Ainda “Sob o Sol do Exílio” (II) : lições e correlações

NÃO SERVISSE O LIVRO DE SÉBASTIEN LAPAQUE para nada, já seria de enorme utilidade – como uma espécie de tapa-na-cara! –

CapaSousLeSoleil_Lapaque
Este blogueiro com o livro de Lapaque no original da Ed. Grasset, Paris, 2003.
utilidade ESTa DE alertar nossa intelectualidade sobre a importância dos escritores católicos franceses na inteligência do Brasil das décadas de 30 a 60 do século XX (esquecidos, como tantos outros, pela mídia).

CREIO ser o livro em epígrafe da maior importância por relembrar a grande mídia (e aos bem-pensantes do Brasil) que um dos mais importantes escritores católicos da França (e do mundo!) escreveu parte de sua literatura de combate e alguma ficção em Pirapora (onde pôs ponto final a um de seus mais importantes romances “Monsieur Ouine” – ver o 1o. post sobre o livro Sob o Sol do Exílio), Belo Horizonte ou Barbacena.

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Capa da edição brasileira de “Sob o Sol do Exílio“, de Sébastien Lapaque, trad. de Pablo Simpson.

Relevante, pois, o papel que Bernanos e outros imigrantes da intelectualidade francesa tiveram para o Brasil na Academia e, principalmente (do meu ponto de vista, anti-acadêmico por natureza!), fora do ambiente universitário; pois bem, considerando tudo isso, o livro de Sébastien Lapaque presta um grande serviço ao leitor apaixonado pela literatura de Bernanos e interessado nas formas de resistência da inteligência rebelde – as emissões de rádio enviadas a BBC; os artigos para “La Marseillaise” (Londres e Alger) – órgão da Resistência Francesa; as afinidades eletivas de Bernanos e a admiração crítica (em alguns casos, muito crítica como a de Carpeaux); fraterna e apaixonada – como a Virgílio de Mello Franco e de Geraldo França de Lima); cristã e quase discipular – como a de Alceu Amoroso Lima.

Georges Bernanos
Bernanos em foto de divulgação da Editora Plon.

Este livro de S. Lapaque, ora lançado pela É Realizações, ganha relevo maior por ser uma espécie de tapa na cara de nossa intelectualidade que, depois do livro de Humberto Sarrazin (obra da Vozes, 1968, e nunca reeditada!) relegou Bernanos a um silêncio sepulcral na Academia, sem jamais voltar a se debruçar sobre essa riqueza chamada Bernanos no Brasil. O grande urso em Barbacena precisou de um escritor francês que cruzasse o Atlântico para levantar-lhe do túmulo a que fora condenado pelos bem-pensantes de nossas Academias, e nos mostrasse o ouro que deixamos escondido em uma pequena cidade de Minas Gerais e em arquivos esparsos pelo país, fora a quase espartana casa pequenina da Cruz da Almas a que a memória dele dedicamos como mini-museu (e vez por outro abandonado, ao longo desses mais de 60 anos).

Casa de G.Bernanos em Barbacena, hoje transformada em Museu Bernanos.
A humilde casa de G. Bernanos em Barbacena, hoje transformada em Museu Bernanos.

A história da inteligência no Brasil tem curtíssima memória – eis ao quê mais serve demonstrado na didática publicação de Lapaque – e a quem ficamos devedores para sempre…

Bernanos no Brasil
Capa de “Bernanos no Brasil”, organizado por Humbert Sarrazin e nunca reeditado pela Vozes (original de 1968).
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Originais de Bernanos, retirados da obra de Daniel Perezil, Cahiers de Monsieur Ouine.

Opesquisador da obra de Bernanos há-de se debruçar nos volumes antigos da Biblioteca Nacional para recuperar-lhe os artigos que duas vezes por semana
(diz-nos Lapaque na p.120 de “Sob o Sol…” edição francesa da Grasset) publicou o escritor francês, assim anunciado em “O Diário”, no dia 21 de maio de 1940 como “UN ANCIEN COMBATANT s’exprime sur l’offensive allemande” (Um ex-combatente [da I Guerra Mundial] fala sobre a ofensiva alemã n’O Diário):

Bernanos em foco com Lapaque (2003) e Sarrazin (1968) - a figura do mais brasileiro dos escritores católicos franceses ganha novas leituras
Bernanos em foco com Lapaque (2003) e Sarrazin (1968) – a figura do mais brasileiro dos escritores católicos franceses ganha novas leituras

L’écrivain français Georges Bernanos est à nouveau à Belo Horizonte, ayant pour destination Pirapora, où il réside, et d’où il reviendra peut-être bientôt, pour habiter une propriété rurale proche de Belo Horizonte
(O escritor francês G.Bernanos está novamente em BH, em direção a Pirapora, onde reside e de onde deverá retornar em breve, para morar em uma propriedade rural perto de BH).

