A defesa da fé e o amor: armas de São Bernardo contra as heresias de Abelardo

LEIA meu artigo-resenha sobre o livro “As heresias de Bedro Abelardo”, trad. Carlos Nougué e Renato Romano, É Realizações, Col. Medievalia, coord. Sidney Silveira.

Edição do livro do santo católico que viveu no século 12, na Alta Idade Média, representa, mais que uma mera publicação para especialistas e eruditos, um ato pedagógico.

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

 

Em abril, foi lançado o livro “As Heresias de Pedro Abe­lardo” (É Realizações, 120 páginas, tradução de Carlos Nougué e Renato Romano), livro em edição bilíngue latim-português, de alto valor tanto para os fiéis e os estudiosos da obra de São Bernardo de Claraval, bem como para aqueles que mesmo não partilhando da fé católica, prezam a verdade e estão interessados nos pensadores da Idade Média. Depois de publicar Duns Scot, Clemente de Alexandria e Santo Tomás de Aquino, com títulos raros ou disponíveis apenas em edições portuguesas, a editora É Realizações, sob a coordenação do medievalista Sidney Silveira, presta um grande serviço ao leitor brasileiro interessado no pensamento dos filósofos e teólogos medievais. “Este lançamento representa um ato pedagógico”, resume Sidney Silveira.
Continue lendo no link Opção Cultural.

Neste link, leia o artigo completo, antes da edição pelo jornal.

Alta lucidez do papa emérito… – Adalberto De Queiroz

À coragem, que é uma virtude que sempre caracterizou J. Ratzinger como papa Bento XVI, soma-se agora a (re)afirmação da Lucidez. O decano papa Emérito o mostra em Crítica à Teologia da Libertação, na primeira entrevista, desde a sua renúncia.
(*)“A fé cristã era usada como motor por esse movimento revolucionário, transformando-se assim em uma força política. Naturalmente, essas ideias se apresentavam com diversas variantes e nem sempre se mostravam com absoluta clareza, mas, no todo, essa era a direção. A uma símile falsificação da fé cristã era necessário se opor até mesmo por amor aos pobres e em prol do serviço que deve ser feito para eles”.
Vale a pena conferir a entrevista inteira no website da revista Exame.

Em sua primeira entrevista
O papa emérito Bento XVI

Além de Coragem, Papa Emérito mostra altíssima lucidez, o papa emérito… – Adalberto De Queiroz.

Antes do Papa Francisco: Bento XVI

“É preciso muita coragem e bravura para tomar uma decisão dessa magnitude…”

Relendo a frase de Ratzinger: “
”…EXAMINANDO minha consciência perante Deus”… Eis como Bento XVI chegou à conclusão de que era hora da sua aposentadoria.
A essência do que ele disse é o que pode nos levar a decidir com razão e emoção sobre nossas vidas.Raio no Vaticano 2

Diálogo entre cristãos e islamitas (II) ou: construindo pontes de amizade

Ainda sob a proteção de Santo Elígio, continuo o meu trabalho de reforçar o diálogo em referência. Apesar de alguns dizerem que é uma bobagem o que estou fazendo, porque há poucos leitores que leem isso etc. etc.
Eu tampouco me importo com isso, pois sei que o mundo é feito de pequenas sementes de Amor.
Esta iniciativa deseja ser isso, apenas (assim como minha viagem ao Marrocos para encontrar um amigo islamita que conviveu em minha cidade e que me ensinou elementos importantes para dominar a língua Francesa!) – Eis um exemplo de convivência e diálogo que nunca esquecerei, mon ami, Alaoui…e foi por isso que fiz um grande esforço de viajar ao Marrocos enquanto vocês viviam o vosso Ramadã…

Antes de transcrever algumas pequenas passagens, nesta segunda inserção sobre o tema, gostaria de compartilhar algumas ideias do Papa mais incompreendido dos últimos anos, o Papa da renúncia ao Trono de São Pedro, meu querido incompreendido Bento XVI – meus netos hão de se lembrar dele e de tudo que fez pela Igreja de Cristo, estou certo.

Após ter sido confundido como inimigo do Islã, Bento XVI rezou com os ‘primos’ na Mesquita Azul e seu diálogo continuado incorporou pensamentos como esse na XX JORNADA MUNDIAL DA JUVENTUDE, em 2005, quando falou aos jovens muçulmanos:

“É nesta perspectiva que me dirijo a vós, diletos e estimados amigos muçulmanos, em vista de compartilhar convosco as minhas esperanças e para vos comunicar também as minhas solicitudes nestes momentos particularmente difíceis da história do nosso tempo.”
(Bento XVI aos jovens muçulmanos
)

“Eu garanto a vós que a Igreja deseja dar continuidade à construção de pontes de amizade com os seguidores de todas as religiões, a fim de procurar o bem autêntico de todas as pessoas e da sociedade no seu conjunto” (Discurso de 25 de Abril de 2005, n. 4).

