Poesia, T.S. Eliot

T.S. Eliot (1)


Um trecho de East Coker (T.S.Eliot)*

II
Que anda fazendo novembro tardio
Com tanto frêmito primaveril
E criaturas do inflamado estio
E anêmonas que sob os pés se agitam
E malva-rosas que o infinito miram
Vermelho derramado sobre cinza
E essas rosas tardias que ainda viçam
Cheias da neve dos primeiros dias?
Trovão que os astros pelo espaço arrastam
A simular vanguardas triunfais
Dispostas para embates constelados
O Escorpião combate contra o Sol
Até que o Sol e a Lua se tresmalham
Choram cometas e voam Leônidas
Caçadores de abismos e planuras
Dentro de um vórtice que arrojará
O mundo àquele fogo arrasador
Cujas centelhas se antecipam ao gelo
Que na calota polar ainda flameja.

Este era um meio de expor as coisas, mas não muito satisfatório:

1888-1965
T.S. Eliot: a sabedoria da Humildade

Um estudo perifrásico sob forma poética exaurida,
Que mesmo assim nos deixa em luta insuportável
Com palavras e significados. A poesia não importa.
Não era (para recomeçar) o que antecipadamente se aguardava.
Que valor pode ter a calma tão longamente esperada,
Com tanto ardor desejada, a serenidade outonal
E a sabedoria da velhice? Teriam eles nos logrado
Ou lograram-se a si próprios, os mais velhos de fala comedida,
Que nos legaram apenas o recibo de uma fraude?
A serenidade não passa de um embrutecimento voluntário,
A sabedoria encerra apenas o conhecimento de segredos mortos
Inúteis na escuridão a que assomaram
Ou daquela de que seus olhos se esquivaram. Há, nos parece,
Em suma, apenas um limitado valor
No conhecimento que deriva da experiência.
O conhecimento impõe um modelo, e falsifica,
Porque o modelo é vário para cada instante,
E cada instante uma nova e penosa
Avaliação de tudo quanto fomos.
Apenas não nos decepcionaremos
Com tudo o que, decepcionando, já não causa mais dano.
Na metade, não apenas na metade do caminho
Mas ao longo de todo o caminho, numa floresta escura, num
carrascal,
À beira de um abismo, onde o pé jamais logra equilíbrio,
E ameaçados por monstros, luzes fantasmagóricas,
Na perigosa fímbria do encantamento. Que não me falem
Da sabedoria dos velhos, mas antes de seu delírio,
De seu medo ao medo e do frenesi, do medo de serem
possuídos,
De pertencerem a outro, ou a outros, ou a Deus.
A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.

Todas as casas submergiram no mar.

Todos os bailarinos submergiram na colina.

++++
Fonte:  ELIOT, T.S. “Poemas”, Nova Fronteira, Rj, 1981. Trad., intr. e notas de Ivan Junqueira.
Traduzido de “Collected Poemas, 1909-1962”.

Post-post: Já no divã da analista, há meses atrás, essa questão me ocorrera. Vivendo meu cinquentenário, continuo tendo reações (menos frequentes do que na juventude, mas ainda recorrentes) de fúria e destemperança. Como encontrar a sabedoria e a serenidade que dizem ser frutos da maturidade?

A gente lê e esquece e daí a desculpa (e a satisfação) da releitura de textos antigos.

Esse de T.S. Eliot (de quem confesso nunca guardei a nacionalidade, sempre o imaginei inglês dos bons*) é texto que se perdeu nas brumas da vida. Eliot é obrigatório em meu mapa mental de poesia, então fui procurar em minhas estantes. E o reencontrei em duas traduções. Preferi a do poeta Ivan Junqueira. Transcrevo, enquanto continuo meditando sobre o tema.
*Fica perdoado que o catalogador do volume tenha dito “poesia estadunidense” (detesto esse fonema)… “My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional springs, it comes from America.” (cfme. Paris Review.com).

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