Crônica publicada em O POPULAR, Goiânia, homenagem ao poeta gaúcho Carlos Nejar
Não me canso de repetir a afirmação do filósofo alemão Martin Heidegger para quem “a poesia é o nomear que institui o ser e a essência de todas as coisas”. É um pensamento similar ao que disse o filósofo checo-brasileiro Vilém Flusser, para quem antes de entendermos o perfume da rosa ou o sabor da maçã foi preciso que alguém as nomeasse. Por isso, a boa poesia é quase sempre uma alma inaugurando uma forma.
E é por essa forma mágica que os poetas nos influenciam de forma profunda, exatamente por se conectarem conosco de alma para alma. Foi sempre assim que me senti ao ler os grandes poetas. Emoção que se renova agora ao ter a honra e a chance de estar face a face com grandes ícones da literatura brasileira.
Em uma curta viagem ao Rio de Janeiro, tive a honra de visitar a Academia Brasileira de Letras e me sentar ao lado de muitos imortais e com alguns deles manter diálogo literário.
Ali pude sentir a atmosfera fascinante da Casa de Machado de Assis e tive a chance de conhecer as duas bibliotecas – a exclusiva dos acadêmicos e a que é aberta a visita de leitores e pesquisadores.
Nada, no entanto, se comparou à alegria e à emoção de ter ficado próximo do grande poeta brasileiro Carlos Nejar por duas curtas, mas intensas oportunidades, durante esta viagem – momentos que me levaram a uma reflexão sobre sua obra e sua capacidade de influenciar e inspirar tantos leitores de diferentes gerações.
Tive a sorte de conhecer o Nejar no vigor dos seus 39 anos, quando me autografou gentilmente dois de seus livros, tendo sido “O chapéu das estações” o que mais me serviu prazer na leitura. Passadas quase cinco décadas dessa dedicatória, reencontro no octogenário o afeto e sorrisos da juventude, quando recordei a ele os autógrafos que me havia dedicado na Porto Alegre em que morávamos eu e minha mulher.
Desde então, uso com muito conforto este chapéu poético como símbolo de amizade fraterna entre autor e leitor, mesmo sem nunca termos convivido como agora. É a pátria comum da literatura que me faz admirá-lo tanto quanto admiro o norte-americano Walt Whitman ou a polonesa Wislawa Szymborska. E isso me faz voltar a ler o poeta com alegria.
Afinal, um livro se refaz quando o lemos e pode se tornar outro e novo (como o rio de Heráclito) quando o relemos quase meio século depois, como nesses versos de seu livro antigo e tão novo a cada releitura.
“Nossa pátria: andar à margem como chapéu das estações e nenhuma bagagem.”
Novamente, eu sou levado a me apoiar em Mário Quintana, para quem a aura dos poemas depende da sensibilidade do leitor. É isso que cria uma espécie de magia, digo eu, roubando a ideia dele de que é necessário dar um nome a esses momentos, pois, afinal, “um nome é coisa essencial em magia, porquanto a arte do verso é um ramo das artes mágicas”.
A magia do reencontro estava ali inscrita, donde se conclui que os milhões de habitantes do Rio já não me interessavam tanto, tampouco suas praias e os inúmeros pontos que atraem turistas de todo o mundo, nem sempre abertos àquela porção da arte mágica da Poesia com sua capacidade de evocar emoções profundas e duradouras.
E se a crônica é mesmo a poesia do momento, e deve se prestar mais a deliciar o leitor do que servir de instrumento pedagógico, retorno à inspiração inicial, deixando para você essa pepita, guardada sob o chapéu do mágico Nejar, que me encantou a ponto de sequer me permitir (nem desejar) molhar os pés no mar de Copacabana:
“Nos sentamos na tora de um milênio, A história nos molha, nos invade com sua língua precária.” (Carlos Nejar)
Escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Autor de “Entre esplendores e misérias” (seleta de crônicas) e “Cadernos de Sizenando” (poesia), entre outros títulos.
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