Casa_museu Bernanos
A casinha pequenina de Cruz das Almas guarda o que restou da memória de Bernanos no Brasil. Um pequeno recanto onde o escritor francês sonhou reproduzir um pedacinho da França no Brasil. Na sequência, um presente aos amantes da obra do “Grande Urso”, páginas esparsas de “Cahiers de M. Ouine”, de D.Pérezil

IMG_9151 IMG_9150Reproduzo aqui um texto retirado do site da Academia Brasileira de Letras sobre a amizade de Virgílio e Afonso Arinos com o escritor GB na visão de Afonso Arinos Filho.

******Clique sobre o texto em destaque para acessar o arquivo em PDF: Bernanos_Virgilio_AfonsoArinos

Sobre “Monsieur Ouine”, de Georges Bernanos : Lapaque, Asensio & Cadernos de JLK…be

ENQUANTO me preparo para escrever uma resenha do livro “Sob o Sol do Exílio¨ de S. LAPAQUE, vou lendo e relendo aqui e ali sobre G. Bernanos.
Boas surpresas ao leitor na 1a. ou enésima leitura…

O livro de Sébastien Lapaque, recém-lançado pela É Realizações, em português, eu o tenho lido em francês, na edição da Grasset, recebido em 2009 como presente de correspondentes en France (Merci à Marion & Sylvain).

Muito interessante a parte em que Lapaque trata de “Monsieur Ouine” (p.105 a 118 da edição francesa). As referências de Lapaque são consistentes e contribuem com a compreensão da obra bernanosiana, levando o leitor a buscar mais informações sobre a gestação do romance (confusão nas primeiras edições, má-recepção pela Crítica, recuperação diante do público e, finalmente, a paixão como romance de experiência e de afirmação da voz final do romancista).

“Ouine” – literalmente “Sim-Não” (Oui, Ne [pas]) foi originalmente intitulado “La Paroisse Morte” (A Paróquia morta), título que GB trocou num período que vai da primavera de 1936 (quando iniciou a escrita) até maio de 1940, quando o escritor envia (de Barbacena) a Maurice Bourdel, seu editor em Paris o Capítulo XIX do que ele próprio intitulara como o livro que representa(ria) seu “maior esforço como romancista“.

E foi em Minas Gerais que Bernanos colocou o ponto final no que Lapaque chama do livro que contém a “teologia bernanosiana da noite“. Outros tinteiros já se tinham esvaziado com as tintas negras mas não da parte de um católico. Seus irmãos da noite – como quer Lapaque (ou das tinta noturna – frères d’encre) agnósticos (ou ateus) saudaram Monsieur Ouine com entusiasmo de leitores que se identificaram com o livro – Céline, Simenon e A. Artaud.
Este último teria dito:

“Je ne sais pas si je suis pour vous un réprouvé, mais en tout cas, vous êtes pour moi un frère en désolante lucidité.”
(Antonin Artaud)

No livro “Cadernos de Monsieur Ouine” (Edit. Seuil), LesCahiersdeMonsieurOuinePezerildo Monsenhor Daniel Pézeril, Lapaque diz que o leitor tem a oportunidade de viver uma experiência interessante: como que lançar um olhar, espiando sobre o ombro do escritor em pleno interior das Minas Gerais (Pirapora ou Barbacena – fiquei em dúvida – checar onde estava GB em 1943/46?!), onde num caderno colegial barato, com a bandeira brasileira na capa, sob a divisa do “Ordem e Progresso”, o nosso francês errante colocava palavra-a-palavra, avançava linha-a-linha num esforço de meia-página por dia no que para o escritor seria seu maior esforço e seu mais trabalhoso romance à la (Georges) Simenon.

