Enchanté, monsieur!

Enchanté d´avoir fait votre connaissance*

A expressão seria a mais polida para saldar o cantor francês em seu show Farewell Tour em Goiânia.
E aos amigos que me perguntam se gostei do show respondo com um sim, sem muito entusiasmo:
Foi muito bom ouvir as sonoridades francesas na voz impecável de Aznavour em minha própria cidade. É (ou deveria ser) uma honra para qualquer cidade receber Charles Aznavour, o mais celebrado autor-compositor-intérprete francês da atualidade e um dos aclamados artistas do século XX (segundo pesquisa CNN-Time na internet, em 1999). Só a produção do espetáculo em Goiânia parecia não saber disso.

Bom saber de cor e poder acompanhar quase todas as músicas do espetáculo, bom estar na companhia de amigos francófonos (ou não) e ainda de quebra comemorarmos o aniversário de meu amigo (e compadre) Francisco Sena, sendo os primeiros a celebrá-lo na virada do dia 16 para 17.09.
Do show só não conhecia duas músicas – uma que, a despeito de não ser um entusiasta da ecologia, Aznavour escreveu com finalidades didáticas para a juventude (La terre meurt) e a outra uma canção em espanhol, que nunca havia ouvido (visto) no repertório de Aznavour.

(*) [A saudação do título deste post é a formalidade que a Aliance Française ensina a seus alunos. Naturalmente, no dia-a-dia essa é uma fórmula um tantinho arcaica para o diálogo de um turista em seus passeios pelas ruas de França…Mas prefiro errar pela escolha do uso da língua culta padrão, prefiro o formal ao uso abusivo (e artificial para um estrageiro) do ´argot` (a gíria nem sempre adaptada aos ambientes mais requintados). Seria esta a fórmula a utilizar se eu tivesse a chance de me aproximar de Monsieur Aznavour, em sua visita a minha cidade.]

A segunda expressão cabível nesse diálogo imaginário com o cantor seria:
Pardonez, Monsieur. C´etait dommage...

Isso dito à propósito das condições do local do espetáculo. Um pedido de desculpas cabível porque acho que o cantor tão famoso não teve (da parte dos produtores do espetáculo) a acolhida que merece!

Aos 84 anos e em sua turnê de despedida (a terceira, by the way, porque Aznavour se despede há algum tempo dos palcos internacionais e sempre retoma: vide links para RFI ao final deste post); o mínimo que podíamos prover para ele seria um bom camarim, boa acústica e telões para que o respeitoso público pudesse se sentir mais perto do palco do espetáculo (e, assim, se sentisse mais respeitado pela produção); merecia ele uma iluminação mais profissional, que (no mínimo) focasse o cantor e não inventasse em termos de fundo de palco (de resto inexistente porque composto de dois cortinados em preto e um plano de fundo branco) e outros detalhes que tornassem a cena mais próxima do clima do show.

A produção teria que se dar conta de que o Goiânia Arena não se presta a show intimistas, principalmente, em dias de jogos do campeonato brasileiro no vizinho estádio Serra Dourada…

Cabia ao produtor entender que o Goiânia Arena não é o Carnegie Hall, mas que a cidade poderia prover espaço mais acolhedor a público e cantor. Não tive como deixar de me lembrar do show que tive a honra (e chance) de assistir em Phoenix (EUA), na despedida de B.B.King dos palcos, no evento de seus 80 anos, em dezembro de 2005. Que diferença de ambiente e condições técnicas para um espetáculo! E Aznavour do alto de seus após 60 anos de carreira, 740 canções compostas (350 em francês, 150 em inglês, 8 discos em espanhol e 7 em alemão) e uma vida dedicada à música merecia mais…

Apesar desses erros da produção registrados pelos diários locais, Aznavour marcou seu fiel público (francófono ou não) de Goiânia – românticos de todos os matizes, mas principalmente 40+ e românticos – com um show inesquecível.

