Encontrando a Idade Média (I)


Alertado por Franklin de Oliveira, no prefácio de “Literatura e Civilização”, comecei há alguns anos a empreender uma busca que me levou a compreender que “a Idade Média…não foi, de forma alguma, a Dark Ages inventada pelos historiadores liberais do séc. XIX, mas a genuína herdeira do mundo greco-romano.” E com a ajuda dele Franklin, de Robert Bossuat e, sobretudo, de Jacques Le Goff, compreendo hoje que “ela (a Idade Média) significa a fundação da Europa em sua base cristã-romana” e comecei a me deliciar com um dos dois fatos apontados por Franklin como de alta significação cultural do período, a saber: “o estupendo fenômeno da literatura provençal e a aparição da poesia dos clerici vagantes.”

Em outro contexto, Franklin cita Arnold Hauser (A História Social da Arte) para justificar que a presença da mulher no centro do lirismo trovadoresco (la poésie lyrique au Moyen Age), com a mescla do platonismo e sensualismo, determina “aquilo que chamamos de a mais importante transformação da história literária do ocidente” (Hauser). E conclui: “A poesia do amor moderno é obra da Idade Média”.

Hoje, me alegra trazer essa descida a um dos gêneros listados por Bossuat* (La chanson de Toile ou D’Histoire), termo cunhado para designar composições de cunho popular destinadas seja para acompanhar as danças das mulheres, seja para acompanhá-las em seus trabalhos caseiros, daí porque o nome de “chansons de toile”. Sem passar pela estrutura poética de como foi composta, a amostra que transcrevo (A Canção de Renaud ou “Quando chega o mês de maio…”) é uma das mais antigas que, bem conservadas ao longo do tempo, são ‘traduzidas’ do francês arcaico (coluna à direita) para o moderno (coluna à esquerda).
Chanson de toile du XII° ou D’Histoire (XIII° siècle).
Quand vient Mai qu’on appelle le mois des longs jours  (Quant vient en mai que l’on dit as lons jors) .

I. Quand vient mai qu’on appelle le mois des longs jours,
Que les français de France s’en reviennent à la cour royale,
Renaut se trouve en première ligne.
Ainsi passa-t-il devant la maison d’Erembour,
Mais il ne daigna pas lever la tête.
Ô Renaut, mon amour !
I. Quant vient en mai que l’on dit as lons jors,
Que Franc de France repairent en roi cort,
Reynauz repaire devant el premier front ;
Si s’en passa lez lo meis Arembor,
Ainz n’en dengfna le chief drecier amont
E Raynaut, amis !
II. Belle Erembour devant la fenêtre à la lumière
Sur ses genoux tient une soie colorée.
Elle voit les Français de France qui reviennent à la cour,
Elle voit Renaut en première ligne.
A voix haute elle prononce cette parole :
Ô Renaut, mon amour !
II. Bele Erembors a la fenestre au jor
Sor ses genolz tient paile de color,
Voit Frans de France qui repairent de cort
Et voit Raynaut devant el premier front.
En haut parole, si a dit sa raison :
E Raynauz, amis !
III. « Ami Renaut, jadis j’ai connu des jours,
Où, si vous passiez devant la tour de mon père,
Vous auriez été fort triste que je ne vous parle pas.
–  Vous avez mal agi, fille d’empereur,
Vous en aimez un autre et nous avez oublié. »
Ô Renaut, mon amour !
III. « Amis Raynauz, j’ai ja veü cel jor
Se passisoiz selon mon pere tor,
Dolanz fussiez se ne parlasse a vos,
– Ja le mesfaïstes, fille d’empereor ;
Autrui amastes, si obliastes nos. »
E Raynauz, amis !
IV. « Seigneur Renaut, je m’en justifierai ;
Avec cent jeunes filles, je vous prêterai serment sur des reliques,
Avec trente dames que j’amènerai avec moi,
Que jamais je n’ai aimé nul homme que vous.
Acceptez ma justification, je vous donne un baiser. »
Ô Renaut, mon amour !
IV. « Sire Raynauz, je m’en escondirai ;
A cent puceles sor sainz vos jurerai,
A trente dames que avuec moi menrai,
C’onques nul home fors vostre cors n’amai.
Prennez l’emmende et je vos baiserai. »
E Raynauz, amis !
V. Le comte Renaut gravit l’escalier ;
Il avait les épaules larges, la taille mince,
Il avait les cheveux blonds bouclés.
En nulle terre il n’y eut si beau jeune homme.
Erembour le voit, elle se mit à pleurer.
Ô Renaut, mon amour !
V. Li cuens Raynauz en monta lo degré,
Gros par espaules, greles par lo baudré ;
Blonde ot le poil, menu recerlé ;
En nule terre n’ot si biau bacheler.
Voit l’Erembors, si comence à plorer.
E Raynauz, amis !
VI. Le comte Renaut est monté dans la tour.
Il s’est assis sur un lit brodé de fleurs.
A ses côtés s’assied Belle Erembour.
Alors recommencent leurs premières amours.
Ô Renaut, mon amour !
VI. Li cuens Raynauz est montez en la tor,
Si s’est assis en un lit point a flors ;
Dejoste lui se siet bele Erembors.
Lors recomencent lor premieres amors.
E Raynauz, amis !

