T.S.Eliot (4) com Ivan Junqueira, poeta e tradutor

IVAN JUNQUEIRA e T.S. ELIOT ou:

Como um devoto quebra o altar onde  sua poesia é incensada

e, ainda assim, se torna o maior criador da poesia inglesa?

Eliot-Meia_Idade_thumb.jpg
 legenda

 

T.S. Eliot (1888-1965)

 

 

 


– Essa a pergunta que o poeta e crítico literário Ivan Junqueira tenta responder num ensaio belíssimo (lembrando que a palavra ensaio tem também o sentido da “tentativa“) – que é uma aula para compreender um poeta considerado enigmático e difícil, erudito e fragmentário.

Por entender que esta pergunta e suas múltiplas respostas tem em Junqueira um bom ponto de parte é que repercuto o ensaio neste e em outros dois posts.

Sob o título “Eliot e a Poética do Fragmento”, Ivan Junqueira
traça com seu estilo inconfundível uma visão da erudição de Eliot e a representação do que ele chama de “fragmentação” e citação – um debruçar-se sobre as janelas da tradição (poético-literária) e reinventá-la, respeitando-a e recriando-a como um poeta inovador – o poeta par excellence do séc.XX.

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T.S.Eliot (3) + PostPost

Uma amiga querida, recentemente, indagava o porquê de Mário Faustino preferir Pound a T.S.Eliot – dúvida a que não soube responder, mesmo correndo ao meu “Poesia Completa e Traduzida”, d’onde me lembrava ter aprendido com o prof. Benedito Nunes que o autor de “O Homem e Sua Hora” era conhecedor e apreciador dos dois bardos anglófonos, a quem amou sem copiar – e “como Mestre no sentido poundiano, cultivou e aperfeiçoou formas herdadas da tradição poética“, das fontes onde dessedentou-se; mas isso é assunto para um outro post, pois que agora estou entusiasmado demais com o que Russell Kirk(*) escreve sobre T.S.Eliot.

Já sobre a amizade dos dois poetas de língua inglesa, basta dizer que Thomas adorava Pound, a quem dedica o Waste Land com uma epígrafe em Latim e essa dédicace:

Eliot, digno de todas as celebrações.
Fonte da ilustração – siga o link.

“For Erza Pound, il miglior fabbro”. Ponto. Vamos ao post, sem mais delongas.

Post no GoogleDrive  – este post é, na verdade, a continuação desse pensar e de um postzinho (transcrição no FB).

“Um funcionário de banco de modos suaves, escrevendo versos e resenhas num apartamento de Londres, estava iniciando um trabalho de restauração intelectual bem diferente das expectativas errantes de Shaw.

“Por intermédio da imaginação moral, a ordem do espírito e da comunidade poderiam ser reconquistadas; e Eliot, embora não fosse amante de belos sistemas de tipo sociológico, começara a fazer nascer em sua geração, tal faculdade imaginativa adormecida”

(KIRK, Russell. op. cit., p.188 – “A Era de T.S. Eliot: A Imaginação Moral do Séc. XX”, É Real., S. Paulo, 2011. Trad. Márcia Xavier de Brito.

Já falei aqui sobre este belíssimo livro e hei de continuar, porque Russell nos dá notícias da vida do poeta de modo crítico e com informações relevantes para compreendermos que espécie de trabalho silencioso Eliot fez para que através da “imaginação moral” pudessem ser reconquistadas a “Ordem do espírito e da comunidade”.


 

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Lua sobre o meu jardim (2)

ules Laforgue escreveu, em 27 anos de existência, cerca de duas centenas de poemas – além de prosa criativa e prosa crítica”, revela-nos Régis Bonvicino, tradutor e organizador de “Litanias da Lua”, que traz 21 poemas e 4 pequenos ensaios de Jules, além do ensaio citado acima. Apesar de tão pouco tempo de vida e atividade poética, Laforgue influenciou gente do calibre de T.S. Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp. Sua mágica poética laçou Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade etc.

