Para Ler na Quaresma 2014 (II)

Adalberto Queiroz:

Para ler na Semana Santa, 2015.

Publicado originalmente em Leveza & Esperança:

Manuel Bandeira –

Poeta amado

Antes, confesso, na longa temporada em que passei lendo (e apreciando J.G. Merquior, apareceu-me um Bandeira diferente (o crítico) que escolhera o jovem Merquior como co-Autor da Antologia da Poesia Brasileira, 1963. Mas isso isso é assunto para outro post. Agora, para esta Leitura de Quaresma (2014), selecionei alguns poemas do volume e referência de um bom site, onde o leitor encontrará mais poemas de Bandeira.

UBIQÜIDADE

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)
Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu…

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C. S. Lewis Sobre a Verdadeira Amizade

Adalberto Queiroz:

Dos livros do C.S.Lewis é um que li resumos e gostaria de ler no todo. Wish-list, já!

Publicado originalmente em À Deriva do Saber:

Por Maria Popova

Os Quatro Amores Os Quatro Amores

“A amizade… não possui valor de sobrevivência; antes, ela é uma daquelas coisas que dá valor à sobrevivência.”

“O que há de tão delicioso em um encontro justo e firme de dois, em um pensamento, em um sentimento?” — maravilhou-se Emerson, em sua primorosa meditação sobre a amizade.¹ Mas o quê, exatamente, está no coração deste “justo e firme encontro”? Em seu criterioso livro de 1960, Os Quatro Amores, C. S. Lewis toma onde Aristóteles parou e examina as diferenças entre as quatro principais categorias dos laços íntimos humanos — afeição, a mais básica e expressiva; Eros, o desejo apaixonado e às vezes destrutivo de amantes; caridade, a conexão espiritual mais alta e mais altruísta; e amizade, a relação mais rara, menos ciumenta e mais profunda.

Numa das mais belas passagens, ele considera como a amizade se difere dos outros três tipos de…

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Cartas do Pai (1)

DA NATURALIDADE, post originalmente publicado em 28/02/2004.Alceu Amoroso Lima: “Cartas do pai: de Alceu para sua filha Madre Maria Teresa”

Collagem Alceu Cartas do pai: de Alceu a sua filha madre Maria Teresa

Montagem com Capa e algumas páginas de “Cartas do Pai: de Alceu a madre Teresa ou simplesmente: Tukinha!”

Um dos muitos presentes que eu ganhei em meu aniversário, o livro do Alceu Amoroso Lima tem lugar de destaque. Estou lendo as “Cartas do Pai*” com a economia da contemplação.
Um livro tão bem escrito assim merece ser lido com atenção e cuidado. A seleção de cartas foi feita por Alceu Filho e pela destinatária das cartas, a madre superiora de um mosteiro beneditino, a abadessa Maria Teresa, a filha bem amada de Alceu, ou simplesmente a “querida Tukinha” das cartas do pai Amoroso.

Contaram esses dois filhos com o privilégio divino de ter recebido como pai esse grande brasileiro (e grande católico) Alceu AMOROSO Lima. Para navegar por 11 anos de vida de Alceu, brindando-nos com este belo livro, contaram com o apoio do Instituto Moreira Salles (IMS) e com a revisão da irmã Sílvia do citado mosteiro beneditino.

Eis-nos, leitores, diante de um grande e marcante livro. Aos poucos trarei pra vocês trechos que me encantem como este sobre a naturalidade,

Da carta enviada da fazenda São Lourenço em 6 de julho de 1958.

[…]

Alceu a Madre Teresa...

“Tukinha do meu coração…”

Você define a humildade como a porta de todas as virtudes. Como dizer melhor? Para mim, ela quase se confunde com a naturalidade. Esta é um modo de ser, alguma coisa que precede a virtude. É como que o adro de todas as virtudes,
de que a humildade é a porta de entrada. A naturalidade é qualquer coisa de indefinido, de aberto, de vago, é como um grupo de crianças brincando à porta da igreja. A marca da naturalidade é a despreocupação. Quem procura ser natural já não é.

