Leve no trato; firme na ação…

AOS LEITORES.

A vocês, seis fiéis que vêm sempre em busca do pão cotidiano da poesia, lamento ter que lhes absorver o tempo como esponja em água suja para falar do tempo dividido que vivemos.

Como sabem, o Brasil vive à beira da ruptura institucional. Apodrecidas práticas políticas e ações nas sombras levaram ao limite a boa vontade de toda a gente, à espera de uma solução pacífica, negociada, razoável e “republicana” – eu que sou monarquista não confio no termo, mas vá lá – é o que se tem.

Impossível de vir e, mesmo diante da mais evidente manifestação de desapreço ao governo de Dilma Rousseff e das mazelas da política praticadas por muitos, mas principal e sistematicamente pelo partido da presidente e do ex-presidente Luis Inácio da Silva, o Lula,  pessoas deram demonstração inequívoca de querem mudanças já!

Ao contrário de uma resposta positiva, os donos do Poder achincalham toda a gente com a ação sombria e a prática típica de gângsters. A linguagem deturpada expõe a alma em desordem. Já o filósofo Eric Voegelin dizia sobre o tema Ordem na gestão pública como consequência da ordem interna – e vice-versa. Sobre isso, falei há algum tempo e ilustrei (ver link abaixo).

Eric Voegelin e a Ordem na História.

capa-veja-sabia-de-tudo

Creio, firmemente, que a Ordem é resultado da Paz interior e entre os cidadãos. E, por decorrência, vejo o Brasil em completa desordem mental e espiritual – do que o caos e a “aporia” (R.Romano) – o beco-sem-saída da política é consequência e não causa.

A ordem nos ambientes públicos – como na Escola, na Igreja, no Estádio, nos meios de transporte etc. – é consequência da Ordem no interior das pessoas; sendo requisito para a boa e harmoniosa convivência e a PAZ.

 

Em conclusão, cito um texto do ministro-decano da mais alta corte brasileira, reagindo aos achaques do sr. Luiz Inácio Lula da Silva, o desordeiro maior que chamou o STF de uma corte acovardada.

Leia abaixo a íntegra do pronunciamento de Celso de Mello – a fonte é o site G1 globo.com:

Os meios de comunicação revelaram, ontem, que conhecida figura política de nosso País, em diálogo telefônico com terceira pessoa, ofendeu, gravemente, a dignidade institucional do Poder Judiciário, imputando a este Tribunal a grosseira e injusta qualificação de ser “uma Suprema Corte totalmente acovardada”!

Esse insulto ao Poder Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte desta Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos escalões da República, reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de Juízes livres e independentes, que tanto honram a Magistratura brasileira e que não hesitarão, observados os grandes princípios consagrados pelo regime democrático e respeitada a garantia constitucional do devido processo legal, em fazer recair sobre aqueles considerados culpados, em regular processo judicial, todo o peso e toda a autoridade das leis criminais de nosso País!

A República, Senhor Presidente, além de não admitir privilégios, repudia a outorga de favores especiais e rejeita a concessão de tratamentos diferenciados aos detentores do poder ou a quem quer que seja.

Por isso, Senhor Presidente, cumpre não desconhecer que o dogma da isonomia, que constitui uma das mais expressivas virtudes republicanas, a todos iguala, governantes e governados, sem qualquer distinção, indicando que ninguém, absolutamente ninguém, está acima da autoridade das leis e da Constituição de nosso País, a significar que condutas criminosas perpetradas à sombra do Poder jamais serão toleradas, e os agentes que as houverem praticado, posicionados, ou não, nas culminâncias da hierarquia governamental, serão punidos por seu Juiz natural na exata medida e na justa extensão de sua responsabilidade criminal!

Esse, Senhor Presidente e Senhores Ministros, o registro que desejava fazer.”

Voegelin e a consciência do tempo

ERIC VOEGELIN (*1901/+1985) – filósofo nascido em Colônia (Alemanha), formado na Universidade de Viena (d’Áustria) e que passou grande parte da vida nos EUA, para onde emigrou em 1938 e se tornou cidadão norte-americano em 1944. Voegelin começou a ser lido no Brasil por um grupo restrito de pessoas ligadas à Filosofia e à Crítica, até que a É Realizações fez um trabalho de divulgação da obra do filósofo austríaco que nos possibilitou aos simples interessados e não-profissionais da Filosofia conhecer o pensamento extraordinário desse homem fora do mainstream do pensar, que passou grande parte de sua vida ensinando na Universidade Estadual da Louisiana, em Munique e no Instituto Hoover da Univ. Stanford.
Sobre Voegelin, já publiquei algumas notas de leituras (Voegelin) de edições de seus livros em inglês, bem como uma entrevista com o tradutor de ANAMNESE (e outros) para o português, Elpídio Mário Dantas Fonseca.

