Transcrições do Hipérion (1)


Meu Caro! O que seria a vida sem esperança? Uma centelha que salta da brasa e se extingue, uma rajada de vento que se ouve na estação sombria do ano, que passa zunindo num instante e depois se perde, será assim também conosco?
Também a andorinha procura uma terra amiga no inverno. A caça corre no calor do dia e seus olhos procuram a fonte. Quem diz à criança que a mãe não lhe recusará o peito ? E veja só, ela o procura mesmo assim.
Nada vive sem esperança. Meu coração trancou agora seus tesouros, mas apenas a fim de poupá-los para tempos melhores, para o único, o sagrado e o fiel que, com certeza, minha alma sequiosa vai encontrar, em algum período da existência.
(pág.27)
“(…) Mas do mero intelecto jamais surgiu algo inteligível e da mera razão jamais surgiu algo razoável.
Sem beleza espiritual, o intelecto não passa de um aprendiz servil que faz a cerca com madeira bruta, tal como lhe foi indicado, e prega as estacas serradas para o jardim que o mestre pretende construir. Toda atividade do intelecto é questão de necessidade. Eles nos protege contra o absurdo, contra a injustiça enquanto ordena, mas assegurar-se contra o absurdo e contra a injustiça não é o grau mais elevado da excelência humana.
Sem beleza no espírito e no coração, a razão não passa de um capataz que o senhor da casa envia para vigiar os criados. Assim como os criados, ele sabe muito pouco sobre o resultado final desse trabalho infinito e apenas grita: ‘Mexam-se’, e olha quase desgostoso quando isso acontece, pois, no final, ele não teria mais ordens a dar e seu papel já estaria encerrado.
Do mero intelecto não surgiria nenhuma filosofia, pois filosofia é mais do que apenas o conhecimento restrito do existente. Da mera razão não surgiria nenhuma filosofia, pois filosofia é mais do que apenas o conhecimento restrito do existente.
Da mera razão não surgiria nenhuma filosofia, pois filosofia é mais do que a exigência cega de um progresso interminável na confluência e discernimento de um assunto qualquer.
Contudo, se o divino “hèn diaphéron heautôi” (1) iluminar o ideal da beleza da razão ambiciosa, ela deixará de fazer exigências cegas e saberá por que e para que exige.
Se o sol da beleza brilhar para a atividade do intelecto, como num dia de maio na oficina do artista, ele na realidade não correrá para fora entusiasmado, abandonando sua obra necessária, mas pensará com prazer no dia festivo, no qual ele peregrinará na luz rejuvenescedora da primavera (2).”

(Hipérion, Edit. Nova Alexandria, S. Paulo, 2003, vol.I, Livro II – p.87).
(1) [A grandiosa frase de Heráclito, “hèn diaphéron heautôi” [o uno diferente em si mesmo], só poderia ser encontrada por um grego, pois é a essência da beleza e, antes de ter sido encontrada, não havia filosofia alguma. A partir daí podese definir [determinar], o todo estava lá [aí]. Anunciou-se, então, o momento da beleza entre os homens. Estava ali em vida e espírito, o uno infinito (Eder Ricardo CORBANEZ, 2009).
(2) Foi a legenda de abertura do livro (que de fato é a inscrição no túmulo de Santo Inácio de Loyola), citada pelo papa Bento xvi que me inspirou a procurar esse livro. A quem interessar possa, há um post sobre tal legenda.
Já sobre a obra, aprendemos no prefácio (de M.V. Mazzari) que “0 livro é constituído por 60 cartas, distribuídas em duas partes, nas quais o herói de Hölderlin – agora na condição de ‘eremita na Grécia’ – narra ao seu amigo Belarmino acontecimentos do passado que giram em torno de duas temáticas centrais: a intensa experiência amorosa com Diotina, em quem o ‘belo’ se encarna, conforme expressão de Heráclito, como o ‘o uno diferente em si mesmo’, e o engajamento, ao lado de Alabanda, na insurreição grega contra o domínio otomano”. (Marcus Vinícius Mazzari, Usp).

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