O que lhe sai ao final o mais Bernanos de sua ficção. Onde a voz de Bernanos mais se faz sentir, faz-se ouvida, não obstante a primeira reação negativa.

Capa de Monsieur-Ouine-Edit.Plon
Capa da edição incompleta (sem o 19o. cap.) do romance Monsieur Ouine, Plon, 1946. A 1a. edição da Ed. Atlântica (Rio, 1943) quase condenou o romance ao desprezo dos leitores e da crítica por ter sido publicada incompleta, cheia de lacunas e gralhas… Somente em 1951, graças a Albert Béguin, editor-amigo de GB, o romance ganhou sua versão definitiva e que ainda encanta leitores e críticos.

Sobre G Bernanos : no blog Carnets de JLK. ref. a Juan Asensio.

Leia trechos do livro de Sébastien Lapaque, no site da É Realizações.

+++++
Fonte principal – LAPAQUE, Sébastien. Sous Le Soleil de L’Exil : Georges Bernanos au Brésil 1938-1945. Paris, Bernard Grasset, 2003, 227 pp. Outras fontes cit. por links ou figuras. Todos os direitos reservados (c) Grasset, Plon, JLK, Asensio, Lapaque.

Aos amantes do Francês Errante, deixo este recorte...de 1970.
Aos amantes do Francês Errante, deixo este recorte…de 1970.
Um livro importante para o sr. Edson e equipe É Real. publicar... Tenho-o traduzido em parte, viu!?
Um livro importante para o sr. Edson e equipe É Real. publicar… Tenho-o traduzido em parte, viu!?

Meu amigo-virtual (um irmão bernanosiano, mais preparado e mais lido), o polemista Juan Asensio escreveu e JLK transcreveu e comentou o que chama de “salamalec” à Asensio… Preguiça de traduzir por ora… quem sabe mais tarde, ao longo do feriadão?!
“Il faut lire et relire Monsieur Ouineaujourd’hui, comme on lira bientôt La Route de Cormac McCarthy, sans se demander si nos contemporains sont encore « dignes » de ce livre et qui le comprendra. Juan Asensio insiste sur l’ « apophatisme bernanosien » comme si le roman ressortissait essentiellement à une théologie négative, sans souligner assez, me semble-t-il, l’affirmation christique secrète et traversante de ce livre, qui recrache le tiède pour mieux figurer les avatars inattendus voire infinitésimaux de l’Amour. Monsieur Ouine, dans l’interprétation d’un René Girard, pourrait être dit le roman de la médiation interne portée à son point extrême, comme il en va des romans de Dostoïevski. Comme celui-ci, mais par une voie plus droite, Bernanos dépasse la tentation du désespoir et mime la sortie du cercle vicieux, comme « par défaut ». L’esprit d’enfance, au sens évangélique, irradie le tréfonds de ce livre glauque et même sale, alors même que cette souillure apparente échappe à la damnation réelle du froid et du non-être – ce que Juan Asensio décrit justement : « Le Mal c’est le froid, le Mal c’est le néant, le Mal n’est rien d’autre, finalement, que l’ennui, ce dernier parvenu à son plus idoine état de desséchement »…” (Do blog http://carnetsdejlk.hautetfort.com/bernanos/).
Juan Asensio. La littérature à contre-nuit. Sulliver, 2007.

Jorge de Lima e sua “Ode ao Coxo Veloz” ou: Bernanos, uma vigília inumerável…

“NO MOMENTO EM QUE IA ESCREVER SOBRE TI, BERNANOS, FUI IMPELIDO POR SECRETA FORÇA ÍNTIMA A ESCREVER-TE…”

Jorge de Lima_Foto RetocadaAssim o poeta Jorge de Lima inicia sua ODE AO COXO VELOZ*. Agora que o mundo relembra o Centenário da I Guerra Mundial, jornais lembram o Diário de Bernanos, com o seu estilo inconfundível e sua cólera e amargura derramadas contra “os poderosos do mundo” nem sempre dispostos a manter a Paz, quebrando pactos e nos afundando em outros conflitos – como foi o caso da II Guerra e de tantos outros conflitos ao redor do mundo. Depois de seu testemunho em prol dos “Rapazes Franceses” e de todo o mundo que são as primeiras vítimas dos campos de batalha, nada pode ser igual e o elogio da coragem nunca é demasiado…