O que me interessa bastante em Voegelin não é nem tanto sua abordagem da Política – sua teoria da Ordem na História, que me agarra, sim; mas para além disso são suas memórias, onde engendra seu processo de Anamnese, título do livro em referência. O próprio editor brasileiro anota que

“Anamnese é uma obra central dentro da odisseia intelectual de Voegelin. Marca a mudança, da filosofia da história esboçada em “A Nova Ciência da Política” e desenvolvida nos três primeiros volumes de “Ordem e História”, para a preocupação com a filosofia da consciência dos dois últimos volumes, “A Era Ecumênica”e “Em Busca da Ordem”
(…)
A “natureza peculiar da obra” decorre de que ”Anamnese é o único entre os livros de Voegelin”, [que] “revela um autor olhando para trás e inventariando seu crescimento, em vez de avançar rapidamente em novas regiões e novos problemas. Anamnese é, pois, como que um afastamento dos hábitos eruditos de Voegelin. “

São as lembranças anotadas, após esboçar a Teoria da Consciência e sua leitura da obra de Edmund Husserl que é o foco deste post.
Sem me dar ao trabalho de redigitar, fiz uma figura em scanner de alguns textos do cap.4 – Anamnese. São lembranças do filósofo datadas de antes de seus dez anos de idade. Foram escolhidos “casos”, segundo Voegelin, “em razão de seu conteúdo e seu lugar no tempo. Casos relevantes em termos de conteúdo são os que têm que ver com os estímulos da experiência de uma transcendência no espaço, no tempo, na matéria, na história, nos sonhos desejosos e nos tempos desejosos…” As experiências posteriores aos 10 anos de idade do filósofo “não foram selecionadas, primeiro de tudo, porque elas foram complicadas através do trauma da emigração, e, segundo, porque as experiências de tempos posteriores já não têm o caráter natural das mais antigas, mas, ao contrário, estão estruturadas pelas mais antigas, o que introduz complicações para uma análise”.

Para o leigo em filosofia, como este bloguero, o sabor da leitura desses “casos” nos traz uma face humana de um erudito que parece distante do comum dos homens, mas que então se mostra franco e transparente como uma criança.rouxinol-imperador 2

Essas memórias do pensador – ou suas “experiências anamnésicas” são úteis porque são “experiências que abriram fontes de estímulo, de onde resultou a vontade para mais reflexão filosófica”. Devemos, portanto, a estes exercício de lembrar o posterior “elaborar” da consciência do filósofo porque essas memórias “excitaram a consciência para a ‘dor’ da existência”.
Portanto, assim como na poesia a reflexão (poema) e dor se interligam no “radicalismo e na largueza da reflexão filosófica” de Eric Voegelin.

O Rouxinol do Imperador*

O Rouxinol do Imperador_Voegelin

Leia o “Rouxinol”, Conto de Andersen, na íntegra.Citação de Voegelin_Rouxinol

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Fonte: VOEGELIN, Eric. “Anamnese: da teoria da história e da política”.  trad. Elpídio Mário Dantas Fonseca. S.Paulo, É Realizações, 2009. 544 pp.

A minha 1ª. Remington

UMA FOTO INUSITADA  me anima muito e me provoca a este post.
Retirada de um site alemão esta foi o toque bastante para dar um clique em minha memória.
É como se voltasse ao curso de datilografia, nos anos 60, usando uma velha Remington, batendo nas teclas, repetitivamente, até à quase perfeição (ainda não havia o papel corretor, imagine o liquid paper).
Era um interminável “asdfg çlkjh qwert poiuy alsldkfjgh” etc e tal, sob o olhar atento de minha irmã Dora, nossa professora de datilografia.

Depois, veio a 1ª. máquina que usei como escrivão – uma Olivetti (recuperada em estilo de época por minha mulher que a mantém em nossa biblioteca como um troféu). Enfim, uma série de toques na memória afetiva de um escrivão de polícia que nunca viria a realizar o sonho de ser Escritor.
Deixo ao leitor a apreciação da inusitada foto do Taz.De , enquanto elaboro sobre o tema desta Memorabilia, pensando em quanto foi `o barco agitado de minha vida´ (obrigado, Paulinho).

Minha Olivetti 1TINHA EU 14 anos de idade”, diria repetindo o sambista Paulinho da Viola, quando exerci minha primeira ocupação não-remunerada, mas que terminava me dando algumas recompensas e muitas alegrias.

