Sábado com Emily Dickinson Ou 35/100*

Mes chers amis:
Que o vosso fim-de-semana seja de bom repouso e alegrias em família.

A Spider sewed at Night
Without a Light
Upon an Arc of White.

If Ruff it was of Dame
Or Shroud of Gnome
Himself himself inform.

Of Imortality
His Strategy
Was Physiognomy.
(1138)

Durante a noite a aranha
Teceu sem nem uma lâmpada
Sobre uma arcada branca.

Se rufo que a dama orna,
Ou se mortalha de gnomo –
Ela, ao se enformar, se informa.

Para a Imortalidade –
Sua Estratégia –
(Era) A Fisionomia.
(1138)

Fonte: Dickinson, Emily (1830-1886). “Uma Centena de Poemas“. P.136/7.
Trad., intr. e notas por Aíla de Oliveira Gomes. Obs.: não me contive e adicionei o apodo (Era) no último verso.
Mea culpa. Poética culpa.
Post-post: Os comentários da tradutora são outro Poema – confira no texto abaixo (op.cit, p. 227/9):
“Se nas adaptações para a língua portuguesa não se apensassem comentários, que são em grande parte justificativas do tradutor, esse poema teria de ser excluído, porque é praticamente intraduzível. De princípio a fim ele resiste a adaptações.
Logo na primeira estrofe, perdeu-se a tríplice rima, em luminoso ditongo, e, na terceira, a outra tríade rímica de rara leveza e com instabilidade de acentuação particularmente sugestivas; na segunda estrofe, evolou-se a música das assonâncias. Problemas maiores, porém – e insolúveis – estavam nas palavras “inform” (verso 6) e “Physiognomy” (verso 9).
Os dicionários ingleses mais modernos geralmente só trazem os sentidos correntes, atuais, do verbo ‘inform'(dar informação a respeito de alguma coisa; apresentar infromes contra alguém); mas o Webster de Emily, bem como o Shorter Oxford, realçam o sentido etimológico de ‘dar forma ou feição’, registrável, inclusive, em Shakespeare. A autora pode, em consequência, superpor as duas acepções da palavra (informar e enformar), obtendo com isso um sagaz trocadilho, que permite leitura concomitante em duas chaves: só a aranha pode informar – e informa-se – sobre o que representa o desenho de sua teia; ao mesmo tempo, entende-se que o que está ali criado é a sua própria forma ou feição – ela a si própria se dá forma a seu gosto, se enforma através do’pattern’que teceu. Ao enformar-se, informa-se a seu próprio respeito: conhece-se no espelho de sua arte.
Em português, seria preciso optar por uma de duas formas, com diferentes significados, na certeza de que uma excluiria a outra. Com ou sem razão – ao leitor fica o julgamento, – arranjou-se um meio de usar (no verso 6) as duas formas, a do verbo informar e a que guarda o sentido etimológico, mas adentrado no pensamento do poema (enformar).
Outro impasse foi a palavra-fecho – “Physiognomy”. Cf. Webster:
“[<Gr.physiognomonia <physis + gnomon].
1.Art of discovering temperament and characer from outward appearance, esp. from facil features.
2.Face or contenance.
3. External aspect; hence, inner character as revealed outwardly.”
O Novo Dicionário Aurélio abre um item para “fisionomia”, que corresponde à definição 1. acima, – termo de que não se poderia cogitar, dada a raridade de seu emprego e estranheza da forma.
Não há dúvida, entretanto, de que E.D. há de ter tido em mente o sentido original (sem forma diversa em inglês). “Fisionomia”, conforme se emprega no poema, é aquela que a aranha cria para a projeção de sua imagem, tal como a deseja, e tal como quer deixá-la para a posteridade (imortalidade artística).
É assim que, com versos elípticos, deliberadamente obscuros, e com termos equívocos, Emily nos confidencia, “em oblíquo”, a respeito de sua própria estratégia: sua fisionomia, diferente da que ela descreve em cara a Higginson, a mais real e verdadeira, a que ela queria saber perpetuada, como num retrato, é a dos poemas elaborados com a seda de suas entranhas espirituais. A nota de ironia está na imagem de fragilidade escolhida. Outros poemas lamentam a indiferença com que se espanam as teias de aranha – “an Artist” (cfme. 1275, op. cit.) e também 605 e 1423).
Ao poema em discussão caberiam as críticas às vezes feitas a poetas modernos muitos herméticos, cuja leitura exige prévia decifração; a insistëncia em inclui-lo explica-se pelo desejo de apresentar Emily Dickinson em todas as suas facetas, – entre elas, a sua espantosa atualidade na arte de poetar.

