Duas edições de Poemas e Elegias, de José Décio Filho
Poesia

“Caminhos” descortina novo percurso para “Poesias e Elegias”, de José Décio Filho


JOSÉ DÉCIO FILHO (1918-1976) – recebe, 35 anos depois, a devida reedição e homenagem Da Editora Caminhos.

O poeta relembrado é um poeta essencial para a literatura feita em Goiás?
– Respondem sim a esta pergunta os editores da Caminho, os antigos e novos leitores, respondo eu.

O poeta José Décio Filho visto por Mariosan, O Popular, 2015.
Zé Décio na pena do cartunista Mariosan, de O Popular, Goiânia,
Zé Décio por Trindade e Corrêa
Ilustração de Trindade e layout de Ailso Braz Corrêa, 1979 na 2a.ed. de Poemas e Elegias.

I | Goiânia, 26.02.2015 – O lançamento do livro do Zé Décio (como carinhosamente referido por seus amigos, como Haroldo de Britto Guimarães), com a destacada presença de familiares do poeta, foi uma bela homenagem mais do que merecida ao poeta José Décio Filho.

Testemunhei os lances da contida emoção desta iniciativa editorial durante o coquetel da noite da última quinta-feira, 26, na União Brasileira de Escritores (UBE) de Goiás, entidade que o poeta presidiu na década de ‘60.
José Décio Filho_Livros

As duas edições agora se alinham em minha estante – a segunda de 1979, patrocinada pela Caixego – com capa elaborada por meu saudoso amigo Ailso Braz Corrêa, publicitário e, sobretudo artista plástico; e esta, a terceira e bela edição da editora goiana “Caminhos”, lançada sob a batuta de Mário Zeidler Filho.

A 1a.edição obra de José Décio Filho – hoje livro raro – é de 1953.

A iniciativa da editora Caminhos é merecedora do aplauso dos amantes da boa poesia.  De fato, “transcorridos 35 anos desde a publicação da 2a. edição de “Poemas e Elegias”, é mais do que hora de “corrigir uma grave falha de nossa memória literária, e recolocar em circulação esta poesia que continua tão natural e atual agora como antes”.

O poeta Zé Décio, redator da Imprensa Oficial de Goiás e da revista "Oeste".
O então redator da Imprensa Oficial e seus poemas na revista “Oeste”, em julho de 1943.

Os jovens editores da “Caminhos” -que montam com maestria um belo catálogo em pleno Brasil Central, informam que desejam em breve lançar uma “Obra reunida de José Décio Filho”, que deverá contar com a fortuna crítica da obra do poeta, o que incluirá, por certo ensaios e variações de Oscar Sabino Jr., dona Amália Hermano Teixeira, Bernardo Élis e Haroldo de Britto Guimarães, além de textos do mestre da crítica literária em Goiás, o acadêmico Gilberto Mendonça Teles.

Fico feliz em saber que a Revista Oeste tenha servido aos editores como fonte da maior importância para estabelecer o texto desta edição, pois foi uma honra para a Caixa Econômica Federal (CEF – Filial de Goiás), sob a direção e liderança de Alfredo Talarico Filho, patrocinar o projeto de reedição dessa fonte, em 1983 em comemoração ao Cinquentenário do Batismo Cultural de Goiânia – ação esta da qual tive eu a subida honra de participar ao lado do professor José Mendonça Teles.

Não é sobejo falar sobre José Décio quando mais não fosse pelo silêncio que como véu sobre sua bela obra desceu durante esses 35 anos…

Gilberto resumiu como crítico de forma lapidar:
“A sua obra poética é a mais perfeitamente coesa e homogênea em Goiás, constituindo-se numa peça inteiriça os vários poemas que compõem o livro Poemas e Elegias. E de tal maneira esses poemas se completam, se identificam nas suas estruturas e vivências, que os sentimos harmonizados numa única mensagem, altamente humana, marcada entretanto por um vínculo profundo de tristeza e intensa amargura pessoal.”

José Décio Filho
Anotação de leitura de 1979 que fiz do clássico de GMT, durante a leitura dos poemas de J.Décio, guardada junto com o meu exemplar da 2a. edição.