Era eu o escritor de cartas para meus irmãos adotivos do orfanato onde éramos criados. Eles me contavam o que queriam escrever aos padrinhos nos EUA e eu colocava em bom português o que depois seria traduzido pelo patrocinador dessa inusitada aliança de generosos mantenedores norte-americanos, ajudando um orfanato no Brasil do final dos anos 60, início dos 70.
Naturalmente, uma carta bem feita poderia garantir ao remetente (era o que imaginávamos!) um bom presente no Natal ou no aniversário (e esses sempre chegavam, independente do mérito do texto que eu produzisse. Eu sempre dizia a mim mesmo, ao ver os presentes dos outros, que não havia caprichado na minha própria carta ao padrinho…). O que era mesmo certo é que eu recebia uma atenção especial neste ofício de ghost-writer: havia um local mágico onde  eu “ trabalhava” (a biblioteca). Era a distância perfeita para outro local de onde queria ficar longe: o eito, a lida real de cabo-de-enxada, a roça, a capina. Não que tenha feito alguma coisa a mais para receber a designação pejorativa de ´preguiçoso` –  creio hoje, com muita firmeza, que nunca me me adaptaria ao trabalho rude da roça e ponto parágrafo.

O que fiz para me distanciar do eito, me levou ao mundo das letras. Tinha predileção por bibliotecas, no orfanato e no Colégio particular, onde estudávamos (nós, os do Abrigo), como bolsistas, e tínhamos a obrigação de obter boas notas. A biblioteca era, então, meu refúgio onde passavas os recreios a ler as coleções inteiras a que tive acesso, uma a uma, sob a orientação sempre correta de dona Delfina, nossa zelosa bibliotecária.

Hoje fiquei pensando nas frases de um filósofo que encontrei recentemente sobre lembranças. Eric Voegelin reabilita lembranças profundas, desde a mais tenra infância (adoro o termo, pois é como se fôssemos frutas frescas e vulneráveis, o que de resto é a definição da infância).
Lembrei-me também de Mario Vargas Llosa e suas memórias de infância. Não que a infância seja imprescindível. Eu penso: A infância é apenas de onde viemos e, provavelmente, de onde nunca sairemos.
Eric Voegelin nos alerta sobre a importância da memória:
“Experiências impelem à reflexão e estas excitam a consciência para a ‘dor’ da existência”.

Diga aí, Betinho! Ah, o diminutivo `que me devolve à calça curta´ (como em Vargas Llosa, “Tia Júlia e o Escrivinhador`). E eis que há uma Remignton na capa e no conteúdo do livro de Vargas Llosa:
Uma carroça funerária sobre a qual não agiam os anos (…) e quando sob ameaça: “mas para levá-la teria que passar pelo cadáver de Pascual… , dizia o Marito de `Tia Júlia e o Escrevinhador`.
Há uma máquina de escrever aí e um escritor de cartas no `Batismo de Fogo’, mas estou com preguiça de procurar (hum, acho que sou mesmo um preguiçoso!).
(…)
A verdade é que penso, seriamente, em transformar minha velha Olivetti numa máquina retrô IT num kit retrô-TI . Ela, a minha inesquecível máquina de escrever do tempo da PF, que tanta  experiência me deu, ao longo da minha vida de escrivão de polícia e pela vida a fora.
(Segue em post futuro…).
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Fontes: Voegelin, Eric. “Anamnese”. Edit. É Realizações, Anamnese: da teoria da história e da política / Eric Voegelin, introdução David Walsh ; tradução Elpídio Mário Dantas Fonseca. – S.Paulo : É Realizações, 2009. – (Coleção Filosofia Atual)./ Vargas Llosa, Mario. Tia Julia e o Escrevinhador. Circulo do Livro, 1977.

Eric Voegelin, by Michael Federici

No meu anseio de aprofundar o conhecimento do pensamento de Eric Voegelin, adquiri novos livros nessa minha jornada no Arizona (dez, 08/jan, 09). Devo como sempre mais à Amazon do que a Barnes & Noble. A primeira acha o que não tem em estoque e te entrega, com rapidez e exatidão. A segunda, por seu turno, mirrou sua prateleira de bons filósofos e adotou a prateleira de filosofia miúda, i.e., Filosofia = Ateísmo.  Sorry about that, guys. Na B&N você encontrará o mesmo e bom café da Starbucks, mas a filosofia…(what a shame) com f minúsculo.