Notem que o papa se dirige aos jovens islamitas falando a “amigos”, como deveríamos nos referir a todos os irmãos monoteístas (e aos demais, by the way) e fala em construir “pontes de amizade”.
Este diálogo, apesar de turvado pela interpretação quase sempre errônea da mídia esquerdista, é de uma validade enorme e me lembra sempre a confraria de Santo Elígio.
Para além da fronteira do preconceito e da arrogância das partes, o desprezo por culturas diferentes é algo que não é sábio negligenciar, tal como como disse R. Fletcher em seu pequeno grande livro “A Cruz e o Crescente” sobre o contrário: “há uma geologia das relações humanas que não é sábio negligenciar”.
Quando o discurso de Bento na Universidade de Ratisbona é mal interpretado, significa algo do subsolo das relações (azedado pela mídia que tem o poder de lente de aumento com importante desfoque).
Dois séculos nos separam dos ‘primos’ muçulmanos, pois quando Maomé “recebeu as suas primeiras revelações, no começo do séc. VII, o Cristianismo era, oficialmente, há dois séculos, a fé exclusiva do Império Romano, a superpotência do Mediterrâneo”.
Entretanto, nada nos autoriza a afirmar superioridade diante de nossos primos e tampouco de reforçar o desprezo pela diferença cultural.
Se pensamos na matemática, na medicina e na astronomia, não há como ignorar o avanço árabe e, hoje, se pensamos em centrar o conhecimento no Ocidente não há como desdenhar que o mundo hodierno parece construído para novas cruzadas e não para disputas pelo melhor do conhecimento e da evolução construtiva entre culturas.
Entretanto, livros como o de Richard Fletcher podem nos ensinar como apreciar o bom de cada lado e não continuarmos, de parte a parte, a ser geocêntricos.

Leituras da Quaresma 2012

LENDO BENTO XVI sobre “Jesus de Nazaré”, descobrimos isso:
(…) Não há nenhuma oposição entre S.Mateus, que fala dos pobres segundo o espírito, e S. Lucas, segundo o qual o Senhor se dirige simplesmente aos ´pobres`.
Foi dito que S.Mateus teria espiritualizado o conceito de pobreza que segundo S.Lucas seria originariamente entendido de um modo material e real, e assim tê-lo-ia despojado da sua radicalidade.

Quem lê o Evangelho de S. Lucas sabe perfeitamente que precisamente este evangelista nos apresenta os ´pobres em espírito`, que eram por assim dizer os grupos sociológicos nos quais o caminho terreno de Jesus e da sua mensagem poderia tomar o seu início. E é inversamente claro que S. Mateus permanece totalmente na tradição da piedade dos Salmos e, assim, na visão do verdadeiro Israel, que nela encontrou sua expressão.

“A pobreza de que aqui se trata não é um fenômeno simplesmente material. A simples pobreza material não redime, ainda que certamente os preteridos deste mundo possam contar, de um modo muito especial, com a bondade de Deus. Mas o coração daqueles que nada possuem pode estar endurecido, envenenado, ser mau interiormente cheio de cobiça pela posse das coisas, esquecendo-se de Deus e cobiçando as propriedades externas.

“Por outro lado, a pobreza de que lá se fala também não é uma simples atitude espiritual. É evidente que a atitude radical que nos foi e nos é apresentada por tantos verdadeiros  cristãos, desde o pai do monaquismo Stø. Antão até S. Francisco de Assis; e até os exemplarmente pobres do nosso século não é obrigatória para todos.

Mas a Igreja precisa sempre, para estar em comunhão com os pobres de Jesus, dos grandes renunciadores; ela precisa das comunidades que os seguem, que vivem na pobreza e na simplicidade e que assim nos mostram a verdade das bem-aventuranças, para sacudir a todos para que estejam despertos, para compreenderem a propriedade apenas como serviço, para contraporem à cultura do ter uma cultura da liberdade interior e assim criarem os pressupostos para a justiça social.