A Ode ao Coxo Veloz abre o livro de Hubert Sarrazin “Bernanos no Brasil”, Testemunhos vividos de grandes escritores brasileiros, reunidos e apresentados por H. Sarrazin. O propósito do livro é reunir depoimentos de “vozes brasileiras que poderiam fazer-se ouvir sobre o homem que foi seu [do Brasil] hóspede de 1938-1945…” – diz a editora na ‘orelha’ do livro citado – a mesma época dos Diários agora revividos em França. Com uma memória enfraquecida por décadas de ideologia nas universidades, cátedras, círculos literários e academias, o país pode perder a memória deste hóspede ilustre e iconoclasta – o “grande Urso”, Le Grand Georges – o escritor para quem não ha descanso – pois sempre lutou; o que não teve ideologias que o calasse: Bernanos que foi um grande Cristão, o Escritor-Católico entre os católicos; o Escritor Francês entre os franco-“Brasileiros” (o adjetivo pátrio aqui desejado por este blogueiro e pelo próprio Bernanos que diversas vezes manifestou-se cidadão do mundo, mas amante incondicional do Brasil…).

Pela manutenção da memória de hóspede tão ilustre das terras de França no Brasil, mantenho uma página dedicada a Bernanos.


Continuemos com a Ode (de J.L.)…  Leia mais

Ainda e sempre, Bernanos

“- Para mim, a obra de um artista não é nunca a soma de suas decepções, sofrimentos e dúvidas, do mal e do bem de toda sua vida, mas de sua vida ela própria, transfigurada, iluminada, reconciliada. Sei bem que não se prova nunca do vinho novo desta reconciliação consigo próprio, senão quando a colheita é feita – como a dor física que pode se prolongar muito depois de terminada a sua causa – e assim, tendo acontecido essa reconciliação, fruto de um esforço imenso, nós continuamos ainda a desejá-la.
Porque nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva: é preciso que nós tenhamos nos doado, na mesma medida que sabemos que morreremos vazios, que morreremos como natimortos (…) antes de despertarmos (deste `seuil franchi´) na doce piedade de Deus, como quem desperta numa manhã fresca e profunda.” 

(G. Bernanos)

[(*) seuil franchi = ao cruzar o limiar, entre a Vida e a Morte, biensûr!]

A lenda e a legenda (de) Bernanos

Quando quero me despedir ou saudar um(a) amigo(a) à moda antiga, aqui na websphere, abro o volume de Correspondências de Bernanos (1) e copio alguma coisa do fecho de alguma de suas maravilhosas cartas a amigos, editores, críticos etc.
Hoje, pensando sobre a realidade política e literária do Brasil, abro o tomo do “velho urso” numa página ao acaso e me deparo com isso:
“Madame,
Je suis un ours, le plus ours des ours, mais bien désolé de sa ourserie, et qui trouve que la vie des ours est bien longue pour l’agrément qui’ls en ont.
Votre trop généreuse et trop gracieuse sympathie est ainsi cruelle sans le savoir. Je ne la mérite pas. Je ne puis plus seulement ouvri l’un de vos livres sans rougir de vous avoir laissée ignorer qu’ils sont depuis longtemps mes ennemis familiers (…)
E isso: 
“Mon bien cher ami,
Dieu vous rende au centuple ce que vous m’avez donné – la certitude qui pour un petit instant m’a fait tel que votre douce amitié me souhaite et me voit ! En pleine tristesse, en plein abandon, en plein dégoût, votre magnifique témoignage m’a littéralement éclaté dans le coeur… J’aurais pu vous écrire plus tôt : j’avais presque peur d’user ma joie… Et quelle joie, mon ami ! Car je n’écris que pour vous, et nos frères de race. Je n’espérais donc remercie chèrement, naïvement, de toute mon âme.
Il est à vous, ce livre. Je manquais tellement de courage et de confiance ! Un seul mot de vous m’eût fait tout lâcher. C’est une autre grande joie de vous le laisser, de vous le confier. Je vous enverrai le second exemplaire, incessamment. Je vous écrirai de nouveau.
Bien tendrement vôtre,
G. Bernanos.

