“Grande Sertão: Veredas” visto (e relido) na França*

Com este título, o único romance publicado por João Guimarães Rosa há 54 anos, o livro brasileiro continua apaixonando e desafiando leitores ao redor do mundo. Além do mérito de “superar o isolamento das literaturas ditas ‘pequenas’, como sublinha Otto Maria Carpeaux (1), este livro de J.G. Rosa (com todos os adjetivos, que inclui grandioso) vem sendo traduzido em diversos idiomas, sempre desafiando tradutores – como destaca Marie-Hélène Catherine Torres (2) e leitores (como reforça o crítico francês Juan Asensio).

O crítico francês Juan Asensio nos faz voltar à estante Guimarães Rosa_Estante (3) e de lá retirar esta obra-prima (no meu caso, lida no final da década de 70, e desde lá encadernada e não mais revisitada, senão para citações, p.ex. sobre as poucas referências a Goiás), pois que de fato o desejo criado pela leitura pode ser mesmo musical, como se aquele que se (re)aproxima deste livro-rio, ouvisse uma sinfonia.
E falar de “Grande Sertão:Veredas” parece mesmo ser falar de música – como quer Vargas Llosa no prefácio da edição francesa (Vargas Llosa sobre Grande Sertão:Veredas) : “…como os sons ganham numa peça de música uma natureza autônoma, neste romance a linguagem conquistou sua independência, ela basta a si mesma, é seu próprio começo e seu próprio fim. Uma tal leitura, que se deixasse submeter a um encantamento fonético, sucumbindo à magia verbal, faria aparecer o romance de Guimarães Rosa como uma torre de Babel miraculosamente suspensa acima da realidade humana, separada dela e entretanto viva, um edifício mais próximo da música (ou de uma certa poesia) que da literatura”. Ou, para Asensio é como falar de uma “imensa sinfonia… que é urgente escutar de novo, e reler, como todo grande romance deve ser relido não uma ou duas vezes, mas várias vezes, e não apenas para saborear um pouco mais as sutilezas do texto ou compreender de que maneira o autor ocultou eruditamente o segredo de Diadorim ou como o homem se constitui…será preciso reler Grande Sertão enquanto nos sobrar o alento desse «homem humano» tão efêmero quanto infinito.”

Sabe-se que o “Grande sertão…” foi traduzido pela primeira vez em França, em 1965, por Jean-Jacques Villard en 1965, sob o título de “Diadorim“, e de novo sob o mesmo título em 1991, por Maryvonne Lapouge-Pettorelli, tradução reeditada em 1995 et 1997 (cfme. Torres 2009). Concordo com Asensio que : “Diadorim é um título enganoso [para a tradução francesa], pois o original evoca, mais que a personagem de olhos verdes envolta em pesada fragrância erótica, o sertão…” Com vocês, mais uma leitura interessantes e que nos deixa orgulhosos como leitores lusófonos (e de tantos amigos francófonos): mes amis, je vous présente “cette melodie infinie” (Cândido-Torres) : uma releitura francesa deste monólogo infinito e apaixonante do mais fundo Brésil profond : le Sertão.
Guimaraes Rosa_Estante

Por tudo isso, tenho a alegria de republicar hoje o texto deste ilustre amigo virtual Juan Asensio em duas versões.
1 – Asensio sur Guimaraes Rosa en Français; 2 – Artigo sobre Grande Sertão: Veredas, Asensio em Português.

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Fontes: (*) Citações de Juan Asensio do site http://stalker.hautetfort.com/
(1) CARPEAUX, Otto Maria. “História da Literatura Ocidental”, vol.8, pág. 2280.
(2) O desafio de traduzir Guimarães Rosa, TORRES, Marie-Hélène Catherine «Le défi de traduire Guimarães Rosa», Plural Pluriel – revue des cultures de langue portugaise, [En ligne] n° 4-5, automne-hiver 2009.

Diálogos das Carmelitas (Bernanos)

ALEGRA-ME imensamente, na condição de leitor entusiasmado de Georges Bernanos, ver que sua obra – 62 anos após sua morte -, continua sendo lida e gerando interesse entre leitores dos mais importantes lugares (e palcos) do mundo.

A notícia de que a ópera composta a partir de seu texto para o teatro (com título na referência deste post) está sendo levada mais uma vez em Nova York, na Juilliard School, é o mote deste post e deixa-nos (todos os fãs de Bernanos) muito contentes.
É o trabalho literário de GB ganhando permanência ao longo do tempo.