“O Sermão da Montanha como tal não é nenhum programa social, isto é verdade. No entanto, somente onde estiver viva no pensar e no agir a grande orientação que ele nos dá, somente aí onde a força da renúncia e da responsabilidade para com o próximo e para com tudo vier da Fé, somente aí pode crescer a justiça social. E a Igreja como um todo deve manter-se consciente de que deve permanecer reconhecível como a comunidade dos ´pobres de Deus` Como o Antigo Testamento se abriu a partir dos pobres de Deus para a renovação da nova aliança, assim também toda a renovação da Igreja deve partir daqueles nos quais vive a mesma decisiva humildade e a mesma bondade disponível para o serviço.” (…)

++++

Fonte: RATZINGER, Joseph (Bento XVI, Papa). “Jesus de Nazaré”, 1a. parte, trad. J.J Ferreira de Farias. S. Paulo, edit. Planeta do Brasil, 2007, pág. 81/82.

Transcrições do Hipérion (1)

Meu Caro! O que seria a vida sem esperança? Uma centelha que salta da brasa e se extingue, uma rajada de vento que se ouve na estação sombria do ano, que passa zunindo num instante e depois se perde, será assim também conosco?
Também a andorinha procura uma terra amiga no inverno. A caça corre no calor do dia e seus olhos procuram a fonte. Quem diz à criança que a mãe não lhe recusará o peito ? E veja só, ela o procura mesmo assim.
Nada vive sem esperança. Meu coração trancou agora seus tesouros, mas apenas a fim de poupá-los para tempos melhores, para o único, o sagrado e o fiel que, com certeza, minha alma sequiosa vai encontrar, em algum período da existência.
(pág.27)
“(…) Mas do mero intelecto jamais surgiu algo inteligível e da mera razão jamais surgiu algo razoável.
Sem beleza espiritual, o intelecto não passa de um aprendiz servil que faz a cerca com madeira bruta, tal como lhe foi indicado, e prega as estacas serradas para o jardim que o mestre pretende construir. Toda atividade do intelecto é questão de necessidade. Eles nos protege contra o absurdo, contra a injustiça enquanto ordena, mas assegurar-se contra o absurdo e contra a injustiça não é o grau mais elevado da excelência humana.
Sem beleza no espírito e no coração, a razão não passa de um capataz que o senhor da casa envia para vigiar os criados. Assim como os criados, ele sabe muito pouco sobre o resultado final desse trabalho infinito e apenas grita: ‘Mexam-se’, e olha quase desgostoso quando isso acontece, pois, no final, ele não teria mais ordens a dar e seu papel já estaria encerrado.
Do mero intelecto não surgiria nenhuma filosofia, pois filosofia é mais do que apenas o conhecimento restrito do existente. Da mera razão não surgiria nenhuma filosofia, pois filosofia é mais do que apenas o conhecimento restrito do existente.
Da mera razão não surgiria nenhuma filosofia, pois filosofia é mais do que a exigência cega de um progresso interminável na confluência e discernimento de um assunto qualquer.
Contudo, se o divino “hèn diaphéron heautôi” (1) iluminar o ideal da beleza da razão ambiciosa, ela deixará de fazer exigências cegas e saberá por que e para que exige.
Se o sol da beleza brilhar para a atividade do intelecto, como num dia de maio na oficina do artista, ele na realidade não correrá para fora entusiasmado, abandonando sua obra necessária, mas pensará com prazer no dia festivo, no qual ele peregrinará na luz rejuvenescedora da primavera (2).”

(Hipérion, Edit. Nova Alexandria, S. Paulo, 2003, vol.I, Livro II – p.87).
(1) [A grandiosa frase de Heráclito, “hèn diaphéron heautôi” [o uno diferente em si mesmo], só poderia ser encontrada por um grego, pois é a essência da beleza e, antes de ter sido encontrada, não havia filosofia alguma. A partir daí podese definir [determinar], o todo estava lá [aí]. Anunciou-se, então, o momento da beleza entre os homens. Estava ali em vida e espírito, o uno infinito (Eder Ricardo CORBANEZ, 2009).
(2) Foi a legenda de abertura do livro (que de fato é a inscrição no túmulo de Santo Inácio de Loyola), citada pelo papa Bento xvi que me inspirou a procurar esse livro. A quem interessar possa, há um post sobre tal legenda.
Já sobre a obra, aprendemos no prefácio (de M.V. Mazzari) que “0 livro é constituído por 60 cartas, distribuídas em duas partes, nas quais o herói de Hölderlin – agora na condição de ‘eremita na Grécia’ – narra ao seu amigo Belarmino acontecimentos do passado que giram em torno de duas temáticas centrais: a intensa experiência amorosa com Diotina, em quem o ‘belo’ se encarna, conforme expressão de Heráclito, como o ‘o uno diferente em si mesmo’, e o engajamento, ao lado de Alabanda, na insurreição grega contra o domínio otomano”. (Marcus Vinícius Mazzari, Usp).

