Colaboração em pauta

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Trabalhar juntos – blog, práticas, mentoring

Um dos assuntos a ser abordado – sempre seguindo as lições aprendidas com meus gurus em Colaboração – prof. Morten T. Hansen, Weiss & Hughes, e a dupla Ricci-Wiese será 
- Quão colaborativa é sua liderança?
Você ainda acha que colaboração é teamwork apenas (trabalho em equipe). Ou é um processo?
Você acredita mesmo que colaboração se resolve (somente) com ferramentas de T.I.?

Tudo isso e muito mais. Inscreva-se Já!
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“Porque estás vivo aqui, agora e sempre…” Adeus, poeta!

IVAN JUNQUEIRA, 1934-2014, poeta e tradutor, autor entre outros de “Os Mortos” (1964), “Três Meditações na Corda Lírica” (1977), “A Rainha Arcaica” ( 1980). Tradutor a quem devemos o melhor de T.S. Eliot em português – “Quatro Quartetos” (1967) e T.S.Eliot Poesia Completa (1981) e os Ensaios (1991). Para consultar uma 
bibliografia completa visite este link da ABL.

No último dia 03 de julho, em meio às notícias geradas pela Copa do Mundo da Fifa/14, somos comunicados da morte do poeta Ivan Junqueira. Entre os inúmeros obituários, dou a preferência a este, escrito no website do colégio em que o poeta fez seus primeiros estudos – o Colégio Notre Dame de Ipanema no Rio de Janeiro.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o ex-aluno do Notre Dame, estudou Medicina e Filosofia, sem terminar os cursos, voltando-se ao chamado das letras na imprensa e como tradutor e, principalmente, poeta. Dele disse o presidente da ABL, ao saber de seu passamento: “…grande poeta, mestre indiscutível nas artes do ensaio crítico e da tradução literária, Ivan deixa um legado que enriquece a nossa tradição e a história literária do Brasil.”

Li pela vez primeira os poemas de Ivan na década de 80, com o belo volume de “A rainha arcaica”.

Dentro do volumezinho lido e relido – tantas vezes assustado com a grandeza do poeta, que me deixa(va) envergonhado de me pretender poeta, encontro um recorte da Folha de S.Paulo, em que Nogueira Moutinho exalta a poesia de Ivan, com frase lapidar:

“O poeta pertence, realmente, à família dos que preferem sugerir e entremostrar em vez de praticar uma incisão nítida na  placa metálica da linguagem. Não é um gravador, é antes um debuxador de ‘fusains’. Nesses desenhos a carvão que são alguns de seus poemas, eu destacaria as ‘Três Meditações na Corda Lírica”, sobretudo a primeira, em que Ivan Junqueira parece delinear os princípios de sua arte poética, fora do tempo, mas no tempo audível” .

Talvez por essa observação gravada no recortezinho, apaixonei-me pelo poema, que reproduzo aqui  – como minha forma de dizer Adeus ao poeta Ivan e aos leitores: sei que o poeta está vivo…

Ivan Junqueira

Três Meditações na Corda Lírica (1)

(À Margarida)

“Only trough time time is conquered” (T.S.Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92).

Deixa tombar teu corpo sobre a terra
e escuta a voz escura das raízes,
do limo primitivo, da limalha
fina do que é findo e ainda respira.

O que passou (não tanto a treva e a cinza
que os mortos vestem para rir dos vivos)
mais vivo está que toda essa harmonia
de claves e colcheias retorcidas,
mais vivo está porque o escutas limpo,
fora do tempo, mas no tempo audível
de teu olvido, partitura antiga,
para alaúde e lira escrita, timbre
que vibra sem alívio no vazio,
coral de sinos, música de si
mesma esquecida, aquém e além ouvida.

O que passou (à tona, cicatriz)
é dor que nunca dói na superfície,
ao nível do martírio, mas na fibra
da dor que só destila sua resina
quando escondida sob o pó das frinchas
e que, doída assim tão funda e esquiva,
é mais que dor ou cicatriz: estigma
aberto pela morte de outras vidas
nas pálpebras cerradas do existido,
espessa floração de espinhos ígneos,
solstício do suplício, dor a pino
de te saberes resto de um menino
que anoiteceu contigo num jardim
entre brinquedos e vogais partidas.

