Projeto Poesia Falada (XXXV)

Poeta Brasigóis Felício. (c)Foto de Programa Raízes Jornalismo Cultural.
Poeta Brasigóis Felício. (c)Foto de Programa Raízes Jornalismo Cultural.

Poesia Falada continua. Abram alas (e ouvidos) a Alberto Da Costa e Silva

Poemas de Alberto Da Costa e Silva.
Link para Academia Brasileira de Letras. consultado em 29-Jun-2015.

Coisas de Cabeceira, Recife & Sevilha: Tecendo a Manhã

Capa_Antologia Cabral

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
Que, tecido, se eleva por si: luz balão.

separador
Coisas de Cabeceira: Recife
Diversas coisas se alinham na memória
numa prateleira com o rótulo: Recife.
Coisas como de cabeceira da memória.
a um tempo coisas e no próprio índice;
e pois que em índice: densas, recortadas,
bem legíveis, em suas formas simples.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
o combogó, cristal do número quatro;
os paralelepípedos de algumas ruas,
de linhas elegantes, mas grão áspero;
a empena dos telhados, quinas agudas
como se também para cortar, telhados;
os sobrados, paginados em romancero,
várias colunas por fólio, imprensados.
(Coisas de cabeceira, firmando módulos:
assim, o do vulto esguio dos sobrados).
separador

Coisas de cabeceira: Sevilha
Diversas coisas se alinham na memória
Numa prateleira com o rótulo: Sevilha.
Coisas, se na origem apenas expressões
De ciganos dali; mas claras e concisas.
A um ponto de se condensarem em coisas,
Bem concretas, em suas formas nítidas.
2
Algumas delas, e fora as já contadas:
não esparramar-se, fazer na dose certa;
por derecho, fazer qualquer que fazer,
e o do ser, com a incorrupção da reta;
con nervio, dar a tensão ao que se faz
da corda de arco e a retensão da seta;
pies claros, qualidade de quem dança,
se bem pontuada a linguagem da perna.
(Coisas de cabeceira somam: exponerse,
fazer no extremo, onde o risco começa).
separador

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

separador
FONTE: Poemas da Antologia “Poesias Completas: João Cabral de Melo Neto”, Ed. José Olympio, 1979, 3a.ed.

A parte e o Todo…Revoada!

Dica: consuma com moderação.
Leia o poema enquanto ouve Melody Gardot…

Cris_Revoada

Cris_Revoada
A Parte e O Todoot.

Obrigado, Cris.
Bravo!

Dante Milano Revisitado

DANTE MILANO (1889-1991) *

Poeta Dante Milano (Portinari)

Dante Milano (1889-1991)

EM “MAR ENXUTO” navega a poesia de Dante Milano, desde que Sérgio Buarque de Holanda saudou a publicação do volume “Poesias” do Milano, lançado pela José Olympio Editora, em 1948, como algo único na paisagem do modernismo brasileiro:

“…provavelmente um dos acontecimentos mais importantes de nossa vida literária nos últimos tempos. Nada, nos seus versos, se assemelha profundamente ao que foi escrito entre nós nestes vinte e trinta anos.”

PARA este leitor, amante da Poesia, o Milano foi como uma “mensagem na garrafa” que navegou nesta “planície devastada, neste mar enxuto“, desde que me chegou às mãos e conquistou-me a imaginação poética na XXIII Feira do Livro de Porto Alegre, em 1977, no verdor dos meus 22 anos…

E tal como no rosto de Eurídice – no poema Elegia de Orfeu,  este leitor:

“Em sua face expande-se o sorriso
De quem quer ser feliz sendo mortal,
E põe sua esperança no infinito,
Devastada planície, mar enxuto,
Onde reflui o sonho do que foi,
Onde o tempo passado continua.”

Enquanto me preparo para falar o longo poema Elegia de Orfeu, aproveite estes poemas falados que gravei em Soundcloud.

