Teria esta Lição maior validez…


“Se em vez de carioquinha, o Millôr fosse um velho chinês…”

(paródia a um poema do Millôr (*)

Um dia depois de eu ter transformado o jogador colombiano Zúñiga em “bode expiatório” de minha revolta contra o “cordeiro imolado” que é nosso melhor jogador de futebol (e um dos mais jovens da Copa), pensei, repensei.

Lembrei-me de dois textos que me ajudam a entender o momento e por um instante, racionalmente deixo minha paixão futebolística de lado, para refletir sobre violência do homem contra o homem (homem lobo do homem?! – mesmo? Deixe sua resposta para o final do texto do Millôr.

Leiam o texto “Homem” de Millôr (abaixo), após o um texto do pensador francês René Girard sobre Violência e a Teoria do Bode Expiatório.  E entre Millôr e Girard, naturalmente, fico com o francês, mas ambos válidos para esta minha mirada para entender-me, entender-nos, nós Homens – seres humanos, mulheres inclusas, viu dona Ministra da igualdade pe(a)Teista).

O professor Olavo de Carvalho resumiu, em 1998, o pensamento de René Girard em um parágrafo:

(…) Todas as instituições humanas têm origem ritual, e o ritual resume-se no sacrifício. O sacrifício consiste em descarregar sobre um bode expiatório, vítima inocente e indefesa, os ódios e tensões acumulados que ameaçavam romper a unidade social. Estes ódios e tensões, por sua vez, surgem da impossibilidade de conciliar os desejos humanos. A razão desta impossibilidade reside no caráter mimético do desejo: cada homem não deseja isto ou aquilo simplesmente porque sim, porque é bonito, porque é gostoso, porque satisfaz alguma necessidade, mas sim porque é desejado também por outro ser humano, cujo prestígio cobre de encantos, aos olhos do primeiro, um objeto que em si pode ser inócuo, ruim, feio ou prejudicial. O mimetismo é o tema dominante da literatura, assim como o sacrifício do bode expiatório é o tema dominante, se não único, da mitologia universal e do complexo sistema de ritos sobre o qual se ergue, aos poucos, o edifício político e judiciário. A vítima é escolhida entre as criaturas isoladas, inermes, cuja morte não ofenderá uma família, grupo ou facção: ela não tem vingadores, sua morte portanto detém o ciclo da retaliação mútua. Mas a paz é provisória. Por um tempo, a recordação do sacrifício basta para restabelecê-la. Nesta fase a vítima sacrificial se torna retroativamente objeto de culto, como divindade ou herói cultural. Ritualizado, o sacrifício tende a despejar-se sobre vítimas simbólicas ou de substituição: um carneiro, um boi. Quando o sistema ritual perde sua força apaziguante, renascem as tensões, espalha-se a violência que, se não encontrar novas vítimas sacrificiais, leverá tudo ao caos e à ruína. A sociedade humana ergue-se assim sobre uma violência originária, que o rito ao mesmo tempo encobre e reproduz.”
(Fonte: Continue lendo no Site Olavo de Carvalho).

Apoio-me ainda, nas palavras de Felipe Cherubin:
A função do sacrifício é, portanto, apaziguar a violência e impedir a explosão de conflitos decorrentes de rivalidades cada vez mais crescentes que paradoxalmente focalizam uma vítima arbitrária cuja eliminação reconcilia o grupo e alcança o estatuto do sagrado. Essa vítima é chamada por Girard de “bode expiatório”, um inocente que polariza para si o ódio universal.”  (Felipe Cherubin, na Dicta & Contradicta)

Dá tempo até o próximo jogo interessante…

“Homem!”

© Millôr Fernandes.

“Besta! Você é uma besta!” Besta é como aprendemos a xingar desde cedo. E chamamos de animais os que matam com crueldade, os que violentam, agridem, ferem: “O criminoso reagiu à polícia como uma verdadeira fera!” Como? Correu? Não – atirou, esfaqueou, matou.

