Ainda e sempre, Bernanos

“- Para mim, a obra de um artista não é nunca a soma de suas decepções, sofrimentos e dúvidas, do mal e do bem de toda sua vida, mas de sua vida ela própria, transfigurada, iluminada, reconciliada. Sei bem que não se prova nunca do vinho novo desta reconciliação consigo próprio, senão quando a colheita é feita – como a dor física que pode se prolongar muito depois de terminada a sua causa – e assim, tendo acontecido essa reconciliação, fruto de um esforço imenso, nós continuamos ainda a desejá-la.
Porque nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva: é preciso que nós tenhamos nos doado, na mesma medida que sabemos que morreremos vazios, que morreremos como natimortos (…) antes de despertarmos (deste `seuil franchi´) na doce piedade de Deus, como quem desperta numa manhã fresca e profunda.” 

(G. Bernanos)

[(*) seuil franchi = ao cruzar o limiar, entre a Vida e a Morte, biensûr!]

A lenda e a legenda (de) Bernanos

Quando quero me despedir ou saudar um(a) amigo(a) à moda antiga, aqui na websphere, abro o volume de Correspondências de Bernanos (1) e copio alguma coisa do fecho de alguma de suas maravilhosas cartas a amigos, editores, críticos etc.
Hoje, pensando sobre a realidade política e literária do Brasil, abro o tomo do “velho urso” numa página ao acaso e me deparo com isso:
“Madame,
Je suis un ours, le plus ours des ours, mais bien désolé de sa ourserie, et qui trouve que la vie des ours est bien longue pour l’agrément qui’ls en ont.
Votre trop généreuse et trop gracieuse sympathie est ainsi cruelle sans le savoir. Je ne la mérite pas. Je ne puis plus seulement ouvri l’un de vos livres sans rougir de vous avoir laissée ignorer qu’ils sont depuis longtemps mes ennemis familiers (…)
E isso: 
“Mon bien cher ami,
Dieu vous rende au centuple ce que vous m’avez donné – la certitude qui pour un petit instant m’a fait tel que votre douce amitié me souhaite et me voit ! En pleine tristesse, en plein abandon, en plein dégoût, votre magnifique témoignage m’a littéralement éclaté dans le coeur… J’aurais pu vous écrire plus tôt : j’avais presque peur d’user ma joie… Et quelle joie, mon ami ! Car je n’écris que pour vous, et nos frères de race. Je n’espérais donc remercie chèrement, naïvement, de toute mon âme.
Il est à vous, ce livre. Je manquais tellement de courage et de confiance ! Un seul mot de vous m’eût fait tout lâcher. C’est une autre grande joie de vous le laisser, de vous le confier. Je vous enverrai le second exemplaire, incessamment. Je vous écrirai de nouveau.
Bien tendrement vôtre,
G. Bernanos.

Esse tipo de franqueza e fraternal afeto só o vejo (entre escritores brasileiros) nas cartas de Alceu Amoroso Lima a Jackson de Figueiredo.
E o leitor há de me perguntar: por que ler (e reler) essas cartas tão antigas ?
– Eis que a correspondência nos revela segredos (e mistérios) da alegria (dos anseios e da melancolia) da vida dos escritores que amamos. É como olharmos pela janela iluminada que só nos revelara apenas a sombra do homem curvado sobre a escrivaninha com a pena suspensa, à espera da próxima frase. Quando falam com os amigos mais próximos (e leais – nota 2), é como se abrissem seu coração como o fazem conosco, seus leitores dezenas de anos depois.
As cartas que transcrevo são de 1925/26, portanto, com idade de quase 90 anos… et pourtant continuam “à éclater dans le coeur…”
Eia, pois, que essa é a legenda de Bernanos, de quem assistimos, com alegria, um Revival Bernanos no Brasil 2011/12, graças aos lançamentos da editora É Realizações e aos grupos (em sua maioria compostos por jovens) que o rediscutem, como um dos católicos escritores mais interessantes do séc. XX.

