Emily Dickinson, 4/100*

“Wheter my bark went down at sea
Wheter she met with gales –
Wheter to isles enchanted
She bent her docile sails –

By what mystic mooring

She is held today –
This is the errand of the eye
Out upon the Bay.

>>Tradução de Aíla de Oliveira Gomes:

Se meu barco foi ao fundo do mar,
Se encontrou ventos cruéis,
Ou se em ilhas encantadas
Recolheu suas velas dóceis;

Ou em que místicos portos
Hoje ele ancora –
Esta a missão de meus olhos
Baía afora…

+++
Fonte: Dickinson, Emily. “Emily Dickinson: Uma Centena de Poemas“, Ed.T.A.Queiroz/USP, SP, 1984.
Tradução: Aila de Oliveira Gomes. Pág. 36/37. Para ler Emily Dickinson

(*)Veja nessa Nota da Tradutora (pra mim, uma verdadeira aula de tradução):

Wheter my bark went down at sea (1858)

“Há grande fascínio pelo mar nessa nativa e permanente habitante de Amherst, no coração de Massachusetts, à boa distância do litoral Atlântico.

“O mar ignoto de Emily Dickinson é, na maioria das vezes, espaço de travessia necessária entre o tempo e a eternidade. Para Weisbuch (1), que quer ver símbolos mais abertos em sua poesia, o mar é antes o posto do lar, espaço de riscos, buscas e transformações de toda espécie. Aqui, o barco sumido sugere algo, ou tudo que, partindo do poeta, deverá eternizar-se.

“Dentro de um tema de barco velejante, ainda que simbólico, o ritmo ajuda a significação e deve ser, tanto quanto possível, traduzido. O primeiro verso é mais longo que todos os outros, com quatro acentos, enquanto os demais têm três, embora o sexto e o oitavo, que se contraem, possam ser lidos com apenas duas acentuações. Tentou-se uma equivalência, evitando-se mesmo a regularidade do heptassílabo. Assim, bastaria ao sentido do primeiro verso: “Se meu barco foi ao fundo“; ao acrescentar-se “do mar“, quebrando a regularidade que pareceria mais cômoda e normal, conseguiu-se não só mais literalidade como mais fidelidade ao metro distendido e à cadência final do oxítono, que dá muito mais sugestão de soçobro, pois o verso realmente afunda no monossílabo final (‘mar’, no caso, parecendo até, em termos de som, mais feliz que ‘sea’). O mesmo efeito é também criado pelo choque entre a segunda sílaba de “fundo” e a preposição com contração do artigo masculino. Será impressão subjetiva, talvez, mas o encontro das duas sílabas com oclusivas iguais tem algo de trambolhão, graficamente representável assim:

texto_aila

“Os dois pés jâmbicos centrais equivalem a uma tentativa de equilíbrio.
“Também agradou, na tradução, o último verso da segunda estrofe; independentemente da pontuação, ele contém uma reticência que prolonga o ohar ansioso a rebuscar o rumo do barquinho além da linha do horizonte.”
***
Op. cit. pág. 159/160.

2 comentários em “Emily Dickinson, 4/100*

  1. Milton Ribeiro

    Lindo poema e bela tradução. Não me arrisco a comentar coisas que falam em pés jâmbicos (ou meus são apenas chatos…)

    —-

    Pois é, fiquei penalizado com o Vila Nova que começou a ter dificuldades em casa — jogo contra o Gama — e depois contra adversários diretos e ainda cruzou com o Corinthians na reta final.

    Uma pena, porque parecia tudo pronto para Série A.

    Grande abraço.

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