lugar tranquilo para o turista. Ao católico que esteja interessado em arte, Milão oferece muitas alternativas – como a cinco minutos daqui o quadro da Santa Ceia de Da Vinci, recentemente restaurado. O quadro fica aqui próximo, na Igreja Santa Maria delle Grazie.

Mas, para quem quer apenas (!) rezar, pode-se ficar pelo bairro mesmo, pois a San Vittore oferece o melhor ambiente de meditação e oração, sem o ruído dos clics de máquinas e celulares de turistas.

 

San Vittore
Rua San Vittore
Um morador de rua_chapeu Burberry
Um caminhante com um chapéu de marca (Burberry)!
Restaurante Simon's
Simon’s Restaurante na Via San Vittore

No próprio bairro Sant’Ambrogio pode-se comer e se instruir (há bons restaurantes mais badalados e também restaurantes de bom preço, onde os moradores do local usam fazer suas refeições!) e há algumas livrarias e teatros (dois no mínimo).

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Um Hölderlin com uma introdução histórica do poeta italiano Giorgio Vigolo (1938).

Chile sentimental – nosso diário da viagem n’Opção Cultural, 15.Nov.15

As impressões da viagem guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia, a convivência e a observação de um casal sobre o país vizinho ao Brasil.

Os artistas populares dão ao bairro o exato colorido que o nome “Bella Vista” merece

Os artistas populares dão ao bairro o exato colorido que o nome “Bella Vista” merece.

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

A Suprema Arte seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso “Baedecker”, que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual “Guide Michelin”, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.
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Pequeno diário de uma viagem ao Chile (síntese)

A SUPREMA ARTE seria viajar em torno do próprio quarto. Se a frase atribuída a Xavier De Maistre fosse verdade absoluta, as companhias aéreas estariam em maus lençóis e os guias de viagem inexistiriam como best-sellers. Desde o famoso Baedecker que a tantos ilustres viajantes instruiu, até o atual Guide Michelin, o fato é que as pessoas mais e mais se animam a enfrentar toda espécie de transtorno para estar alhures. Viajar tem a aura de transformar o viajante por dentro e por fora.

O fato é que há uns poucos que viajam como se frequentassem um curto curso de relações internacionais, outros, de artes; há alguns que o fazem com o fito de ganhar em sensibilidade, através do relacionamento com as pessoas de outras culturas que encontrará ao longo da viagem.

Nesse caso, o Chile poético – sem direta referência (quase óbvia aos vinhedos) pode ser uma opção das mais interessantes. Eu e minha mulher – já considerados idosos, mas cheios de energia e curiosidade por outras culturas – línguas, hábitos, música e literatura diversas da nossa – viajamos ao Chile por nove dias sem visitar um vinhedo sequer. Nem por isso, voltamos sedentos da cultura, ao contrário.

Há duas importantes decisões a tomar quando se prepara uma viagem assim. Primeiro, informar-se sobre o país que se quer visitar. Lembro-me que quando fui aos EUA pela vez primeira, cheguei a ler dois livros interessantes e que, mesmo distantes do atualíssimo guia de Kátia Zero ou as dicas elegantes de Glória Kalil, valem como verdadeiros “Guias”: livros de Joaquim Nabuco e Albert Camus.

As visões da Nova York que encontrei jamais passariam pela poética dos enredos criados por Nabuco ou, quem sabe, por Albert Camus (e suas viagens aos Estados Unidos!).

Pois bem, vou seguindo em vôo tranquilo com o Maurois que no relato viaja pelo Brasil. Encontramo-nos com meu poeta amado (membro da tríade dos poetas de quem pretendo falar no Chile – Augusto Frederico Schmidt ) – dou-lhe a palavra:

Domingo. Numerosas visitas de jornalistas. Admiro seu conhecimento das letras francesas, sua agilidade de espírito, seu gosto pelas idéias. Quase todos me fazem perguntas sobre Alain, como quem o leu bem. Um deles me diz que uma brasileira, Violette de Alcântara, fez uma conferência semana passada sobre Alain e Maurois. “Domine num sum dignus”, mas ser associado a meu mestre me agrada. Muitas perguntas sobre o existencialismo, sobre o Maritanismo, pois há aqui (dizem-me) “maritanistas e neomaritanistas” [Jacques Maritain que ainda grande influência exercia entre os católicos brasileiros, como em Alceu, Corção etc.]. Vou à praia, onde banhistas neste inverno tropical, tomam sol. Depois o poeta Frederico Schmidt me vem buscar para me levar à casa de Luísa Miguel Pereira, a biógrafa do escritor brasileiro Machado de Assis. No caminho, Schmidt me conta que Mauriac, que ele encontrou em Paris, lhe disse: “O senhor é o Barnabooth de Larbaud.”
“Diagnóstico bastante exato, pois este poeta da ansiedade amorosa e da obsessão da morte é também um homem de negócios que pilota com segurança, nestas ruas íngremes, seu grande carro americano.”