Coleção Bernanos na ERealizações
Bom fim-de-semana a todos.
Bien amicalement à vous,
Beto.
+++++
Fonte: (1) “BERNANOS, Georges. “Correspondance”. Tome I:1904-1934. Ed. Plon, 1971. Pág. 272 et 191. A primeira transcrição é de uma carta à escritora Anna De Noailles, publicada no “Table Ronde”, abril de 1954. A segunda, ao amigo Robert Vallery-Radot, em 21.05.1925 (Ascension).
(2) “Dans une lettre à Jorge de Lima peu de temps avant son départ du Brésil, le 8 janvier 1945, il écrit: ‘ Je vous prie donc de détruire les lettres inconvenantes ou injustes, sauf si par hasard elles contiennent un jugement intéressant et révélateur de ma pensée, de mon naturel, de mon être enfin, bien affermi et raffermi. Quant à celles qui contiennent des blagues, de simples amusements, des choses insensées (mes lettres en sont pleines), vous feriez miux de les déchirer…’ Comment ses correspondants n’auraient-ils pas rspecté l’esprit de ce voeu de Bernanos, quitte à être moins sévères que lui pour les ‘simples amusements’ qui, eux aussi, sont révélateurs d’une manière d’être et de sentir la vie ? (op.cit, pág. 11).

Meditação libertadora ou la douce pitié de Dieu

UMA PESSOA um dia me fez pensar sobre “A consciência da finitude” – Sein zum Tode – dissera.

E se me deixo pautar por aquela pessoa é porque seus textos em geral são muito bons, do jeito mais simples que o majestoso se mostra a quem sabe ver.

Como profissional venho me dedicando ao mundo da tecnologia nos últimos vinte anos, e assim, naturalmente, eu me toquei com a morte de Steve Jobs, naturalmente deixei-me inundar pela “meditação da morte” que, segundo A.C. Villaça, “nos liberta de nós mesmos, perecíveis…”

E a confissão de minha amiga me leva a pensar (e mesmo a reler o texto completo do famoso discurso de Jobs a universitários numa formatura em Stanford). E continuo pensando no fecho confessional do post daquela pessoa num passado recente:

“Para os meus amigos, devo confessar que somente há pouco tempo chegou em mim, para-mim, com uma razoável dose de desencanto –  e em absoluto não deveria ser assim – a consciência da finitude (…),  jamais falei pensando nisso objetivamente.  Hoje, penso sem falar. “Sein zum Tode”. 

Lembrei-me de uma nota biográfica de Georges Bernanos, em sua meditação libertadora, transcrita pelo filho Jean-Loup: “Lui qui avait tant médité sur la mort; avec crainte: ‘Si vous saviez comme j’en ai peur de la camarde…’, avec doucer et espérance: ‘Ô mort si fraîche! ô seul matin!’ , c’est en murmurant “À nous deux maintenant” qu’il mourut le 5 juillet 1948 à l’hôpital américain de Neuilly”, conclui Jean Loup. E assim se cumpria a profecia que um depoimento antigo do pai registrara que “nous mourion vides, que nous mourions comme de nouveau-nés (…) avant de se réveiller, le seuil franchi, dans da douce pitié de Dieu, comme dans un aube fraîche et profonde…”

E foi assim, que quase ao acaso, abri meu volumezinho de “Os Saltimbancos da Porciúncula”, donde retirei o texto que vos deixo para iluminar a  meditação sobre essa consciência da finitude:

