Filosofia, Literatura

Notas às Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin


Leio com vagar as “Reflexões Autobiográficas“, de Eric Voegelin, tentando extrair a máxima compreensão que me permita depois entrar mais preparado no universo deste grande pensador.
Devemos essas “Reflexões” ao talento de um admirador de Voegelin, Ellis Sandoz, que em 1973, gravou com o mestre várias entrevistas sobre temas relevantes para o estudo que viria a ser o livro “The Voegelinian Revolution: A Biographical Introduction” (A Revolução Voegeliniana: uma Introdução Biográfica).

 

Eric Hermann Wilhelm Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, em 1901 e faleceu em Stanford, CA (EUA) em 1985. Sua formação acadêmica se dá na Universidade de Viena, onde torna-se professor associado de ciência política na Faculdade de Direito austríaca. Demitido pelos nazistas em 1938, Voegelin foge para a Suíça, escapando da Gestapo e emigra para os EUA, onde ensina na Universidade Harvard e na Universidade Estadual da Louisiana (1942). Volta à Europa como professor da Universidade de Munique (1968), onde fundou o Instituto de Ciência Política.
Retorna definitivamente aos EUA em 1969, onde ensina por cinco anos (1969-74) como “Distinguished Scholar” na Universidade de Stanford. Entre os seus principais livros, destacam-se os títulos: “A Nova Ciência da Política” (1952), “Ordem e História” (1956-57), “Anamnesis” (1966), “The Ecumenic Age” (1972-73), entre outros.
Segundo o autor-entrevistador, as Reflexõessão o melhor ponto de partida para o estudante que não tenha familiaridade com os escritos de Voegelin”. Para mim, têm sido este “caminho valioso para entender Voegelin nas leituras que pretendo fazer no futuro, certo de que o livro é “uma introdução à vida e ao pensamento deste que foi um notável scholar e talvez o maior filósofo de nosso tempo“.

Anotações de leitura:
“Em meu tempo de estudante e ao longo de toda a década de 1920, ou mesmo até que se fizessem sentir os efetios do nacional-socialismo, no início dos anos 30, Viena conservava um horizonte intelectual vastíssimo e era internacionalmente reconhecida como pioneira em muitas áreas do conhecimento.”

[Vários nomes citados por Voegelin são notáveis outros me são totalmente desconhecidos: Ludwig von Mises, economista; os teóricos do Direito Hans Kelsen (redator da Constituição Austríaca e seus discípulos Alfred von Verdross e Adolf Merkl; os físicos Ernst Mach e Scchlick e Wittgenstein; o historiador Alfons Dopsch; na história da Arte destaca Max Dvorák e Strzigowski; na música, Egon Wellesz, entre outros – A Viena onde viveu E. Voegelin era um mundo de uma efervescência cultural que raramente ocorreu na história. O berço de S. Freud, Schnitzler, Hofmannsthal, Wittgeinstein, Mahler, Klimt, Rilke etc. tinham “o rigor e a profundidade intelectual como norma” – o que geraram futuros círculos de homens-prodigios – modelos para futuros cículos intelectuais em que se reproduz “essa sofisticação nos meios formais e a ousadia na análise dos problemas filosóficos de primeira grandeza”, citando como exemplo a Escola de Chicago e a de Frankfurt].

“Inscrevera-me – diz Voegelin – como estudante de pós-graduação que me levaria ao Doutorado em Ciência Política. A decisão de cursar esse doutorado foi em parte econômica e em parte questão de princípios. No que se refere ao aspecto econômico, eu era muito pobre, e um doutorado a ser concluído em três anos me parecia definitivamente atrativo. A questão de princípios era uma nebulosa, mas já então pujante intuição de que eu embarcaria em uma carreira científica… a escolha da ciência política, ademais, foi determinada pela qualidade do corpo docente, que incluía figuras de renome como Kelsen e Spann”. (p.21)

”Depois de concluir o doutorado em ciência política, matriculei-me em cursos de matemática na Faculdade de Filosofia, especialmente com Furtwaengler sobre teoria das funções, mas acabei estudando esses assuntos apenas superficialmente, pois simplesmente, não conseguia me entusiasmar por problemas matemáticos.” (p.22)

