Ratzinger e Holderlin II

Gostaria de reabilitar nesse post-citação o contexto da citação de Holderlin por Bento XVI:

Extraída do Cap.3 do livro citado (Introdução ao Cristianismo – cap. “O Deus da fé e o Deus dos filósofos”), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus poucos leitores – amigos possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

No Cap. I, o então Cardeal Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre:

“a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o então Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:

– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

O passo seguinte está descrito em
2. – A transformação do Deus dos filósofos.

Ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:

– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.

Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.

– Ah, quando que Deus se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?!

Eis, pois, onde se situa o poeta Holderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado: o teólogo e o homem de fé nos convida a pensar que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”. È, justamente nesse ponto, que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger:

“… mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento.
O pensamento absoluto é amar;
ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Encerro com esse trecho que me parece mesmo ser a origem da primeira encíclica de Bento XVI: “Deus é Amor.

Feliz Aniversário, Lucas!

Link para Fotos do Lucas

Há um ano e um mês atrás, eu escrevi o texto abaixo, embevecido com o nascimento do Lucas…
(como este é um post da série the lost posts, do meu tempo de Verbeat), deixo o rascunho e com a enorme emoção do avô que conta os 5 dias restantes para a viagem ao Arizona, onde poderemos, se Deus quiser, celebrar o 1o.aniversário do Lucas e de nossa filha Maíra):

Lucas Queiroz Foust

Goiânia, 12 de maio 2007 – Um mês: essa a idade do mais novo Queiroz Foust. Nascido em Surprise, Arizona (EUA) às … horas do dia 12 de abril p.passado (12 April 2007 at 1:35 am, 7 pounds 2 oz, 20 inches long), Lucas hoje está com 9 lb, 7 oz…
Ah, mas como este pequeno ser traz (tão) intensa vida e doce afeto com apenas um mês de vida!
Hoje, véspera do dia das Mães, Lucas completa um mês entre nós.

Não pude ainda conhecer pessoalmente o Lucas, mas convivo virtualmente com ele, graças à tecnologia da internet. Aqui no Brasil, tenho minha câmera e as ferramentas de mensageria instantânea e falo com minha mulher, minha filha e meu genro quase todos os dias.

Na semana passada, trabalhando em S.Paulo, pude curtir esse convívio virtual menos do que desejo, mas fui brindado com três filmes em nosso Multiply. Assisti pela Tv a chegada do Papa Bento XVI ao Brasil e fiquei muito feliz com a doce figura do Santo Padre. Sua presença e suas mensagens (por alguns adjetivadas de ´duras`, mostram-me o Papa Bento XVI que conheci nos escritos do Cardeal Ratzinger e em sua primeira Encíclica – Deus Caritas Est! – suas palavras são como o chamado do Pai a que levemos uma vida cristã intensa, lembrando-nos os mandamentos de todo Cristão e, atento à sua passagem de professor e Pastor, sinto o coração batendo para uma renovada conversão diária. Ouço, Santo Padre, a sua voz que ressoa em minha mente, como fez no silêncio do estádio Pacaembu, falando a mais de 40 mil jovens. Sua voz me vem à mente e ao coração ao iniciar essas linhas assumindo a defesa da Vida – “desde a sua concepção até o seu declínio natural”:

“Sede homens e mulheres livres e responsáveis; fazei da família um foco irradiador de paz e de alegria; sede promotores da vida, do início ao seu natural declínio; amparai os anciãos, pois eles merecem respeito e admiração pelo bem que vos fizeram.”

Há uma doce conclusão prática: na vida do Lucas que pode (e deve) estar nesta mesma hora da história das famílias, sendo repetida alhures, com seus bebês amados como únicos e belos e queridos de seus pais e avós.

Eu próprio posso testemunhar o que vivo a distância e me convenço pelos apaixonados relatos de minha mulher e pelas fotos e vídeos e longas conversas via skype – ela não é senão, agora, a avó encantada com os progressos do neto: no Lucas desperta o dom da Vida que a tudo supera e, presto, nos encanta.

Lucas, é para nós a expressão do dom de Deus: o Dom da Vida. Esta dádiva é apaixonadamente visível no trabalho incomensurável de superação das barreiras e dificuldades de lidar com o mundo, no aprendizado que a cada dia deste seu primeiro mês, Lucas faz. Aprendizado que é ao mesmo tempo a lenta expressão da semente e a rápida ascensão da flor.