Requiem por Mim (A.C.Villaça*)
“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga, em Coimbra, aos 87 anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.
“Nunca o vi. Mas a confraria literária tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na literatura, no amor da literatura.
“Ele escreveu Requiem por mim. Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmo, perecíveis.
“A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco no mais profundo de nós como uma companheira cotidiana, amável.
“Vi minha mãe morta. Vi meu pai morto. Não os vi morrer. Mas, diante deles mortos, não senti nada. Fiquei numa grande paz. era evidente que eles já não estavam mais ali. Já não eram eles. Tinham partido, sem dúvida. Ali, estavam simplesmente uns restos, os despojos precaríssimos. Estavam longe dali. Já se haviam libertado. Senti uma paz infinita. Uma doçura. A morte é doce. A morte é pacificadora.
Nossa Senhora da Ternura. Gosto tanto desta invocação. A ternura de Deus. Tudo se resolve em termos de ternura. E em termos de perdão. A compaixão é o segredo que recria tudo, que renova tudo. Que torna tudo novo, inaugural.
“A primeira morte da minha vida foi a da minha avó, que era Antônia e fora amiga de Machado de Assis, desde menina. Morava em Friburgo e tinha apenas 56 anos. Morreu de repente, tão sozinha na serra. E meu pai chorou perdidamente, ao desligar o telefone.
“Não fui a Friburgo. Eram cinco horas de trem. Mas não senti emoção nenhuma com a morte distante daquela avó gorducha, que gostava de comer bem e tinha sempre a mesa cheia de convidados. Senti que ela viajara. Deixei-a em paz. Não me impressionou que ela tivesse partido. Achei aquilo tão natural, tão esperável. Não sinto saudades dos mortos.
“A irmãzinha morte. Franciscanamente. Di Cavalcanti louvara a Deus por ter criado o azul e as mulheres plácidas. E por ter criado o perdão. Louvo a Deus por haver fundado a morte, essa grande invenção misteriora. Aceito a morte.
“Ela está dentro de nós. Caminha conosco. Vai indo pelas ruas do mundo, tão humilde, tão invisível, tão escondida. Ela se constrói lentamente, dentro de nós. Dialoga silenciosamente conosco. E, súbito, aparece, numa curva do caminho, como um canto de aleluia.
“Convivo bem com a morte. Contemplo-a, quietamente. Espero-a com uma paz tão serena, a nossa mortezinha particular, a nossa pequena morte, humílima, salvação, libertação, abertura. Morte implica logo a ideia de vida, exige a presença fortíssima, soberana, da vida. Creio na vida.
“A morte não existe. Eis a grande descoberta que fazemos, ao longo da vida. A morte não existe. O que existe é a vida. A vida é boa, lá disse – ao morrer – o nosso Machado de Assis.”

+++++
Fontes: BERNANOS, George. “Romans”. Edit. Omnibus/PLON, 1994, apud Jean-Loup Bernanos, em “Notice Biographique”, pág. 1433. (*)VILLAÇA, Antonio Carlos. “Os Saltimbancos da Porciúncula”, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1996, pág. 56-58.




Meditação libertadora ou la douce pitié de Dieu

UMA PESSOA um dia me fez pensar sobre “A consciência da finitude” – Sein zum Tode – dissera.

E se me deixo pautar por aquela pessoa é porque seus textos em geral são muito bons, do jeito mais simples que o majestoso se mostra a quem sabe ver.

Como profissional venho me dedicando ao mundo da tecnologia nos últimos vinte anos, e assim, naturalmente, eu me toquei com a morte de Steve Jobs, naturalmente deixei-me inundar pela “meditação da morte” que, segundo A.C. Villaça, “nos liberta de nós mesmos, perecíveis…”

E a confissão de minha amiga me leva a pensar (e mesmo a reler o texto completo do famoso discurso de Jobs a universitários numa formatura em Stanford). E continuo pensando no fecho confessional do post daquela pessoa num passado recente:

“Para os meus amigos, devo confessar que somente há pouco tempo chegou em mim, para-mim, com uma razoável dose de desencanto –  e em absoluto não deveria ser assim – a consciência da finitude (…),  jamais falei pensando nisso objetivamente.  Hoje, penso sem falar. “Sein zum Tode”. 

Lembrei-me de uma nota biográfica de Georges Bernanos, em sua meditação libertadora, transcrita pelo filho Jean-Loup: “Lui qui avait tant médité sur la mort; avec crainte: ‘Si vous saviez comme j’en ai peur de la camarde…’, avec doucer et espérance: ‘Ô mort si fraîche! ô seul matin!’ , c’est en murmurant “À nous deux maintenant” qu’il mourut le 5 juillet 1948 à l’hôpital américain de Neuilly”, conclui Jean Loup. E assim se cumpria a profecia que um depoimento antigo do pai registrara que “nous mourion vides, que nous mourions comme de nouveau-nés (…) avant de se réveiller, le seuil franchi, dans da douce pitié de Dieu, comme dans un aube fraîche et profonde…”

E foi assim, que quase ao acaso, abri meu volumezinho de “Os Saltimbancos da Porciúncula”, donde retirei o texto que vos deixo para iluminar a  meditação sobre essa consciência da finitude:

Requiem por Mim (A.C.Villaça*)
“Soube, hoje, da morte de Miguel Torga, em Coimbra, aos 87 anos. Nunca vi Torga. Fui a Coimbra e pude ver a placa singela, Adolfo Rocha. Ele era otorrinolaringologista. Não bati. Não lhe falei. Tinha fama de ser esquivo, reservado.
“Nunca o vi. Mas a confraria literária tem esse privilégio de uma união profunda, uma comunhão, que nos emociona e está para além do espaço e tempo. Sentimo-nos, sim, unidos. Unidos na literatura, no amor da literatura.
“Ele escreveu Requiem por mim. Agora, tenho vontade de escrever o meu Requiem por mim, em memória dele. A meditação da morte nos dilata. Ela nos liberta de nós mesmo, perecíveis.
“A morte não me assusta, não me espanta. Creio que convivo bem com a morte. A morte é fraternal. A morte é nossa amiga íntima. Ela convive conosco. Vai indo conosco no mais profundo de nós como uma companheira cotidiana, amável.
“Vi minha mãe morta. Vi meu pai morto. Não os vi morrer. Mas, diante deles mortos, não senti nada. Fiquei numa grande paz. era evidente que eles já não estavam mais ali. Já não eram eles. Tinham partido, sem dúvida. Ali, estavam simplesmente uns restos, os despojos precaríssimos. Estavam longe dali. Já se haviam libertado. Senti uma paz infinita. Uma doçura. A morte é doce. A morte é pacificadora.
Nossa Senhora da Ternura. Gosto tanto desta invocação. A ternura de Deus. Tudo se resolve em termos de ternura. E em termos de perdão. A compaixão é o segredo que recria tudo, que renova tudo. Que torna tudo novo, inaugural.
“A primeira morte da minha vida foi a da minha avó, que era Antônia e fora amiga de Machado de Assis, desde menina. Morava em Friburgo e tinha apenas 56 anos. Morreu de repente, tão sozinha na serra. E meu pai chorou perdidamente, ao desligar o telefone.
“Não fui a Friburgo. Eram cinco horas de trem. Mas não senti emoção nenhuma com a morte distante daquela avó gorducha, que gostava de comer bem e tinha sempre a mesa cheia de convidados. Senti que ela viajara. Deixei-a em paz. Não me impressionou que ela tivesse partido. Achei aquilo tão natural, tão esperável. Não sinto saudades dos mortos.
“A irmãzinha morte. Franciscanamente. Di Cavalcanti louvara a Deus por ter criado o azul e as mulheres plácidas. E por ter criado o perdão. Louvo a Deus por haver fundado a morte, essa grande invenção misteriora. Aceito a morte.
“Ela está dentro de nós. Caminha conosco. Vai indo pelas ruas do mundo, tão humilde, tão invisível, tão escondida. Ela se constrói lentamente, dentro de nós. Dialoga silenciosamente conosco. E, súbito, aparece, numa curva do caminho, como um canto de aleluia.
“Convivo bem com a morte. Contemplo-a, quietamente. Espero-a com uma paz tão serena, a nossa mortezinha particular, a nossa pequena morte, humílima, salvação, libertação, abertura. Morte implica logo a ideia de vida, exige a presença fortíssima, soberana, da vida. Creio na vida.
“A morte não existe. Eis a grande descoberta que fazemos, ao longo da vida. A morte não existe. O que existe é a vida. A vida é boa, lá disse – ao morrer – o nosso Machado de Assis.”

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Fontes: BERNANOS, George. “Romans”. Edit. Omnibus/PLON, 1994, apud Jean-Loup Bernanos, em “Notice Biographique”, pág. 1433. (*)VILLAÇA, Antonio Carlos. “Os Saltimbancos da Porciúncula”, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1996, pág. 56-58.




Memória: Bernanos no Brasil (ii)

Em posts anteriores, eu fiz referência ao exílio voluntário do escritor francês Georges Bernanos no Brasil.