Bento XVI comunicando pelo YouTube

O fato de o Papa lançar um canal de comunicação no YouTube me alegra muito.
O papa de minha Conversão é João Paulo II, mas o Papa de minha vivência na Igreja hoje é BENTO 16.
E eu uno minha voz a de todos os Católicos pra dizer:
– Deus Proteja o Papa!

Ratzinger e Holderlin II

Gostaria de reabilitar nesse post-citação o contexto da citação de Holderlin por Bento XVI:

Extraída do Cap.3 do livro citado (Introdução ao Cristianismo – cap. “O Deus da fé e o Deus dos filósofos”), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus poucos leitores – amigos possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

No Cap. I, o então Cardeal Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre:

“a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o então Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:

– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

O passo seguinte está descrito em
2. – A transformação do Deus dos filósofos.

Ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:

– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.

Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.

– Ah, quando que Deus se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?!

Eis, pois, onde se situa o poeta Holderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado: o teólogo e o homem de fé nos convida a pensar que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”. È, justamente nesse ponto, que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger:

“… mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento.
O pensamento absoluto é amar;
ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Encerro com esse trecho que me parece mesmo ser a origem da primeira encíclica de Bento XVI: “Deus é Amor.

Feliz Aniversário, Lucas!

Link para Fotos do Lucas

Há um ano e um mês atrás, eu escrevi o texto abaixo, embevecido com o nascimento do Lucas…
(como este é um post da série the lost posts, do meu tempo de Verbeat), deixo o rascunho e com a enorme emoção do avô que conta os 5 dias restantes para a viagem ao Arizona, onde poderemos, se Deus quiser, celebrar o 1o.aniversário do Lucas e de nossa filha Maíra):

Lucas Queiroz Foust

Goiânia, 12 de maio 2007 – Um mês: essa a idade do mais novo Queiroz Foust. Nascido em Surprise, Arizona (EUA) às … horas do dia 12 de abril p.passado (12 April 2007 at 1:35 am, 7 pounds 2 oz, 20 inches long), Lucas hoje está com 9 lb, 7 oz…
Ah, mas como este pequeno ser traz (tão) intensa vida e doce afeto com apenas um mês de vida!
Hoje, véspera do dia das Mães, Lucas completa um mês entre nós.

Não pude ainda conhecer pessoalmente o Lucas, mas convivo virtualmente com ele, graças à tecnologia da internet. Aqui no Brasil, tenho minha câmera e as ferramentas de mensageria instantânea e falo com minha mulher, minha filha e meu genro quase todos os dias.

Na semana passada, trabalhando em S.Paulo, pude curtir esse convívio virtual menos do que desejo, mas fui brindado com três filmes em nosso Multiply. Assisti pela Tv a chegada do Papa Bento XVI ao Brasil e fiquei muito feliz com a doce figura do Santo Padre. Sua presença e suas mensagens (por alguns adjetivadas de ´duras`, mostram-me o Papa Bento XVI que conheci nos escritos do Cardeal Ratzinger e em sua primeira Encíclica – Deus Caritas Est! – suas palavras são como o chamado do Pai a que levemos uma vida cristã intensa, lembrando-nos os mandamentos de todo Cristão e, atento à sua passagem de professor e Pastor, sinto o coração batendo para uma renovada conversão diária. Ouço, Santo Padre, a sua voz que ressoa em minha mente, como fez no silêncio do estádio Pacaembu, falando a mais de 40 mil jovens. Sua voz me vem à mente e ao coração ao iniciar essas linhas assumindo a defesa da Vida – “desde a sua concepção até o seu declínio natural”:

“Sede homens e mulheres livres e responsáveis; fazei da família um foco irradiador de paz e de alegria; sede promotores da vida, do início ao seu natural declínio; amparai os anciãos, pois eles merecem respeito e admiração pelo bem que vos fizeram.”

Há uma doce conclusão prática: na vida do Lucas que pode (e deve) estar nesta mesma hora da história das famílias, sendo repetida alhures, com seus bebês amados como únicos e belos e queridos de seus pais e avós.

Eu próprio posso testemunhar o que vivo a distância e me convenço pelos apaixonados relatos de minha mulher e pelas fotos e vídeos e longas conversas via skype – ela não é senão, agora, a avó encantada com os progressos do neto: no Lucas desperta o dom da Vida que a tudo supera e, presto, nos encanta.

