Some things that fly there be
Birds – Hours – the Bumblebee
Of these no Elegy.

Some things that stay there be –
Grief – Hills – Eternity
Nor this behooveteh me.

There are that resting, rise.
Can I expound the skies?
How still the Riddle lies!


Há certas coisas de voar -
Aves – Abelhas – horas do dia –
Delas nenhuma elegia –

Há outras coisas de ficar –
Dor – Colinas – Eternidade.
Não me competem, em verdade.

E há outras que o repouso re-anima –
O arcaz dos céus posso eu expor?
Tão quieto jaz o enigma!

+++++
(*) Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas” (656).
Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 40/41.

Jorge de Lima*

SENHOR JESUS, o século está podre.
Onde é que vou buscar poesia ?
Devo despir-me de todos os mantos,
os belos mantos que o mundo me deu.
Devo despir o manto da poesia.
Devo despir o manto mais puro.
Senhor Jesus, o século está doente,
o século está rico, o século está gordo.
Devo despir-me do que é belo,
devo despir-me da poesia,
devo despir-me do manto mais puro
que o tempo me deu, que a vida me dá.

Quero a leveza  no vosso caminho.
Até o que é belo me pesa nos ombros,
até a poesia acima do mundo,
acima do tempo, acima da vida,
me esmaga na terra, me prende nas coisas.

Eu quero uma voz mais forte que o poema,
mais forte que o inferno, mais dura que a morte:
eu quero uma força mais perto de Vós.
Eu quero despir-me da voz e dos olhos,
dos outros sentidos, das outras prisões,
não posso Senhor: o tempo está doente.

Os gritos da terra, dos homens sofrendo
me prendem, me puxam – me dai  Vossa mão.

+++

Fonte: DE LIMA, Jorge. “Tempo e Eternidade”, Obra Completa, vol.1, p.412/413. Aguilar, 1959.
Um poema assim pode ter influenciado G.Bernanos a escrever o excelente texto transcrito em “Brésil, terre d´Amitié” (La Table Tonde, Sébastien Lapaque, 2009), sobre o poeta e amigo de G.B., cuja poesia o francês conheceu na tradução de Robert Garric. O texto “Jorge de Lima” foi prefácio a uma edição em espanhol dos poemas de Jorge de Lima, sob o título “Poemas” (Oficinas Gráficas A Noite, RJ, 1939, seg. relato de Lapaque).
Com certeza, tenho que o Poema do Cristão encantava G.B. Espero encontrar poemas em francês na tradução de R. Garric e volto em breve (aliás duas coisas difíceis de se encontrar: estes poemas em francês e a tradução para nosso idioma que dizem teria sido feita por Jorge de Lima para ” Sob o Sol de Satã”, de G.B.).
Por ora, ficam essas referências que dizem provam por si mesmas que: “Que cette poésie soit chrétienne, nul ne saurait s´en féliciter plus fraternellement que moi. Elle l´est comme elle droit l´être, librement. Dieu nous garde des poètes apologistes!…” (G.B., transcrito por Lapaque, op.cit, pág. 51).

Foi brincando com meu neto, antes da sonequinha que me garantiu vir aqui (to do a quick post), que pensei em quanta saudade o trem – meio de transporte – me causa.

O barulhinho de ´tchu-tchu, train` que Lucas emitia, enquanto brincava com sua pequena composição, me fez lembrar de mil referências emocionais e afetivas relacionadas ao trem.

Algumas são musicais, como o Trenzinho Caipira (F.Gullar-Villa-Lobos), o Trenzinho na voz do João…e, mais recentemente, The Train, canção do The Nits.

Outras lembranças são literárias e musicais, ao mesmo tempo:

Penso agora que minha memória afetiva registrou Milton, mas só acho EDU Lobo com a interpretação para o Trenzinho.

A evasão é sonho antigo, viajando de trem.

Post-post: a memória me traiu, pois o arranjo para o poema é mesmo de Edu Lobo. O outro trem que andava rondando a memória era o Trem Azul, este sim do Milton Nascimento.