Ele começou com uma canção que dá a tônica de seus 84 anos: Le temps… (é a mesma com que abriu o show Aznavour Live no Carnegie Hall, em 2002) e prosseguiu em uma hora e meia de show com sucessos bem conhecidos… A voz foi se aquecendo ao longo do espetáculo e se firmando como a voz de um cantor aos 40 anos! (Não houve bis! apesar dos demorados aplausos finais…domage!)
1. Le temps
2. Paris au mois d’aout
3. La terre meurt
4. Il faut savoir
5. Mes amis, mes amours, mes emmerdes
6. Mourrir d´aimer
7. Et Pourtant
8. Sa Jeunesse
9. Désormais
10. She
11. La Mamma
12. Canção não identificada (interpretada em espanhol)
13. Que c´est triste Venise
14. Rien oublié
15. Ave Maria (com participação de sua filha Katia)
16. Les Plaisirs Démodés
17. Mon emouvante amour
18. Music cigane
19. Hier Encore
20. La Bohème
21. Emmène-moi
22. ?

+++++
Saiba mais sobre Aznavour nas duas biografias da Rádio França Internacional (RFI): Biografia em Francês e em Inglês.

Esperando Aznavour…

O “embaixador da Chanson Française“, o “missionário da chanson réaliste de charme“, “o peso-pena da chanson” ou “le poète universel des amants”

Farewell Tour, 2008
Farewell Tour, 2008

– não importa que apelido lhe dêem, o fato é que esperamos em Goiânia, na próxima 3a.feira, o maior cantor francês da atualidade, para o show “Farewell Tour“, o franco-armênio Charles Aznavour; nascido Varenagh Aznavourian, cantor-compositor-intérprete francês, nascido em Paris em 22 de maio de 1924 e dono de uma carreira de fazer inveja aos que o esnobaram no início.

Aznavour antes de gravar o nome na história da música francesa teve que compreender sua origem armênia, conviver com uma família de artistas e com sua origem de imigrante em Paris, com suas dificuldades e alegrias, com a alternativa linguística (armênio x francês) e com seu próprio destino:

J´ai ouvert les yeux sur un meublé triste
Rue Monsieur-le-Prince au Quartier Latin
Dans un milieu de chanteurs et d´artistes
Qu´avaient un passé pas de lendemain
Des gens merveilleux un peu fantaisistes
Qui parlaient le russe et puis l´arménien

(*)Os versos de Autobiographie (1980) falam do nascimento no bairro intelectual do “Quartier Latin” no meio de uma família de cantores e artistas, que o letrista dizia ter passado mas sem vislubrar futuro, “gente maravilhosa e um pouco cheio de imaginação e fantasia”, os pais armênios que no restaurante do avô (e depois do pai) recebiam toda a comunidade imigrante falando russo e o idioma de sua origem.

Aznavour teve que enfrentar uma aceitação tardia de sua pretensão de se tornar artista – ele que começou a representar no teatro e a cantar muito cedo – mas que era considerado um tipo sem talentos para fazer o que faz há uma vida inteira… Hoje, aos 84 anos, ver Aznavour no palco é oportunidade rara para um francófono, que vive dans le Brésil profond, neste Goiás que já foi um lugar longe demais dos centros culturais do país. E se hoje Aznavour tem direito aos títulos com que abri este artigo ele os conquistou com sua disciplina de compositor e intérprete que está acima da média inclusive nos valores pessoais. Uma frase dita a Yves Salgues mostra o desejo que o jovem compositor tinha de sair da troupe de Piaf para a condição de intérprete de suas próprias canções:

– “Confier son oeuvre à un autree, aussi compétent soit-il, c´est abandoner à l´Assistance Publique un enfant dont on est le père
(**)”Confiar sua obra a outro intérprete, por mais competente que ele seja é como abandonar no orfanato um filho do qual você é o pai”.
E foi por não querer apenas confiar seus filhos e filhas queridas (suas canções) à voz de competentes intérpretes (Edith Piaf, Juliette Gréco, Gilbert Bécaud, Patachou, Maurice Chevalier, Sylvie Vartan ou Johnny Hallyday, entre outros), que Aznavour se lançou como intérprete.

