Seven-Sided Poem, Drummond in English

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UMA DAS excelentes descobertas destas férias na América é (tem sido) a poetisa Elizabeth Bishop.


Comecei lendo-a em nota de Hirsch – em “How to Read a Poem and Fall in Love with Poetry” -, onde o professor Edward Hirsch fala sobre (e transcreve) o poema “One Art” – leia o post com a tradução de Nelson Ascher.

Encontrei em “Uma certa Arte” a magia estudada de Elizabeth – um trabalho laborioso sobre uma forma franco-italiana, adotada pela Poesia norte-americana (villanelle).

Soube depois que Elizabeth vivera no Brasil, onde escreveu muito, entrosou-se na cultura e na vida política e viveu um grande amor, apaixonada que foi pela arquiteta Lota de Macedo Soares (responsável pelo paisagismo do Aterro do Flamengo).

Mesmo confessando nunca ter aprendido a bem falar o português, Elizabeth lia os jornais, livros e conversava com um círculo de amigos de alta cultura no Brasil, onde também recebia amigos e jornalistas norte-americanos, interessados na “imigrante” afetiva. Ela chegou a ter uma casa em Ouro Preto, cidade da qual participou e “palpitou”- p.ex., até mesmo sobre assuntos comezinhos, como a necessidade de a cidade implantar um sistema de esgotos…

E do Rio, sabe-se que Bishop falava mal da falta de infra-estrutura e do mal funcionamento dos mais banais serviços – como elevadores nos prédios de então – isso aparece em suas cartas e até mesmo em Poemas:

Ó, turista,
então é isso que este país tão longe ao sul
tem a oferecer a quem procura nada
[menos
que um mundo diferente, uma vida
[melhor?
**** No original:
“Oh, tourist,
is this how this country is going to answer you
and you immodest demands for a different world,
and better life, and complete comprehension
of both at last, and immediately,
afeter eighteen days of suspension?
“Chegada em Santos”, 1952, tradução de Paulo Henriques Britto

Mas voltemos ao foco deste post que o Poema das Sete Faces do poeta Carlos Drummond de Andrade. Elizabeth Bishop encontrou soluções interessantes para o difícil (e quase intraduzível) quinteto drummondiano:

“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mas vasto é meu coração.
(CDA).

Pois bem, de forma criativa e ‘imaginosa’, Bishop faz de Raimundo um Eugene, de mundo, Universe; e mantém a rima no estilo próprio, com o acento anglófono – com um bom resultado:

“Universe, vast universe,
if I had been named Eugene
that would not be what I mean
but it would go into verse
faster.
Universe, vast universe,
my heart is vaster.”

No entanto, ciente das limitações que sua versão podia conter, transcreve o quinteto em português, permitindo ao leitor tirar suas conclusões.
Abaixo, transcrevo o poema na versão inglesa, na íntegra:

SEVEN-SIDES POEM (Poema das 7 faces) – Carlos Drummon de Andrade, vertido ao inglês por E. BISHOP.DrummondandBishop

When I was born, one of the crroked
angels who live in shadow said:
Carlos, go on! Be gauche in life.

The houses watch the men,
men who run after women.
If the aftrnoon had bee blue,
there might have been less desire.

The trolley goes by full of legs:
white legs, black legs, yellow leg.
My God, why all the legs?
my heart asks. But my eyes
ask nothing at all.

The man behind the moustache
is serious, simple and strong.
He hardly ever speaks.
He has a few, choice friends,
the man behind the spectacles and the moustache.

My God, why has Thou forsaken me
if Thou knew’st I was not God,
if Thou kenw’st that I was weak?

Universe, vast universe,
if I had been named Eugene
that would not be what I mean
but it would go into verse
faster.
Universe, vast universe,
my heart is vaster.

I oughttn’t to tell you,
but this moon
and this brandy
play the devil with one’s emotions.
****
FONTE: Livros das fotos acima e blogs, sobretudo em blog-revista Escamandro, onde mais (e aprofundadamente) se pode ler sobre Elizabeth Bishop, seguindo este link (traduções Escamandro).  Deixei de transcrever o poema original de Drummond, por ser de domínio público. (AQ).

No mínimo…#11

Bishop_AntologiaBrazilianPoetry

ManuelBandeira_thumb.jpgMANUEL BANDEIRA (1886-1968), poema vertido ao inglês por Elizabeth Bishop.

O ÚLTIMO POEMA MY LAST POEM
Asssim eu queria o meu último poema I would like my last poem thus
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos
intencionais
That it be gentle saying the simplest and least
intended things
Que fosse ardente como um soluço de                                                     lágrimas That it be ardent like a tearless sob
Que tivesse a beleza das flores quase sem                                              perfume That it have the beauty of almolst scentless                                                          flowers
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos The purity of the flame in which the most limpid Diamonds are consumed
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação. The passion of suicides who kill themselves without explanation.

Esta Antologia provê uma visão de 14 poetas brasileiros notáveis à altura da publicação (1972), de uma geração que os editores intitulam “Modern Generation” e da Geração do pós-guerra (A Geração de ’45). De Manuel Bandeira a Ferreira Gullar, a antologia contempla aqueles poetas que passaram na seleção de leitura da “estrangeira” Bishop vivendo no Brasil, com a sua sensibilidade poético-cultural aguçada. Incluir Marcos Konder Reis entre os 14 seletos, parece um critério advindo do grupo de convivência da poetisa e de sua companheira Lota de Macedo Soares, quem sabe?!

