Presença e permanência de Georges Bernanos


Um amigo virtual e francófono, Juan Asensio, crítico literário que mantém o blog Stalker, na seqüência de uma troca de mensagens (há algum tempo atrás), sobre o consagrado autor francês Georges Bernanos, me provocou a encontrar filiações bernanosianas no Brasil. Uma resposta difícil, confesso! Girei sobre o assunto e respondi sem nada dizer de exato sobre a questão… vejam como ficou.

Do tempo que passou no Brasil (1938-1945), em meio a uma vida sempre nômade, Georges Bernanos angariou muitas amizades e influenciou uma série de escritores, mas não acho que tenha criado discípulos na ficção; na vida, ao contrário, semeou muitas amizades e registrou várias polêmicas – sem , talvez, ter deixado inimigos públicos.

Bernanos à la moto...
Bernanos à la moto...

Dos amigos que fez em seu exílio brasileiro, Bernanos recebeu a bela homenagem no livro “Bernanos no Brasil: Testemunhos Vividos”, editado pela editora Vozes, em 1968, artigos de verdadeiros admiradores de Bernanos, coligidos e apresentados por Hubert Sarrazin. O livro se refere aos sete anos da vivência brasileira do escritor francês e reúne textos de respeitáveis homens da cultura brasileira da época, nomes de “notoriedade pública” que, segundo Sarrazin “representam o escol, a cultura, o pensamento intelectual e moral do Brasil”: Jorge de Lima, Alceu Amoroso Lima, Henrique J Hargreaves, Jean-Bénier, Virgílio de Mello Franco, Augusto Frederico Schmidt, Álvaro Lins, Geraldo França de Lima, Hélio Pelegrino, Paul Gordan entre outros.

Mas mesmo entre esses, desconheço um romancista brasileiro que tenha sucedido Bernanos nos mesmos temas (com igual talento). Tem o leitor a liberdade de fazer correlação dos temas bernanosianos com outros romances brasileiros como Geraldo França de Lima, Carlos Heitor Cony, Autran Dourado ou Antonio Callado – menos pelo anticlericalismo (de natureza diversa da exercida pelos exemplos citados), tampouco por sua ortodoxia, mas sim pela retomada de temas recorrente: a vida religiosa, a persistência do pecado no ser humano, o sacerdócio, a expiação da culpa, o ambiente místico da Igreja e os dilemas dos homens (e mulheres) que vivem dentro e em torno dela. Mas a crítica e os estudos sobre Bernanos entre nós, tampouco, ajudam muito nessa pesquisa.

Recentemente, um estudo francês trouxe a melhor contribuição para aclarar a profundidade das filiações de Bernanos em nosso ambiente cultural. Sébastien Lapaque traça em “Sous Le Soleil de L´Exil” (2003) a importância que aquele “time de escol” teve para manter a memória de Bernanos no Brasil. É claro que nenhum deles sustentaria a permanência de Bernanos entre os leitores não tivesse ele o talento que teve (e tem, pois que eterno, sem nunca ter entrado numa Academia de Letras). Seu admirador Geraldo França de Lima entrou (ABL) e, convenhamos, por mais que seu talento tenha sido reconhecido por, ninguém mais, nem menos, que Guimarães Rosa (elogio em público ao seu talento), não escovaria os sapatos do mestre Bernanos. Em outro momento me ocuparei de resenhar Lapaque escondendo o desejo de traduzi-lo para o português, pois que é o melhor depoimento jornalístico e de reconstrução da memória que Bernanos poderia receber chez nous, como homenagem jornalística, ao mesmo tempo acurada e afetiva.

É elogiável que tenhamos nesses dois livros a tentativa de esboçar o perfil do gigante Bernanos, a quem, recentemente vimos ressurgir na mídia francesa, em meio à família dos “escritores místicos”, tipologia que tanta influência política exerceu em sua época (Bloy, Péguy, Bernanos), como parte da genealogia literária francesa dos escritores que, por derradeiro, viram florescer sua personalidade e capacidade de influência política, sem culpa de ter feito leitores e cabeças na alta direção de seu país (França) e no estrangeiro (como Bernanos no Brasil).Originais GB 5

O crítico e historiador da literatura, Otto Maria Carpeaux, apesar de sua conhecida má-vontade com os escritores católicos franceses – embora fosse ele próprio católico (e ainda mais: um judeu convertido!) – dedica algumas linhas em sua História da Literatura Ocidental para classificar Bernanos como “um cruzado da Fé e da Honra contra a hipocrisia, contra a corrupção de valores”. O depoimento de Carpeaux vem carregado, provavelmente, das dificuldades que sobre ele, crítico, devem ter desabado em meio à polêmica mantida com Bernanos, registrada por Olavo de Carvalho no prefácio de Ensaios Reunidos, vol.1 (citando Andreas Pfersmann, Carpeaux vs. Bernanos, 1993).

