Dúvida e fé (3)


Uma citação do Papa Bento xvi, neste contexto

Extraída do Cap.1-I, do livro Introdução ao Cristianismo(*)

“A essa altura talvez convenha voltar a nossa atenção para uma história judaica registrada por Martin Buber, porque nela manifesta-se com toda evidência o dilema da condição humana que acabamos de descrever:
um dos iluministas, um homem culto, tinha ouvido falar de Berditshever. Então o procurou para discutir com ele, como era seu costume, para refutar os argumentos atrasados que ele usava para provar a verdade de sua fé. Quando entrou na sala do Zadique, viu-o andar de um lado para o outro, com um livro na mão, refletindo com todo fervor. Nem reparou no recém-chegado. Depois de algum tempo parou, olhou distraidamente para ele e disse: ´Mas talvez seja verdade`. Em vão o erudito juntou toda a sua auto-estima; as pernas começaram a tremer-lhe, porque a visão do Zadique era terrível, assim como foi terrível a sua sentença singela. O Rabi Levi Itsaque voltou então toda a sua atenção para ele e disse serenamente: ´Meu filho, os grandes da Torá, com os quais você discutiu, gastaram as suas palavras em vão, porque quando você foi embora, riu-se deles. Eles não foram capazes de colocar Deus e o seu Reino na mesa diante de você, nem eu posso fazer isso. Mas pense, meu filho, talvez seja verdade`. O iluminista juntou todas as suas forças interiores para dar uma resposta à altura, mas o terrível ´talvez` que lhe ressou nos ouvidos quebrou toda a sua resistência” (1).

“Penso que esse episódio, apesar de sua linguagem estranha, descreve com precisão a situação do ser humano diante da questão de Deus. Ninguém é capaz de colocar Deus e seu Reino na mesa diante do outro, nem o próprio fiel é capaz disso. Mas, por mais que o incrédulo se sinta com a razão, resta-lhe o assombro desse `talvez seja verdade mesmo assim´. O ´talvez´é a grande tentação da qual ele não consegue fugir e na qual também ele precisa experimentar a irrecusabilidade da fé dentro da própria recusa. Em outras palavras: tanto o fiel como o incrédulo participam, cada um à sua maneira, da dúvida e da fé, desde que não se escondam de sii mesmos e da verdade de seu ser. Nenhum consegue fugir totalmente da dúvida, nem da fé; para um, a fé marca presença contra a dúvida, para o outro, a fé está presente pela dúvida e na forma da dúvida. Faz parte da configuração fundamental do destino humano poder encontrar o caráter definitivo de sua existência tão somente na rivalidade interminável entre a dúvida e a fé, entre a tentação e a certeza. Talvez seja justamente a dúvida, que preserva ambos da reclusão exclusiva em seu próprio eu, o lugar em que a comunicação poderá realizar-se. É ela que impede ambos de se fecharem completamente em si próprios, é ela que quebra a casca de quem tem fé, abrindo-o para aquele que duvida, e abre a casca de quem duvida para aquele que tem fé; para um, a dúvida é a sua maneira de participar do destino do incrédulo, para o outro é a forma que a fé encontra para continuar sendo um desafio para ele.”

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(*)RATZINGER, J. “Introdução ao Cristianismo”, Ed.Loyola, 2005, trad. Alfred J. Keller, p.36.

(1)BUBER, Martin. “Werke III”, Munique e Heildeberg, 1963, p.348.

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