Esse tipo de franqueza e fraternal afeto só o vejo (entre escritores brasileiros) nas cartas de Alceu Amoroso Lima a Jackson de Figueiredo.
E o leitor há de me perguntar: por que ler (e reler) essas cartas tão antigas ?
– Eis que a correspondência nos revela segredos (e mistérios) da alegria (dos anseios e da melancolia) da vida dos escritores que amamos. É como olharmos pela janela iluminada que só nos revelara apenas a sombra do homem curvado sobre a escrivaninha com a pena suspensa, à espera da próxima frase. Quando falam com os amigos mais próximos (e leais – nota 2), é como se abrissem seu coração como o fazem conosco, seus leitores dezenas de anos depois.
As cartas que transcrevo são de 1925/26, portanto, com idade de quase 90 anos… et pourtant continuam “à éclater dans le coeur…”
Eia, pois, que essa é a legenda de Bernanos, de quem assistimos, com alegria, um Revival Bernanos no Brasil 2011/12, graças aos lançamentos da editora É Realizações e aos grupos (em sua maioria compostos por jovens) que o rediscutem, como um dos católicos escritores mais interessantes do séc. XX.

Coleção Bernanos na ERealizações
Bom fim-de-semana a todos.
Bien amicalement à vous,
Beto.
+++++
Fonte: (1) “BERNANOS, Georges. “Correspondance”. Tome I:1904-1934. Ed. Plon, 1971. Pág. 272 et 191. A primeira transcrição é de uma carta à escritora Anna De Noailles, publicada no “Table Ronde”, abril de 1954. A segunda, ao amigo Robert Vallery-Radot, em 21.05.1925 (Ascension).
(2) “Dans une lettre à Jorge de Lima peu de temps avant son départ du Brésil, le 8 janvier 1945, il écrit: ‘ Je vous prie donc de détruire les lettres inconvenantes ou injustes, sauf si par hasard elles contiennent un jugement intéressant et révélateur de ma pensée, de mon naturel, de mon être enfin, bien affermi et raffermi. Quant à celles qui contiennent des blagues, de simples amusements, des choses insensées (mes lettres en sont pleines), vous feriez miux de les déchirer…’ Comment ses correspondants n’auraient-ils pas rspecté l’esprit de ce voeu de Bernanos, quitte à être moins sévères que lui pour les ‘simples amusements’ qui, eux aussi, sont révélateurs d’une manière d’être et de sentir la vie ? (op.cit, pág. 11).

Meditação libertadora ou la douce pitié de Dieu

UMA PESSOA um dia me fez pensar sobre “A consciência da finitude” – Sein zum Tode – dissera.

E se me deixo pautar por aquela pessoa é porque seus textos em geral são muito bons, do jeito mais simples que o majestoso se mostra a quem sabe ver.

Como profissional venho me dedicando ao mundo da tecnologia nos últimos vinte anos, e assim, naturalmente, eu me toquei com a morte de Steve Jobs, naturalmente deixei-me inundar pela “meditação da morte” que, segundo A.C. Villaça, “nos liberta de nós mesmos, perecíveis…”

E a confissão de minha amiga me leva a pensar (e mesmo a reler o texto completo do famoso discurso de Jobs a universitários numa formatura em Stanford). E continuo pensando no fecho confessional do post daquela pessoa num passado recente:

“Para os meus amigos, devo confessar que somente há pouco tempo chegou em mim, para-mim, com uma razoável dose de desencanto –  e em absoluto não deveria ser assim – a consciência da finitude (…),  jamais falei pensando nisso objetivamente.  Hoje, penso sem falar. “Sein zum Tode”. 

Lembrei-me de uma nota biográfica de Georges Bernanos, em sua meditação libertadora, transcrita pelo filho Jean-Loup: “Lui qui avait tant médité sur la mort; avec crainte: ‘Si vous saviez comme j’en ai peur de la camarde…’, avec doucer et espérance: ‘Ô mort si fraîche! ô seul matin!’ , c’est en murmurant “À nous deux maintenant” qu’il mourut le 5 juillet 1948 à l’hôpital américain de Neuilly”, conclui Jean Loup. E assim se cumpria a profecia que um depoimento antigo do pai registrara que “nous mourion vides, que nous mourions comme de nouveau-nés (…) avant de se réveiller, le seuil franchi, dans da douce pitié de Dieu, comme dans un aube fraîche et profonde…”