Coube ao Marrocos dar-lhe a primeira acolhida de sucesso, indiferente ao físico de “peso-pena”, e assim em 1953 o compositor ganha segurança no palco estrangeiro – era o aprendiz de “embaixador da Chanson Française” se exercitando para aparecer no topo do cartaz do templo da Chanson Française – no mítico L´Olympia de Paris, em 1955.

De 1956 a 1972, Aznavour escreve com muita disciplina e poesia o repertório de uma vida musical: “Sa Jeunesse”, “La Mamma”, “Je m´voyais déjà”, “The Old Fashion Way” (Les Plaisirs démodés, no original), “Hier Encore”, “Les Comédiens”, “Que C´est Triste Venise”, “For me, formidable”, “Emmenez-mois” e “Paris au mois d´août” são clássicos do período e que esperamos ouvir no palco do Goiânia Arena…

Cantando o amor e as desilusões, Aznavour se fez intérprete romântico do que os críticos e historiadores da música chamam (seja lá o que isso signifique!) de “chanson realiste de charme”… E dele disse Jean Cocteau a frase lapidar:

– “Comment s´y prend-il ce Aznavour pur rendre l´amour malheureux sympatique aux hommes? Avant lui, le désespoir était impopulaire. Après lui, il ne l´est plus…”

E se Cocteau comete certo exagero esquecendo-se da tradição poética francesa que já havia inscrito o “amor infeliz” em todos os compêndios literários, o certo é que a saga popular da canção ganhava o realismo e o charme de um intérprete magro e de voz nada convencional para os padrões anteriores (um crítico – mal profeta, segudno Yves Salgues, chegou a uma equivocada profecia que só em um século o público francês estaria preparado para ouvir a voz de Aznavour!) . Se durante a guerra o jovem Aznavour vendia jornais, no pós-guerra confiava seu talento a vender a ilusão do amor e das desilusões, tão bem como a escultura da frase na língua de Molière. Dele disse em resumo, Maurice Chevalier:
– “Il a osé chanter l´amour comme on le ressent, comme on le fait, comme on le souffre…“E sua paixão pela língua francesa se resume bem nessa frase:
– “Ao contrário de todo filho de imigrante que sabe que é francês pela naturalização, eu sabia que era francês pela língua… Ao descobrir essa língua, encontrei um país. O francês me revelou a França. Ainda hoje, seguramente, amo mais a língua francesa do que qualquer lugar na França. E partindo desse amor, e movido pelo instinto criativo que é violento, encontrei minha resposta na música…

Aznavour em vinil chez les Queiroz
Aznavour em vinil chez les Queiroz

É esse emotivo pequeno-grande intérprete que esperamos em Goiânia, como francófonos que somos – minha mulher e eu e tantos amigos – para ter a alegria de ouvir tais canções na voz de seu criador, canções amadas que fazem parte de nosso dia-a-dia há muitos anos (e esperamos que conosco fiquem outros tantos).
Seja bem-vindo, Monsieur Aznavour! Goiânia te recebe com alegria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

Aznavour em Goiânia

Agora é oficial. O site do produtor dos shows de Charles Aznavour no Brasil, Sr Poladian, anuncia a nova agenda do cantor franco-armênio em seu retorno ao Brasil, num roteiro que inclui Goiânia.

Aguardo com ansiedade a concretização desse sonho. Como nesta minha feliz jornada – vivendo ma cinquentaine – já fui brindado com a turnê de despedida de B.B.King em Phoenix (AZ), agora posso ter a chance de ver Aznavour em minha própria terra.
Lembro-me com carinho de ter matado a sede na seca Phoenix, com o blog molhado do César Miranda, quando falava da emoção de ter visto Aznavour em Brasília…eu que no último abril perdi o show do Aznavour mas ganhei a companhia de outro tão grande personagem: meu neto Lucas.
Enquanto aguardo a minha própria chance desse encontro, convido você leitor a aproveitar essa velha apresentação, com todo o frescor da voz de Charles interpretando Ma Jeneusse e Hier Encore.