Não vou fazer aqui um arremedo de crítica da obra-prima final da vida de Bernanos, mas apenas expressar minha alegria com a notícia, dizendo que é bom ver a beleza dos Diálogos se repetirem em tão alto nível – mostrando quem é o criador Bernanos.

Capa Bernanos_Diálogos das Carmelitas
A legenda da peça (1952) foi retirada por Bernanos do seu romance La Joie (A Alegria):

“O Medo, de certa maneira, é também filho de Deus, resgatado na noite da Sexta-Feira Santa. Não se apresenta sob um belo aspecto – ao contrário! – ora amaldiçoado, ora ridicularizado, por todos repudiado… Mas não se iludam: presente à cabeceira de cada agonia, o Medo intercede pelo homem”.


Este livro – o último escrito por G. Bernanos -, foi gerado no inverno de 1947-48 e publicado (post-mortem) em 1952. Bernanos já estava muito doente, depois de seu retorno do Brasil à Europa, donde o errante escritor católico se mudara para a Tunísia.

Ele termina a composição dos Diálogos em meados de março, no dia exato em que o agravamento da doença o obriga a ficar acamado definitivamente, sendo logo depois levado a Paris, num atendimento de emergência (ele morava na Tunísia, à época como dito acima), para uma operação desesperada. Vem a falecer no Hospital Americano de Paris (Neuilly), no dia 5 de julho de 1948. A ópera com música de Francis Poulenc é de 1957 e o filme, de 1960.

O resumo e a estória de como Poulenc compôs a ópera, baseada no livro de GB estão nos links abaixo:

1) Uma leitura cristã, no site de Frei Felisberto Caldeira de Oliveira:

2) O resumo da ópera, pelo site da Julliard School é este.

O website da Juilliard Opera (NY, USA) traz ainda o programa da ópera para abril 2010:

Les dialogues des Carmelites“, o filme (de 1960) de R.P.Bruckberger e P.Agostini
com Jeanne Moreau, Alida Valli et Pascale Audret (como Blanche de la Force). Roteiro de Philippe Agostini sobre texto original de Georges Bernanos.

No IMDb, a ópera e o filme de Raymond Leopold Bruckberger.

O sofrimento das freiras e a agressão dos homens que fizeram o período do Terror na Revolução Francesa estão sintetizados nas cenas finais da peça. Ali, Bernanos mostra como Blance de la Force reencontra na religião a força de expressar sua nobreza, talvez filha da dúvida no primeiro momento, mas a certeza no final:
O medo não ofende a Deus – diz Blanche: “Nasci no medo e nele vivi e ainda vivo! Todos o desprezam e, no entanto, é justo que eu seja desprezada… Só meu pai me impedia de falar nele. Está morto. Foi guilhotina há poucos dias.” (p.129, ed. Agir, 1960).

E lá vão elas, as monjas vítimas da Revolução, na carroça que as conduz ao cadafalso, unidas pela Fé em Deus, plenas do conforto espiritual, contra a adversidade suprema da pena de morte que lhes decretara o Terror – e este final encontra Branca de la Force com “rosto sereno, sem sombra de Medo“:

A força da Fé Cristã enfrentando a Morte

Simenon (2)

Maigret
Maigret

Bem à vontade com o fim-de-semana prolongado.
Isso porque tenho várias e boas razões para relaxar e ficar bem sossegado.
A mais importante é que nossa casa está de novo um ninho cheio, com a presença das filhas e do nosso neto.

Recebemos amigos, fomos recebidos por outros e, entre os momentos tomando conta do Lucas e do jardim, um tempinho para ler Maigret, personagem de G. Simenon. Pena que o compadre Chico, que tanto aprecia o Maigret, está se recuperando de uma dengue.

Hoje, em condições normais, sem a presença de tanta gente querida e importante, seria dia de um post daqueles tijolaços.

Mas, pelas circunstâncias, só uma observação sobre o escritor francófono, nascido na Bélgica (Liège), em 13 de fevereiro de 1903 e falecido em Lausanne, Suíça,  em 4 de setembro de 1989).

Tendo lido todos os volumes da coleção de livros de bolso da L&PM Pocket, fico feliz que estejam relançando livros até hoje inéditos em português fora da edição anterior (e agora não numerados).

Embora alguns desses livros prometidos já estejam aguardando na estante para ser lidos (em Francês), é bom saber que posso tê-los na língua de Camões. Simenon é garantia de leitura leve e sempre agradável.

Leia Mais sobre Simenon.

