Esperando Aznavour…


O “embaixador da Chanson Française“, o “missionário da chanson réaliste de charme“, “o peso-pena da chanson” ou “le poète universel des amants”

Farewell Tour, 2008
Farewell Tour, 2008

– não importa que apelido lhe dêem, o fato é que esperamos em Goiânia, na próxima 3a.feira, o maior cantor francês da atualidade, para o show “Farewell Tour“, o franco-armênio Charles Aznavour; nascido Varenagh Aznavourian, cantor-compositor-intérprete francês, nascido em Paris em 22 de maio de 1924 e dono de uma carreira de fazer inveja aos que o esnobaram no início.

Aznavour antes de gravar o nome na história da música francesa teve que compreender sua origem armênia, conviver com uma família de artistas e com sua origem de imigrante em Paris, com suas dificuldades e alegrias, com a alternativa linguística (armênio x francês) e com seu próprio destino:

J´ai ouvert les yeux sur un meublé triste
Rue Monsieur-le-Prince au Quartier Latin
Dans un milieu de chanteurs et d´artistes
Qu´avaient un passé pas de lendemain
Des gens merveilleux un peu fantaisistes
Qui parlaient le russe et puis l´arménien

(*)Os versos de Autobiographie (1980) falam do nascimento no bairro intelectual do “Quartier Latin” no meio de uma família de cantores e artistas, que o letrista dizia ter passado mas sem vislubrar futuro, “gente maravilhosa e um pouco cheio de imaginação e fantasia”, os pais armênios que no restaurante do avô (e depois do pai) recebiam toda a comunidade imigrante falando russo e o idioma de sua origem.

Aznavour teve que enfrentar uma aceitação tardia de sua pretensão de se tornar artista – ele que começou a representar no teatro e a cantar muito cedo – mas que era considerado um tipo sem talentos para fazer o que faz há uma vida inteira… Hoje, aos 84 anos, ver Aznavour no palco é oportunidade rara para um francófono, que vive dans le Brésil profond, neste Goiás que já foi um lugar longe demais dos centros culturais do país. E se hoje Aznavour tem direito aos títulos com que abri este artigo ele os conquistou com sua disciplina de compositor e intérprete que está acima da média inclusive nos valores pessoais. Uma frase dita a Yves Salgues mostra o desejo que o jovem compositor tinha de sair da troupe de Piaf para a condição de intérprete de suas próprias canções:

– “Confier son oeuvre à un autree, aussi compétent soit-il, c´est abandoner à l´Assistance Publique un enfant dont on est le père
(**)”Confiar sua obra a outro intérprete, por mais competente que ele seja é como abandonar no orfanato um filho do qual você é o pai”.
E foi por não querer apenas confiar seus filhos e filhas queridas (suas canções) à voz de competentes intérpretes (Edith Piaf, Juliette Gréco, Gilbert Bécaud, Patachou, Maurice Chevalier, Sylvie Vartan ou Johnny Hallyday, entre outros), que Aznavour se lançou como intérprete.

Coube ao Marrocos dar-lhe a primeira acolhida de sucesso, indiferente ao físico de “peso-pena”, e assim em 1953 o compositor ganha segurança no palco estrangeiro – era o aprendiz de “embaixador da Chanson Française” se exercitando para aparecer no topo do cartaz do templo da Chanson Française – no mítico L´Olympia de Paris, em 1955.

De 1956 a 1972, Aznavour escreve com muita disciplina e poesia o repertório de uma vida musical: “Sa Jeunesse”, “La Mamma”, “Je m´voyais déjà”, “The Old Fashion Way” (Les Plaisirs démodés, no original), “Hier Encore”, “Les Comédiens”, “Que C´est Triste Venise”, “For me, formidable”, “Emmenez-mois” e “Paris au mois d´août” são clássicos do período e que esperamos ouvir no palco do Goiânia Arena…

Cantando o amor e as desilusões, Aznavour se fez intérprete romântico do que os críticos e historiadores da música chamam (seja lá o que isso signifique!) de “chanson realiste de charme”… E dele disse Jean Cocteau a frase lapidar:

– “Comment s´y prend-il ce Aznavour pur rendre l´amour malheureux sympatique aux hommes? Avant lui, le désespoir était impopulaire. Après lui, il ne l´est plus…”

E se Cocteau comete certo exagero esquecendo-se da tradição poética francesa que já havia inscrito o “amor infeliz” em todos os compêndios literários, o certo é que a saga popular da canção ganhava o realismo e o charme de um intérprete magro e de voz nada convencional para os padrões anteriores (um crítico – mal profeta, segudno Yves Salgues, chegou a uma equivocada profecia que só em um século o público francês estaria preparado para ouvir a voz de Aznavour!) . Se durante a guerra o jovem Aznavour vendia jornais, no pós-guerra confiava seu talento a vender a ilusão do amor e das desilusões, tão bem como a escultura da frase na língua de Molière. Dele disse em resumo, Maurice Chevalier:
– “Il a osé chanter l´amour comme on le ressent, comme on le fait, comme on le souffre…“E sua paixão pela língua francesa se resume bem nessa frase:
– “Ao contrário de todo filho de imigrante que sabe que é francês pela naturalização, eu sabia que era francês pela língua… Ao descobrir essa língua, encontrei um país. O francês me revelou a França. Ainda hoje, seguramente, amo mais a língua francesa do que qualquer lugar na França. E partindo desse amor, e movido pelo instinto criativo que é violento, encontrei minha resposta na música…

Aznavour em vinil chez les Queiroz
Aznavour em vinil chez les Queiroz

É esse emotivo pequeno-grande intérprete que esperamos em Goiânia, como francófonos que somos – minha mulher e eu e tantos amigos – para ter a alegria de ouvir tais canções na voz de seu criador, canções amadas que fazem parte de nosso dia-a-dia há muitos anos (e esperamos que conosco fiquem outros tantos).
Seja bem-vindo, Monsieur Aznavour! Goiânia te recebe com alegria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

6 comentários em “Esperando Aznavour…

  1. Chico Sena

    Belo post! Pois é… incrível como aos 84 anos a voz ainda continua bela. Monsieur Aznavour tem uma vitalidade incrível. A produção foi pífia e o local inadequado. Mas, valeu pela companhia dos vários amigos, pelos drinks, pela simpatia e talento de Charles: “le poète universel des amants”

    Abraço

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  2. Adalberto Queiroz

    Oi, Ceci.
    Merci, ma chérie. O Francês é uma língua linda mesmo, eu a adoro e sei que há na frase de Monsieur Aznavour toda uma referência poética à relação idioma/país, tipo ‘minha pátria é minha língua’ etc. etc… Enfim, eu que sou apenas francófono, te digo que a França me veio como bônus por amar a língua francesa, com ela, vieram Balzac, Brassens, Piaf, Aznavour, René Char, Girard, etceterá, etceterá…
    Bisous,
    Beto.

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