Georges Bernanos, dez/1929

Recentemente, publiquei uma longa resposta (na verdade, um longo excursus) a uma questão proposta
pelo ensaista e crítico francês Juan Asensio, argumentando pela “Presença e Permanência de Georges Bernanos
Agora, me caiu às mãos um texto em mídia de um livro já comentado antes aqui:
Bernanos no Brasil: Testemunhos Vividos
(livro org. de Hubert Sarrazin, Vozes, 1968, publicado no 20º aniversário da morte de GB).

Trata-se – o dito texto – da memória da amizade de Geraldo França de Lima com o escritor francês, em sua temporada nas Minas Gerais.

Geraldo de França Lima relembra a amizade com Bernanos

Geraldo França de Lima, da ABL, rememora sua amizade com GB


Graças ao Google Livros (que me trouxe a referenciou do texto de GFL) e à ABL, o leitor poderá continuar lendo isso aqui…

Para aqueles que não tiveram o prazer de conhecer o escritor Georges Bernanos, fica esta referência.

Diálogos das Carmelitas (Bernanos)

ALEGRA-ME imensamente, na condição de leitor entusiasmado de Georges Bernanos, ver que sua obra – 62 anos após sua morte -, continua sendo lida e gerando interesse entre leitores dos mais importantes lugares (e palcos) do mundo.

A notícia de que a ópera composta a partir de seu texto para o teatro (com título na referência deste post) está sendo levada mais uma vez em Nova York, na Juilliard School, é o mote deste post e deixa-nos (todos os fãs de Bernanos) muito contentes.
É o trabalho literário de GB ganhando permanência ao longo do tempo.

Não vou fazer aqui um arremedo de crítica da obra-prima final da vida de Bernanos, mas apenas expressar minha alegria com a notícia, dizendo que é bom ver a beleza dos Diálogos se repetirem em tão alto nível – mostrando quem é o criador Bernanos.

Capa Bernanos_Diálogos das Carmelitas
A legenda da peça (1952) foi retirada por Bernanos do seu romance La Joie (A Alegria):

“O Medo, de certa maneira, é também filho de Deus, resgatado na noite da Sexta-Feira Santa. Não se apresenta sob um belo aspecto – ao contrário! – ora amaldiçoado, ora ridicularizado, por todos repudiado… Mas não se iludam: presente à cabeceira de cada agonia, o Medo intercede pelo homem”.


Este livro – o último escrito por G. Bernanos -, foi gerado no inverno de 1947-48 e publicado (post-mortem) em 1952. Bernanos já estava muito doente, depois de seu retorno do Brasil à Europa, donde o errante escritor católico se mudara para a Tunísia.

Ele termina a composição dos Diálogos em meados de março, no dia exato em que o agravamento da doença o obriga a ficar acamado definitivamente, sendo logo depois levado a Paris, num atendimento de emergência (ele morava na Tunísia, à época como dito acima), para uma operação desesperada. Vem a falecer no Hospital Americano de Paris (Neuilly), no dia 5 de julho de 1948. A ópera com música de Francis Poulenc é de 1957 e o filme, de 1960.

O resumo e a estória de como Poulenc compôs a ópera, baseada no livro de GB estão nos links abaixo:

1) Uma leitura cristã, no site de Frei Felisberto Caldeira de Oliveira:

2) O resumo da ópera, pelo site da Julliard School é este.

O website da Juilliard Opera (NY, USA) traz ainda o programa da ópera para abril 2010:

Les dialogues des Carmelites“, o filme (de 1960) de R.P.Bruckberger e P.Agostini
com Jeanne Moreau, Alida Valli et Pascale Audret (como Blanche de la Force). Roteiro de Philippe Agostini sobre texto original de Georges Bernanos.

No IMDb, a ópera e o filme de Raymond Leopold Bruckberger.

O sofrimento das freiras e a agressão dos homens que fizeram o período do Terror na Revolução Francesa estão sintetizados nas cenas finais da peça. Ali, Bernanos mostra como Blance de la Force reencontra na religião a força de expressar sua nobreza, talvez filha da dúvida no primeiro momento, mas a certeza no final:
O medo não ofende a Deus – diz Blanche: “Nasci no medo e nele vivi e ainda vivo! Todos o desprezam e, no entanto, é justo que eu seja desprezada… Só meu pai me impedia de falar nele. Está morto. Foi guilhotina há poucos dias.” (p.129, ed. Agir, 1960).