Lucas está agora em seu primeiro mês de vida à procura de seus “pedaços de universo”(*) e nos serve um banquete com sua presença – com seu crescimento visível aos nossos olhos e rezamos para que cresça em sabedoria e graça como crescia o Menino Jesus de Nazaré. Seus pequenos passos agora surgem da conjunção benfazeja entre o desejo de integração e o anseio que habita o mais profundo da semente divina dentro do pequeno ser.

É, pois, a pureza da primeira infância o que lemos em seus lábios movimentando para os primeiros sons – um quase ronronar dos doces ecos divinos, uma leitura da língua dos anjos comunicada aos homens. É um reflexo da luz do sol intenso que é o Criador aquilo que podemos enxergar em seus olhinhos desejosos de ver a Vida. É, pois, a alegria do movimento dos astros que podemos atestar em seus braços que carinhosos quando procuram o colo da mãe e da avó e do pai a seu alcance.

E para nós que somos a sua família, Lucas vem trazer o atestado do Amor do Divino Pai Eterno.

Rezo para que a compreensão da vida e a sua defesa que se dá, por vez primeira e mais intensa no seio da Família, sejam mais visíveis ainda nos Lucas e Marcelas e Mateus e Marias e Antonias e Paulas que nascem neste início de Século XXI como testemunhos do Dom da Vida e da Bondade de Deus.

Que Deus abençôe o pequeno Lucas e Nossa Senhora da Conceição Aparecida o proteja !

Feliz 1º. Mês de Vida, meu querido neto.
Feliz dia das Mães, Maíra e Helenir.”

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Pedaços de universo” é criação de César Miranda.

O discurso de Bento XVI está aqui.
Recomendo, entusiasmado, a leitura atenta deste discurso do Papa Bento XVI.

Ratzinger e Holderlin

Introdução ao Cristianismonon coerceri maximo, contineri tamen a minimo, divinum est – não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino” (Holderlin, em Hipérion).


Este aforismo de Hölderlin no início de seu Hipérion, citado pelo então Cardeal Ratzinger, serve para nos lembrar a imagem cristã da verdadeira grandeza de Deus: “Não ser abarcado pelo máximo, mas deixar-se abarcar pelo mínimo, isso é divino”.

Creio que essa citação nos ajuda a compreender que “o espírito ilimitado, que traz em si a totalidade do ser ultrapassa o ´máximo`de tal forma que este se torna insignificante para ele, e ele penetra até o ínfimo porque para ele nada é pequeno demais. Justamente o fato de ultrapassar o máximo e de penetrar no ínfimo constitui a verdadeira essência do espírito absoluto. Mas, ao mesmo tempo, revela-se nesse ponto uma inversão de valores do máximo e do mínimo, do maior e do menor, e esse é um traço característico da visão cristã da realidade. Para aquele que, como espírito, sustenta e abarca o universo, um espírito ou um coração humano que seja capaz de amar é maior do que todos os sistemas de vias lácteas. Os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande“.

O contexto da citação
Extraída do Cap.3 do livro citado (O Deus da fé e o Deus dos filósofos), esse trecho, conquanto belíssimo é mesmo um desafio. Pretendo ao situá-lo, agora, no contexto do livro, de modo a que meus seis leitores possam apreciá-la como eu a apreciei, inclusive na sua dificuldade de compreensão.

1. A opção da Igreja primitiva pela filosofia.
Onde Ratzinger trata de explicar como a Igreja primitiva resolveu o problema de esclarecer qual era o Deus da fé cristã. Pregando e vivendo a fé num “ambiente saturado de deuses”, os cristãos primitivos viam-se diante da pergunta: “a qual deus corresponde o Deus cristão, se a Júpiter, a Hermes, a Dioniso ou a um outro qualquer?”
E a resposta era sempre: “a nenhum dos deuses que vocês adoram, mas única e exclusivamente àquele Deus que vocês não adoram, ou seja àquele ser supremo do qual falam os filósofos…”

Essa foi a opção pelo “logos” contra o mito, assinala Ratzinger. Opção acertada para aquela época e para hoje, como se vê na conclusão de um longo exame que o Cardeal faz entre a oposição entre fé e razão:
– “ A fé cristã optou não pelos deuses das religiões e sim pelo Deus dos filósofos, isto é, decidiu-se contra o mito do habitual e exlusivamente a favor da verdade do ser mesmo”.

