Emily Dickinson e a luz


I’ll tell you how the sun rose –
A Ribbon at a time –
The steeples swam in Amethyst –
The news like squirrels ran.

The hills untied their Bonnets –
The Bobolinks – begun.
Then I said softly to myself –
“That must have been the sun!”

        *  *  *

But how he set – I know not –
There seemed a purple stile
Which little Yellow boys and girls
Were climbing all the while –

Till when they reached the other side,
A Dominie in Gray –
Put gently up the evening bars –
And led the flock away.

emily-dickinson-photo1
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Vou te contar como é que o sol nasceu:
De repente uma fita apareceu
Campanários nadaram em ametista
E notícias correram como esquilos;
Colinas desataram seus toucados –
Os passarinhos romperam em trinados.

Então disse baixinho p’ra mim mesma:
’Deve ter sido o Sol’!
Mas como foi que ele se pôs, não sei dizer.
No céu, um torniquete avermelhado –
Meninos e meninas de amarelo
Pulavam por ali em atropelo,
Na pressa de alcançar o outro lado –
Quando um clérigo de hábito cinzento
Fez o gradil da noite subir manso –
E dispensou o bando.
+++++

Fontes:
DICKINSON, Emily: Uma Centena de Poemas, Editora T.A.Queiroz/USP, S.Paulo, 1984. Tradução, introdução e notas de Aíla de Oliveira Gomes. Pág.64/65. Nos comentários à tradução dona Aíla adverte que fez uma “arrumação do poema” diferente do original em busca de rimas e assonâncias finais que trouxessem naturalidade à tradução. Eu gostei. Ficou a dúvida sobre “Bobolinks” traduzido por passarinho. Aíla justificou: “Depois de bastante dúvida, resolveu-se deixar o termo genérico ‘pássarinho’, para o onomatopaico “bobolink”, tão amado de Emily, que o considerada “the Bird of Birds”. Usar sucedâneos nossos enfraqueceria a marca “New Englandy” do poema. O dicionário registra ‘triste-pia’ (que não se coaduna com o tom jubiloso da descrição da manhã de Amherst), papa-arroz, papa-capim (muito prosaicos , no caso), coleiro, curió (muito tipicamente nosssos)”, conclui Aíla.
Uma pequena história de como retornei a esse poema, lido antes e depois esquecido pelos meus neurônios cansados. Estou lendo o livro de Eduardo Giannetti (“Auto-Engano”, edit. Cia. das Letras, S.Paulo, 2005) Auto-Engano_Giannetti
e me deparo com um trecho interessantíssimo no segundo capítulo (Auto-Conhecimento e Auto-Engano), em que Giannetti explana sobre “o grau zero do conhecimento” x “o grau máximo” da verdade objetiva (“que se mantém soberana mesmo que nela não creiam” etc., pág. 69/70). Então pra ilustrar a questão do exemplo dado sobre abordagem científica (senso comum, conhecimento e familiaridade), ele conta uma estória da filosofia grega. Antes de transcrevê-la, é preciso dizer que Giannetti acentua que “não é por estar familiarizado com a faculdade da visão, p.ex., “que se conhece algo sobre os processos e mecanismos intricados que que me (nos) levam a enxergar as coisas”. A estorinha ilustrativa de que “somente quando alguns homens perderam a familiaridade com a visão e passaram a encará-la como problema – como algo estranho e alheio demandando algum tipo de explicação – que o conhecimento do fenômeno começou a sair do chão. A familiaridade cega”, conclui.
”Voltemos ao problema da visão. O filósofo pré-socrático Empédocles ousou romper o véu da familiaridade e inquiriu seriamente sobre o que acontece quando enxergamos as coisas. A essência de sua conjectura original era a tese de que, quando vemos algo, são os olhos que atuam e iluminam os objetos vistos. A sensação de estar vendo resulta do fato de, na visão, jatos de luz ou algo equivalente serem emitidos pelos olhos, incidindo sobre as coisas e tornando-as visíveis” – da minha parte, pensei logo naqueles óculos especiais usados pelas Forças Armadas norte-americanas que fazem exatamente o que a máquina da visão do filósofo imaginava: continua lançando luz sobre a escuridão…
E continua Giannetti: “A cegueira (seg. Empédocles) significaria que a luz irradiada pelos olhos cessou. Outros investigadores, contudo, não se deram por satisfeitos. O tiro de misericórdia – simples e fulminante – foi disparado por Aristóteles. Se a tese de Empédocles fosse de fato verdadeira, de tal modo que os olhos projetassem fachos de luz sobre as coisas, então não haveria nenhum problema em enxergar no escuro! A partir desse reparo aristotélico, qualquer teoria um pouco mais objetiva da visão precisaria explicar porque isso não acontece”.
Na nota 5. sobre o assunto, Giannetti nos remete ao livro de Arthur Zanjonc (“Catching the Light”)Catching the light , que é  ainda segundo E.Giannetti, “uma cuidadosa reconstrução das idéias dos filósofos gregos sobre a visão e uma verdadeira ‘biografia da luz’, dos mitos à física quântica. Fui lá na “moderna biblioteca de Alexandria” que é o Google (sobretudo o Google Livros) e achei o livro. E para minha surpresa o cientista escolheu como primeira legenda de sua “objetiva e científica obra” nada mais que o primeiro verso do poema de Emily Dickinson: “I’ll tell you how the sun rose a ribbon at a time”. Ponto para a subjetividade poética. Outro desafio de igual natureza seria retirar da visão derrotada de Empédocles a poesia da luz de nossos olhos.
Mas isso já é desafio para outro post. Au Revoir e um bom fin-de-semaine aos meus seis leitores. (AQ).

2 comentários em “Emily Dickinson e a luz

  1. Quem me deu de presente `O Riso´ (Bergson), tem direito a Tudo… Pelo email, mande-me o endereço e te farei chegar ‘as mãos o livro de dona Aìla.
    Você vindo aqui é uma alegria para este pobre bloguero.
    Amitiés,
    BetoQ.
    P.S.: Vou olhar meu Google+ Wait, please, dear Mme.

    Curtir

  2. Pingback: Fechado para Balanço (II) | Adalberto de Queiroz

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