No mínimo…Mil palavras

MIL PALAVRAS.
POEMA DE NELSON ASCHER.

p/ ny

Quanto mais eu, que vi
(digamos) tudo, vejo,
mais vejo que uma imagem
vale por mil palavras.

Quanto mais vejo ( e vi
de tudo), mais provável
parece que uma imagem
(digamos, um avião

rumo a um arranha-céu)
vale por mil palavras.
Por tudo o que já vi,
quanto mais vejo, menos

duvido que uma imagem
(digamos, outro avião
rumo a outro arranha-céu)
vale por mil palavras.

Quanto mais vejo, menos
tenho, pois uma imagem
vale por mil palavras,
a ver (digamos, quando

se cravam dois aviões,
duas facas de obsidiana,
em dois arranha-céus)
com tudo o que já vi.

Agora que vi tudo
(já que, de tudo aquilo
que acabei vendo, nada
mais há para se ver),

quanto mais vejo, menos
tenho a dizer, exceto
(digamos) que uma imagem
vale por mil palavras.

./.
Do livro “PARTE ALGUMA: Poesia (1997-2004)”, Nelson Ascher, S. Paulo : Cia. das Letras, 2005, p.36/7.

Imortal Jorge de Lima, apesar de a Academia achar que não!

LEIA-SE, dizia Manuel Anselmo em 1939, no Ensaio de Interpretação Crítica sobre A Poesia de Jorge de Lima:

Poema “Acendedor de Lampiões”, do livro XIV Alexandrinos (1907)
O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
****************************************
Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sobra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

—–
“LEIA-SE, com atenção, esse seu [dele, Jorge] célebre soneto “O Acendedor de Lampiões”, que consta hoje de várias antologias brasileiras…Aqui está, afinal, uma atitude de solidariedade humana que não destoa daqueloutra que consta dos seus poemas negros, por exemplo, “Pai João”, e se continua, com intensidade, nas páginas do seu romance “Calunga”. Além disso, esse soneto acusa uma facilidade verbal que não é, aliás, irmã dos esforços deslumbrados desses ourives florentinos que foram os parnasianos. Erradamente se apelidou, pois, de parnasiana, uma experiência que foi, afinal, clássica e tradicional.”

(*) Transcrito de Jorge de Lima, Poesia Completa, vol. I, p.37/8.

A JORGE DE LIMA* por Murilo Mendes

POEMA FALADO por mim em SoundCloud.

Jorge de Lima+CapaVol1ObraCompleta

A JORGE DE LIMA (por Murilo Mendes)
INVENTOR, teu próprio mito, Jorge, ordenas,
e este reino de fera e sombra,
Herdeiro de Orfeu, acrescentas a lira.

À mesa te sentaste com os cimeiros
Dante, Luís de Góngora, o Lusíada,
e Lautréamont, jovem sol negro
que inaugura nosso tempo.

O roteiro traçando, usaste os mares.
A ilha tocas, e breve, a configuras:
ilha da realidade subjetiva
onde a infância e o universo do mal
abraçam-se, perdoados.
Tudo o que é do homem e terra te confina.

Inventor de novo corte e ritmo,
sopras o poema de mil braços
fundas a realidade.
Fundas a energia.
Com a palavra gustativa.
A carga espiritual
e o signo plástico
nomeias todo ente.

Oh frêmito e movimento do teu verso
mantido pela forte e larga envergadura.
Força da imagem que provoca a vida
e, respirando, manifesta
o mal do nosso tempo, em sangue exposto.

Aboliste as fronteiras da aparência:
no teu livro de espanto se conjugam
sono e vigília,
vida e morte,
sonho e ação.

Nutres a natureza que te nutre,
mesmo as bacantes que te exaurem o peito.
Aplaca tua lira a pedra, a angústia:
cantando clarificas
a substância de argila e estilhaços divinos
que mal somos.
+++++
Poema publicado em “Letras & Artes”, suplemento do jornal A Manhã, Rio de Janeiro, 24 de agosto 1952.

Da tríade ao Quarteto

A ALEGRIA da descoberta deste artigo de José Carlos Zamboni opera a necessidade de repensar a tríade dos católicos-poetas do Brasil no séc. XX, transformando-o em um quarteto. Ainda hei de descobrir o 4o. elemento, o poeta Tasso da Silveira, de quem Zamboni perfila:

Poeta Tasso da Silveira“O mais homogeneamente católico dos nossos poetas católicos foi sem dúvida o curitibano poeta Tasso da Silveira, cuja obra se encontra infelizmente esquecida dos editores e do público. Quando for reeditado, os futuros leitores de poesia tombarão de espanto (na remota hipótese dessa espécie, a dos leitores de poesia, sobreviver aos predadores culturais desta e das próximas décadas).”

Tudo que conheço dele é este poema gravado por Ted Rocha – Curitiba da infância morta. Confiram.

À medida que minha pesquisa avance, hei de trazer-lhes mais poemas.

O pão (espiritual) cotidiano de todos…

Coisas de Cabeceira, Recife & Sevilha: Tecendo a Manhã

João Cabral de Melo Neto
Capa_Antologia Cabral
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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Coisas de Cabeceira: Recife
Diversas coisas se alinham na memória
numa prateleira com o rótulo: Recife.
Coisas como de cabeceira da memória.
a um tempo coisas e no próprio índice;
e pois que em índice: densas, recortadas,
bem legíveis, em suas formas simples.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
o combogó, cristal do número quatro;
os paralelepípedos de algumas ruas,
de linhas elegantes, mas grão áspero;
a empena dos telhados, quinas agudas
como se também para cortar, telhados;
os sobrados, paginados em romancero,
várias colunas por fólio, imprensados.
(Coisas de cabeceira, firmando módulos:
assim, o do vulto esguio dos sobrados).
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Coisas de cabeceira: Sevilha
Diversas coisas se alinham na memória
Numa prateleira com o rótulo: Sevilha.
Coisas, se na origem apenas expressões
De ciganos dali; mas claras e concisas.
A um ponto de se condensarem em coisas,
Bem concretas, em suas formas nítidas.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
não esparramar-se, fazer na dose certa;
por derecho, fazer qualquer que fazer,
e o do ser, com a incorrupção da reta;
con nervio, dar a tensão ao que se faz
da corda de arco e a retensão da seta;
pies claros, qualidade de quem dança,
se bem pontuada a linguagem da perna.
(Coisas de cabeceira somam: exponerse,
fazer no extremo, onde o risco começa).
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Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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FONTE: Poemas da Antologia “Poesias Completas: João Cabral de Melo Neto”, Ed. José Olympio, 1979, 3a.ed.