O motivo original de minha ida ao Chile foi, primariamente, atender a um convite para fazer uma palestra sobre a “Tríade de católicos-poetas do Brasil – instantâneo de poesia falada com poemas de Augusto Schmidt, Jorge de Lima e Murilo Mendes” , em evento internacional na Universidade de Santiado do Chile (USACH).

Não ficando restrito a esse compromisso, construímos – minha mulher e eu, uma agenda de flanêrie pela cidade de Santiago e uma curta visita a Valparaíso.
As impressões dessa viagem são de modo maior guiadas pela literatura, sobretudo sobre a poesia, a gastronomia e a convivência e observação de um casal sobre um país vizinho que inicialmente não fazia parte dos planos de ambos como destino turístico. Com Maurois, sigo voando:

– “…o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor.(…) Quando se aperta o botão do oxigênio, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.”

E como o bebê – a criança que dormita e recusa o oxigênio que lhe oferecia a mãe, no relato de Maurois, nem carecemos de oxigênio a enfrentar os solavancos que as térmicas da tarde finda deixaram de herança à noite – e tal como no caso de André, a leitura me traz certa beatitude “pois a travessia dos Andes dura pouco e logo pousamos em Santiago”. Eram 0h40 do dia 07 de outubro.

“El hombre imaginario” de Nicanor Parra esperava-me dentro do meu ansioso coração de viajante.

O personagem que viaja conosco, dizem, é fruto da imaginação como no poema do chileno. Só usando a imaginação os casais costumam voltar de uma viagem apaziguados de alguma rusga que nutriam antes da viagem. Mas o homem imaginário que olha para o país, a cidade, a vila visitada para dela extrair estórias que há de contar depois, com fatos ou com a pura imaginação sobre o destino visitado.|

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Amigos, teste do novo design: logo-logo, no ar…

Just to know if everything is working as expected.

Santo Tomás de Aquino
Comunidade que estou frequentando nesta temporada em Rio Rancho, NM.
hello world!
http://www.stanm.org/2011-06-25-17-50-10/liturgy-a-music
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Conselhos de S.Tiago (i) ou: Provações (i)

Voilà que o tempo passa. Ontem, completei 59 anos.
Dia desses, eu era um menino magrelo, aprendendo coisas num abrigo para órfãos, prometendo a si mesmo que sairia dali para conquistar o mundo, mas não sairia como o R. Silva, fugido.
Queria, sim, estudar e ser distinguido entre os melhores. Usava com disciplina minhas horas na biblioteca, lendo tudo, a tudo atento nos livros e nas explanações e conselhos e sermões…
As observações sobre motivação, feitas por Jose Ortega Y Gasset nunca tiveram tanto sentido para o menino que se tornou este Sr. quase sexagenário e que quer “criar juízo”.
E se a vida é mesmo uma viagem, como queriam os místicos cristãos, parece-me dizer que a viagem outrora planejada, os trajetos todos se mostram como no “La vida es un viaje…ya se van, ya se van…” – passageiros somos; tudo já se (es)vai… e dá-me a impressão que ao leitor jovem pode parecer estranha: “como passou rápido o tempo desta minha viagem”…
Acho que era o poeta gaúcho (e universal) Augusto Meyer quem dizia que “a vida é a sombra de um sonho na sombra”. De outra cepa poética viva e eterna me vem o soneto esquecido de Bandeira: A vida é vã como a sombra que passa’ (M.Bandeira).
Acho que sim, do alto do tijolinho em que subo aos 59 anos completos, poetas. Mas queremos continuar vivendo intensamente.