A emoção da sobrinha de José Décio no evento, ao contar a estória do poema “O Peixe”, confirma e nos chama a prestar atenção especial a esse caráter humano da obra de J.Décio. O poema que foi mostrado pelo poeta à professora Cláudia Balduíno, então uma menina de 14 anos, tem a força da poesia como remembrances  – experimentos anamnéticos Voegelianos -, e assim retornam com a força da memória afetiva; agora na mente da “intelectual da família Balduíno” voltam os pensamentos da menina e assim se mostram através da doce lembrança do tio que a motiva e a conduz à emoção constante da leitora Cláudia, rememorando a nobreza do poeta e da poesia.

– Eis porque testemunhamos todos “Uma noite de emoção, em que o poeta José Décio foi revivido através da Poesia“.

Ouça, prezado leitor(a): a professora Cláudia Balduíno sobre J Décio.
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II
Não teria sido ela, apenas, a sobrinha do poeta a emocionar-se com o Peixe.
Bernardo Élis, amigo do poeta – exemplificando o que a professora Cláudia Balduíno dissera naquela noite, por conhecer o poeta de sua poesia fazia leitura ainda mais profunda:

Como derradeira visão, conservo dele [José Décio Filho] a leitura que me fez de um poema – “O Peixe”, há coisa de quatro meses, no fórum de Goiânia. Era um peixe tão feroz na sua solidão, navegando e navegando ainda nos abismos noturnos do mar oceano em busca de alimento ou de amor, indiferente às tormentas ou às bonanças, como quem cumpre um fadário. Era estranho, másculo, terrível como sempre fora José Décio.

Já o amigo e escritor Haroldo de Britto Guimarães dissera na p.80 da 2a. edição do livro em referência:
“Zé Décio, José Décio Filho. Ele se foi sem que tivéssemos feito todo o esforço possível para entender sua natureza esquiva e sem lhe revelar nossa alegria pela promessa de plenitude trazida às nossas vidas por sua poesia.
“Na verdade, nem chegamos a saber quem ele foi: pássaro, criança, lobo solitário ou habitante de um mundo que vive no futuro do homem e só é pressentido no sonho dos poetas”. 

Foi o mesmo Haroldo de Britto quem deu o depoimento mais inusitado sobre a pessoa do poeta – de quem a sobrinha professora Cláudia Balduíno nos convidava a conhecê-lo mais para melhor entendê-lo:

"Uma vez ... pescando, notamos que o poeta tinha há muito tempo o anzol dentro d'água, sem que qualquer peixe o beliscasse. Sugerimos-lhe que botasse outra isca, pois aquela já devia ter sido comida, mas - com um riso irônico, José Déio explicou: "Eu sei disso, mas não estou querendo pescar nada. Eu desejo apenas fazer parte da natureza. Sento aqui e em pouco tempo sou como um tronco de árvore ou como essas águas que passam" (Notícias de José Décio Filho, 2a.ed. de Poemas e Elegias, p.81).

E um episódio assim, transforma-nos quando vira uma "Grave Elegia":
"Enquanto os pescadores atentos
colhem peixe das águas,
estou pescando mistérios
para meu repasto." 
(da 3a. edição, p.56).

E para os que não tiveram a oportunidade de viver o momento de “remembrances” de José Décio, deixo essa transcrição do Poema “O Peixe”, esperando vê-lo(a) como leitor da bela poesia Deciana, que merece sim percorrer longos e novos Caminhos. Não sem antes dizer-lhes, repetindo o crítico e amigo do poeta (Oscar Sabino Jr.): “A poesia parecia a ele [J.Décio], como também pareceu a Rainer Maria Rilke (o canto é a existência) um processo da existência em ação e, por isso, distante do pensamento participante…  Para ele, como para Rilke, a poesia era uma escolha de destino exigente dos maiores sacrifícios.”

O Peixe, poema de J. Décio Filho
O PEIXE, poema que se pode ler às pág. 99/100 da 3a.ed. de “Poemas e Elegias”, editora Caminhos, Goiânia, 2014.

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Fonte principal deste artigo: livro “Poemas e elegias”. Editora Caminhos, Goiânia, 2014. (c) Família José Décio / editora Caminhos.
Autor: José Décio Filho
Acabamento: Brochura
Formato: 13×18 cm
​Páginas: 128
ISBN: 978-85-68071-02-1
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