Na Universidade de Viena, o jovem Voegelin se associa a grupos de interesse na instituição de seminários e pelas amizades pessoais. Esse relacionamento gera o que chamou de Geistkreis (Círculo Espiritual ou Intelectual) e explica: “tratava-se de um grupo de jovens que se reunia mensalmente… um dos membros do grupo dava uma palestra sobre tema de sua escolha enquanto os outros faziam picadinho dele. Por se tratar de uma comunidade civilizada, havia a regra de que o anfitrião do encontro não podia ser o palestra, pois era permitido à dona da casa participar e não seria nada cortês fazer picadinho de um cavalheiro na presença de sua esposa.”
Vários dos participantes deses grupos de estudo tinham atividades comerciais e financeiras paralelas aos estudos, ou seja, o vínculo com a Academia não os afastava das atividades práticas do dia-a-dia, ou como ressalta Sandoz: “ter uma atividade intelectual não excluía uma atividade prática que fosse materialmente lucrativa. A idéia de que todo intelectual deve apenas se preocupar com assuntos ‘contemplativos’ e nunca com feitos mundanos – p. ex. a sobrevivência financeira – é uma tolice digna de quem vive numa torre de marfim”. (p.25)
Quando jovem, nas férias após o exame de ingresso à universidade (Abiturium), Voegelin diz ter estudado O Capital (Marx), e declara: “induzido obviamente pela onda de interesse pela Revolução Russa, estudei O Capital, e sendo um completo ingênuo nesses assuntos, eu acreditava em tudo o que lia, e devo revelar que, de agosto a quase dezembro de 1919, fui marxista. Perto do Natal eu já estava cansado do assunto, pois cursara, neste meio-tempo, disciplinas da teoria econômica e história da teoria econômica e aprendera o que estava errado em Marx. Depois, o marxismo nunca foi um problema para mim.” [E.V. foi talvez o mais efêmero dos marxistas do mundo intelectual de todo o séc.XX]
”Esse problema de descartar uma ideologia por percebê-la indefensável cientificamente foi constante nesses anos. Muito importante para a formação de minha atitude em relação à ciência foi o contato precoce com a obra de Max Weber… A influência duradoura de Max Weber é resumida assim por Voegelin: 1) Seus ensaios sobre o marxismo coroaram minha rejeição do marxismo como ideologia indefensável cientificamente; 2) As palestras de Weber em (Ciência e Política: duas vocações) deixaram claro que as ideologias são os chamados ‘valores’ que toda ação deve pressupor, mas que, em si mesmos, não são proposições científicas.
”A questão se tornou crítica com a distinção que Weber faz entre Gesinnungsethik e Verantwortungsethik “– esse dois palavrões alemães são “usualmente traduzidos por ética da intenção e ética da responsabilidade”.
”Weber estava do lado da ética da responsabilidade, isto é, de assumir a responsabilidade pelas consequências dos próprios atos. Assim, por exemplo, se um sujeito estabelece um governo que expropria os expropriadores, é ele o responsável pela miséria que causou às pessoas expropriadas. É impossível desculpar as consequências maléficas de atos morais pela moralidade ou nobreza das intenções do agente. A intenção moralizadora não justifica a imoralidade da ação”.

“Mantive como firme legado esse insight fundamental, embora o próprio Weber não tenha analisado suas implicações por completo. Ideologia não é ciência, e os ideais não substituem a ética”. (p.32).
Segue…
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Fonte:Eric Voegelin: Reflexões Autobiográficas“, Ed. É Realizações, SP, 2008, Introdução e Notas de Ellis Sandoz, Trad. Maria Inês Carvalho, Notas de Martim Vasques da Cunha.

2 thoughts on “Notas às Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin”

  1. Um livro fascinante de Eric Voegelin, que contém conceitos cruciais em suas obras e que foi usado amplamente pelo filósofo brasileiro Olavo de Carvalho no seu curso de História da Filosofia, é o Modernity Without Restraint (Volume 5 do Collected Works). Infelizmente ainda sem tradução, mas uma leitura (e releitura) sem dúvida obrigatória.

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