Lua sobre o meu jardim (2)


Jules Laforgue  – A primeira referência a Laforgue de que me lembro como “marcante” foi mesmo em um livro do melhor novo ficcionista jovem (!) do Brasil – Sr. Alexandre Soares Silva, também conhecido como Lord Ass. Como sou francófono desde a adolescência, a minha curiosidade poética por JL prosseguiu – até porque não me lembro de nenhum verso dele apresentado por meus prof’s na Alliance Française – , e essa curiosidade virou uma busca só resolvida em Google Livros. Complainte de la Lune_Laforgue
(Já adquiri o meu volume de Litanias pela Estante Virtual, pois a edição está esgotada em livrarias).
Eu me pergunto como é que que um jovem nascido na América Latina (Montevidéo, Uruguai – como Isidore Ducasse, “Comte de Lautréamont”), em 1860, expressando-se na língua de Molière (com espanholismos aqui e ali – vide ensaio de Lisa Block de Bear, “JL Uma Figura Uruguaia”) conseguiu influenciar tanta gente?

Leia a 2a. parte de “Lamento da Lua na Província”, trad. de Régis Bonvicino, antes de continuar para o post:


Complainte Part2


– “Jules Laforgue escreveu, em 27 anos de existência, cerca de duas centenas de poemas – além de prosa criativa e prosa crítica”, revela-nos Régis Bonvicino, tradutor e organizador de “Litanias da Lua”, que traz 21 poemas e 4 pequenos ensaios de Jules, além do ensaio citado acima. Apesar de tão pouco tempo de vida e atividade poética, Laforgue influenciou gente do calibre de T.S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp. Sua mágica poética laçou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade etc.

Dia desses publiquei aqui no blog a famosa entrevista de T.S. Eliot ao Paris Review (1959). Lá ele diz (e R.Bonvicino repercute um trecho no volume citado; eu vos dou o parágrafo inteiro, leitor!):

Meus primeiros vers libres foram compostos sob o esforço de praticar a mesma forma que Laforgue…”
“…My early vers libre, of course, was started under the endeavor to practice the same form as Laforgue. This meant merely rhyming lines of irregular length, with the rhymes coming in irregular places. It wasn’t quite so libre as much vers, especially the sort which Ezra called “Amygism.”* Then, of course, there were things in the next phase which were freer, like “Rhapsody on a Windy Night.” I don’t know whether I had any sort of model or practice in mind when I did that. It just came that way.

O jovem Laforgue impressionou a pena (ou o teclado) crítica(o) de Edmund Wilson: Laforgue_R.Bonvicino(1)
“…Laforgue é um excelente poeta, dos mais notáveis entre os simbolistas” e cria o rótulo
“coloquial-irônico” para designar a vertente de JL, oposta àquela “sério-estética” de Mallarmé e Verlaine. Para Wilson (1), Laforgue e Corbière “trouxeram nova variedade de vocabulário e nova flexibilidade de sentimento”.  Ambos, morreram jovens,  vítimas da tuberculose. Ainda sobre Laforgue, diz o crítico norte-americano E. Wilson:

“A sua (dele Laforgue) meiguice e tristeza são ainda as de uma criança enferma cercada de afeto, suas asperezas, suas imagens surpreendentes, sua coqueteria, seu cinismo e sua imprudência são ainda os de um escolar talentoso e vivo. Os amigos de Laforgue obtiveram-lhe o cargo de leitor da Imperatriz Augusta, da Alemanha; e, deixando-se fascinar pela filosofia germânica, ele adotou-lhe o jargão em seus versos, contribuindo assim, talvez com o elemento de obscuridade de que carecia o Simbolismo”

Acredito que o traço comum entre Eliot e A.S.Silva – gostar, deixar-se influenciar e divulgar Laforgue – é mesmo o bom-gosto.

Kirk Russell diz que os escritos de crítica de Eliot, segundo o próprio poeta, “pouco fizeram para criar modismo, mas esperava que pudessem ter ajudado a formar um gosto: Dou a palavra ao poeta-crítico T.S. Eliot entremeado com o texto Kirkiano:

“…a moda, o amor da mudança pela mudança, o desejo de algo novo, é muito efêmero; o gosto é algo que brota de uma fonte mais profunda (…) É função do crítico ajudar o público letrado de sua época a reconhecer a afinidade com a poesia de um autor, ou com um tipo de poesia, ou com uma idade poética, e não com outra”. O bom-gosto não pode ser criado; caso tenha tido alguma participação em reviver a admiração pelos poetas metafísicos, foi porque sua era o inclinara, naturalmente, àquele tipo de poesia. “Ao se disseminar a predileção pela minha poesia, igualmente crescia a preferência pelos poetas aos quais eu muito devia e sobre quem escrevera.” (3).

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Fontes: LAFORGUE, Jules. “Litanias da Lua”. Organização e Tradução de Régis Bonvicino.
Referências aos autores e livros abaixo, além do livro a que sou eterno devedor: SOARES SILVA, Alexandres. “Morte e Vida Celestina”. Rio de Janeiro, Candide edit., 2004. O leitor atento encontrará a referência a Laforgue e ao bom-gosto (em geral) em meio às deliciosas 163 páginas.
Outras referências:
(1) WILSON, Edmund. “O Castelo de Axel”, S. Paulo, Cultrix, 1993, p. 74.
(2) Ainda na Paris Review (1959) T.S. Eliot revela-nos quem foi o responsável por apresentá-lo aos poetas franceses: foi o diretório de estudantes da Universidade de Harvard, mais especificamente o seu Harvard’s literary club (ver texto abaixo).
(3) RUSSELL, Kirk. “A Era de T.S. Eliot”. É Realizações. S.Paulo, 2011, p. 594.

Ao responder à pergunta : “Did anyone in particular introduce you to the French poets?”, ELIOT primeiro ressalta que Donald Hall, seu entrevistador, estava errado, quanto a Irving Babbit, que o tinha inspirado em visão crítica e no conhecimento de escritores do seu tempo (anos 40), mas Babbit não serviu o poeta no campo da indicação poética, ao contrário, foi no diretório de estudantes de Harvard que ELIOT encontra a poesia francesa:

– “…Arthur Symons’s book on French poetry*, which I came across in the Harvard Union. In those days the Harvard Union was a meeting place for any undergraduate who chose to belong to it. They had a very nice little library, like the libraries in many Harvard houses now. I liked his quotations and I went to a foreign bookshop somewhere in Boston (I’ve forgotten the name and I don’t know whether it still exists) which specialized in French and German and other foreign books and found Laforgue, and other poets. I can’t imagine why that bookshop should have had a few poets like Laforgue in stock. Goodness knows how long they’d had them or whether there were any other demands for them.”

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