Bernanos, Lapaque e a Saudade

Tradução livre (forma de dizer que não é profissional), da citação à entrevista de Sébastien Lapaque. Tem a ver com o que citei antes sobre o  sentido do termo Saudade segundo Lapaque.

Après le desengano,  la désillusion éducatrice familière aux apprentissages portugais, ce retour aux origines est la définition même de la saudade, mélancolie proprement lusitaine, qui est à la fois regret de ce qui n’est plus et attente de ce qui sera, manière de retour vers le futur du passé.  Chez Bernanos, la saudade est la nostalgie d’un roi perdu et de la terre natale. Elle est aussi, elle est surtout ce grand sentiment de l’absence qui habite certains livres de sa période brésilienne :  “Les Enfants humiliés, la Lettre aux Anglais,  le Chemin de la Croix des Âmes”. Voilà pourquoi l’exil était nécessaire à Bernanos : pour continuer à aimer la France sans s’en faire une idée fausse au moment de la capitulation, de la défaite et de la honte, le romancier à eu besoin d’éprouver son absence.

Depois do desengano – a desilusão da educação familiar com o aprendizado do português, este retorno às origens é a definição própria da Saudade – esta melancolia bem lusitana, que é ao mesmo tempo arrependimento por aquilo que deixou de existir e espera pelo que pode vir a acontecer -, é uma forma de retorno ao “futuro do passado” (citação ao tempo verbal). Para Bernanos, a Saudade é a nostalgia de um rei perdido e da terra natal distante. Este é também, principalmente, o grande sentimento de ausência que povoa seus livros do período brasileiro – “Les Enfants humiliés, la Lettre aux Anglais,  le Chemin de la Croix des Âmes”. Eis porque o exílio era tão necessário a Bernanos: para que ele continuasse a amar a França sem que tivesse uma falsa ideia do momento em que a França capitulou, a queda da vergonha, foi quando o romancista sentiu necessidade de provar a ausência da pátria.

Entrada que tem a ver com isso.

Ainda Bernanos

De Sébastien Lapaque, em “Sous le Soleil de L´Exil“, Bernanos Romansvem a vontade de aprofundar a leitura dos Sermões de Vieira; ao mesmo tempo que continuar pensando os amigos e herdeiros de Bernanos no Brasil, como Paulus Gordan.

Retomo o capítulo “Le moine et le prophète“, que se inicia com a legenda de Vieira.
E lembro da citação tirada de “Bernanos no Brasil” (Vozes, 1968): dizia dom Paulus Gordan:

Bernanos se me apresentava, espontaneamente, sob o aspecto que melhor o exprimia: como un chevalier sans peur et sans reproche, comparável a algum cruzado que, numa espécie de esperança desesperada e de desespero pleno de esperança, combate, com fidelidade viril, a morte e o demônio“.

Fico feliz que ainda se lê (e se ama) Bernanos!

Ano da França no Brasil (2)

A França oficial e o Brasil corporativo agem para divulgar a cultura francesa.MARC CHAGALL NA CASA FIAT
Pessoalmente, essa é uma exposição que gostaria de (re)ver:
Marc Chagall na Casa Fiat de Cultura em Bh.

A exposição está em cartaz na capital mineira até o dia 4/10, na Casa Fiat de Cultura.

São mais de 300 obras entre pinturas, guaches, esculturas e gravuras, todas expostas gratuitamente ao público.
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Crédito das Fotos: Pedro Silveira/Entrelinhas data:03.08.2009.

Yves Bonnefoy (I)

DOUVE PARLE

O poeta que leva a Poesia a serio
O poeta que leva a Poesia a serio

Quelle parole a surgi près de moi,
Quel cri se fait sur une bouche absente?
A peine si j´entends crier contre moi,
A peine si je sens ce souffle qui me nomme.


Pourtant ce cri sur moi vient de moi,
Je suis muré dans mon extravagance.
Quelle divine ou quelle étrange voix
Eût consenti d´habiter mon silence?

DOUVE FALA

Que palavra surgiu perto de mim,
Que grito nasce numa boca ausente?
Mal posso ouvir o grito contra mim,
Mal sinto o hálito que me nomeia.

No entanto o grito em mim vem de mim mesmo,
Estou murado em minha extravagância.
Que voz divina ou que estranha voz

Consentira em habitar o meu silêncio?

Fonte: Bonnefoy, Yves. “Poèmes“. Mercure de France, 1978, p.57.  Tradução e organização de Mário Laranjeira publicado pela Editora Iluminuras em 1998. Transcrita deste Site