Pois bem, foi na Amazon que encontrei esta magnífica introdução ao pensamento de Eric Voegelin. A atendente ilustrada mas apática  da Barnes sequer sabia pronunciar e jamais tivera notícia do nome de Voegelin!

O livro de Michael Federici é da excelente coleção da ISI Books (Wilmington, Delaware), ed. 2002, intitulada “Library of Modern Thinkers” e tem entre outros escritores os ilustres nomes de Ludwig Von Mises, Robert Nisbet, Wilhelm Röpke, Jouvenel e Richard Weaver.

Como ainda não tenho uma resenha do livro, uso a idéia de transcrição de trechos como uma isca para que você, ao contrário da nada simpática atendente da B&N de Surprise (Az), se interesse por Voegelin.

Library of Modern Thinkers, ISI Books, 2002
Library of Modern Thinkers, ISI Books, 2002

Caracterizando a Crise da “Western Civilization” como um “processo que vem de um século e meio atrás” e que talvez persista por mais um século, Voegelin levanta o que chama de “Western disorder“,  elaborando a genealogia que exige “thinkers, ideas and historical experiences that often have been given scant or improper attention by scholars be put in their proper context“. Um exemplo desse tipo de gente é Augusto Comte (1798-1857). Voegelin o caracteriza como “is the first great figure of the Western crisis” and referes to him as “a spiritual dictator of mankind“. E lista outras figuras ao longo do séc. XVIII como d´Alembert, Voltaire, Diderot, Bentham e Turgot. Esses autores, juntos, são responsabilizados por “have mutilated the idea of man beyond recognition“.
Essa mutilação é descrita por Voegelin (de acordo com Federici) como “reduction of man and his life to the level of utilitarian existence” – ´an attitude that is ubiquitous in contemporary Western culture.  This mutilation included the loss of the Christian understanding of mankind`.
Segundo Voegelin, citado por MF:

“There arises the necessity of substituting for transcendental reality an intrawordly evocation which is supposed to fulfill the functions of transcendental reality for the immature type of man. As a consequence, not only the idea of man but also the idea of mankind has changed its meaning. The Christian idea of mankind is the idea of a community whose substance consists of the Spirit in which the members participate; the homonoia of the members, their likemindedness through the Spirit that has become flesh in all and each of them, welds them into a universal community of mankind. (cit. de “Enlightening to Revolution – FER”, Duke Univ. Press, 1975, pág. 95-96).

Individuos como Turgot, Voltaire, Diderot e Bentham transpõem essa ideia clássica e cristã do homem para um modelo que deprecia a natureza espiritual do homem, afirma Federici. E assim, transpõem a comunidade de indivíduos (a fraternidade cristã) em uma massa total e anônima, presa apenas por um ideal. Essa “masse totale” é o que se chama de construção ideal de Turgot. A visão utilitária em que seres humanos são contados como o valor que dão à construção do ´progresso`.  O positivismo contribui assim para a corrupção espiritual, numa clara crise que é, no final, de caráter existencial.

Se existe uma restauração possível – e ao autor não parece uma tarefa tão rápida – essa seria recobrar a consciência dessa “masse totale” , o que não é difícil apenas nas sociedades totalitárias mas também em países de tradição cristã como os EUA, diz Federici, interpretando Voegelin.  Nos EUA, Voegelin nota que esforços de restauração da Ordem terão que enfrentar “the soul-killing pressure of the progressive creed” (FER, 102), assinala Federici. Mas Voegelin é firme em sua posição e dá-nos uma lição digna deste dia de São Brás (em que escrevo este post):

No one is obliged to take part in the spiritual crisis of a society; on the contrary, everyone is obliged to avoid this folly and live his life in order
(Science, Politics and Gnosticism, Chicago, Regnery Gateway, 1968, p.22-23, apud Federici).

Paz e Bem!

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Fonte: Federici, Michael P. “Eric Voegelin: the restoration of order“/ 1st. ed. – Wilmington, Del.: ISI Books, 2002.

(1) scant – adj. escasso, raro; limitado, reduzido; estreito; deficiente.

Post-post:

Voegelin, Eric, 1901-1985

Hitler e os alemães / Eric Voegelin; introdução e edição de texto
Detlev Clemens e  Brendan Purcell; tradução Elpídio Mário Dantas Fonseca.

