Memória: Bernanos no Brasil (ii)

Em posts anteriores, eu fiz referência ao exílio voluntário do escritor francês Georges Bernanos no Brasil.

Georges Bernanos, dez/1929

Recentemente, publiquei uma longa resposta (na verdade, um longo excursus) a uma questão proposta
pelo ensaista e crítico francês Juan Asensio, argumentando pela “Presença e Permanência de Georges Bernanos
Agora, me caiu às mãos um texto em mídia de um livro já comentado antes aqui:
Bernanos no Brasil: Testemunhos Vividos
(livro org. de Hubert Sarrazin, Vozes, 1968, publicado no 20º aniversário da morte de GB).

Trata-se – o dito texto – da memória da amizade de Geraldo França de Lima com o escritor francês, em sua temporada nas Minas Gerais.

Geraldo de França Lima relembra a amizade com Bernanos
Geraldo França de Lima, da ABL, rememora sua amizade com GB


Graças ao Google Livros (que me trouxe a referenciou do texto de GFL) e à ABL, o leitor poderá continuar lendo isso aqui…

Para aqueles que não tiveram o prazer de conhecer o escritor Georges Bernanos, fica esta referência.

Diálogos das Carmelitas (Bernanos)

ALEGRA-ME imensamente, na condição de leitor entusiasmado de Georges Bernanos, ver que sua obra – 62 anos após sua morte -, continua sendo lida e gerando interesse entre leitores dos mais importantes lugares (e palcos) do mundo.

A notícia de que a ópera composta a partir de seu texto para o teatro (com título na referência deste post) está sendo levada mais uma vez em Nova York, na Juilliard School, é o mote deste post e deixa-nos (todos os fãs de Bernanos) muito contentes.
É o trabalho literário de GB ganhando permanência ao longo do tempo.

Não vou fazer aqui um arremedo de crítica da obra-prima final da vida de Bernanos, mas apenas expressar minha alegria com a notícia, dizendo que é bom ver a beleza dos Diálogos se repetirem em tão alto nível – mostrando quem é o criador Bernanos.

Capa Bernanos_Diálogos das Carmelitas
A legenda da peça (1952) foi retirada por Bernanos do seu romance La Joie (A Alegria):

“O Medo, de certa maneira, é também filho de Deus, resgatado na noite da Sexta-Feira Santa. Não se apresenta sob um belo aspecto – ao contrário! – ora amaldiçoado, ora ridicularizado, por todos repudiado… Mas não se iludam: presente à cabeceira de cada agonia, o Medo intercede pelo homem”.


Este livro – o último escrito por G. Bernanos -, foi gerado no inverno de 1947-48 e publicado (post-mortem) em 1952. Bernanos já estava muito doente, depois de seu retorno do Brasil à Europa, donde o errante escritor católico se mudara para a Tunísia.

Ele termina a composição dos Diálogos em meados de março, no dia exato em que o agravamento da doença o obriga a ficar acamado definitivamente, sendo logo depois levado a Paris, num atendimento de emergência (ele morava na Tunísia, à época como dito acima), para uma operação desesperada. Vem a falecer no Hospital Americano de Paris (Neuilly), no dia 5 de julho de 1948. A ópera com música de Francis Poulenc é de 1957 e o filme, de 1960.

O resumo e a estória de como Poulenc compôs a ópera, baseada no livro de GB estão nos links abaixo:

1) Uma leitura cristã, no site de Frei Felisberto Caldeira de Oliveira:

2) O resumo da ópera, pelo site da Julliard School é este.

O website da Juilliard Opera (NY, USA) traz ainda o programa da ópera para abril 2010:

Les dialogues des Carmelites“, o filme (de 1960) de R.P.Bruckberger e P.Agostini
com Jeanne Moreau, Alida Valli et Pascale Audret (como Blanche de la Force). Roteiro de Philippe Agostini sobre texto original de Georges Bernanos.

No IMDb, a ópera e o filme de Raymond Leopold Bruckberger.

O sofrimento das freiras e a agressão dos homens que fizeram o período do Terror na Revolução Francesa estão sintetizados nas cenas finais da peça. Ali, Bernanos mostra como Blance de la Force reencontra na religião a força de expressar sua nobreza, talvez filha da dúvida no primeiro momento, mas a certeza no final:
O medo não ofende a Deus – diz Blanche: “Nasci no medo e nele vivi e ainda vivo! Todos o desprezam e, no entanto, é justo que eu seja desprezada… Só meu pai me impedia de falar nele. Está morto. Foi guilhotina há poucos dias.” (p.129, ed. Agir, 1960).

E lá vão elas, as monjas vítimas da Revolução, na carroça que as conduz ao cadafalso, unidas pela Fé em Deus, plenas do conforto espiritual, contra a adversidade suprema da pena de morte que lhes decretara o Terror – e este final encontra Branca de la Force com “rosto sereno, sem sombra de Medo“:

A força da Fé Cristã enfrentando a Morte

Bernanos volta ao Vaticano

“O Cristão Bernanos” (d´après le livre de Balthasar) permanece vivo em nossas consciências e na consciência do pessoal da Igreja que hoje se reúne no Vaticano para reflexões do período da Quaresma.