Assim, a avaliação puramente literária que Carpeaux fez de Bernanos não é nada animadora, pois, para ele, Bernanos não passa de “um talentoso panfletário” – o que, convenhamos, é uma injustiaça! Carpeaux classifica “Sous le soleil de Satan” como um “romance gótico composto de exaltação mística e sensacionalismo grosseiro”.

O panfleto seria, segundo Carpeaux, o melhor gênero da expressão bernanosiana – de cuja cepa teria ele, Bernanos, gerado o melhor exemplo do gênero em língua francesa, depois de Rousseau – amostra maior dessa vertente na obra de Bernanos, segundo o crítico, seria “Les Grands Cimetières sous la Lune” (1936), panfleto dirigido contra os católicos da direita francesa.

No entanto, a resposta de Bernanos, que em seu exílio brasileiro não produzira , até aquela época, nenhum romance é negação do parecer de Carpeaux:
Não sou nem polemista nem panfletário. Menos ainda um doutrinário. Deus sabe o desgosto que tenho por já não escrever romances. É um grande sacrifício para mim. Mas quero devolver às pessoas seus reflexos de boa vontade, de sinceridade…“.

Mas a voz lúcida de Bernanos não se calou e, do mais fundo Brasil, falava a seus compatriotas, tentando esclarecê-los sobre o que considerava a “derrota das consciências” e a tripla corrupção – nazista, fascista e marxista na França, donde se evadiu porque o ambiente era irrespirável para a consciência do escritor. Durante o exílio brasileiro, é, majoritariamente, vivendo no interior de Minas que ele escreve “Nous Autres Français”, “Scandale de la Vérité” e uma série de artigos, publicados em jornais brasileiros ou em jornais clandestinos da França ocupada; ou divulgados pela rádio em Londres. Os artigos escritos no exílio brasileiro foram reunidos nos livros intitulados “Le Chemin de la Croix-des-Âmes”, “Le Lendemain, C´est vous!”, “La Vocation Spirituelle de la France”, “La France Contre les Robots” e o bombástico “Lettre aux Anglais”.

Isso nos coloca diante da filiação em política. Teria sido por essa vertente que teríamos filiados? Tampouco, penso eu. Politicamente, onde se situa Bernanos? Vejamos a resposta do professor e filósofo Olavo de Carvalho:

– “Homem de direita por temperamento, conservador e monarquista apegado aos valores da vida rural francesa, não hesitou em voltar-se contra seus correligionários para condenar, primeiro, sua omissão ante os excessos do franquismo e, depois, sua cumplicidade com o invasor alemão. E quando a esquerda começou então a cortejá-lo, respondeu que o esquerdismo era a manifestação suprema da imbecilidade universal. Nunca se curvou a ninguém exceto à sua consciência cristã, e mesmo o General de Gaulle, que ele proclamava admirar, confessava: “Esse eu nunca consegui amarrar na minha carroça… “.

Em outro trecho, Carvalho sublinha que Bernanos não teme nem hesita em criticar essa mesma direita (francesa) em cujas fileiras Bernanos fora contado: “sem abjurá-la ideologicamente, ele a acusava de omissão ante os massacres franquistas em Palma de Majorca” (Les Grands Cimetières…).
Bernanos

Tendo voltado à França, em julho de 1945, por convocação do general de Gaulle, Bernanos que estivera ao lado do General desde o armistício, recusa sucessivos convites para cargos de ministro, embaixador e mesmo para a Academia Francesa. Fiel ao seu espírito nômade, Bernanos não fica muito tempo em Paris, passando, sucessivamente, por Sisteron, Bandol, Chapelle-Vendômoise. É de seu filho, Jean-Loup Bernanos a resposta mais acurada à pergunta acima:

– “Visceralmente livre e incapaz de submeter sua consciência ao mínimo compromisso, Bernanos é o exemplo cabal de um homem que nunca se sentiu confortável com as classificações políticas habituais. Profundamente católico, era, ao mesmo tempo e a seu modo, anticlerical e anticonservador – que o prova sua reação à repressão franquista em Palma de Majorca; aparentemente próximo da esquerda por esse ato, ao retornar à França, considera insuportável o ambiente de ascenção dos partidos de esquerda e estes julgam seus artigos profundamente reacionários. E finaliza: “na verdade, Bernanos tinha a nostalgia do tempo em que as noções de direita e esquerda não existiam”. Nostagia de “l’ancienne France, si unie et si diverse à la fois où chaque Français pouvait trouver sa place, l’occuper avec honneur…” (em Notice biographique, dans Georges Bernanos, ‘Romans’, Omnibus/Plon, 1994).

O crítico Otto Maria Carpeaux, em sua História da Literatura Ocidental formulou outra importante questão (tal como a de Asensio): pode Bernanos ter sucessores?

– Resposta positiva ele encontrava apenas em Luc Estang, que para Carpeaux é “literariamente mais audacioso que seu mestre”, para reafirmar, no entanto, que “a ortodoxia de Bernanos só colhe honra e glória com o que a crítica literária tenha afirmado contra ele”. O que parece inteira verdade inclusive em relação ao que disse e deixou de dizer o mestre Carpeaux.

Álvaro Lins, por sua vez, afirma que não é nos padrões canônicos do romance, de seus modelos acadêmicos que podemos enquadrar a obra de Bernanos, porque este seria “da raça dos escritores que usam os gêneros literários como personalíssimos instrumentos. Panfleto, romance, eloqüência? O seu gênero é o do seu temperamento dramaticamente poderoso de genuíno grande-homem; e o do seu estilo singularmente estrutural de autêntico grande escritor.”

Diante desse conflito em que o próprio crítico se coloca, Álvaro Lins extrai a solução do temperamento como explicação: “do romance católico de Bernanos não se dirá apenas que é o romance de almas, mas um romance de almas em oposição”.

Examinando a natureza dessa oposição, Álvaro Lins acrescenta:
– “O romance de Bernanos é o das oposições: entre almas, entre sentimentos, entre instituições; e seu ponto de partida cifra-se numa idéia que está expressa em “Monsieur Ouine”: a de que não há fogo no inferno, mas frio. O fogo, que é a vida, está do lado divino. E é pelo fogo que o católico se configura em face do mundo, num movimento que deve ser mais de oposição do que de integração”.

Mas, afinal, quem é Bernanos para os leitores atuais?
Infelizmente, parece que a melhor resposta é que Bernanos continua um desconhecido da nova geração de leitores, embora dois ou três de seus livros (Diário de um Pároco de Aldeia, sobretudo) continuem sendo vendidos, lidos e comentados, mesmo que esta geração midiática não o conheça mais profundamente.
Bernanos e ses Romans

Ainda cabe citar o filósofo Olavo de Carvalho, que classifica Bernanos como “romancista de gênio e temível polemista que se dizia conservador, mas cuja identidade se tornava difícil de catalogar depois de páginas coléricas contra os judeus e contra os nazistas, contra aristocratas e burgueses, contra comunistas, contra Franco, contra socialdemocratas e contra o Governo de Vichy”. E finaliza, em tom irônico, dizendo que “Bernanos não poupava ninguém, exceto Santa Terezinha do Menino Jesus e o General de Gaulle”.

Em conclusão, Bernanos não há de ter filhos literários, mas de crença. E sua literatura, sem servir ao modelo de catequização é, além, e acima de tudo, modelo da expressão da Fé e da Esperança, porque para ele “nossa felicidade interior não nos pertence mais do que a obra que ela motiva”. Ninguém melhor que Bernanos poderia ilustrar essa legenda. (AQ) ©

15 comentários em “Presença e permanência de Georges Bernanos

  1. Beto, veja só! Acabei de trazer outro dia do sebo perto da minha casa o dito “Sob o sol de Satã”. Fui reler as palavras de Carpeaux na “História da Literatura Ocidental”. É isso mesmo. Mas devo dizer que sua apreciação de Bernanos não me desestimulou a ler o romancista. Se nem sempre se concorda com Carpeaux – e li pouco de Bernanos ainda para opinar em definitivo sobre isso – os comentários dele instigam.