E esse “outro enfermo” que hoje sinto ser, encontra alegria especial em ler e reler os meus escritores amados. Na fila entra outro:
MO YAN, chinês, prêmio Nobel de Literatura 2012, traduziu lembranças da vida semelhantes em um título simples – MUDANÇA:

O que quero narrar deve ter acontecido depois de 1979, mas o fio do meu pensamento teima em ignorar esse limite e volta àquele outono de 1969, com o seu sol radiante, seus crisântemos dourados e seus gansos migrando para o sul. Nesse ponto, já não me distingo de minha lembrança. Meu pensamento, ou aquele eu que fui um dia, um menino solitário expulso da escola, mas ainda atraído pelo vozerio que vinha lá de dentro, esgueira-se tímido pelo portão sem vigia, atravessa um corredor comprido e escuro e alcança um pátio escolar rodeado de construções…

Eis para onde me leva o fio do meu pensamento hoje:
No ano de 1966, este colunista era um menino entusiasmado, vibrante, por ter alcançado por méritos de Admissão ao Ginásio de um colégio de classe média alta, em Anápolis (GO), onde havia conseguido uma bolsa integral.

O susto do viver o pegava pela veia, apertava a jugular, daí porque se isolar na biblioteca, se esconder em seus livros amados e, nas poucas vezes correndo pelos corredores limpíssimos do CCM, teimava em se enxergar no piso vermelho do meu colégio, cujo zelo da faxineira o fazia como uma sorte de espelho onde se mirar.

No espelho falso em que o ‘vermelhão’ bem encerado me mostrava a face, via horizontes infindos, via a cidade grande, a liberdade de andar pela cidade, o sonho de aprender a dirigir – como os tios Queiroz o faziam tão bem; via a França, no espelho refletido, buscava-a em Balzac, em Dumas (pai), em Hugo…sonhava o mais do tempo! Preferia os livros, a biblioteca à enxada e o ‘éito’ – era taxado preguiçoso.

Agora, como uma espécie de atuário da imaginação, tento um balanço quase impossível deste meu 59o. aniversário (ocorrido ontem), tentando refazer a linha do tempo que me leva de Goiânia a Garanhuns (PE), passando por Anápolis, Porto Alegre, Paris e Marraquesh, de Passo Fundo a Bordeaux, com a mesma e viva centelha do amor à vida, com uma facilidade de me meter em encrencas; mas desejoso de centrar-me em uma vida nova, plena, onde a crença nos valores primevos da infância (cristã e humanista), presenteada pela generosidade de tantos que passaram em minha vida – possa gerar uma nova faseConselhos de São Tiago (i), onde seja a
sabedoria a meta principal; o alvo a humildade do desejo de Servir; nova fase em que a Felicidade esteja em plenitude.
Avoé, adolescentes sessentões, cá estou no mesmo ‘carrefour’ da Vida, que deve ser vivida, porque (como diz Padre Rubens) “…é Eterna!”. Deixo-lhes com os conselhos de S.Tiago, se interessados como eu estão na mudança. E neste sentem como se passando por ‘prova(oca)ções’. © Adalberto de Queiroz, para os “Cadernos de Sizenando”.

Elogio a Provence

A primeira vez em que fui à Provence, nem sabia em que importante endereço estava…
Provence par Van Gogh
Dito assim, parece que se trata de um navegante perdido num mar de azeite e vinho Vacqueyras, mas não, eu vos afirmo: ali estava este blogueiro encantado mas perdido, porque deixado fora numa gare TGV, com um enorme armário de aço (sem lado de ser carregado) – frente a uma agenda de reuniões em que a minha mulher engenheira teria muito que fazer e eu muito o que descobrir.

Estava a poucos quilômetros de Apt e nem sabia que o publicitário inglês faria o mundo se encantar pela pequena vila com sua feira inesquecível, antes que tantos descobrissem – como eu o havia feito, por conta própria, a beleza de uma feira francesa. No meu caso, na pequena e charmosa Brive la Gallairde. Mas eis que a região e a viagem eram outras e hoje me ocuparei de fazer uma louvação à Provence e não a qualquer dos outros petits pays de la douce France.

Com sabem meus seis leitores, agora voltei à Provence sem maiores compromissos, além de encontrar meu amigo J.M., perto de Aix (num abrigo de frente para o Mediterrâneo), para celebrar ma cinquentaine d´années, conhecer a amiga virtual (agora de carne-e-osso) Maitê, em meio à alegria da notícia de que vou ser avô em 2007. Levava comigo minha co-piloto predileta, com seus mapas e seu métodos – o que são coisas valiosas que não se aprendem facilmente, principalmente se convivendo com um autista: manter os métodos em meio ao caos que este escriba representa no universo de seres humanos (pouco racionais).