E lá vão elas, as monjas vítimas da Revolução, na carroça que as conduz ao cadafalso, unidas pela Fé em Deus, plenas do conforto espiritual, contra a adversidade suprema da pena de morte que lhes decretara o Terror – e este final encontra Branca de la Force com “rosto sereno, sem sombra de Medo“:

A força da Fé Cristã enfrentando a Morte

Bernanos volta ao Vaticano

“O Cristão Bernanos” (d´après le livre de Balthasar) permanece vivo em nossas consciências e na consciência do pessoal da Igreja que hoje se reúne no Vaticano para reflexões do período da Quaresma.

Que alegria saber que Georges Bernanos continua atual e didático. Que dupla alegria saber que Bernanos que teve um livro sobre a guerra civil espanhola contestado pelo Vaticano, volta à Santa Sé como um exemplo de literatura cristã.

Muitas lições extraídas pelo teólogo salesiano Padre Enrico Dal Covolo aborda nas meditações de hoje o tema “Da dúvida e da tentação” sob a inspiração de Um cura de Aldeia, de G.B., como esta:

Georges BernanosSe não fosse a vigilante piedade de Deus, creio que na primeira tomada de consciência de si mesmo o homem recairia no pó.”
Era 1936 quando o mundo conheceu os tormentos interiores do pároco d’Ambricourt, o cura da zona rural nascido da profunda sensibilidade de Bernanos. Nas palavras desse personagem da ficção – hoje proposto à atenção do Papa e de seus colaboradores – percebe-se a repercussão da luta interior, do sentido do limite, da necessidade de uma força maior que todo cristão, especialmente se consagrado, percebe diante das provações que caracterizam a existência.

Tem razão Dal Covolo quanto resume:
É, sobretudo, na Quaresma que a fibra cristã compreende em que modo revigorar-se…


Leia trechos importantes do célebre livro, selecionados por Emilio Angueth de Araújo.
Confira o que este blogueiro disse sobre o mestre Bernanos.

Post-Post: Vejam essa palestra do prof. Dr. João Cezar de Castro Rocha no lançamento do livro “Diário de um Pároco de Aldeia” no Espaço Cultural É Realizações, neste link.

Bernanos, la raison prophétique

“Précisément parce que je ne suis qu’un pauvre diable, je sens venir les coups de plus loin, j’ai l’habitude des coups, on ne se gêne pas avec moi. Rien ne me protege du scandale, les dignités ne me tiennent pas chaud (…). Je suis nu devant le scandale, aussi nu que vous serez vous-mêmes avec moi devant le juste juge; nu comme um ver. Il m’est donc facile de constater avant vous que le vent tourne au Nord, et lorsque je claque les dents, méfiez-vous, c’est peut-être qu’il neigera demain”.

(Georges Bernanos, Les Enfants Humiliés, p.225, Gallimard, 1949, cit. par Hans-Ur Von Balthasar, “Le Chrétien Bernanos”, p.53-4).

5 escritores e 5 destinos diversos

Seria um sonho ou estaria ainda o leitor apaixonado no estado de vigília?
De fato, só tive noção do que pensava intensamente, quando levantei-me para tomar nota de situações que envolvem alguns escritores que passaram por minha vida de leitor mediano (mas sempre apaixonado), em que leituras e destinos “turísticos e culturais”. Esses lugares onde viveram, trabalharam (ou apenas reúnem suas memórias e acervo) se impõem a quem ama a literatura e se interessa pela vida dos escritores prediletos.

São 5 casas-museus, das quais 4 visitadas em emoções e tempos diversos. Uma que aguarda um tempo de retraite para a ela se dedicar.
Thomas Mann, François Mauriac, Rui Barbosa e Georges Bernanos se encontram neste post, como os personagens dos quadros de uma pinacoteca saltassem para se encontrar com séculos de diferença, apenas porque expostos no mesmo hall de um museu.

Primeiro, uma crônica de Carlos Drummond – que não sei se publicada em O Globo ou no JB (imagino, pois eram os 2 jornais de minha predileção no final dos anos ´70 e início dos ´80, onde também acompanhava com ritual atenção os comentários sempre imaginosos e divertidos de Nélson Rodrigues).