– São Paulo: É Realizações, 2007. –

(Col. Filosofia Atual)

Título original: Hitler and the Germans

ISBN 978-85-88062-49-8

CDD-943.086092

Índice do catálogo sistemático: 1.Alemanha : Chefes de estado : Período do 3º Reich :

Biografia 943.086091

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Voegelin, Eric, 1901-1985

Reflexões autobiográficas / Eric Voegelin; introdução e edição de texto Ellis Sandoz ; tradução Maria Inês de Carvalho ; Notas Martim Vasques
da Cunha. – São Paulo: É Realizações, 2007. –

(Col. Filosofia Atual)

Título original: Hitler and the Germans

ISBN 978-85-88062-50-4

CDD-193

Índice do catálogo sistemático: 1.Filósofos Alemães : Biografia e obra 193

Biografia 943.086091

Notas à leitura de Eric Voegelin

Lendo Voegelin, Anamnesis

O desafio é enorme. Entender em inglês as questões pertinentes a “Theory of Consciousness” não é fácil.

O Cap. 1 “Remembrance of  Things Past” pra quem leu as Reflexões… é familiar. E então, o oásis: o cap. 3 “Anamnetic Experiments” que de longe nos lembra C. Jung, com Voegelin dando de goleada na emoção e na consciência da “relembrança“. A alegria de transcrever faz parte de minha experiência de Notas de leitura.

Eis, pois, a transcrição respeitando todas as “assumptions” (presunções) do autor quais sejam:

  1. that consciousness is not constituted as a stream within the I;
    (a consciência não é constituída como uma corrente dentro do Eu);
  2. that in its intentional function consciousness, in infinite experience, transcends into the world, and that this type of transcendence is only one among several and must not be made the central them of a theory of consciousness;
    (que em sua função intencional, a consciência, na experiência finita, transcende para o mundo, e que este tipo de transcendência é apenas um entre muitos e não deve ser feito o tema central de uma teoria da consciência);
  3. that the experiences of the transcendence of consciousness into the body, the external world, the community, history, and the ground of being are givens in the biography of consciousness and thus antecede the systematic reflection on consciousness;
    (que as experiências de transcendência da consciência no corpo, no mundo externo, na comunidade, na história e no fundamento do ser são dados na biografia da consciência e, então, antecedem a reflexão sistemática acerca da consciência);
  4. that the systematic reflection operates with these experiences, that thus …
    (que a refelxão sistemática opera com essas experiências, que então…)
  5. the reflection is a further event in the biography of consciousness that may lead to clarification about its problems and, when reflection is turned in the direction of meditation, to the ascertainment of existence; but that it never is a radical beginning of philosophizing or can lead to such a beginning.
    (a reflexão é um evento posterior na biografia da consciência que pode levar à clarificação de seus problemas e, quando a reflexão se volta para a direção da meditação, à afirmação da existência; mas que isso nunca é um começo radical do filosofar ou pode levar a tal começo.)
    (Trad. de Elpio M Dantas Fonseca)

Transcrevo, assim, duas situações que mais me agradam para compreender as experiências de Anamnese do grande filósofo do séc. XX, Mr. Voegelin:

Uma do grupo classificado como “experiences remembered without being completely clear about the meaning” (8):

8. The Petersberg

The Petersbeg (St. Peter’s Mountain) was a serious problem. From our house one could see it well. There it was, not too far away, a high ridge with rounded shoulders; on top, in the middle, a little house, a toy house like the several toy houses I possessed.

One day I learned that a passing-through friend of my parents lived up there. I could not believe it. The toy house was a real house, a hotel in which one could eat and sleep! BY insistent questioning I made sure that the house was as big as ours, that it contained real rooms, that the door was as large as a real door and that one could enter in through it.

Something new broke in on me. I learned that the house up there was small when I was below; that it was big when I wen there and stood in front of it; that our house, which was big was also small when I stood above on the mountain and looked down on it.

The experience was disturbing and has remained so until today. At that time I coul no cope with it. Ther remained the discovery that space is a weird matter and that the world which I knew looked differently if one stood at a different place in it.

Later this first shaking of my world center was followed by other experiences that concerned the relations of spatial position to psychic an spiritual perspectives. These experiences, however, occurred after the years in th Rhineland; they did not begin until after my own revolutionary change of location to Austria. At any rate, space was never something neutral, a quantitative extension; it always remained for me a problem of soul.

(p.42).

E a outra, do grupo classificado como “esquecido e só recentemente ‘reappeared’” (9)

9. The Freighters

In Koeningswinter we lived in a house on the waterfront. It stood on a little bluff, which had a stonewall; in front of the wall was the river-lane. When the Rhine carried high water, it flooded the path and the water rose on the wall. At that time, in order to leave the house, we hat do pass through a neighbor’s garden behind our own. Unfortunately, this exciting change occurred only a few days once a year.