Aprecio tudo mas me irrito com as bagagens, como se sabe e em meio à viagem lembrei-me do poeta da minha terra, repetindo velhos romanos:

Com armas e bagagens
e algumas apólices
na armadura,

a(r)ma o teu próximo
para o melhor da viagem
nesta leitura:

há sempre um fósforo
na tua gula

E foi com a “estirpe de fênix” na língua, que parti bem cedo de Sausset-les-Pins para redescobrir o lugar em que me havia perdido há uma década atrás. Não havia desta feita os campos de lavanda floridos como na primavera antiga (é viagem de outono, recordemos), mas a geometria das nuvens era uma apreciação do que melhor me havia ensinado o professor Genésio em suas aulas no Instituto de Matemática e Física da UFG. Eu próprio tentava resolver os exercícios que o céu me apresentava a cada hora que agradecia a Deus pelo sol de outono e pelo azul VanGoghiano.

E assim, em meio a esses exercícios de geometria descritiva e afetiva, eu me perdia em enredos antigos, tentando adivinhar os nomes de todas as plantas da região citadas por Marcel Pagnol em sua trilogia L´Eau des collines e certo, sempre, de que naqueles lugares em que deambulava com meu Peugeot, a vida parecia ter parado – não havia faturas nem pré-datados capazes de me lembrar senão d´être ailleurs e que havia qualquer coisa de doce monotonia no mormaço da memória porque, afinal “dans les villages, la vie continuait, monotone et paisible, du moins en apparence…”

A Provence foi descrita por mais de um escritor de talento e por um gênio do pincel: Van Gogh. Outros os antecederam e há mil formas de você se apaixonar pela região. A pior delas talvez seja pelos catálogos turísticos. A Provence é um estado de espírito como as Astúrias representavam para Ortega Y Gasset seu descanso de Castilla, como Arraial da Ajuda me faz esquecer as rotinas de Aparecida de Goiânia, que amo 364 dias no ano. Tudo trazido significa estar alhures. (Uma observação pertinente seria entender o être ailleurs, pois quando as palavras perdem seu fado, sua química, quando já não se dá mais valor a um desenho de nuvens numa manhã en Provence ou a uma tarde morna das Astúrias, o mundo tem difícil tradução).

Na Provence, somos os turistas envolvidos por uma mágica que supera o catálogo Baedecker (ou o Michelin), não há como vos dizer a alegria de visitar um moinho de azeite, em que a senhora exibe com orgulho as fotos de filmes em que participou como convidada (ponta) ou o mau-humorado tratoristas pára para te dar uma informação com um sotaque inolvidável. Há também os ciprestes e os pinheiros-agulha que sempre confundo até que me lembre da descriçao de Van Gogh, transcita por Monsieur Bottton*: “Eles (os ciprestes) ocupam meu pensamento constantemente. Fico surpreso por ninguém os ter feito como eu os vejo. O cipreste é belo em silhueta e proporções como um obelisco egípcio. E o verde tem uma característica tão diferente! É uma pincelada negra numa paisagem ensolarada, mas é uma das notas negras mais interessantes, e a mais difícil de acertar com exatidão” (carta a Theoem 1889). Van Gogh, nos conta Botton, chegou à Provença em fevereiro de 1888 com 35 anos e lamenta que não tenha chegado à região aos 25. E se ainda orgulhava de andar com a cabeça entre duas orelhas, o angustiado cristão tinha as mãos e os olhos com todas as aptidões para pintar o que talvez continue sendo o melhor texto imagético (as tais mil palavras em um quadro) de todos os tempos sobre a Provence. Naturalmente, quando se viaja com arte, pensa-se em Van Gogh na Provence como se pensa nas viagens pictóricas de Hopper nos postos de gasolina da América, ou em Elstir quando se viaja num livro de Proust.

Eis a Provence que elogio: a doçura de suas paisagens, o céu que só se descreve em poesia, o vinho que só se toma no sonho melhor, o azeite que mina das páginas do Eclesiastes, as moças e velhas que nos olham como se não fôssemos estranhos e o jogo de boule com que alguuns poucos velhos adoçam sua viuvez. Não há guia que nos conte tal segredo. E por tão grande mistério, a ti, Provence, declaro meu amor.

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Fontes: “A arte de Viajar” de Alain Botton, Rocco, RJ, 2000. Marcel Pagnol, “Manon de Sources”, Ed.de Fallois, 1988. Gilberto Mendoça Teles, “Poemas Reunidos”, J.Olympio, 1978.