*Biografia do Poeta (Enciclopedia Itaú) 
Dante Milano (Rio de Janeiro RJ 1899 – Petrópolis RJ 1991). Ainda na infância, Dante Milano sofre dificuldades financeiras após o pai, o músico Nicolino Milano (1876 – 1962), abandonar a família. Impedido de cursar o ginásio, Dante torna-se auto-didata e aprende inglês, francês e italiano. Torna-se ajudante de revisor na redação do Jornal da Manhã e, aos 17 anos, revisor na Gazeta de Notícias. Ainda na adolescência, começa a escrever seus primeiros poemas. Trabalhar no Setor de Recenseamento do Estado onde conhece o diplomata e poeta Olegário Mariano (1889 – 1958), de quem se torna grande amigo. Na década de 1920, conhece muitos intelectuais e artistas ligados ao modernismo como o poeta Manuel Bandeira (1886 – 1968) e o músico Jayme Ovalle (1894 – 1955). Organiza uma antologia de poetas modernos, publicada em 1935, e traduz algumas odes do poeta latino Horácio (65 AC – 8 AC) e cantos da Divina Comédia do poeta italiano Dante Alighieri (1265 – 1321). Apenas em 1948, com quase 50 anos, Dante Milano publica o volume Poesias, reunindo sua obra então. Faz uma única viagem fora do Rio de Janeiro, seu estado natal, para visitar o pintor Cândido Portinari (1903 – 1962) no interior de São Paulo. Funcionário público aposentado desde 1964, Dante muda-se para Petrópolis em 1985. Três anos depois, recebe o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra. Morre em 1991 aos 92 anos de idade.

Comentário Crítico
Dante Milano, contemporâneo do movimento modernista, não se torna entusiasta do experimentalismo proposto pela vanguarda. Longe do lirismo cotidiano ou do poema-piada cultivados pelos modernistas da primeira geração, sua poesia procura outras fontes de referências e apresenta-se de modo bastante distinto ao leitor.

O poeta prefere adotar as formas fixas, em especial o soneto, e recuperar temas universais tais como o amor, a morte e o sonho – o tripé temático de sua obra, segundo o poeta Ivan Junqueira (1934). Por conta dessa distinção, Dante talvez tenha evitado publicar um livro de poemas nas décadas de 1920 ou 1930, realizando-o apenas na década de 1940 quando os temas universais e as formas fixas reaparecem na obra de poetas da 2ª geração modernista.

Dante Milano não participa, contudo, de nenhum grupo: sua poesia mantém uma unidade impressionante de temas, formas e estilos durante toda sua trajetória poética. Para Ivan Junqueira, Dante Milano participa de uma tradição de “poetas do pensamento emocionado”. Conjugando emoção e pensamento, percebe-se na poesia de Dante Milano uma predominância do símile sobre a metáfora, ou seja, há mais comparações diretas e transparentes do que imagens misteriosas e/ou fantásticas. (c)Enciclopédia Itaú, cfme. link citado acima.

2 Tecelãs de Goyaz: poetisas goianas e sua arte…

CLIQUE NO LINK para acessar o arquivo do SoundCloud>>>>
Adendo sonoro a Tecelãs de Goyaz, poetisas de minha terra

DarcyFrancaDenofrio

(c)http://www.statos.com/

Sônia Maria dos Santos e o autor deste blog.

Sônia Maria dos Santos e o autor deste blog.

(c)François_Barraud Femme_au_livre

(c)François_Barraud
Femme_au_livre

“Cadernos de Sizenando”, meu novo livro, será lançado na Fnac Goiânia

Amigo(a) Leitor(a),

Hoje é o grande dia para os Cadernos de Sizenando e para este blogueiro…
Aos que estão em Goiânia e região, um chamamento a que compareçam ao evento.

Aos que estão distantes de Goiânia, fica o convite para encomendar o livro na “Estante do Beto”, o meu site de vendas online.


 

Autor do blog lança livro de poemas e crônicas na Fnac/Flamboyant, 25 NOV 14, 19h00.

Hoje, estou lançando meu novo livro de poemas e crônicas na Fnac/Flamboyant, 25 NOV 14, 19h00.

 

“Cadernos de Sizenando” tem primeiras impressões de leitura…

OS PRIMEIROS LEITORES se expressam, depois da Apresentação e do Posfácio, respectivamente textos de minha “madrinha literária” – a Poetisa SONIA MARIA DOS SANTOS; e do amigo Poeta Brasigóis Felício (que já havia apresentado meu livro “Frágil Armação” (1985). 