Pois bem, daquela folha contendo a exaltação de Rui Barbosa e da casa-museu que lhe dedicaram no bairro de Botafogo (RJ), nasceu a vontade de visitar a casa – o que só veio a ocorrer em 81, pois que um amigo juiz-de-forano, meu chefe à época, animou-me a conhecer, superando meu espírito caipira e interiorano e assustado de enfrentar o Rio de Janeiro.

Visitei a casa e fiquei com boas emoções da biblioteca, do espaço do museu criado em torno da figura do homem público que “volta glorioso aos jornais, vencidos os prazos do silêncio” com a comemoração da campanha civilista. Mas o Rui, que pouco conheci sem tê-lo visto, à exemplo do poeta que confessa “bem o conheci, sem tê-lo visto”, era o Rui dos manuais de retórica e pouco se nos interessava à época, não fôssemos candidatos ao curso de Direito. Eis uma casa-museu visitada pelo apelo do Poeta CDA e de onde trago apenas a lembrança de um agradável espaço à figura cívica do jurista.

Depois, vieram minhas viagens à Europa, onde minha mulher e eu procurávamos sempre  incluir o alimento cultural às fatias gastronômicas tradicionais da cuisine française aux bières et au vin, para que o impacto da paisagem não nos causasse logo de início a síndrome de Stendhal. Em Zurich, visitamos “Das Thomas Mann Archiv”.

Zurich

Era o tempo da minha paixão pelos escritos de Mann – “Os Buddenbrook”, a saga de “José do Egito” (formalmente, José e seus Irmãos) e, sobretudo pela “Montanha Mágica”, que me deixava à vontade por seus diálogos em francês, adequadamente mantidos na tradução para o português, feitas pelo inesquecível Herbet Caro (RS).

Embora a barreira da língua alemã se impusesse como uma montanha sobre a visita, uma esforçada atendente me proporcionou apreciar a casa-museu com um atendimento em um francês sofrível mas que denotava seu esforço em agradar um leitor brasileiro do mestre da casa-museu. Guardo até hoje a brochura (um caderninho) com que me presentearam na visita (veja foto).

Com Gilberto Freire, diria que a casa-museu (Solar) de ApipucosFundação Gilberto Freire, Apipucos, Recife (PE) foi por mim esnobado em toda a temporada recifense que me proporcionou o trabalho em um banco, trabalhando bem próximo a Marcos Freire, no Recife. Só muito tempo depois, tendo compreendido o papel de Freire (o Gilberto) Postal da Casa-Museu Magdalena e G. Freirepara a compreensão do Brasil, com sua análise sempre atual, volto ao Recife a negócios e dedico uma tarde a visitar o solar, donde trouxe cartões-postais e uma certeza de que a casa merecia manutenção adequada e recursos, que provavelmente vão para fundações como a de Sarney (no Maranhão).

Com François Mauriac, a experiência da visita já foi reportada aqui. A alegria de

Maison François Mauriac

visitar Malagar foi (é) similar ao tamanho da melancolia que me invade pensando na contradição entre o destino desses dois escritores (católicos e franceses) e sobre a pobre residência de Georges Bernanos no Brasil, mas que bem cuidada com voluntarismo, sobrevive aos tempos, como um barroco pobre em uma Minas Gerais de (antigos e atuais imponentes) áureos recursos.

Ele, Bernanos que viveu e amou o Brasil, tem sua casinha-museu humilde Museu Bernanos - Barbacena (MG), Brésil (mas resistente) na sua amada “Cruz das Almas”,
como a testemunhar o que profetizara o exilado francês em Minas Gerais (ver trans

crição).

Casa-museu G. Bernanos em Barbacena (MG)


Continuar lendo

Livros novos: novos Bernanos

Alegria ao receber da Amazon.Fr 2 novos livros:
1 – Hans Urs von BALTHASAR “Le Chrétien Bernanos“, ed. Parole et Silence, 2008;  e

2 – “Brésil, terre d´amitié” (G.B.), ed. La Table Ronde, 2009. Seleção de textos, anotações e prefácio de Sébatien Lapaque.
Em breve, poderei comentá-los.

Por ora, compartilho a alegria de livro novo em minha mesa de leitura.Capas Novos Livros Bernanos