(Op. cit – p.228/229).

Emily Dickinson, 33/100*

Pain…(650)

Pain – has an Element of Blank –
It cannot recollect
When it begun – or if there were
A time when it was not –
It has no Future – but itself –
Its Infinite contain
Its Past – enlightened to perceive
New Periods – of Pain.

A Dor – tem um elemento em branco.
Desde quando doi

Não se recorda, nem se houve
Tempo em que ela não foi.

Seu futuro – só ela mesma;
Seu infinito contendo
O seu passado – que deixa ver
Novos períodos – doendo.

+++++
(*) Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas”.
Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 92/93

Emily Dickinson, 32/100*

Hoje cedo postei este 32º. poema de Emily, sem lembrar-me que esse havia sido o 2º. da série (em 2008).
Portanto, meus 3 leitores ganham mais um poema do mesmo volume – ver Fonte (1 e 2*) – que espero preencham seu sábado com um toque poético de qualidade.

I stepped from Plank to Plank
A slow and cautious way
The Stars about my Head I felt
About my Feet the Sea.

I knew not but the next
Would be my final inch –
This gave me that precarious Gait
Some call Experience.

A tradução de dona Aíla:

Pisava de prancha em prancha
Com cuidado e devagar,
Acima da cabeça sentia as estrelas,
E em volta dos pés o mar.

Não previ que mais um passo
Já não podia ir avante –
Donde esse meu jeito de andar hesitante,
Que chamam experiência.

————————————————–

(2)

You cannot make remembrance grow
When it has lost its Root –
The tightening of the soil around
And setting it upright
Deceives perhaps the Universe
But not retrieves the Plant
Real Memory, like Cedar Feet
Is shod in Adamant
Nor can you cut Remembrance down
When it shall once have grown –
Its Iron Buds will sprout anew
However everthrown –
A lembrança, ninguém a faz crescer
Quando perdeu a raiz.

Apertar-se em volta a terra
Mantê-la ereta, talvez
Possa enganar o universo
Mas não recupera a planta.

A memória verdadeira
É como o cedro – tem pés
Calçados em diamante.
Nem se pense que adiante
Cortá-la, se já arraigou:
Seus brotos de ferro irrompem
Novamente, se alguém a derrubou.

+++++
(*) Fonte: (1) Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas”.
Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 118/119.
(2) Idem, pág. 140/141.

Emily Dickinson, 30/100*

I sing to use the Waiting
My Bonnet but to tie
And shut the Door unto my House
No more to do have I
Till His best step approaching
We journey to the Day
And tell each other how We sung
To keep the Dark away

Canto para usar a Espera.
É só atar o chapéu
E fechar a porta da casa –
Nada mais preciso eu,

Até que Ele, enfim, chegando,
Viajemos para o Dia,
Contando-nos como espantamos
O Escuro com cantoria.

+++++
(*) Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas”.
Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 116/117.

Emily Dickinson, 25/100*

Remebrance has a Rear and Front
´Tis something like a House –
It has a Garret also
For Refuse and the Mouse

Besides the deepest Cellar –
That ever Mason laid –
Look to it by its Fathoms
Ourselves be not pursued –

A recordação tem frente e fundos –
É tal e qual uma casa –
Ela também tem um sótão
Para o refugo e o rato.