From our front yard we looked down on the river where the steamboats were passing. There were three kinds: most numerous were the tugboats with barges(1) behind them; then the were the passenger boats of the Koeln-Duesseldorf Line coming by every one or two hours; and finally the Netherland Line passenger ships, twice or thrice a day.

The freighters were the source of a physical discovery, and the nature of this discovery taught me for the first time caution in the delicate questions of interpretation. They emitted thick partly with uneasiness – for when clouds appeared then rain would follow, and I would have to say in the house.

One day, in the circle of the family, I summed up the result of my observations: that tomorrow it woul rain because today the freighters had produced many clouds. My parents laughed, and I learned that clouds of smoke and rain-producing clouds are not the same thing. I was ashamed about my ignorance and because I had made a fool of myself.

I still love to see interesting relationships – but just when I see them in the most satisfactory and beautiful way, the smoke of the freighters rises and clouds my pleasure.

Bônus(es).

19. The Cannons of Kronburg

The cannons of Kronburg speak in the story of Holger Danske. Again, nothing has remained of the story but the cannons. When the ships pass by, the cannons say ‘boom’.

That is somewhere far away, in the north, where the world has gone farthest, with nothing beyond. Ships will pass there, and nobody asks whence they are coming and where they are going. Where they pass, without a sound, there is nothing; no human beings, only the cannons; and they say ‘boom’ with solemn sadness, as the end of the world.
(p. 50)

20. First Emigration

In 1910 my father accepted a position in Vienna. I was then nine years old. A move of this kind must have been in preparation for some time. I do not recall, however, that there was any kind of disturbance before the departure.

I still remember clearly the day when I went to school for the last time. The teacher, Mr. Corbach, whom I revered, said goodbye to me. He said something about my going into foreign parts but that it might not be so bad, since German was also spoken there. I was a little afraid, but I also was excited by the adventure and proud that something so important was happening to me.

What had happened only dawned on (2) me several weeks later, when I first went to school in Vienna.
(p.51).
+++++

Fonte: E. Voegelin, “Anamnesis” Univ. of Notre Dame Press, London, 1978, p. 36-51

(1) barca, barco, lancha
(2) dawn on: começar a entender
(3) ascertainment: s. averiguação, determinação

Adeus a Solzhenitsyn

Uma citação de Eric Voegelin*, para dizer Adeus a Solzhenitsyn:

“NÃO PODE HAVER comunidade lingüística com os próceres das ideologias dominantes. Por isso, a comunidade lingüística necessária para criticar os que lançam mão da linguagem ideológica precisa antes ser descoberta e, se necessário, criada.

Não é a primeira vez na história em que a peculiar situação acima descrita é a sina do filósofo. Mais de uma vez, a linguagem se degenerou e corrompeu a ponto de não poder mais ser usada para expressar a verdade da existência. Tal era, por exemplo, a situação de Sir Francis Bacon quando escreveu seu Novum Organum. Bacon chamou os lugares-comuns não depurados correntes em sua época de ´ídolos`: os ídolos da caverna, os ídolos do mercado, os ídolos da especulação pseudoteórica. Para resistir à dominação dos ídolos – isto é, dos símbolos de linguagem que perderam contato com a realidade –, é preciso redescobrir as experiências da realidade, bem como uma linguagem que as possa exprimir de modo adequado. A situação, hoje, não é muito diferente. Para reconhecer a persistência do problema, basta lembrar Alexander Solzhenitsyn e seu capítulo sobre os “ídolos do mercado” em Cancer Ward (“Pavilhão de Cancerosos”), Solzhenitsyn teve de recorrer a Bacon e sua concepção dos ídolos para defender, contra o impacto do dogma comunista, a realidade da Razão em sua própria vida. Gosto de mencionar Solzhenitsyn, com sua consciência do problema e a competência filosófica patenteada na referência a Bacon, pois seu exemplo, se imitado, poderia transformar radicalmente a atmosfera intelectual de nossos meios acadêmicos. A situação do filósofo nos Estados Unidos em face do clima dominante nas ciências sociais corresponde, em grande medida, à de Solzhenitsyn em relação à União dos Escritores Soviéticos (com a importante diferença, é claro, de que nossa UES não pode se valer da força política do governo para suprimir um literato). No Ocidente, há sempre enclaves em que o trabalho científico pode continuar, em mesmo florescer, a despeito do terrorismo intelectual exercido por instituições como a grande mídia, os departamentos universitários, as fundações e as casas editoriais.”
+++++
*Fonte: pág. 140, “Reflexões Autobiográficas”, E. Voegelin, by Ellis Sandoz, É Editorial, S. Paulo, 2008).