Constata-se que Bishop e Emanuel Brasil conseguem uma visão interessante, embora não abrangente da poesia brasileira, para americano v(l)er, reunindo diversos tradutores – entre eles Ashley Brown que encarou com êxito a versão para o inglês de alguns trechos de Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto.

Ainda na mesma antologia, temos 20 poemas de João Cabral de Melo Neto (incluindo os trechos de Morte e Vida), vertidos ao inglês por diferentes poetas (e tradutores) norte-americanos. Cabral é o mais aquinhoado na antologia e isso porque deve ter correspondido ao que mais agradou a Elizabeth Bishop – em sua descoberta do nosso país – onde viveu por mais de 15 anos, aprendendo a ler e a escrever nosso idioma (a falar nem tanto, como dizia em carta a amigos).

Quem sabe em futuro próximo, volte com outras transcrições? Por ora, fica o Bandeira acima e esta imagem “scanned” de A Educação pela Pedra, traduzido por James Wright.
CabralEm Ingles By Wright


Fonte: An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry”, Edição e introdução de Elizabeth Bishop e Emanuel Brasil. Trad. Bishop et alli. Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut, 1972; p.2/3.

No mínimo…#9

Mapa antigo (2)

Cadernos de Sizenando – 2  (GEOGRAFIA) – Adalberto de Queiroz.

Geografia IGlobo antigo

Quando a Vila Jaiara era do mundo
O centro vital; se mais longe houvesse,
Lá chegara, aos saltos, de susto tomado
Em mim mesmo; silente rezava o missal.

Corria pelos campos – da savana, cerrado.

O medo do sistema heliocêntrico
Ainda não perdera: o medo de ser
Só. Eu vivia com meus irmãos e irmãs –

Éramos uma centena de bichinhos
Em torno de nossa mãe adotada,
A quem chamávamos de Senhora.

E em torno dela, tudo girava, girava…

Os grandes mandavam-nos, sorrateiros,
Andar pelo cerrado em busca de tudo:
Gabirobas, cajuzinhos, goiabas …
Na Vila Jaiara havia tanta coisa mais.
A casa de Helena; de deuses onde doces.
Que à caminhada tornava clara para nós.
Centro luminoso em que a ceia do Senhor.

Não havia São Paulo ou Rio de Janeiro –
No máximo: Belo Horizonte, Araxá
Povoavam nossos sonhos.
E talvez Ouro Preto e Divinópolis –
Onde Dora reinava…

– Goiânia, São Petersburgo e Tegucigalpa – só no Atlas.

Anápolis era outra estória: a cidade, o comércio longe demais…

Ali na Jaiara estava o centro de tudo
e no centro de tudo o amor:
Laíde Epifânia me nomeara “Maninho”.

Naquele tempo, na nossa vila, não passava um rio.
Mas havia a fábrica de tecidos, onde Jorge –
Noivo de minha irmã – tecia a união e afeto
E me ensinava a andar de bicicleta.

Do Vietnã,  só soube no ginásio.
Ψ.Ψ.Ψ.Ψ
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Fonte: Cadernos de Sizenando, vol. II, 2016 (no prelo).
Do mesmo autor, leia mais.

 

Compre o eBook do Autor.

No mínimo…dia #8

Paul Serusier + Mignonne

PIERRE RONSARD (1524-1585), traduzido ao português por Mário Laranjeira.

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Pierre Ronsard

Da série de posts “No mínimo, um poema ao dia”  – Dia 8.

À Cassandre A Cassandra
Mignonne, allons voir si la rose Querida, vamos ver se a rosa
Qui ce matin avait déclose Que esta manhã abriu garbosa
Sa robe de pourpre au soleil Ao sol seu purpúreo vestido,
A point perdu cette vêprée Não perdeu, da tarde ao calor,
Les plis de sa robe pourprée, De sua roupa a rubra cor,
Et son teint au votre pareil. E o aspecto ao vosso parecido.
Las! Voyez comme em peu d’espace, Ah! Vede como em curto espaço,
Mignonne, elle a dessus la place, Querida, caiu em pedaços,
Las! Las! Ses beautés laissé choir! Ah! Ah! A beleza que tinha!
O vraiment marâtre Nature, Ó mesmo madrastra Natura,
Puis qu’une telle fleur ne dure Pois que uma flor assim não dura
Que du matin jusques au soir! Senão da manhã à tardinha!
Donc, si vous me croyez, mignonne, Então, se me dais fé, querida,
Tandis que votre âge fleuronne Enquanto a idade está florida
Em as plus verte nouvautée, Em seu mais viçoso verdor,
Cueillez, cueillez votre jeunesse: Colhei, colhei, a mocidade:
Comme à cette fleur, la vieillesse A velhice, como a esta flor,
Fera ternir votre beauté. Fará murchar vossa beldade.

Este poema de Ronsard é tão famoso que até versão para piano possui. Veja a partitura e o video no link abaixo:

Ronsard_Pianomignonne-allons-piano
 

Fonte: “Poetas Franceses da Renascença”, Seleção, apresentação e tradução de Mário Laranjeira. S. Paulo: Martins Fontes Edit., 2004; p.72/73. Crédito da foto em destaque: ilustração tirada ao blog Blue Lantern, de  (c) Paul Serusier – Mignonne, allons voir si la rose, Fondation Bemberg, Toulouse. Leia Mais em Jane Librizzi.