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O Exílio de T.S. ElioT (1)

Caros amigos do blog:
Capa de TSEliot_Russell KirkT.S. ELIOT é o tema do tijolaço do Russel Kirk, intitulado “A Era de T.S. Eliot: a Imaginação Moral do séc. XX – da É Editora, SP, 2011, 655 páginas).
Entre uma e outra parte dos posts que pretendo dedicar à Escola de Frankfurt, permitam-me algumas anotações sobre ELIOT.
A primeira diz respeito ao capítulo 2, seção “O Exílio”.
Na primavera de 1914, Eliot partiu para descobrir “a diversidade européia”, que Kirk atribui ter-lhe sido comunicada por Santayanna, isto é, a partir da “limitação da Inglaterra”.
Eliot havia feito uma pós-graduação em Harvard (veja cronologia na obs. #1), onde fora aluno de Bertrand Russel, Irving Babbit e George Santayana – estes dois últimos os que mais o influenciaram, diz Kirk.

Depois, passara uma temporada em Paris e deixando para trás uma tese em andamento – só finalizada anos depois, de um doutorado do qual o poeta jamais sequer foi buscar o título…
”E assim, Eliot se dirigiu à bela e antiga Marburg, na primavera de 1914. Então, sem perceber o Velho Mundo o solicitava.” (pág. 172).

A estada em Marburg não permite a Eliot sequer desfazer a mala que o amigo Aiken lhe despachara, porque os acontecimentos de Saraievo colocaram os norte-americanos, às pressas, para fora do continente – diz Russell Kirk.

Na seção “O Exílio”, Russell Kirk mostra as dificuldades por que passou o poeta. Se, como queria Aiken, o incidente da partida de Marburg para a Inglaterra “provaria ser decisivo” é na Inglaterra que Eliot vai comer a “comida detestável dos britânicos” e respirar uma atmosfera de dificuldades financeiras (e diria até emocionais); porém, é na Inglaterra que “permaneceria a explorar e consolidar o novo terreno cultural, iniciando o laborioso trabalho de demarcar aquilo que lá seria o seu domínio” (Aiken, apud R. Kirk, pág. 173, citando carta da mãe do poeta – Charlotte C. Eliot a Bertrand Russell).

Em outubro de 1914, Eliot encontra-se por acaso com Bertrand Russel, que regressava de Harvard. O filósofo ex-professor – considerado por R. Kirk como “filósofo matemático iconoclasta” adota o poeta “solitário jovem norte-americano”, e diria: “duro”. Eliot vai morar,com a sua jovem esposa (Vivienne Haigh-Wood) de favor num quarto da casa de Bertrand Russel.

Os anos de dificuldade financeira levaram o poeta – que não desejava carreira acadêmica como professor universitário. E, ao contrário, foi professor assistente em escolas secundárias – como a Highgate Junior School – “um lugar adverso”, segundo um ex-aluno de Eliot; além de ministrar cursos de literatura para Adultos no Conselho do Condado de Londres.

R. Kirk assinala que o “professor-poeta ensinou francês, latim, matemática elementar, desenho, natação, geografia, história e besebol…”. Depois, ELIOT vai trabalhar no Lloyd’s Bank, no centro financeiro de Londres, onde passou a residir, tornou-se súdito britânico, tendo voltado raramente aos EUA, sendo a primeira vez 17 anos depois de ter deixado a pós-graduação em Harvard.
“…O intelectual norte-americano, hoje, quase não tem oportunidade de se desenvolver em seu país (…) deve ser um exilado”, disse T.S. Eliot em 1920. E mais: “era melhor ser um expatriado em Londres” – mesmo com a sua “detestável comida” – do que em Nova York, “a pior forma de exílio da vida norte-americana”, declarou Eliot (pág. 175).

Sobre a sua experiência como professor, ELIOT deixou frase lapidar que transcrevo em slide, justamente agora que a presidente da República “ameaça” aumentar salários dos professores, mas aguarda o melhor momento deste ano eleitoral…
T.S.Eliot cit.1
© Eliot em “To Criticize the Critic”, 1965, pág. 101 – via Google Books.