Que alegria saber que Georges Bernanos continua atual e didático. Que dupla alegria saber que Bernanos que teve um livro sobre a guerra civil espanhola contestado pelo Vaticano, volta à Santa Sé como um exemplo de literatura cristã.

Muitas lições extraídas pelo teólogo salesiano Padre Enrico Dal Covolo aborda nas meditações de hoje o tema “Da dúvida e da tentação” sob a inspiração de Um cura de Aldeia, de G.B., como esta:

Georges BernanosSe não fosse a vigilante piedade de Deus, creio que na primeira tomada de consciência de si mesmo o homem recairia no pó.”
Era 1936 quando o mundo conheceu os tormentos interiores do pároco d’Ambricourt, o cura da zona rural nascido da profunda sensibilidade de Bernanos. Nas palavras desse personagem da ficção – hoje proposto à atenção do Papa e de seus colaboradores – percebe-se a repercussão da luta interior, do sentido do limite, da necessidade de uma força maior que todo cristão, especialmente se consagrado, percebe diante das provações que caracterizam a existência.

Tem razão Dal Covolo quanto resume:
É, sobretudo, na Quaresma que a fibra cristã compreende em que modo revigorar-se…


Leia trechos importantes do célebre livro, selecionados por Emilio Angueth de Araújo.
Confira o que este blogueiro disse sobre o mestre Bernanos.

Post-Post: Vejam essa palestra do prof. Dr. João Cezar de Castro Rocha no lançamento do livro “Diário de um Pároco de Aldeia” no Espaço Cultural É Realizações, neste link.

Bernanos, la raison prophétique

“Précisément parce que je ne suis qu’un pauvre diable, je sens venir les coups de plus loin, j’ai l’habitude des coups, on ne se gêne pas avec moi. Rien ne me protege du scandale, les dignités ne me tiennent pas chaud (…). Je suis nu devant le scandale, aussi nu que vous serez vous-mêmes avec moi devant le juste juge; nu comme um ver. Il m’est donc facile de constater avant vous que le vent tourne au Nord, et lorsque je claque les dents, méfiez-vous, c’est peut-être qu’il neigera demain”.

(Georges Bernanos, Les Enfants Humiliés, p.225, Gallimard, 1949, cit. par Hans-Ur Von Balthasar, “Le Chrétien Bernanos”, p.53-4).

5 escritores e 5 destinos diversos

Seria um sonho ou estaria ainda o leitor apaixonado no estado de vigília?
De fato, só tive noção do que pensava intensamente, quando levantei-me para tomar nota de situações que envolvem alguns escritores que passaram por minha vida de leitor mediano (mas sempre apaixonado), em que leituras e destinos “turísticos e culturais”. Esses lugares onde viveram, trabalharam (ou apenas reúnem suas memórias e acervo) se impõem a quem ama a literatura e se interessa pela vida dos escritores prediletos.

São 5 casas-museus, das quais 4 visitadas em emoções e tempos diversos. Uma que aguarda um tempo de retraite para a ela se dedicar.
Thomas Mann, François Mauriac, Rui Barbosa e Georges Bernanos se encontram neste post, como os personagens dos quadros de uma pinacoteca saltassem para se encontrar com séculos de diferença, apenas porque expostos no mesmo hall de um museu.

Primeiro, uma crônica de Carlos Drummond – que não sei se publicada em O Globo ou no JB (imagino, pois eram os 2 jornais de minha predileção no final dos anos ´70 e início dos ´80, onde também acompanhava com ritual atenção os comentários sempre imaginosos e divertidos de Nélson Rodrigues).

Pois bem, daquela folha contendo a exaltação de Rui Barbosa e da casa-museu que lhe dedicaram no bairro de Botafogo (RJ), nasceu a vontade de visitar a casa – o que só veio a ocorrer em 81, pois que um amigo juiz-de-forano, meu chefe à época, animou-me a conhecer, superando meu espírito caipira e interiorano e assustado de enfrentar o Rio de Janeiro.

Visitei a casa e fiquei com boas emoções da biblioteca, do espaço do museu criado em torno da figura do homem público que “volta glorioso aos jornais, vencidos os prazos do silêncio” com a comemoração da campanha civilista. Mas o Rui, que pouco conheci sem tê-lo visto, à exemplo do poeta que confessa “bem o conheci, sem tê-lo visto”, era o Rui dos manuais de retórica e pouco se nos interessava à época, não fôssemos candidatos ao curso de Direito. Eis uma casa-museu visitada pelo apelo do Poeta CDA e de onde trago apenas a lembrança de um agradável espaço à figura cívica do jurista.

Depois, vieram minhas viagens à Europa, onde minha mulher e eu procurávamos sempre  incluir o alimento cultural às fatias gastronômicas tradicionais da cuisine française aux bières et au vin, para que o impacto da paisagem não nos causasse logo de início a síndrome de Stendhal. Em Zurich, visitamos “Das Thomas Mann Archiv”.