A banalidade do mal

O fenômeno de Hitler não se esgota em sua pessoa. Seu sucesso deve ser situado no quadro geral de uma sociedade arruinada intelectual ou moralmente, no qual figuras que em outros tempos seriam grotescas e marginais podem ascender ao poder público por representarem formidavelmente o povo que as admira. Essa destruição interna de uma sociedade não terminou com a vitória dos aliados sobre os exércitos alemães na II Guerra Mundial, mas continua até hoje. Devo dizer que a destruição da vida intelectual na Alemanha em geral e nas universidades em particular é fruto da destruição perpetrada sob seu regime. O processo ainda está em curso e não é possível entrever seu fim, de sorte que consequências surpreendentes são possíveis. O estudo do período (hitlerista) por Karl Kraus, e especialmente sua arguta análise do detalhe sujo (aquilo que Hannah Arendt chamou de `banalidade do mal´) tem grande importância para nós hoje, pois é possível encontrar fenômenos correlatos na sociedade ocidental, embora não ainda, felizmente, com os efeitos destrutivos que resultaram na catástrofe alemã.

*****
Reflexões Autobiográficas“, Eric Voegelin, pág. 41, Ed. ÉRealizações, 2008.
(Qualquer semelhança entre Brasil e Alemanha é mera coincidência)

Notas às Reflexões Autobiográficas de Eric Voegelin

Leio com vagar as “Reflexões Autobiográficas“, de Eric Voegelin, tentando extrair a máxima compreensão que me permita depois entrar mais preparado no universo deste grande pensador.
Devemos essas “Reflexões” ao talento de um admirador de Voegelin, Ellis Sandoz, que em 1973, gravou com o mestre várias entrevistas sobre temas relevantes para o estudo que viria a ser o livro “The Voegelinian Revolution: A Biographical Introduction” (A Revolução Voegeliniana: uma Introdução Biográfica).

 

Eric Hermann Wilhelm Voegelin nasceu em Colônia, na Alemanha, em 1901 e faleceu em Stanford, CA (EUA) em 1985. Sua formação acadêmica se dá na Universidade de Viena, onde torna-se professor associado de ciência política na Faculdade de Direito austríaca. Demitido pelos nazistas em 1938, Voegelin foge para a Suíça, escapando da Gestapo e emigra para os EUA, onde ensina na Universidade Harvard e na Universidade Estadual da Louisiana (1942). Volta à Europa como professor da Universidade de Munique (1968), onde fundou o Instituto de Ciência Política.
Retorna definitivamente aos EUA em 1969, onde ensina por cinco anos (1969-74) como “Distinguished Scholar” na Universidade de Stanford. Entre os seus principais livros, destacam-se os títulos: “A Nova Ciência da Política” (1952), “Ordem e História” (1956-57), “Anamnesis” (1966), “The Ecumenic Age” (1972-73), entre outros.
Segundo o autor-entrevistador, as Reflexõessão o melhor ponto de partida para o estudante que não tenha familiaridade com os escritos de Voegelin”. Para mim, têm sido este “caminho valioso para entender Voegelin nas leituras que pretendo fazer no futuro, certo de que o livro é “uma introdução à vida e ao pensamento deste que foi um notável scholar e talvez o maior filósofo de nosso tempo“.

Anotações de leitura:
“Em meu tempo de estudante e ao longo de toda a década de 1920, ou mesmo até que se fizessem sentir os efetios do nacional-socialismo, no início dos anos 30, Viena conservava um horizonte intelectual vastíssimo e era internacionalmente reconhecida como pioneira em muitas áreas do conhecimento.”

[Vários nomes citados por Voegelin são notáveis outros me são totalmente desconhecidos: Ludwig von Mises, economista; os teóricos do Direito Hans Kelsen (redator da Constituição Austríaca e seus discípulos Alfred von Verdross e Adolf Merkl; os físicos Ernst Mach e Scchlick e Wittgenstein; o historiador Alfons Dopsch; na história da Arte destaca Max Dvorák e Strzigowski; na música, Egon Wellesz, entre outros – A Viena onde viveu E. Voegelin era um mundo de uma efervescência cultural que raramente ocorreu na história. O berço de S. Freud, Schnitzler, Hofmannsthal, Wittgeinstein, Mahler, Klimt, Rilke etc. tinham “o rigor e a profundidade intelectual como norma” – o que geraram futuros círculos de homens-prodigios – modelos para futuros cículos intelectuais em que se reproduz “essa sofisticação nos meios formais e a ousadia na análise dos problemas filosóficos de primeira grandeza”, citando como exemplo a Escola de Chicago e a de Frankfurt].