E tem o porão mais fundo
Que pedreiro já cavou.
Cuidado, que dos desvãos
Não nos venha asssombração.

Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de poemas“. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Ed. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1985, p.136-137.
Comentários de Dona Aíla: “No original o primeiro verso tem 8 sílabas e os demais, 6; na tradução, respectivamente, 9 e 7. Não ocorreram rimas que parecessem naturais; jogou-se então com ecos e recorrências de sons vocálicos mais ´fundos`.
Nas últimas linhas, o afastamento da literalidade não parece ferir o sentido. Substituiu-se ´fathoms` (medida de profundidade, sonda, profundidade) por ´escavação`, pois ousou-se uma adaptação, com acréscimo, ´assombração`, onde há conotações de algo que persegue.
Este é um dos muitos poemas-definição, onde não faltaram o ´wit` dickinsoniano, nem a imagem familiar, caseira, para as perplexidades da mente – esse tema obsessivo de Emily Dickinson. Incessantemente ela se perscruta, procura entender o mecanismo da consciência, discrimina suas faculdades, espanta-se com sua infinita expansão, assusta-se com sua imprevisibilidade. Mas nunca se deixa embair por abstrações; nem uma vez deixará de testá-las em imagens cotidianas, concretas que provêem analogias ou personificam ou, ao menos, corporificam os fenômenos mentais que a intrigam e fascinam. (op. cit. pág. 229).

Emily Dickinson, 24/100*

The Poets light but Lamps
Themselves – go out –
The Wicks they stimulate –
If vital Light

Inhere as do the Suns –
Each Age a lens
Disseminanting their
Circumference –

Os Poetas acendem lâmpadas –
Eles próprios se apagam
Os pavios que espevitam –
Se, ali, luz vital

Como em sóis, ganham inerência –
Cada época, uma lente
Disseminando-lhes sua
Circunferência.

Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de poemas“. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Ed. T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1985, p.118-119.

Emily Dickinson, 19/100*

The Soul unto itself
Is an imperial friend –
Or the most agonizing Spy –
An Enemy – could send –

Secure against its own –
No treason it can fear

Itself – its Sovereign – of itself
The Soul should stand in Awe

A alma para si mesma
É imperial companhia –
Ou – como se de inimigo –
Ela é torturante espia.

Segura contra si mesma
Trair-se não é de supor –
Mas sendo de si rainha –
Ela se infunde terror.

+++
(*)Fonte: Dickinson, Emily. “Uma Centena de Poemas“ (383). Tradução Aíla de Oliveira Gomes, T.A.Queiroz Ed/Usp, 1985, pág. 100/101.
Se o leitor nota uma certa ” traição” (na tradução) ao sentido do verso original nessas duas linhas:
Or the most agonizing Spy –
An Enemy – could send –

Traduzido por dona Aíla com certa liberdade poética ou, ainda, nas duas últimas linhas que se apresentam como recriação do poema original, apresso-me a trazer a explicação da página 202 (op.cit.) – ricos comentários sobre as traduções quase sempre magníficas de Aíla:
Adaptação aproximada, que não trai o sentido; não se pôde evitar que fosse diminuída a majestade da expressão no fechamento do poema, onde as duas últimas linhas como que solenemente se perfilam e se põem de pé.
“Uniformizou-se o setissílabo para o poema todo, embora, no original, os terceiros versos se alonguem.

É interessante notar que sou tomado pela mesma obsessão da tradutora, que confessa ter começado essa empreitada “a princípio, como um simples entretenimento do espírito“. Depois, no entanto, essas transformaram-se “numa quase obsessão: ilusão, talvez, de estar-se poetando num estilo que se escolheria para poetar.”
Eis o mistério e a provocação dessas transcrições que enriquecem minhas manhãs de sábado.