Trecho da citação acima, na tradução de Márcia Xavier de Brito:

“Sei com base na experiência que trabalhar em um banco das 9h15 às 17h30, e um sábado inteiro a cada quatro semanas, com duas semanas de férias ao longo do ano, era um descanso reparador se comparado a dar aulas em uma escola.”


(#1) A cronologia dos anos dos estudos formais do poeta Eliot é a seguinte:
Eliot Meia_Idade1906-1909 – Faz o “College” (faculdade) de Harvard, onde obtém o título de Bacharel;
1909-1910 (outonos) – Pós-Graduação em Harvard, onde obtém o grau de Mestre;
out/1910-jul/1911 – Estuda Literatura Francesa e Filosofia na Sorbonne em Paris;
Verão de 1911 – Munique (?)
1911-1913 – Harvard Graduate School – Estudos e Filosofias Hinduístas;
1913-1914 – Professor-Assistente de Filosofia em Harvard.
1914 – bolsista para Universidade em Marburg, Alemanha
(verão 14). “O Exílio” é seção do livro que se ocupa do tempo Eliotiano na Inglaterra.
(*) “Embora tivesse completado a dissertação sobre Francis Herbert Bradley em 1916, Eliot nunca requereu o título de doutor por Harvard nem buscou uma colocação profissional na Universidade” (Nota #36, pág. 168).
OBS.: A frase destacada na tradução de Márcia X. de Brito é o melhor trecho da citação de R. Kirk, mas há uma antecedente no slide que montei acima (pág.101 da obra citada), que é genial também, confira – tradução minha, portanto, sujeita a erros (aceito correções, s.v.p.):
(…) antes de preocuparmos em (contratar e) treinar mais professores, prefiro perguntar se estamos remunerando-os adequadamente. Eu nunca trabalhei numa mina de carvão, ou de urânio, nem como pescador de arenque, mas eu sei por experiência própria que, trabalhando num banco…” etc.

T.S.Eliot (ii), 1959, Paris Review

Aos interessados na figura e na pessoa do poeta Thomas Stearns Elioteliot-na-velhice, há hoje um grande acervo para estudo da vida, das idéias e da vida diária do poeta. Muito se escreveu a respeito de T.S. Eliot (1888-1965). A entrevista linkada abaixo, conduzida por Donald Hall, na edição Spring-Summer da Paris Review de 1959 pode ser um bom guia para começar a conhecer Eliot, incluindo até seu senso-de-humor.
Eu próprio já fiz um postzinho bem datado sobre o poeta de “Four Quartets”.
Paris Review – The Art of Poetry No. 1, T. S. Eliot.
(em inglês).

Mas a melhor introdução à vida, às idéias e às obras do poeta norte-americano Capa de TSEliot_Russell Kirk
estão mesmo no livro do conservador Russel Kirk (1918-1994): “A Era de T.S.Eliot: A Imaginação Moral do Século XX”(*).
Este livro pode ser considerado a obra-prima de Russel Kirk, diz o Alex Catharino na apresentação da edição brasileira do livro. Autor do clássico “The Conservative Mind”, Kirk representa para os EUA o que Edmund Burke foi para o conservadorismo na Inglaterra.

A apresentação do livro é uma pequena jóia sobre a obra e a vida de Russel Kirk – “A Vida e a Imaginação de Russel Kirk” – e faz o leitor ficar interessado em um livro referência – a autobiografia de Russel Kirk “The Sword of Imagination” (1965); ousaria dizer mesmo que a apresentação de Catharino é um pequeno grande livro dentro de outro. Um bônus para quem gosta da obra de Eliot e aprecia o autor Russel Kirk e de quem pouco sabíamos até então,  além do clássico citado acima.

O desafio de traduzir a obra de Russel Kirk para a língua de Camões é contado por Márcia de Brito, em nota inicial (p.105/6), principalmente, no que respeita às citações de passagens das obras de Eliot (poesia, teatro, ensaios etc.).