2. A transformação do Deus dos filósofos. O passo seguinte, descreve que, ao decidir-se por esse Deus dos filósofos, a fé cristã entendeu também que o ser humano pode e deve dirigir-se a ele em suas orações, assinala Ratzinger, ressaltando que esse passo significa dar a Deus a face humana, o Deus dos homens que não é apenas o pensamento do filósofo nem só “a matemática eterna do universo” mas também, e sobretudo, “ágape e poder do amor criativo”.

Essa experiência magistralmente exposta por São Paulo em Romanos 1, 18-31 não pode ser compreendida pelos gentios e a compreensão é uma experiência única e, às vezes, dolorosa. Eis o caso de Pascal que, acostumado e identificado com o pensamento matemático, passa uma noite pela experiência que lhe dá o entendimento de Deus e escreveu num bilhete uma frase que passou a carregar sempre costurado à sua roupa:
– “Fogo, o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó não o Deus dos filósofos e sábios”.

Pascal compreende que o “Deus que é a geometria eterna do universo só pode sê-lo por ser o amor criador”.
Outro magistral exemplo, Ratzinger o encontra em Lucas 15, 1-10, na parábola da ovelha extraviada e da moeda perdida. Nela, Jesus justifica e descreve a sua atuação e a sua missão como enviado de Deus e a relação entre Deus e o ser humano. O resultado é a compreensão de um Deus cristão “extremamente antropomorfo” – ressalta Ratzinger. O Deus que encontramos ali, como em numerosos textos do Antigo Testamento é um Deus que “tem as paixões de um ser humano, ele se alegra, procura, espera, vai ao encontro…Ele não é a geometria insensível do universo, não é a justiça neutra que paira acima das coisas, insensível ao coração e seus afetos. Esse Deus tem um coração, ele ama com toda a excentricidade típica de uma pessoa que ama.”

Mas o entendimento da realidade cristã pode fracassar se o leitor não apreender essa humanidade do Deus Cristão. De fato, “a grande maioria dos seres humanos de hoje crêem que deve existir algo parecido com um “ser supremo” só que acham absurdo que esse ser se preocupe com os seres humanos”. Esse temor a uma espécie de antropomorfismo de Deus, destaca Ratzinger, é ainda mais real e palpável hoje do que no início do cristianismo.
– Ah, quando que Deus vai se preocupar comigo, com meu mundo miserável, com meus pecados ou virtudes, com minhas escolhas, enfim com minha vida?! dizem muitos hoje em dia…

Eis, pois, onde se situa o poeta Hölderlin que, nos chama a fugir da estreiteza de raciocínio e nos convida a pensar num Deus como espírito ilimitado. O teólogo e o homem de fé nos convida a refletir que, ao pensar em Deus como o poeta resumiu em seu aforismo, devemos imaginar que “os parâmetros quantitativos são deixados para trás; aparecem outras ordens de grandeza segundo as quais o infinitamente pequeno abarca realmente tudo, sendo ele o verdadeiramente grande”.

Nesse ponto justamente é que a mensagem do Evangelho e a imagem cristã de Deus corrigem a filosofia, ensina Ratzinger: “mostrando que o amor é mais sublime do que o mero pensamento. O pensamento absoluto é amar; ele não é um pensamento insensível e sim criativo, porque é amor.”

Esse texto pra mim, parece mesmo a origem da primeira encíclica de Bento XVI”Deus é Amor”.

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(À suivre 3: “O reflexo dessa questão no texto do Símbolo apostólico – o Credo”).
Espero, sinceramente, ter dado a meus seis leitores mais elementos de compreensão da citação de Holderlin e criado interesse na leitura do excelente livro “Introdução ao Cristianismo”, de nosso Papa Bento XVI, que o escreveu como Cardeal J. Ratzinger.

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Fonte: “Introdução ao Cristianismo”, J. Ratzinger, Edições Loyola, 2005, p.109/10.