E tudo é apenas isso, esse fluir
de vozes quebradiças, ida e vinda
de ti por tuas veias e teus rios,
onde o tempo não cessa, onde o princípio
de tudo está no fim, e o fim na origem,
onde a mudança e movimento filtram
sua alquimia de vigília e ritmo,
onde és apenas linfa e labirinto,
caminho que retorna ao limo, à fina
limalha do que é findo e ainda respira
para depois, o mesmo, erguer-se a ti,
ao que serás, porqu estás vivo aqui,
agora e sempre, antes e após de tudo.

Deixa tombar teu corpo e te acostuma,
húmus, à terra – útero e sepulcro.
+++++
Fonte: JUNQUEIRA, Ivan. “A rainha arcaica”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira Edit. , 1980.

Relendo Bossuet

Um jovem crítico de literatura em França, me envia, regularmente, textos de seus escritos, quase sempre polêmicos. Hoje foi sobre um escritor moderno (por quem não me interessei), mas logo abaixo no site, encontro pérolas de BOSSUET.
Maravilhosos textos:
1) «Tout ce qui unit à Dieu, tout ce qui fait qu’on le goûte, qu’on se plaît en lui, qu’on se réjouit de sa gloire, et qu’on l’aime si purement qu’on fait sa félicité de la sienne, et que, non content des discours, des pensées, des affections et des résolutions, on en vient solidement à la pratique du détachement de soi-même et des créatures; tout cela est bon, tout cela est la vraie oraison».
Em tradução livre (e corrigível, por favor corrigez mes fautes Meg Guimaraes):
Sobre a verdadeira Oração:
“Tudo que nos une a Deus, tudo que nos faça amá-Lo, que tenhamos alegria n’Ele, que nos rejubile com sua glória; e mais – que não satisfeitos com apenas falar, mas tê-Lo em nossos pensamentos, nas afeições e nas decisões que tomamos; assim chegamos de maneira sólida à prática do desapego de nós-mesmos (o si-mesmo) e das criaturas – tudo isso é bom, tudo isso é “a verdadeira Oração”.
Bossuet, Méditations sur l’Évangile, De la meilleure manière de faire une oraison (Desclée et Cie, 1903, p. 15)

2) «Jésus parle encore tous les jours dans son Évangile; mais il parle d’une manière admirable dans l’intime secret du cœur : car il est la parole même du Père éternel, où toute vérité est renfermée. Il faut donc lui prêter ces oreilles intérieures dont il est écrit : Vous avez, Seigneur, ouvert l’oreille à votre serviteur. Heureux ceux à qui Dieu a ouvert l’oreille en cette sorte; ils n’ont qu’à la tenir toujours attentive, leur oraison est faite de leur côté. Jésus leur parlera bientôt, et il n’y a qu’à se tenir en état d’écouter sa voix»

“Jesus fala ainda todos os dias através de seu Evangelho; mas Ele fala de uma maneira admirável ao íntimo segredo do coração, porque Ele é a própria palavra do Pai Eterno, onde toda a Verdade está guardada. É preciso, pois, que abramos nossos ouvidos interiores ao que está escrito: “Tu, Senhor, abristes os ouvidos ao vosso Servo…” [Sl.39/40]. Felizes aqueles a quem Deus abriu os ouvidos dessa forma; não tem estes senão que ficar atentos, que sua oração é feita no íntimo de seu coração. E Jesus responderá de pronto, não havendo ao que reza, senão que escutar a Sua voz …”

(Bossuet cit. par Juan Asensio em http://bit.ly/1ouvAQJ).

lendo Juan Asensio.
Originalmente publicado no FB./adalbertoqueiroz.

Para quem ama a leitura…

Sempre há dicas inovadoras
de bons roteiros de leitura!