A naturalidade é uma vocação. Embora a simples ausência de pose já seja uma forma de naturalidade. Esta, porém, no duro mesmo, é um estado constante.
[…]
A naturalidade é a preparação indefinida para a humildade. Esta já é alguma coisa de consciente, de definida, de consistente. Não é mais uma predisposição, uma vocação. É um estado. É uma estrutura do espírito. É uma moldura, dentro da qual nós colocamos a nossa pintura interior e exterior. (Ontem li que alguém – o pai de um tal de Paul Morand – classificava os pintores em de superfície, ou extrovertidos, como Rubens, ou de fundo, e introvertidos, como Rembrandt. A classificação é muito boa, não acha?)

Alceu e Madre Maria Teresa, Lia

Dr. Alceu ou simplesmente Papai (P.) e Lia, ou simplesmente Madre Maria Teresa.

Pois a naturalidade é como a pintura de fundo, vem de dentro e por isso é uma preparação, a melhor possível, para a humildade. Esta, porém, já é uma pintura de superfície, voltada para fora, no sentido de dever ser visível, embora nunca contrafeita ou artificial. Mas podendo e até devendo ser cultivada. Aprendemos a ser humildes. Temos de adestrar a nossa humildade. Melhoramos ou pioramos de humildade. A vida é uma mestra de humildade. Mas naturalidade, esta não se ensina, nem se melhora ou piora.

É ou não é. Pronto. Mas a humildade só é realmente uma grande coisa quando vem precedida de naturalidad, quando é uma humildade natural, que apenas temos o dever de cultivar, de educar, de melhorar, de ensinar, para que sempre vá crescendo
e não se deixe estragar pela vida e sobretudo artificializar-se. Pois a humildade que se contenta e se compraz consigo mesma, a que se exibe, já deixa de ser humildade – isto é, virtude real do publicano – para ser um farisaísmo às avessas,
um falso publicanismo, que é então pior que o verdadeiro farisaísmo. Pois o fariseu verdadeiro ao menos se exibe, é tolo, é ridículo, expõe a sua mazela, embora convencido de que não a tem, nem que é doença alguma julgar-se o tal.
[…]

Alceu a Madre Teresa...

“Tukinha do meu coração…”

A falsa humildade é o pior dos orgulhos, como a verdadeira humildade é a mais humana e mais natural das virtudes, desde que é justamente a que vem logo depois da naturalidade e é apenas uma naturalidade consciente e elaborada, embora essa elaboração deva tornar-se uma segunda natureza, sob pena de se converter em falsa humildade.
(Está um cheiro de melado que é uma gostosura…)!
P.
Que livro! Merci, Sirlene…:-)
++++++++
Fonte: *”Cartas do pai”, Ed. IMS, S.Paulo, 2003, p.36. Post publicado por Adalberto Queiroz 28/02/2004. Meus agradecimento à Sirlene Vieira, empreendedora, ex-sócia e para sempre amiga, que me presentou tão bem no meu aniversário de 2004. Deste livro pode-se repetir, sem medo de errar, o que Antonio F. De Franceschi diz no prefácio, repetindo Montaigne: “Eis aqui, leitor, um livro de boa fé – … ou melhor: “simplesmente, um livro de Fé”! Pois sim, foi na Fé que este livro encontrou razão de ser editado.

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Poesia falada

Experimentando novas formas de expressão e resenhas.
Bem-vindo(a) ao meu Sound Cloud Poesia Falada.