E foi assim, que quase ao acaso, abri meu volumezinho de “Os Saltimbancos da Porciúncula”, donde retirei o texto que vos deixo para iluminar a  meditação sobre essa consciência da finitude:

Requiem por Mim (A.C.Villaça*)
“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga, em Coimbra, aos 87 anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.
“Nunca o vi. Mas a confraria literária tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na literatura, no amor da literatura.
“Ele escreveu Requiem por mim. Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmo, perecíveis.
“A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco no mais profundo de nós como uma companheira cotidiana, amável.
“Vi minha mãe morta. Vi meu pai morto. Não os vi morrer. Mas, diante deles mortos, não senti nada. Fiquei numa grande paz. era evidente que eles já não estavam mais ali. Já não eram eles. Tinham partido, sem dúvida. Ali, estavam simplesmente uns restos, os despojos precaríssimos. Estavam longe dali. Já se haviam libertado. Senti uma paz infinita. Uma doçura. A morte é doce. A morte é pacificadora.
Nossa Senhora da Ternura. Gosto tanto desta invocação. A ternura de Deus. Tudo se resolve em termos de ternura. E em termos de perdão. A compaixão é o segredo que recria tudo, que renova tudo. Que torna tudo novo, inaugural.
“A primeira morte da minha vida foi a da minha avó, que era Antônia e fora amiga de Machado de Assis, desde menina. Morava em Friburgo e tinha apenas 56 anos. Morreu de repente, tão sozinha na serra. E meu pai chorou perdidamente, ao desligar o telefone.
“Não fui a Friburgo. Eram cinco horas de trem. Mas não senti emoção nenhuma com a morte distante daquela avó gorducha, que gostava de comer bem e tinha sempre a mesa cheia de convidados. Senti que ela viajara. Deixei-a em paz. Não me impressionou que ela tivesse partido. Achei aquilo tão natural, tão esperável. Não sinto saudades dos mortos.
“A irmãzinha morte. Franciscanamente. Di Cavalcanti louvara a Deus por ter criado o azul e as mulheres plácidas. E por ter criado o perdão. Louvo a Deus por haver fundado a morte, essa grande invenção misteriora. Aceito a morte.
“Ela está dentro de nós. Caminha conosco. Vai indo pelas ruas do mundo, tão humilde, tão invisível, tão escondida. Ela se constrói lentamente, dentro de nós. Dialoga silenciosamente conosco. E, súbito, aparece, numa curva do caminho, como um canto de aleluia.
“Convivo bem com a morte. Contemplo-a, quietamente. Espero-a com uma paz tão serena, a nossa mortezinha particular, a nossa pequena morte, humílima, salvação, libertação, abertura. Morte implica logo a ideia de vida, exige a presença fortíssima, soberana, da vida. Creio na vida.
“A morte não existe. Eis a grande descoberta que fazemos, ao longo da vida. A morte não existe. O que existe é a vida. A vida é boa, lá disse – ao morrer – o nosso Machado de Assis.”

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Fontes: BERNANOS, George. “Romans”. Edit. Omnibus/PLON, 1994, apud Jean-Loup Bernanos, em “Notice Biographique”, pág. 1433. (*)VILLAÇA, Antonio Carlos. “Os Saltimbancos da Porciúncula”, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1996, pág. 56-58.




Meditação libertadora ou la douce pitié de Dieu

UMA PESSOA um dia me fez pensar sobre “A consciência da finitude” – Sein zum Tode – dissera.

E se me deixo pautar por aquela pessoa é porque seus textos em geral são muito bons, do jeito mais simples que o majestoso se mostra a quem sabe ver.

Como profissional venho me dedicando ao mundo da tecnologia nos últimos vinte anos, e assim, naturalmente, eu me toquei com a morte de Steve Jobs, naturalmente deixei-me inundar pela “meditação da morte” que, segundo A.C. Villaça, “nos liberta de nós mesmos, perecíveis…”

E a confissão de minha amiga me leva a pensar (e mesmo a reler o texto completo do famoso discurso de Jobs a universitários numa formatura em Stanford). E continuo pensando no fecho confessional do post daquela pessoa num passado recente:

“Para os meus amigos, devo confessar que somente há pouco tempo chegou em mim, para-mim, com uma razoável dose de desencanto –  e em absoluto não deveria ser assim – a consciência da finitude (…),  jamais falei pensando nisso objetivamente.  Hoje, penso sem falar. “Sein zum Tode”. 