Fontes: A tradução acima foi transcrita do website “Saint-Escobille Le village phare du sud-essonne” e pode ser recuperada no link http://www.saint-escobille.fr/spip.php?article131 sob o título de “Chanson de toile du XII° ou du XIII° siècle ; anonyme”. Tradução creditada a S.N. Rosenberg et H. Tischler; 1995. Se o leitor francófono preferir, há a tradução de Robert Bossuat no opúsculo “La Poésie Lyrique au Moyen Age”, Larouse, Paris, s/data, pág.9-11, Classiques Larousse.
Le GOFF, Jacques. “Em Busca da Idade Média”, Civilização Brasileira, RJ, 2005.
DE Oliveira, Franklin. “Literatura e Civilização”, Difel/INL, Brasília, 1978. Idem in: “A Fantasia Exata”, Zahar Edit., RJ, 1959, p.65. BOSSUAT, Robert. “Le Moyen Age”, Del Duca de Gigord, Paris, s/data. Idem in “La Poésie Lyriqye au Moyen Age” (cit. acima). Aos francófonos mais curiosos, uma pérola nesse ‘mar de conhecimento compartilhado’ (que é a Internet): há um curso de Old French na Universidade do Texas (Austin), que pode ser seguido pelo link http://www.utexas.edu/cola/centers/lrc/eieol/ofrol-0-X.html

5 comentários em “Encontrando a Idade Média (I)

  1. Belo. A leitura me transportou literalmente. Mas foi uma leitura única de um texto que pede e conduz a muitas outras oportunidades de fusão. Li devagar, degustando (ou delendo!Rsrsrs), levantei-me i fui à minha varanda. Meio de tarde de sábado, chuva a mais fininha possível, os restos da poda das arvores da rua fenece na calçada. Meus vizinhos estão sempre rumbeando aos sábados. Somos um condomínio com 15 aprtamentos de modo que se ouve mesmo. Que digo? A leitura do texto me permitiu ir olhar o cotidiano, este, como o medievo, muito injustiçado! Félicitations,mon cher.

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  2. Pingback: Encontrando a Idade Média (I) | Adalberto de Queiroz | Media Brasileiro

  3. SI, ma chère amie.
    Ler seu comentário me gratifica porque é fruto de amor pelo texto e pelo poder da imaginação (o que, de resto, me fez dedicar minha manhã de sábado a recuperar essas velhas leituras).
    Santa Teresa De Avila dizia que a imaginação é “a doida da casa” (mental) de todos nós… Será?!
    Bisous,
    BetoQ.

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  4. Beto, gostei tanto deste post, tenho tanta curiosidade pelo tema! Não tinha notícia da chanson de toile. Linda a que você disponibilizou. Muito bom voltar aqui. Abraços para você e família

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    • Oi, MAGALY.
      Obrigado por voltar ao meu blog e pelo gentil comentário.
      Isso me incentiva a preparar o 2o.post da série ao longo da semana.
      Abraços e amizade renovada do
      Beto.

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