Vilém Flusser

Vilém Flusser (excertos part I) – (3)

9. Poesia
TRADICIONALMENTE, FAZ-SE UMA DISTINÇÃO ENTRE POESIA E imitação (‘poesis’ e ‘mimesis’).

Todavia, com a hegemonia do alfabeto, essa associação estreita do pensamento à língua, entende-se majoritariamente por “poesia” um jogo com a linguagem cuja estratégia é aumentar criativamente o universo da língua. Esse universo é aprofundado poeticamente devido à manipulação de palavras e frases, à modulação de funções da língua,a um jogo com o significado das palavras e das frases, a modulações rítmicas e melódicas dos fonemas. Poesia, nesse sentido, é qualquer fonte da qual a língua sempre nasce renovada, e precisamente em qualquer literatura, ou seja, também nos textos científicos, filosóficos e políticos, e não apenas nos ‘poéticos’. As reflexões anteriores sugerem que a poesia, ao contrário da imitação, tomará caminhos até agora inimagináveis, especificamente os caminhos que se abrem graças à introdução de aparelhos e aos seus respectivos novos códigos. As imagens se desligarão de suas funções imitativa e mimética e vão se tornar poéticas, criadoras. Esse poder poético já está claramente evidente, por exemplo, em filmes, vídeos e imagens sintéticas. Contudo, no que diz respeito à poesia, no sentido de jogo de linguagem, parece que o acesso à nova cultura está atravancado: pois ela se vê vinculada ao escrever alfabético.

Há futuro para a Escrita?

O genial pensador ‘brasileiro-tcheco-universal          Vilém Flusser

 À primeira vista, parece como se pudesse haver também jogos de linguagem não alfabéticos. Os aparelhos não podem,pois, brincar com a língua tanto quanto com as imagens e os tons musicais? Não pode, pois, haver, além de imagens e músicas eletrônicas, poesia eletrônica? É possível pensar programas que movimentem os aparelhos para uma modulação linguística automática a superar de longe, em termos de força poética, as modulações alfabéticas. Uma programação de tal ordem poderia libertar a poesia alfabética de seu atual cárcere elitista e, tendo em vista o declínio do alfabeto, levá-la a uma oralidade cada vez mais poderosa e refinada.Caso essa estratégia pudesse ser adotada poderíamos esperar por salmos e epopéias como os de Davi e as de Homero, mas em novos níveis. Uma nova canção poderia ser entoada ao Senhor.

O desligamento da poesia (como jogo de linguagem) do alfabeto e sua transposição para aparelhos computacionais pressupõem, sem dúvida, que haja pessoas engajadas em uma oralidade cada vez mais poderosa e refinada. Isso, contudo, contradiz o capítulo anterior [onde Flussém trata de “A Língua Falada. Como o programar se desligou da escrita alfanumérica…”]. Se quisermos prever a atividade poética futura, é necessário refletir sobre poesia como oposição à imitação, e ter em vista, então, o caso especial da poesia como criação de linguagem.

Nem sempre estamos cientes do que devemos à poesia, no sentido lato da palavra: quase tudo que percebemos e vivenciamos. Fazer poesia é a produção de modelos de experiência, e sem tais modelos não poderíamos perceber quase nada. Ficaríamos anestesiados e teríamos de – submetidos aos nossos instintos atrofiados – cambalear cegos, surdos e insensíveis. Os poetas são nossos órgãos do sentido. Nós vemos, ouvimos, sentimos sabores e cheiros devido aos modelos que nos são apresentados pelos poetas. Nós percebemos o mundo por meio desses modelos. Os poetas criaram esses modelos e não os imitaram a partir daquilo que se encontrasse desmodelado e bruto em algum lugar. Quando vemos cores, seja por meio de Van Gogh ou de uma Kodak; [1987] quando ouvimos sons, seja o de Bach ou de um rock; quando sentimos sabores, seja o de um Brillat-Savarin ou de um fast-food; essas cores, sons e sabores são como são não porque vêm da Natureza assim, mas porque são culturais, isto é, porque foram poeticamente elaborados por um motivo fundamental de alguma forma não percebido naturalmente.
Se tentássemos escrever uma história da percepção a partir da hipótese de que as cores são percebidas de maneira diferente antes e depois de Van Gogh, ela seria uma história da estética, da experiência.
(…)
+++++
FLUSSER. Vilém. (1920-1991). “A escrita – Há futuro para a escrita?”. Trad. do alemão por Murilo J da Costa – S.Paulo, Annablume, 2010. Orig. alemão de 1989. 178 p.