Transcrevendo Antonio Carlos Villaça (1)


Gilberto e Deus em Apipucos
(Antonio Carlos Villaça*)

Tomei em Apipucos o famosíssimo licor de pitanga, em torno de cuja preparação Gilberto fazia particular mistério. Almoçamos lá, Chico Barbosa, Marco Aurélio de Alcântara, Madalena e Fernando. Gilberto tinha a sua pitada de genialidade.

Pois no casarão de Apipucos, cercado por um jardim rústico, Gilberto um dia encontrou Deus. Foi assim. Edson Nery da Fonseca, seu fiel amigo, discípulo, biógrafo, devoto integral, sugeria-lhe que se reconciliasse com Deus. Gilberto desconversava. “Não estou preparado.”
Bem. A doença chegou. Gilberto continuou em Apipucos, onde viveu por mais de quarenta anos, desde o casamento com Madalena, celebrado no mosteiro de São Bento do Rio, sendo celebrante o historiador doutíssimo Dom Clemente da Silva Nigra, alemão, seu amigo, ser dramático, dilacerado. Quase um novo Camilo de Monserrate.

Gilberto já não falava. Só o carinho perene de Madalena o envolvia,
Casa-Museu Gilberto Freire
a esse libertino renascentista, como gostava de dizer Rachel. Gilberto olhava, ouvia. Tinha quase noventa anos, ele, que nascera com o século e era a própria intuição criadora sob forma de gente. Gilberto respirava em silêncio, quase um menino outra vez, cercado pela austera biblioteca de toda uma vida. E pelos pássaros nos lampiões antigos das salas penumbrosas.

Edson Nery da Fonseca, oblato beneditino, leitor dos místicos, de Thomas Merton, de Blake, ferido como Gilberto no mais íntimo de si, voltou a Apipucos, Santo Antônio de Apipucos, rua Dois Irmãos, 320, um lugarzinho bucólico, virgiliano, como Jacarepaguá, e sem mais indagou-lhe se não queria um diálogo concreto, aqui e agora, hic et nunc, com Deus. Gilberto não hesitou. Bateu palmas. Concordou efusivo com a cabeça. Era a sua maneira de comunicar-se. O possível.

E Deus aconteceu. As núpcias do céu e da terra. Como em Blake. Edson Nery, homem alto que mais parece um holandês, finíssimo, um gentleman, atento ao outro, ligou para o abade de Olinda, dom Basílio Penido, Juca Penido, e lhe pediu que fosse ver o autor de Dona Sinhá e o filho padre.

O monge doublé de médico foi logo, um pulo de Olinda a Apipucos, o médico formado pela Praia Vermelha, que (menino) estudara em Paris, e os dois se uniram na plenitude da Esperança, Gilberto na sua mudez, Penido na sua loquacidade quase inútil. E houve a pacificação total, que está para lá de todas as palavras, de todos os livros de Dewey, de todos os livros de Boas, de todas as angústias humanas.
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*Fonte: Villaça, Antonio Carlos. “Os Saltimbancos da Porciúncula”, Rio de Janeiro, Ed.Record, 1996. pág. 74-5.
Post-post: não tive a chance de conhecer o mestre G.F. mas fui a Apipucos. É casa-museu das melhores, embora a encontrasse em mau estado (manutenção precária, pessoas tentando que o espaço sobrevivesse, diferente da Maison Mauriac, menos deteriorada que a Memória de Bernanos – hoje sob a égide de gente que o revaloriza em Barbacena!) mas de qualquer forma, revivo aqui sob a orientação de Villaça (carioca, não o pernambucano ex-Patrimônio Histórico) um momento importante que me remete – como leitor a obras importantes e disponíveis. Recomendo com entusiasmo a leitura de A.C.Villaça.

4 comentários em “Transcrevendo Antonio Carlos Villaça (1)

  1. Grande Beto! Grande Villaça! Também estou descobrindo Villaça, Beto! Um grande escritor, católico, um grande memorialista… Não pode ficar esquecido… Dele já li “O pensamento católico no Brasil”, “Místicos, filósofos e poetas” e agora estou lendo, com muito prazer, “O Nariz do Morto” e o próximo da fila é “O anel”, memórias que são como que a continuação do “Nariz” e o livro predileto do próprio Villaça…

    Um grande abraço!

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  2. Pingback: Mestre Villaça « O Camponês

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