“Inscrevera-me – diz Voegelin – como estudante de pós-graduação que me levaria ao Doutorado em Ciência Política. A decisão de cursar esse doutorado foi em parte econômica e em parte questão de princípios. No que se refere ao aspecto econômico, eu era muito pobre, e um doutorado a ser concluído em três anos me parecia definitivamente atrativo. A questão de princípios era uma nebulosa, mas já então pujante intuição de que eu embarcaria em uma carreira científica… a escolha da ciência política, ademais, foi determinada pela qualidade do corpo docente, que incluía figuras de renome como Kelsen e Spann”. (p.21)

”Depois de concluir o doutorado em ciência política, matriculei-me em cursos de matemática na Faculdade de Filosofia, especialmente com Furtwaengler sobre teoria das funções, mas acabei estudando esses assuntos apenas superficialmente, pois simplesmente, não conseguia me entusiasmar por problemas matemáticos.” (p.22)

Na Universidade de Viena, o jovem Voegelin se associa a grupos de interesse na instituição de seminários e pelas amizades pessoais. Esse relacionamento gera o que chamou de Geistkreis (Círculo Espiritual ou Intelectual) e explica: “tratava-se de um grupo de jovens que se reunia mensalmente… um dos membros do grupo dava uma palestra sobre tema de sua escolha enquanto os outros faziam picadinho dele. Por se tratar de uma comunidade civilizada, havia a regra de que o anfitrião do encontro não podia ser o palestra, pois era permitido à dona da casa participar e não seria nada cortês fazer picadinho de um cavalheiro na presença de sua esposa.”
Vários dos participantes deses grupos de estudo tinham atividades comerciais e financeiras paralelas aos estudos, ou seja, o vínculo com a Academia não os afastava das atividades práticas do dia-a-dia, ou como ressalta Sandoz: “ter uma atividade intelectual não excluía uma atividade prática que fosse materialmente lucrativa. A idéia de que todo intelectual deve apenas se preocupar com assuntos ‘contemplativos’ e nunca com feitos mundanos – p. ex. a sobrevivência financeira – é uma tolice digna de quem vive numa torre de marfim”. (p.25)
Quando jovem, nas férias após o exame de ingresso à universidade (Abiturium), Voegelin diz ter estudado O Capital (Marx), e declara: “induzido obviamente pela onda de interesse pela Revolução Russa, estudei O Capital, e sendo um completo ingênuo nesses assuntos, eu acreditava em tudo o que lia, e devo revelar que, de agosto a quase dezembro de 1919, fui marxista. Perto do Natal eu já estava cansado do assunto, pois cursara, neste meio-tempo, disciplinas da teoria econômica e história da teoria econômica e aprendera o que estava errado em Marx. Depois, o marxismo nunca foi um problema para mim.” [E.V. foi talvez o mais efêmero dos marxistas do mundo intelectual de todo o séc.XX]
”Esse problema de descartar uma ideologia por percebê-la indefensável cientificamente foi constante nesses anos. Muito importante para a formação de minha atitude em relação à ciência foi o contato precoce com a obra de Max Weber… A influência duradoura de Max Weber é resumida assim por Voegelin: 1) Seus ensaios sobre o marxismo coroaram minha rejeição do marxismo como ideologia indefensável cientificamente; 2) As palestras de Weber em (Ciência e Política: duas vocações) deixaram claro que as ideologias são os chamados ‘valores’ que toda ação deve pressupor, mas que, em si mesmos, não são proposições científicas.
”A questão se tornou crítica com a distinção que Weber faz entre Gesinnungsethik e Verantwortungsethik “– esse dois palavrões alemães são “usualmente traduzidos por ética da intenção e ética da responsabilidade”.
”Weber estava do lado da ética da responsabilidade, isto é, de assumir a responsabilidade pelas consequências dos próprios atos. Assim, por exemplo, se um sujeito estabelece um governo que expropria os expropriadores, é ele o responsável pela miséria que causou às pessoas expropriadas. É impossível desculpar as consequências maléficas de atos morais pela moralidade ou nobreza das intenções do agente. A intenção moralizadora não justifica a imoralidade da ação”.

“Mantive como firme legado esse insight fundamental, embora o próprio Weber não tenha analisado suas implicações por completo. Ideologia não é ciência, e os ideais não substituem a ética”. (p.32).
Segue…
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Fonte:Eric Voegelin: Reflexões Autobiográficas“, Ed. É Realizações, SP, 2008, Introdução e Notas de Ellis Sandoz, Trad. Maria Inês Carvalho, Notas de Martim Vasques da Cunha.