Eliot By Ivan JunqueiraCom muita propriedade, Márcia lança mão de traduções anteriores já consagradas e trazidas para o nosso idioma
por gente do peso de Ivan Junqueira, o poeta que nos deu
T.S. Eliot, Obra Completa – vol. 1: Poesia;
bem como lança mão da tradução de outro poeta –
Ivo Barroso – para o vol. 2 da Obra Completa: Teatro. /School

Ao denunciar o vazio de traduções dos ensaios e textos de Eliot, Márcia conseguiu o feito de arrancar da “É Realizações” a promessa de que os amantes de Eliot teremos traduções de “Notes Towards the Definition of Culture”, “The Idea of a Christian Society” e tambem de “The Use of Poetry and the use of Criticism”.  Soube pelo César Miranda que as notas sobre Cultura foi lançado. De fato, vale a pena acompanhar o cumprimento do restante das promessas do Editor da “É Realizações”. Thumbs up

Por ora, deixo-vos com essa pequena introdução, prometendo voltar com Notas sobre “A Era de T.S.Eliot”. Estou de acordo com o sr. Alex Catharino e espero que esta nota leve o leitor a procurar o livro que entusiasticamente recomendo:

Eliot Meia_IdadeA Editora É, ao iniciar a publicação dos livros de Russel Kirk no Brasil com o lançamento (deste) “A Era de T.S.Eliot…”, mais uma vez disponibiliza aos leitores de língua portuguesa uma obra fundamental que recorda as verdades do ‘contrato primitivo da sociedade eterna’. (…) este excelente trabalho editorial, feito por Edson Manoel de Oliveira Filho, reconhece Catharino o faz “patrono das coisas permanentes” por “ter reunido vários remanescentes em uma importante cruzada na tentativa de reverter o processo de ‘desagregação normativa’ no Brasil, o que o torna, de certo modo, companheiro da mesma batalha intelectual de T.S. Eliot e de Russel Kirk…”

++++
(*)Paris Review-59Fontes: KIRK, Russell. “A Era de T.S.Eliot: A Imaginação Moral do Séc. XX”. São Paulo, É Realizações Editora, 2011.
Website da “Paris Review”, acervo, 1959.
Au revoir, chers amis!Note

Eu bebo, logo existo (2)

Mais uma dose de bom texto e bom vinho:

Segundo R. Scruton, a famosa descrição de T.S.Eliot de uma “jornada espiritual” (em Little Gidding, 4 Quartetos) pode-se aplicar a nossa “jornada de conhecimento do Vinho”. Será?
“We shall not cease from exploration,
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time.” (T.S.Elliot)
++++
Em português, na tradução de Ivan Junqueira:
“Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E o lugar reconhecer ainda
Como da primeira vez que o vimos.”
(Lido por
Tom O’Bedlam o poema ficou assim: Little Gidding, Four Quartets, Eliot, from 4 Quartetos original inglês, por T.S. Eliot)

A boa cepa desta dose vem de “I Drink Therefore I Am” (A Philosopher’s Guide to Wine), p.54, cap. 3 (Le Tour de France). E a tradução, do vinhedo sempre exuberante do poeta brasileiro Ivan Junqueira em “POESIA, T. S. Eliot”, Nova Fronteira, 1981, pág. 234. Scruton fala do “claret”, vinho popular na Inglaterra de sua infância e quando faz o Tour de France é natural que volte ao pensador inglês, nestes termos:
”T.S.Eliot’s famous description of our spiritual journey applies equally to our journey into wine. Beginning from ‘claret’, we venture out in search of strange fruit, exotic landscapes, curious lifestyles and countries with nothing to recommend them save their wines. And after punishing body and soul wint Australian Shiraz, Argentine Tempranillo, Romanian Cabernet Sauvignon and Greek Retsina, we crawl home like the Prodigal Son and beg forgiveness for our folly. ‘Claret’ extends a warm and indulgent embrace, renewing the ancient bond between English thrist and Gascon refreshment, soothing our penitent thoughts with its quiet and clear aroma, sounding its absolution in the depths of the soul. This is the wine that made us and for which we were made, and it often astonishes me to discover that I drink anything else…” (p.54, op. cit.).
(*) Vinhos Clarete, como se diz hoje, é a forma usada para descrever os vinhos tintos de Bordeaux. Em geral, grafado com o “t” mudo: Claret. O que me lembra dos personagens de Whila Cather sobre o livro “A Morte Vem Buscar o Arcebispo”.