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  2. Caro Beto,

    Que texto magistral. Guardarei-o com carinho, entre meus preferidos, como preferido é o grande Bernanos que, de fato, não tem filhos literários, pelo menos até agora, mas, quem há de saber o que há de vir? Muito obrigado por partilhar essa pérola.

    Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Caríssimo Beto,
    Parabéns pelo texto. Realmente uma pérola. Estou trabalhando muito e sem tempo para net. Mas eis que, num segundo de permissão para navegar, deparo-me com seu post. Digno de ser guardado. Salve Bernanos!

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  4. Prezado Adalberto,
    Li com grande interesse sua apreciação, também publicada no espaço de Juan Asensio, sobre a posteridade de Bernanos em nosso país. Freqüento já há muitos anos as obras desse formidável autor e, como você, não acredito que tenha deixado “sucessores” nas letras brasileiras, apesar da influência importante que exerceu, em seu tempo, no meio intelectual pátrio, bem registrada nos depoimentos de _Bernanos no Brasil_, ao qual você faz referência. Observe que situação mais ou menos semelhante ocorreu com Joseph de Maistre, outro escritor de expressão francesa que pertence à mesma família de Bernanos, a dos católicos ditos “reacionários”. Maistre foi muito lido no Império – o bispo dom Romualdo Seixas o citava em seus sermões – e, depois, nas primeiras décadas da República. A revista “A Ordem”, antes da morte de Jackson de Figueiredo, sempre trazia material a seu respeito. Hoje em dia, porém, no Brasil, parece-me que o interesse em Maistre continua vivo apenas na academia. Não sei se existe a mesma curiosidade universitária em relação a Bernanos. Seja como for, e novamente na linha do seu artigo, a obra de Bernanos há de sobreviver em seus leitores brasileiros da forma mais importante: como testemunho imortal de uma consciência alerta e intransigente, no melhor sentido do termo.
    Um cordial abraço,
    Henri Carrières

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    • Obrigado pela visita Henri. Notei que você tem familiaridade com a língua e a literatura francesas, tendo inclusive vertido artigos do Juan Asensio, do Francês para o Português… Parabéns!
      Sua contribuição com o exemplo de Maistre é outra ilustração do que se perde em menos de um século, por conta das ondas jornalísticas.
      É por amor à obra de G.B. (e pela curiosidade intelectual sobre o polemista cristão) que continuo escrevendo sobre a sua (dele) obra, com o ganho supletivo do prazer de me aprofundar na leitura (principalmente no original), donde sempre tiro lições da boa escrita e dessa “consciência alerta e intransigente – sim, sim, “no melhor sentido do termo”.
      Uma curiosidade: como você teve acesso à revista “A Ordem” (de Jackson, Alceu e Corção)?
      Fraternellement,
      Beto.

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  5. Merci pour vos commentaires : je vous comprends assez bien mais ne sais absolument pas parler votre belle langue (et encore moins l’écrire).
    Je l’aime tellement que deux de mes textes ont été traduits pour vous :
    La Route de Cormac McCarthy, un très grand roman, ici :

    http://stalker.hautetfort.com/archive/2008/09/24/a-estrada-de-cormac-mccarthy.html

    et une longue étude sur le démoniaque dans Monsieur Ouine :

    http://casoual.wordpress.com/2009/04/12/nas-malhas-dos-textos-xxv-2/

    Cordialement.

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  6. Pingback: Memória: Bernanos no Brasil (ii) « Adalberto de Queiroz

  7. No Brasil temos sim um grande romancista à altura de Georges Bernanos: Octávio de Faria. Mas infelizmente marginalizado pela crítica e precisando de uma nova reedição de sua grandiosa Tragédia Burguesa. Um abraço.

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  8. Hilton,
    Sobre Octávio de Faria, do qual leio hoje Mundos Mortos, que integra a Tragédia Burguesa, acho que não se compara a Bernanos… Bernanos é fogo puro, carrega a marca do gênio; O Pároco de Aldeia, segundo Maulraux, é o maior romance escrito em línguas francesa de todos os tempos… Octávio é um tesouro a ser redescoberto, mas creio que fica bem abaixo de Bernanos…

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  9. Republicou isso em Leveza e Esperançae comentado:

    Republicação em razão da recente e saudável onda de releitura de Bernanos – terminei recentemente Monsieur Ouine, “le grand roman”. O livro sobre o qual o próprio autor teria dito: “escrevo olhando para o futuro…serei compreendido daqui a vinte anos” (1943).

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