Há alguns anos atrás, sem a pletora de dicas que é a Internet, o caminho a percorrer para conhecer a obra de um determinado autor era mais tortuoso. Hoje, temos ferramentas que nos ajudam a achar um roteiro perfeito de leituras, como essa:

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É uma pena que ainda não funcione em português, mas é tão genial como essas aqui ó:
1) Audible

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2) Google Livros

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3) Mendeley

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4) Good Reads – tenha as melhores recomendações de seus amigos!
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Boa Leitura! E se tiver sugestões, a caixa de comentários está esperando por você…
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Teria esta Lição maior validez…

“Se em vez de carioquinha, o Millôr fosse um velho chinês…”

(paródia a um poema do Millôr (*)

Um dia depois de eu ter transformado o jogador colombiano Zúñiga em “bode expiatório” de minha revolta contra o “cordeiro imolado” que é nosso melhor jogador de futebol (e um dos mais jovens da Copa), pensei, repensei.

Lembrei-me de dois textos que me ajudam a entender o momento e por um instante, racionalmente deixo minha paixão futebolística de lado, para refletir sobre violência do homem contra o homem (homem lobo do homem?! – mesmo? Deixe sua resposta para o final do texto do Millôr.

Leiam o texto “Homem” de Millôr (abaixo), após o um texto do pensador francês René Girard sobre Violência e a Teoria do Bode Expiatório.  E entre Millôr e Girard, naturalmente, fico com o francês, mas ambos válidos para esta minha mirada para entender-me, entender-nos, nós Homens – seres humanos, mulheres inclusas, viu dona Ministra da igualdade pe(a)Teista).

O professor Olavo de Carvalho resumiu, em 1998, o pensamento de René Girard em um parágrafo:

(…) Todas as instituições humanas têm origem ritual, e o ritual resume-se no sacrifício. O sacrifício consiste em descarregar sobre um bode expiatório, vítima inocente e indefesa, os ódios e tensões acumulados que ameaçavam romper a unidade social. Estes ódios e tensões, por sua vez, surgem da impossibilidade de conciliar os desejos humanos. A razão desta impossibilidade reside no caráter mimético do desejo: cada homem não deseja isto ou aquilo simplesmente porque sim, porque é bonito, porque é gostoso, porque satisfaz alguma necessidade, mas sim porque é desejado também por outro ser humano, cujo prestígio cobre de encantos, aos olhos do primeiro, um objeto que em si pode ser inócuo, ruim, feio ou prejudicial. O mimetismo é o tema dominante da literatura, assim como o sacrifício do bode expiatório é o tema dominante, se não único, da mitologia universal e do complexo sistema de ritos sobre o qual se ergue, aos poucos, o edifício político e judiciário. A vítima é escolhida entre as criaturas isoladas, inermes, cuja morte não ofenderá uma família, grupo ou facção: ela não tem vingadores, sua morte portanto detém o ciclo da retaliação mútua. Mas a paz é provisória. Por um tempo, a recordação do sacrifício basta para restabelecê-la. Nesta fase a vítima sacrificial se torna retroativamente objeto de culto, como divindade ou herói cultural. Ritualizado, o sacrifício tende a despejar-se sobre vítimas simbólicas ou de substituição: um carneiro, um boi. Quando o sistema ritual perde sua força apaziguante, renascem as tensões, espalha-se a violência que, se não encontrar novas vítimas sacrificiais, leverá tudo ao caos e à ruína. A sociedade humana ergue-se assim sobre uma violência originária, que o rito ao mesmo tempo encobre e reproduz.”
(Fonte: Continue lendo no Site Olavo de Carvalho).

Apoio-me ainda, nas palavras de Felipe Cherubin:
A função do sacrifício é, portanto, apaziguar a violência e impedir a explosão de conflitos decorrentes de rivalidades cada vez mais crescentes que paradoxalmente focalizam uma vítima arbitrária cuja eliminação reconcilia o grupo e alcança o estatuto do sagrado. Essa vítima é chamada por Girard de “bode expiatório”, um inocente que polariza para si o ódio universal.”  (Felipe Cherubin, na Dicta & Contradicta)

Dá tempo até o próximo jogo interessante…

“Homem!”

© Millôr Fernandes.

“Besta! Você é uma besta!” Besta é como aprendemos a xingar desde cedo. E chamamos de animais os que matam com crueldade, os que violentam, agridem, ferem: “O criminoso reagiu à polícia como uma verdadeira fera!” Como? Correu? Não – atirou, esfaqueou, matou.