T.S. Eliot (1)

Um trecho de East Coker (T.S.Eliot)*

II
Que anda fazendo novembro tardio
Com tanto frêmito primaveril
E criaturas do inflamado estio
E anêmonas que sob os pés se agitam
E malva-rosas que o infinito miram
Vermelho derramado sobre cinza
E essas rosas tardias que ainda viçam
Cheias da neve dos primeiros dias?
Trovão que os astros pelo espaço arrastam
A simular vanguardas triunfais
Dispostas para embates constelados
O Escorpião combate contra o Sol
Até que o Sol e a Lua se tresmalham
Choram cometas e voam Leônidas
Caçadores de abismos e planuras
Dentro de um vórtice que arrojará
O mundo àquele fogo arrasador
Cujas centelhas se antecipam ao gelo
Que na calota polar ainda flameja.

Este era um meio de expor as coisas, mas não muito satisfatório:

1888-1965
T.S. Eliot: a sabedoria da Humildade

Um estudo perifrásico sob forma poética exaurida,
Que mesmo assim nos deixa em luta insuportável
Com palavras e significados. A poesia não importa.
Não era (para recomeçar) o que antecipadamente se aguardava.
Que valor pode ter a calma tão longamente esperada,
Com tanto ardor desejada, a serenidade outonal
E a sabedoria da velhice? Teriam eles nos logrado
Ou lograram-se a si próprios, os mais velhos de fala comedida,
Que nos legaram apenas o recibo de uma fraude?
A serenidade não passa de um embrutecimento voluntário,
A sabedoria encerra apenas o conhecimento de segredos mortos
Inúteis na escuridão a que assomaram
Ou daquela de que seus olhos se esquivaram. Há, nos parece,
Em suma, apenas um limitado valor
No conhecimento que deriva da experiência.
O conhecimento impõe um modelo, e falsifica,
Porque o modelo é vário para cada instante,
E cada instante uma nova e penosa
Avaliação de tudo quanto fomos.
Apenas não nos decepcionaremos
Com tudo o que, decepcionando, já não causa mais dano.
Na metade, não apenas na metade do caminho
Mas ao longo de todo o caminho, numa floresta escura, num
carrascal,
À beira de um abismo, onde o pé jamais logra equilíbrio,
E ameaçados por monstros, luzes fantasmagóricas,
Na perigosa fímbria do encantamento. Que não me falem
Da sabedoria dos velhos, mas antes de seu delírio,
De seu medo ao medo e do frenesi, do medo de serem
possuídos,
De pertencerem a outro, ou a outros, ou a Deus.
A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.

Todas as casas submergiram no mar.

Todos os bailarinos submergiram na colina.

++++
Fonte:  ELIOT, T.S. “Poemas”, Nova Fronteira, Rj, 1981. Trad., intr. e notas de Ivan Junqueira.
Traduzido de “Collected Poemas, 1909-1962”.

Post-post: Já no divã da analista, há meses atrás, essa questão me ocorrera. Vivendo meu cinquentenário, continuo tendo reações (menos frequentes do que na juventude, mas ainda recorrentes) de fúria e destemperança. Como encontrar a sabedoria e a serenidade que dizem ser frutos da maturidade?

A gente lê e esquece e daí a desculpa (e a satisfação) da releitura de textos antigos.

Esse de T.S. Eliot (de quem confesso nunca guardei a nacionalidade, sempre o imaginei inglês dos bons*) é texto que se perdeu nas brumas da vida. Eliot é obrigatório em meu mapa mental de poesia, então fui procurar em minhas estantes. E o reencontrei em duas traduções. Preferi a do poeta Ivan Junqueira. Transcrevo, enquanto continuo meditando sobre o tema.
*Fica perdoado que o catalogador do volume tenha dito “poesia estadunidense” (detesto esse fonema)… “My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional springs, it comes from America.” (cfme. Paris Review.com).