Porco-chovinista. A hiena-nazista. Alimentei uma serpente no meu seio. “Rato!” “Cavalos, são todos umas ca-valgaduras!” Pato. Cão. Teimoso como uma mula. Bêbado co-mo um gambá. Burro. Galinha. Lesma. Lágrimas de cro-co-di–lo. Traiçoeiro como uma raposa. Praticamente todos os ani-mais têm sido usados pelo homem para símiles das suas pró-prias fraquezas e defeitos. E os animais, dóceis, conti-nuam sua vida, ignorando que os usamos para cobrir toda a gama de nossa imensa canalhice, quando bebemos mais do que podemos, espancamos os mais fracos, prevaricamos sem medida, agimos, enfim, “como verdadeiros animais selvagens”.

Talvez isso se deva ao fato de que os animais sempre nos evitaram, com raras exceções, como a do cão (um quisling animal, o Pai Thomaz da espécie). Mas, agora que a história natural sabe muito mais sobre os animais, você já tentou ler, ao mesmo tempo, paralelamente, a biografia de uma família “ilustre” e a monografia de um grupo de chimpanzés? Em qualquer família “ilustre” a prevaricação sexual é a constante, a traição sentimental a regra, o ciúme, o impulso, e a violência resultado quase fatal.

Mas um grupo de chimpanzés do Quênia, estudado detidamente por naturalistas holandeses, mostrou que os brutos (perdão!) ficam satisfeitos com apenas seis atos sexuais por ano, já que as fêmeas só se interessam pelo assunto duas ou três vezes por mês e nem querem ouvir falar (grunhir) disso em todo o período da gestação e da lactação. O problema, porém, vejam bem, não é saber se os gorilas são ou não melhores do que o homem porque se importam menos com sexo, mas apenas mostrar que não é válido, na descrição de violências sexuais, num caso de estupro, por exemplo, dizer que o homem “cedeu a seus instintos bestiais”. O que ele cedeu mesmo foi a seus instintos humanos.

Mas, se alguns animais copulam menos, todos brigam menos do que os homens. Ainda estou para ver elefantes se adestrando militarmente para atacar leões, tigres se mobilizando para enfrentar uma horda de jacarés invasores, búfalos matando bisões por questões de fronteiras, ri-no-ce-ron-tes vendendo chifres a girafas, e assim por diante. Quando não se sentem efetivamente atacados, todos os animais deixam pra lá. Não brigam por conceitos, não reagem por pressupostos, não se ofendem por questões lingüísticas, não matam por religião. E, mesmo atacados por razões vitais, inúmeras vezes rugem, (zurram, escoiceiam, berram) mas, assim que podem, satisfeitas as necessidades teatrais da espécie, fingem que não foi nada e dão o fora. Paz! Paz!

Mesmo os animais definitivamente vitoriosos em lutas quase nunca procuram tirar partido disso. Viram as costas e vão embora. No máximo comem um pedaço do inimigo, se for o caso; se o caso é fome. Não há condecorações, butins de guerra, nem retaliações em nome do passado, tratados preservando um pasto para o futuro, colinas de Golan contestadas entre jaguatiricas e cascáveis, e, sobretudo, não há arcos do triunfo.

Pois é: já é tempo de inverter os termos e afirmar que uma pessoa é “suave como um elefante”, “maternal como uma cobra”, “tímido como um rinoceronte”, “delicado como um urso”, ou que “o coelhinho me olhou com um olhar quase humano”, isto é, de ódio ou inveja. Pois desde a Bíblia a interpretação foi sempre contra os animais: a serpente era pérfida e perdeu o homem. E, no entanto, tudo o que a serpente fez, afinal, foi contestar uma portaria aparentemente sem nexo. Possivelmente ela teve apenas a intenção de instigar o homem a um prazer que ele até então não desfrutara. E certamente a coisa não teria o desfecho desastroso que teve (o pão com o suor de nosso rosto, etc.) se não tivesse se metido na história o elemento agressivo e agressor, o anjo com a espada de fogo na mão. Um homem!

+++++
Fontes: Texto “Homem”, de Millôr Fernandes, transcrito de Revista Veja online.
(*) Poemas do Millôr (não achei a fonte – se você, leitor, souber, me envia por favor!):
”Tudo o que eu digo
Teria maior validez
Se em vez de carioquinha
Eu fosse um velho chinês”.

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