Zurich

Era o tempo da minha paixão pelos escritos de Mann – “Os Buddenbrook”, a saga de “José do Egito” (formalmente, José e seus Irmãos) e, sobretudo pela “Montanha Mágica”, que me deixava à vontade por seus diálogos em francês, adequadamente mantidos na tradução para o português, feitas pelo inesquecível Herbet Caro (RS).

Embora a barreira da língua alemã se impusesse como uma montanha sobre a visita, uma esforçada atendente me proporcionou apreciar a casa-museu com um atendimento em um francês sofrível mas que denotava seu esforço em agradar um leitor brasileiro do mestre da casa-museu. Guardo até hoje a brochura (um caderninho) com que me presentearam na visita (veja foto).

Com Gilberto Freire, diria que a casa-museu (Solar) de ApipucosFundação Gilberto Freire, Apipucos, Recife (PE) foi por mim esnobado em toda a temporada recifense que me proporcionou o trabalho em um banco, trabalhando bem próximo a Marcos Freire, no Recife. Só muito tempo depois, tendo compreendido o papel de Freire (o Gilberto) Postal da Casa-Museu Magdalena e G. Freirepara a compreensão do Brasil, com sua análise sempre atual, volto ao Recife a negócios e dedico uma tarde a visitar o solar, donde trouxe cartões-postais e uma certeza de que a casa merecia manutenção adequada e recursos, que provavelmente vão para fundações como a de Sarney (no Maranhão).

Com François Mauriac, a experiência da visita já foi reportada aqui. A alegria de

Maison François Mauriac

visitar Malagar foi (é) similar ao tamanho da melancolia que me invade pensando na contradição entre o destino desses dois escritores (católicos e franceses) e sobre a pobre residência de Georges Bernanos no Brasil, mas que bem cuidada com voluntarismo, sobrevive aos tempos, como um barroco pobre em uma Minas Gerais de (antigos e atuais imponentes) áureos recursos.

Ele, Bernanos que viveu e amou o Brasil, tem sua casinha-museu humilde Museu Bernanos - Barbacena (MG), Brésil (mas resistente) na sua amada “Cruz das Almas”,
como a testemunhar o que profetizara o exilado francês em Minas Gerais (ver trans

crição).

Casa-museu G. Bernanos em Barbacena (MG)


Leia mais

Livros novos: novos Bernanos

Alegria ao receber da Amazon.Fr 2 novos livros:
1 – Hans Urs von BALTHASAR “Le Chrétien Bernanos“, ed. Parole et Silence, 2008;  e

2 – “Brésil, terre d´amitié” (G.B.), ed. La Table Ronde, 2009. Seleção de textos, anotações e prefácio de Sébatien Lapaque.
Em breve, poderei comentá-los.

Por ora, compartilho a alegria de livro novo em minha mesa de leitura.Capas Novos Livros Bernanos

Bernanos, Lapaque e a Saudade

Tradução livre (forma de dizer que não é profissional), da citação à entrevista de Sébastien Lapaque. Tem a ver com o que citei antes sobre o  sentido do termo Saudade segundo Lapaque.

Après le desengano,  la désillusion éducatrice familière aux apprentissages portugais, ce retour aux origines est la définition même de la saudade, mélancolie proprement lusitaine, qui est à la fois regret de ce qui n’est plus et attente de ce qui sera, manière de retour vers le futur du passé.  Chez Bernanos, la saudade est la nostalgie d’un roi perdu et de la terre natale. Elle est aussi, elle est surtout ce grand sentiment de l’absence qui habite certains livres de sa période brésilienne :  “Les Enfants humiliés, la Lettre aux Anglais,  le Chemin de la Croix des Âmes”. Voilà pourquoi l’exil était nécessaire à Bernanos : pour continuer à aimer la France sans s’en faire une idée fausse au moment de la capitulation, de la défaite et de la honte, le romancier à eu besoin d’éprouver son absence.

Depois do desengano – a desilusão da educação familiar com o aprendizado do português, este retorno às origens é a definição própria da Saudade – esta melancolia bem lusitana, que é ao mesmo tempo arrependimento por aquilo que deixou de existir e espera pelo que pode vir a acontecer -, é uma forma de retorno ao “futuro do passado” (citação ao tempo verbal). Para Bernanos, a Saudade é a nostalgia de um rei perdido e da terra natal distante. Este é também, principalmente, o grande sentimento de ausência que povoa seus livros do período brasileiro – “Les Enfants humiliés, la Lettre aux Anglais,  le Chemin de la Croix des Âmes”. Eis porque o exílio era tão necessário a Bernanos: para que ele continuasse a amar a França sem que tivesse uma falsa ideia do momento em que a França capitulou, a queda da vergonha, foi quando o romancista sentiu necessidade de provar a ausência da pátria.

Entrada que tem a ver com isso.