Porco-chovinista. A hiena-nazista. Alimentei uma serpente no meu seio. “Rato!” “Cavalos, são todos umas ca-valgaduras!” Pato. Cão. Teimoso como uma mula. Bêbado co-mo um gambá. Burro. Galinha. Lesma. Lágrimas de cro-co-di–lo. Traiçoeiro como uma raposa. Praticamente todos os ani-mais têm sido usados pelo homem para símiles das suas pró-prias fraquezas e defeitos. E os animais, dóceis, conti-nuam sua vida, ignorando que os usamos para cobrir toda a gama de nossa imensa canalhice, quando bebemos mais do que podemos, espancamos os mais fracos, prevaricamos sem medida, agimos, enfim, “como verdadeiros animais selvagens”.

Talvez isso se deva ao fato de que os animais sempre nos evitaram, com raras exceções, como a do cão (um quisling animal, o Pai Thomaz da espécie). Mas, agora que a história natural sabe muito mais sobre os animais, você já tentou ler, ao mesmo tempo, paralelamente, a biografia de uma família “ilustre” e a monografia de um grupo de chimpanzés? Em qualquer família “ilustre” a prevaricação sexual é a constante, a traição sentimental a regra, o ciúme, o impulso, e a violência resultado quase fatal.

Mas um grupo de chimpanzés do Quênia, estudado detidamente por naturalistas holandeses, mostrou que os brutos (perdão!) ficam satisfeitos com apenas seis atos sexuais por ano, já que as fêmeas só se interessam pelo assunto duas ou três vezes por mês e nem querem ouvir falar (grunhir) disso em todo o período da gestação e da lactação. O problema, porém, vejam bem, não é saber se os gorilas são ou não melhores do que o homem porque se importam menos com sexo, mas apenas mostrar que não é válido, na descrição de violências sexuais, num caso de estupro, por exemplo, dizer que o homem “cedeu a seus instintos bestiais”. O que ele cedeu mesmo foi a seus instintos humanos.

Mas, se alguns animais copulam menos, todos brigam menos do que os homens. Ainda estou para ver elefantes se adestrando militarmente para atacar leões, tigres se mobilizando para enfrentar uma horda de jacarés invasores, búfalos matando bisões por questões de fronteiras, ri-no-ce-ron-tes vendendo chifres a girafas, e assim por diante. Quando não se sentem efetivamente atacados, todos os animais deixam pra lá. Não brigam por conceitos, não reagem por pressupostos, não se ofendem por questões lingüísticas, não matam por religião. E, mesmo atacados por razões vitais, inúmeras vezes rugem, (zurram, escoiceiam, berram) mas, assim que podem, satisfeitas as necessidades teatrais da espécie, fingem que não foi nada e dão o fora. Paz! Paz!

Mesmo os animais definitivamente vitoriosos em lutas quase nunca procuram tirar partido disso. Viram as costas e vão embora. No máximo comem um pedaço do inimigo, se for o caso; se o caso é fome. Não há condecorações, butins de guerra, nem retaliações em nome do passado, tratados preservando um pasto para o futuro, colinas de Golan contestadas entre jaguatiricas e cascáveis, e, sobretudo, não há arcos do triunfo.

Pois é: já é tempo de inverter os termos e afirmar que uma pessoa é “suave como um elefante”, “maternal como uma cobra”, “tímido como um rinoceronte”, “delicado como um urso”, ou que “o coelhinho me olhou com um olhar quase humano”, isto é, de ódio ou inveja. Pois desde a Bíblia a interpretação foi sempre contra os animais: a serpente era pérfida e perdeu o homem. E, no entanto, tudo o que a serpente fez, afinal, foi contestar uma portaria aparentemente sem nexo. Possivelmente ela teve apenas a intenção de instigar o homem a um prazer que ele até então não desfrutara. E certamente a coisa não teria o desfecho desastroso que teve (o pão com o suor de nosso rosto, etc.) se não tivesse se metido na história o elemento agressivo e agressor, o anjo com a espada de fogo na mão. Um homem!

+++++
Fontes: Texto “Homem”, de Millôr Fernandes, transcrito de Revista Veja online.
(*) Poemas do Millôr (não achei a fonte – se você, leitor, souber, me envia por favor!):
”Tudo o que eu digo
Teria maior validez
Se em vez de carioquinha
Eu fosse um velho chinês”.