Alegria ao receber da Amazon.Fr 2 novos livros:
1 – Hans Urs von BALTHASAR “Le Chrétien Bernanos“, ed. Parole et Silence, 2008;  e

2 – “Brésil, terre d´amitié” (G.B.), ed. La Table Ronde, 2009. Seleção de textos, anotações e prefácio de Sébatien Lapaque.
Em breve, poderei comentá-los.

Por ora, compartilho a alegria de livro novo em minha mesa de leitura.Capas Novos Livros Bernanos

Uma citação do Papa Bento xvi, neste contexto

Extraída do Cap.1-I, do livro Introdução ao Cristianismo(*)

“A essa altura talvez convenha voltar a nossa atenção para uma história judaica registrada por Martin Buber, porque nela manifesta-se com toda evidência o dilema da condição humana que acabamos de descrever:
um dos iluministas, um homem culto, tinha ouvido falar de Berditshever. Então o procurou para discutir com ele, como era seu costume, para refutar os argumentos atrasados que ele usava para provar a verdade de sua fé. Quando entrou na sala do Zadique, viu-o andar de um lado para o outro, com um livro na mão, refletindo com todo fervor. Nem reparou no recém-chegado. Depois de algum tempo parou, olhou distraidamente para ele e disse: ´Mas talvez seja verdade`. Em vão o erudito juntou toda a sua auto-estima; as pernas começaram a tremer-lhe, porque a visão do Zadique era terrível, assim como foi terrível a sua sentença singela. O Rabi Levi Itsaque voltou então toda a sua atenção para ele e disse serenamente: ´Meu filho, os grandes da Torá, com os quais você discutiu, gastaram as suas palavras em vão, porque quando você foi embora, riu-se deles. Eles não foram capazes de colocar Deus e o seu Reino na mesa diante de você, nem eu posso fazer isso. Mas pense, meu filho, talvez seja verdade`. O iluminista juntou todas as suas forças interiores para dar uma resposta à altura, mas o terrível ´talvez` que lhe ressou nos ouvidos quebrou toda a sua resistência” (1).

“Penso que esse episódio, apesar de sua linguagem estranha, descreve com precisão a situação do ser humano diante da questão de Deus. Ninguém é capaz de colocar Deus e seu Reino na mesa diante do outro, nem o próprio fiel é capaz disso. Mas, por mais que o incrédulo se sinta com a razão, resta-lhe o assombro desse `talvez seja verdade mesmo assim´. O ´talvez´é a grande tentação da qual ele não consegue fugir e na qual também ele precisa experimentar a irrecusabilidade da fé dentro da própria recusa. Em outras palavras: tanto o fiel como o incrédulo participam, cada um à sua maneira, da dúvida e da fé, desde que não se escondam de sii mesmos e da verdade de seu ser. Nenhum consegue fugir totalmente da dúvida, nem da fé; para um, a fé marca presença contra a dúvida, para o outro, a fé está presente pela dúvida e na forma da dúvida. Faz parte da configuração fundamental do destino humano poder encontrar o caráter definitivo de sua existência tão somente na rivalidade interminável entre a dúvida e a fé, entre a tentação e a certeza. Talvez seja justamente a dúvida, que preserva ambos da reclusão exclusiva em seu próprio eu, o lugar em que a comunicação poderá realizar-se. É ela que impede ambos de se fecharem completamente em si próprios, é ela que quebra a casca de quem tem fé, abrindo-o para aquele que duvida, e abre a casca de quem duvida para aquele que tem fé; para um, a dúvida é a sua maneira de participar do destino do incrédulo, para o outro é a forma que a fé encontra para continuar sendo um desafio para ele.”

++++

(*)RATZINGER, J. “Introdução ao Cristianismo”, Ed.Loyola, 2005, trad. Alfred J. Keller, p.36.

(1)BUBER, Martin. “Werke III”, Munique e Heildeberg, 1963, p.348.

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