Lucas, é para nós a expressão do dom de Deus: o Dom da Vida. Esta dádiva é apaixonadamente visível no trabalho incomensurável de superação das barreiras e dificuldades de lidar com o mundo, no aprendizado que a cada dia deste seu primeiro mês, Lucas faz. Aprendizado que é ao mesmo tempo a lenta expressão da semente e a rápida ascensão da flor.

Lucas está agora em seu primeiro mês de vida à procura de seus “pedaços de universo”(*) e nos serve um banquete com sua presença – com seu crescimento visível aos nossos olhos e rezamos para que cresça em sabedoria e graça como crescia o Menino Jesus de Nazaré. Seus pequenos passos agora surgem da conjunção benfazeja entre o desejo de integração e o anseio que habita o mais profundo da semente divina dentro do pequeno ser.

É, pois, a pureza da primeira infância o que lemos em seus lábios movimentando para os primeiros sons – um quase ronronar dos doces ecos divinos, uma leitura da língua dos anjos comunicada aos homens. É um reflexo da luz do sol intenso que é o Criador aquilo que podemos enxergar em seus olhinhos desejosos de ver a Vida. É, pois, a alegria do movimento dos astros que podemos atestar em seus braços que carinhosos quando procuram o colo da mãe e da avó e do pai a seu alcance.

E para nós que somos a sua família, Lucas vem trazer o atestado do Amor do Divino Pai Eterno.

Rezo para que a compreensão da vida e a sua defesa que se dá, por vez primeira e mais intensa no seio da Família, sejam mais visíveis ainda nos Lucas e Marcelas e Mateus e Marias e Antonias e Paulas que nascem neste início de Século XXI como testemunhos do Dom da Vida e da Bondade de Deus.

Que Deus abençôe o pequeno Lucas e Nossa Senhora da Conceição Aparecida o proteja !

Feliz 1º. Mês de Vida, meu querido neto.
Feliz dia das Mães, Maíra e Helenir.”

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Pedaços de universo” é criação de César Miranda.

O discurso de Bento XVI está aqui.
Recomendo, entusiasmado, a leitura atenta deste discurso do Papa Bento XVI.

Ratzinger e Holderlin

Introdução ao Cristianismonon coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino” (Holderlin, em Hipérion).


Este aforismo de Hölderlin no início de seu Hipérion, citado pelo então Cardeal Ratzinger, serve para nos lembrar a imagem cristã da verdadeira grandeza de Deus: “Não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino”.

Creio que essa citação nos ajuda a compreender que “o espírito ilimitado, que traz em si a totalidade do ser ultrapassa o ´máximo`de tal forma que este se torna insignificante para ele, e ele penetra até o ínfimo porque para ele nada é pequeno demais. Justamente o fato de ultrapassar o máximo e de penetrar no ínfimo constitui a verdadeira essência do espírito absoluto. Mas, ao mesmo tempo, revela-se nesse ponto uma inversão de valores do máximo e do mínimo, do maior e do menor, e esse é um traço característico da visão cristã da realidade. Para aquele que, como espírito, sustenta e abarca o universo, um espírito ou um coração humano que seja capaz de amar é maior do que todos os sistemas de vias lácteas. Os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande“.

O contexto da citação
Extraída do Cap.3 do livro citado (O Deus da fé e o Deus dos filósofos), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus seis leitores possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

1. A opção da Igreja primitiva pela filosofia.
Onde Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre: “a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:
– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

2. A transformação do Deus dos filósofos. O passo seguinte, descreve que, ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:
– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.
Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.
– Ah, quando que Deus vai se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?! dizem muitos hoje em dia…

Eis, pois, onde se situa o poeta Hölderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado. O teólogo e o homem de fé nos convida a refletir que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”.

Nesse ponto justamente é que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger: “mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Esse texto pra mim, parece mesmo a origem da primeira encíclica de Bento XVI”Deus é Amor”.

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(À suivre 3: “O reflexo dessa questão no texto do Símbolo apostólico – o Credo”).
Espero, sinceramente, ter dado a meus seis leitores mais elementos de compreensão da citação de Holderlin e criado interesse na leitura do excelente livro “Introdução ao Cristianismo”, de nosso Papa Bento XVI, que o escreveu como Cardeal J. Ratzinger.

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Fonte: “Introdução ao Cristianismo”, J. Ratzinger, Edições Loyola, 2005, p.109/10.