Euler De França Belém sobre os Cadernos

Euler de França Belém comenta sobre os Cadernos de Sizenando

Agora, foi a vez do Editor-Geral do JORNAL OPÇÃO, anunciar-se como leitor atento dos Cadernos… 

Veja como foi esta primeira abordagem, fruto das primeiras impressões de leitura do jornalista Euler Fagundes De França Belém.

Experimentado leitor e detentor de alta cultura, Euler promete um artigo mais abrangente ao final da leitura…
O poeta aguarda com a ansiedade natural de todo lançamento!

Para Ler na Quaresma

JORGE DE LIMA,
– como sabem meus seis leitores,
é membro do triunvirato de poetas católicos
do Brasil, ao lado de Murilo Mendes
e Augusto F. Schmidt.

 Pequena Notícia biográfica.

Abaixo, transcrevo mais um poema deste católico exemplar e meu poeta predileto quando o tema é o Sagrado!

 


Confissões, Lamentações e Esperança a Caminho de Damasco.(*)

O MUNDO precisava de amor:
na véspera de Vossa Morte nos deixastes um legado:
a Hóstia para matar fome e sede.
E vossa Missão terminada subistes para a direita do Pai
e Lhe mostrastes as cicatrizes que Vos deixamos no corpo.
Pai Amado, eu que sou a realização de Vosso Pensamento,
dai-me complacências.
Senhor, minha Fé é diminuta: aumentai-a.
Dai-me olhos de contemplação,
dai-me respostas,
dai-me um cavalo de Vosso Reino
que tomando as rédeas de minha mãome leve para Damasco.
Pai Amado, sou cego, aleijado, e paralítico:
meus membros não darão na Cruz.
Estou calejado de perenes quedas:
Curai-me todo.
Transformai-me como transformastes o vinho.
Não me abandoneis em interrogação permanente.
Dei-vos uma costela para fazerdes Eva
e as 23 restantes a Satã para corrompê-la.
Sou colono e amicíssimo de Lúcifer.
Sou da primeira serpente, sou um prisioneiro da primeira guerra.
Dai-me um cavalo de Vosso Reino para ir a Damasco!
Sou fornecedor de armas para os filisteus.
Sou o que torpedeia a Arca e a Barca.
Sou o reconstrutor de Babel.
Sou bombeiro do incêndio de Sodoma.
Fui demitido da Vida.
e Vós me enviastes outra vez.
Demiti-me de novo que errei mais!
Sou o assassino de Lázaro,
sou plantador de joio:
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Quis afogar São Crisóvão,
transformei as algas em micróbios
e as asas em aviões de guerra!
Deu Amado, Vós que tendes sido meu pára-quedas,
meu ascensor, minha escada, minha ponte,
segurai-me para que eu não me precipite dos arranha-céus!
Dai-me um cavalo para eu fugir!
Dai-me um cavalo de Vosso Reino
e que eu sem querer vá para Damasco.
Amado Pai, no caminho de Damasco
basta uma sílaba para eu enxergar de novo,
ou um coice de Vosso cavalo para eu despertar na Luz!
+++++
(*) © Família J.L. Fonte: LIMA, JORGE de. “OBRA COMPLETA, vol.I – “A Túnica Inconsútil”, Aguilar, Rio de Janeiro, 1958, p.441/2.Jorge de Lima_Relançamento_Recorte
Post-Post: Uma boa notícia é que foi relançada a obra “Invenção de Orfeu”, por muitos críticos considerada como “o primeiro [grande] poema da brasilidade” (J.G. Simões, 1952).
E Murilo Mendes, cit. por J.G. Simões, no prefácio à 1a. edição da Invenção de Orfeu, diz:
”O trabalho de exegese do livro terá que ser lentamente feito, através dos anos, por equipes de críticos que o abordem com amor, ciência e intuição, e não apenas com um frio aparelhamento erudito”. (p.609 da OC).
Para ler mais poesias de Jorge de Lima, clique aqui.

Eu ouço música, Quintana

Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo…

Eu ouço música como quem está morto
e sente

um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá…

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.
+++
Fonte: Quintana, Mário. “Apontamentos de história sobrenatural”. P.Alegre, Globo/IEL/SEC, RS, 1976, pág. 51