Lembrei-me de uma nota biográfica de Georges Bernanos, em sua meditação libertadora, transcrita pelo filho Jean-Loup: “Lui qui avait tant médité sur la mort; avec crainte: ‘Si vous saviez comme j’en ai peur de la camarde…’, avec doucer et espérance: ‘Ô mort si fraîche! ô seul matin!’ , c’est en murmurant “À nous deux maintenant” qu’il mourut le 5 juillet 1948 à l’hôpital américain de Neuilly”, conclui Jean Loup. E assim se cumpria a profecia que um depoimento antigo do pai registrara que “nous mourion vides, que nous mourions comme de nouveau-nés (…) avant de se réveiller, le seuil franchi, dans da douce pitié de Dieu, comme dans un aube fraîche et profonde…”

E foi assim, que quase ao acaso, abri meu volumezinho de “Os Saltimbancos da Porciúncula”, donde retirei o texto que vos deixo para iluminar a  meditação sobre essa consciência da finitude:

Requiem por Mim (A.C.Villaça*)
“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga, em Coimbra, aos 87 anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.
“Nunca o vi. Mas a confraria literária tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na literatura, no amor da literatura.
“Ele escreveu Requiem por mim. Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmo, perecíveis.
“A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco no mais profundo de nós como uma companheira cotidiana, amável.
“Vi minha mãe morta. Vi meu pai morto. Não os vi morrer. Mas, diante deles mortos, não senti nada. Fiquei numa grande paz. era evidente que eles já não estavam mais ali. Já não eram eles. Tinham partido, sem dúvida. Ali, estavam simplesmente uns restos, os despojos precaríssimos. Estavam longe dali. Já se haviam libertado. Senti uma paz infinita. Uma doçura. A morte é doce. A morte é pacificadora.
Nossa Senhora da Ternura. Gosto tanto desta invocação. A ternura de Deus. Tudo se resolve em termos de ternura. E em termos de perdão. A compaixão é o segredo que recria tudo, que renova tudo. Que torna tudo novo, inaugural.
“A primeira morte da minha vida foi a da minha avó, que era Antônia e fora amiga de Machado de Assis, desde menina. Morava em Friburgo e tinha apenas 56 anos. Morreu de repente, tão sozinha na serra. E meu pai chorou perdidamente, ao desligar o telefone.
“Não fui a Friburgo. Eram cinco horas de trem. Mas não senti emoção nenhuma com a morte distante daquela avó gorducha, que gostava de comer bem e tinha sempre a mesa cheia de convidados. Senti que ela viajara. Deixei-a em paz. Não me impressionou que ela tivesse partido. Achei aquilo tão natural, tão esperável. Não sinto saudades dos mortos.
“A irmãzinha morte. Franciscanamente. Di Cavalcanti louvara a Deus por ter criado o azul e as mulheres plácidas. E por ter criado o perdão. Louvo a Deus por haver fundado a morte, essa grande invenção misteriora. Aceito a morte.
“Ela está dentro de nós. Caminha conosco. Vai indo pelas ruas do mundo, tão humilde, tão invisível, tão escondida. Ela se constrói lentamente, dentro de nós. Dialoga silenciosamente conosco. E, súbito, aparece, numa curva do caminho, como um canto de aleluia.
“Convivo bem com a morte. Contemplo-a, quietamente. Espero-a com uma paz tão serena, a nossa mortezinha particular, a nossa pequena morte, humílima, salvação, libertação, abertura. Morte implica logo a ideia de vida, exige a presença fortíssima, soberana, da vida. Creio na vida.
“A morte não existe. Eis a grande descoberta que fazemos, ao longo da vida. A morte não existe. O que existe é a vida. A vida é boa, lá disse – ao morrer – o nosso Machado de Assis.”

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Fontes: BERNANOS, George. “Romans”. Edit. Omnibus/PLON, 1994, apud Jean-Loup Bernanos, em “Notice Biographique”, pág. 1433. (*)VILLAÇA, Antonio Carlos. “Os Saltimbancos da Porciúncula”, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1996, pág. 56-58.